Crítica | Cinco Tipos de Medo
- Vinicius Oliveira

- há 1 dia
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Histórias que se interconectam em um cinema de gênero à brasileira... mesmo que nem sempre.

Grande vencedor do último Festival de Gramado – onde conquistou os Kikitos de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Roteiro e Melhor Montagem para Bruno Bini e Melhor Ator Coadjuvante para Xamã –, Cinco Tipos de Medo se propõe antes de tudo como um exercício de cinema de gênero, coisa que sempre chama a atenção dentro da longa tradição do realismo social no cinema brasileiro. Não que temáticas relevantes não apareçam na narrativa (como violência, criminalidade, relacionamentos abusivos e etc.), mas desde seus primeiros minutos fica evidente a prioridade à ação que interligará as vidas dos personagens aqui retratados.
São cinco: Murilo (João Vitor Silva), um violinista; Marlene (Bella Campos), enfermeira e interesse amoroso de Murilo; Sapinho (Xamã), traficante e namorado abusivo de Marlene; Luciana (Bárbara Colen), policial que lida com a perda do filho em razão do envolvimento com o tráfico; e Ivan (Rui Ricardo Diaz), advogado que também lida com uma perda pessoal que o conecta aos demais personagens. Através de uma estrutura não-linear – até demais, como apontarei abaixo –, estes personagens vão sendo interconectados e suas motivações reveladas à medida que as consequências dos seus conflitos se tornam cada vez mais catastróficas.
Ambientado na periferia de Cuiabá (o que já confere ao filme louros por sair do eixo Rio-São Paulo), Cinco Tipos de Medo tenta apresentar essa realidade brasileira periférica sob diferentes prismas – majoritariamente individuais, mas também institucionais. No entanto, é perceptível como a direção de Bruno Bini (que também assina o roteiro e montagem) tenta emular uma lógica muito mais hollywoodiana ou de obras como Tropa de Elite, trazendo o contexto local muito mais na superfície para apostar numa estética gringa, seja na câmera tremida nas cenas de ação, na narração em off que abre e fecha o filme, na trilha musical melodramática e um tanto intrusiva. É como se faltasse ao filme referenciais da feitura de cinema de gênero (em particular o de ação) na própria história do audiovisual brasileiro, se ancorando em referenciais estrangeiros que podem ser mais assimilados pelo público.

Mas talvez o grande problema do filme resida justamente naquilo que ele oferece de mais distinto. A tentativa de construir uma estrutura não-linear esbarra em escolhas questionáveis de roteiro e montagem, que mais atrapalham do que auxiliam o entendimento do espectador à medida que são montadas as peças deste quebra-cabeça. A linha temporal do filme se revela uma verdadeira bagunça em determinados momentos à medida que a trama vai e vem para situar os personagens no tempo e no espaço. É como se, na tentativa de tornar-se mais complexa do que realmente é – especialmente considerando o nível raso da maioria dos diálogos e das maneiras pela qual o texto quer fazer os personagens se conectarem –, a obra acabasse ameaçando se perder nessa irregularidade, o que torna ainda mais surpreendente (e controverso) ter levado os Kikitos de Melhor Roteiro e Melhor Montagem.
Apesar dessas escolhas irregulares, porém, Cinco Tipos de Medo se sai muito exitoso no seu conjunto de atuações, com Bella Campos e Xamã sendo particularmente os destaques dentro do quinteto principal (ainda que seja inevitável pensar no papel dele como algo estereotipado considerando que ele também está fazendo um traficante na novela Três Graças). Me chama também a atenção de coadjuvantes veteranos como Rejane Faria e Zé Carlos Machado, os quais se destacam mesmo nas poucas cenas em que aparecem – a personagem de Faria, aliás, talvez traga o que o filme tem de mais genuíno dentro deste cenário em que é ambientado, na sua tentativa de poupar o neto da criminalidade que assola o bairro em que mora.
Como alguém que cresceu assistindo a muito do cinema de gênero, em especial a ação, sempre vou advogar pela produção dessas obras no Brasil e para que tenham tanto respeito quanto nossas obras-primas mais consagradas, calcadas no realismo e drama social. Contudo, não adianta vender um “cinema de gênero brasileiro” que salvo a ambientação e alguns detalhes aqui e ali, em quase nada difere daquilo que já se vê aos montes no cinema industrial hollywoodiano. Cinco Tipos de Medo pode até servir como uma porta de entrada para essa ação “à brasileira”, mas a despeito da sua estrutura ambiciosa, não se esforça para ir além disso.
Nota: 2.5/5



















