Entrevista | Sérgio Machado fala sobre “3 Obás de Xangô”: “A Bahia negra foi inventada pelas grandes mães de santo”
- Vinicius Oliveira

- 8 de set. de 2025
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Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor comentou sobre como a amizade de Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi moldou muito da identidade baiana na cultura.

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Lançado na última quinta-feira (4), o documentário 3 Obás de Xangô se centra na amizade entre os artistas Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi. Atravessados pelas suas experiências com o candomblé e suas observações das vivências em Salvador, os três foram grandes responsáveis por definir muito da ideia de “baianidade” para o Brasil e para o mundo, seja nos livros de Jorge, as artes plásticas de Carybé ou as músicas de Dorival.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Sérgio Machado, diretor do longa, para falar sobre o processo de produção do filme, o uso das imagens de arquivo dos três protagonistas, a significância do candomblé em suas vidas e na construção do imaginário baiano e também sobre as tensões entre a ideia de uma identidade baiana restrita a Salvador e Recôncavo em oposição ao resto do estado. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos grandes méritos do filme são as várias imagens de arquivo de Jorge, Carybé e Dorival. Como foi o processo de achar essas imagens e montar o filme de forma a estruturá-lo em torno desses materiais?
Sérgio Machado: Esse filme começa de uma coisa muito pessoal, porque minha mãe era uma militante contra intolerância religiosa. Eu cresci frequentando com ela os terreiros de candomblé, os blocos afro, desde muito pequeno e é pessoal também porque de alguma maneira agora está me trazendo de volta para esse mundo, porque agora eu estou querendo me iniciar, querendo estar mais perto, cada vez mais perto da Bahia. Eu nunca me separei completamente, mas agora eu estou querendo estar mais perto do candomblé. Enfim, é um filme que que trata de muita coisa é pessoal e tem elementos que alinhavam um pouco a minha vida inteira.
Sobre as imagens, por exemplo, tem uma história bacana com o Jorge Amado, foi um cara muito importante na minha vida. De certa forma, eu faço cinema hoje por causa dele, porque ele viu um curta que eu fiz na faculdade, mandou para o Walter Salles e aí a partir disso comecei a trabalhar com o Waltinho, abriram-se as portas do cinema. E nessa mesma época que eu conheci o Waltinho, através desse vídeo, o João Moreira Salles estava filmando um documentário sobre o Jorge Amado, e aí quando ele soube que eu ia fazer um filme sobre Jorge, Caymmi e Carybé, ele me deu de presente uma quantidade enorme de material filmado em película pelo grande Walter Carvalho. Então, eu já parti com uma parte grande do material nas mãos, e aí a gente foi procurando outras coisas, mas esse material do João abriu muito.
Era tanto material que o difícil era justamente organizar isso, aí eu fico pensando em elementos na coisa do candomblé para costurar a história deles, o fato deles serem obás de Xangô, e costurando elementos que eu acho que estão presentes nas obras deles, como o fato de se apresentarem como documentaristas. Eles diziam que tudo que eles pegaram foram coisas na rua, que eles criaram muito pouco.
Eu acho que uma coisa que tem a ver comigo também, que o meu primeiro filme, Cidade Baixa, ele é todo alinhavado de coisas que eu vivenciei, que eu ouvi. Aí tem o aspecto do feminino como algo central na obra dos três. O senso de humor, muito peculiarmente baiano, assim, é, eu acho que é algo que caracteriza os três, o mar como também um elemento aglutinador, eu fui achando elementos comuns e a e costurando a história a partir deles. Mas era um material muito vasto, e ficou muita coisa incrível de fora.

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Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Eu também sou baiano, mas do interior, de Itapetinga, e às vezes fico incomodado com a maneira com a qual a Bahia é resumida culturalmente a Salvador, e é claro que há um papel dessas figuras notórias na construção dessa identidade baiana/soteropolitana. Mesmo que não seja o foco do filme, quais seriam suas reflexões a respeito do papel de Jorge, Carybé e Dorival para a construção de uma identidade baiana que parte antes de tudo de Salvador?
Sérgio Machado: É engraçado quando você fala assim. Eu lembro quando eu comecei a fazer cinema com o Walter Salles, lá no Central do Brasil, ele falou o seguinte: "Não, o Sérgio é um nordestino”. Eu virei um consultor de assuntos nordestinos, mas na verdade eu sou um nordestino muito específico. A minha Bahia é a Bahia do Recôncavo, do Candomblé, dos pretos, do azeite de dendê. Essa Bahia do Sertão, para mim, é tão estranha quanto o Rio Grande do Sul ou talvez quanto a Alemanha. Eu conheci Itapetinga, conheci o Sul da Bahia, conheci um pouco o Sertão, mas assim, não é a minha Bahia, são territórios muito diferentes.
E talvez seja pretensioso, mas a gente que é do Recôncavo fala da Bahia, só que essa Bahia é muito específica. A tese que eu defendi no documentário era que Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé não inventaram a Bahia, eles na verdade a traduziram. A minha ideia é que na verdade essa Bahia negra foi inventada pelas grandes mães de santo, por Mãe Aninha, por Mãe Senhora, por Mãe Menininha do Gantois, por Dona Olga do Alaketu, essas ialorixás da Bahia inventaram um jeito de ser baiano e Jorge Amado, Dorival Caymmi e Caribé foram convocados por elas ou por Xangô, como queira, para traduzir essa Bahia com o talento deles. E eles levaram essa imagem da Bahia distante, mas você tem toda a razão, quando a gente está falando de Bahia, a gente tá falando de um recorte muito específico.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações?
Sérgio Machado: Um filme que me marcou muito, que talvez tenha sido um filme que me influenciou bastante, é o Edifício Master, do Eduardo Coutinho. Se eu quisesse dizer para as pessoas o que que eu quero dizer através do cinema, bastava andar com uma cópia de Edifício Master no bolso.
Eu vou falar de um que não é um filme gostoso de ver, é um filme duro, é uma porrada, mas eu acho muito necessário, que chama Martírio, do Vincent Carelli. Eu acho uma bomba, uma porrada, quando vi no cinema passei mal, tinha que sair do cinema porque não aguentava ver aquilo, é tanta violência. Mas eu acho que é um filme fundamental para a gente entender o Brasil, é um filme que fala do massacre que os povos indígenas sofreram no Brasil historicamente. E é um filme que me incomodou muito, mas eu acho que é um incômodo importante, quem quiser entender o país e se posicionar politicamente precisa ver.
Vou falar dos filmes dos meus amigos, que eu participei: Madame Satã, Central do Brasil, Ainda Estou Aqui, e também Cidade Baixa. Mas eu quero convidar mesmo agora para as pessoas verem os 3 Obás de Xangô. Eu torço muito para que ele faça uma carreira bacana, primeiro porque ele é uma bomba de afetividade; as pessoas estão precisando num momento tão duro como esse que a gente tá vivendo, então é bacana ver tanto afeto nas telas. Depois porque eu acho que fala de assuntos importantes como intolerância, coisas que estão super na ordem do dia.





