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- Crítica | Ripley (Minissérie)
Estilosa adaptação de Steven Zaillian opta por vingar o blasé sabático da elite contemplativa Foto: Divulgação Um ricaço estadunidense contrata o vigarista Tom Ripley, sem saber quem ele realmente é, para viajar à Itália e convencer seu filho bon-vivant a voltar para casa; A aceitação do trabalho por Tom é o primeiro passo em uma vida de engano, fraude e assassinatos. Steven Zaillian, o responsável pelo roteiro, direção e desenvolvimento da série tem um longo currículo como roteirista e produtor em Hollywood, mas com diretor a lista se estreita mais. A falta de prática, no entanto, não significa uma falta de experiência e técnica, e aqui ele coloca isso à prova. A câmera estável e serena enquadra com precisão a rica e exuberante cenografia escolhida, e a construída, através do preto e branco inteligentemente aplicado por Robert Elswit. Mas não é só com belos frames de Nápoles, Roma e Veneza e com p&b que Zaillian se expressa, na verdade esse recursos só se somam à proposta noir que o diretor alcança com a elaboração de um suspense crescente e de um ritmo pacato, mas sempre vigilante, como se qualquer coisa estivesse prestes a acontecer a qualquer momento e estamos cientes disso. O Ripley da minissérie não é um sedutor, não flerta (diretamente) e nem procura usar seu charme como ferramenta de trapaça, ele está mais interessado em jogos mentais para além de qualquer simulação de afetividade. Ele observa, admira e estuda suas vítimas enquanto nutre sua gélida antipatia à desocupada classe alta para agir com cautela e precisão. A inveja do personagem é seu combustível para as articulações que deixam o roteiro sempre aceso e instigando a audiência a ficar atenta e seduzida. Foto: Divulgação As ditas “belas artes” têm um papel fundamental no ódio de classes do personagem título. Elas fascinam, intrigam e de uma forma que ele não consegue explicar agem como objetivo para suas atitudes, como recompensa. Ao mesmo tempo que ele almeja ostentar aqueles itens de luxo e requinte, ele tenta compreender o que tem por trás dos gostos da elite, e das escolhas artísticas dos responsáveis pelas obras, em específico Caravaggio, que o roteiro vincula diretamente a Ripley. As atuações milimetricamente executadas reforçam a matiz desinteressada de todo um “sistema” engessado e repetitivo. Do rico em sua jornada ostentadora de autoconhecimento ao policial ansioso por desmascarar o furtivo Ripley, todos os personagens compartilham de uma indiferença enojada que reflete estagnação e cansaço em relação as predefinições sociais que executam. Ripley é um personagem já conhecido e bem difundido na literatura, cinema e televisão, então não é surpresa que quem já tenha tido algum contato com adaptações anteriores chegue condicionado a essa nova versão, mas até o espectador mais acostumado com o enredo se surpreenderá seja pelos traços estéticos, pelo tom cínico, pela abordagem cheia de associação artística ou pelo belo conjunto da obra que harmonicamente une por tudo isso. Nota: 4/5
- Crítica | Monster (Kaibutsu)
Afinal, os monstros nascem ou são criados? E, por mais que o termo “monstro” esteja ligado diretamente a uma brincadeira que o Minato joga com um
- Crítica | Depois da Cabana (Minissérie)
Minissérie alemã utiliza todos os clichês do suspense de uma maneira surpreendente Foto: divulgação Sendo uma das séries mais assistidas pelos brasileiros na Netflix nesta última semana, a minissérie Depois da Cabana trouxe para o público geral mais uma boa produção alemã de um gênero que está cada vez mais em alta. É fato que suspenses de investigação sempre fizeram sucesso, mas, com cada vez mais novas abordagens e histórias macabras acontecendo na vida real, o fenômeno atrai mais telespectadores a cada novo lançamento. Por isso não é surpresa a Netflix investir em mais um. Depois da Cabana foi lançada no dia 8 de setembro, e conta a história de uma mulher que conseguiu fugir do seu sequestrador e acabou sendo atropelada em uma rodovia. Com uma criança do seu lado, a polícia agora tenta desvendar o quebra-cabeças desse crime que está interligado com o desaparecimento de uma mulher 13 anos atrás. É nesse emaranhado complexo que a sua trama começa a se desenvolver de uma forma ainda muito confusa para o seu telespectador com momentos que misturam o presente e flashbacks do cativeiro. Depois da Cabana consegue manter bem os suspenses e mistérios da história sem deixar o telespectador totalmente à cegas da história. Por exemplo: conseguimos compreender bem a dinâmica do cativeiro, da relação da Lena com os filhos e da relação dos três com o sequestrador, mas, em nenhum momento vemos o rosto do mesmo e nem descobrimos a sua identidade antes da polícia. Foto: divulgação Isso tudo cria uma transficcionalidade interessante entre a série e seu roteiro e o consumidor na sala de sua casa assistindo a Netflix. O objetivo é com que nós, telespectadores, sejamos o detetive da história (ou que pelo menos divida o sentimento com os mesmos), instigando cada vez mais aquele consumo quase viciante que uma série de suspense pode proporcionar. Infelizmente, o formato de binge-watch da plataforma não ajuda o trabalho desses telespectadores-fãs-detetives, mas, é suficiente para quem deseja altos números nas suas primeiras semanas de exibição. Com seis episódios de 50 minutos e baseada em um livro, Depois da Cabana tem o mérito de uma boa produção alemã. Entrega uma ambientação incrível, além de apresentar ótimos atores no seu trajeto. Porém, por se tratar de uma história de um gênero amplamente corriqueiro nas telinhas, a minissérie explora quase todos os clichês conhecidos pelo público e, mesmo conseguindo surpreender em alguns momentos, ainda não consegue se diferenciar das diversas outras minisséries da mesma temática. Mesmo assim, o saldo de maratonar Depois da Cabana é positivo, principalmente, por explorar muito mais as histórias das vítimas do que a do seu agressor.Vale para quem é fã do gênero e também para aqueles que estão buscando um entretenimento viciante ou uma boa produção fora do eixo das produções de língua inglesa. Nota: 3.5/5
- Crítica | O Espaço Infinito
Filme usa as estrelas como guia em meio à dissociação Foto: Divulgação Nina (Gabrielle Lopes) é uma astrofísica que busca provar a existência de uma estrela da mesma forma que busca se manter sã em meio a uma dissociação misturada com uma crise de identidade. Ela precisa lidar com lembranças do passado que em longo prazo afetaram na sua maneira de lidar com a realidade e com alguns vínculos no presente. O primeiro longa-metragem do diretor Leo Bello funciona muito bem no quesito estético. O cinema é, sobretudo, uma experiência visual, e demanda que esse visual atraia (pelo menos) tanto quanto sua narrativa, e Bello soube se expressar puramente através do visual. A plasticidade dessa produção é caprichada e caprichosa. Os devaneios da protagonista perduram todo o filme enquanto conhecemos sua mente e seu passado, e mesmo assim Leo Bello conseguiu demarcar com cuidado os territórios que cada cena está mapeando. Boa iluminação, uso de elementos geométricos, sobreposição de quadros e quadros muito bem emoldurados fazem do trabalho da direção de arte e fotografia os pontos mais altos. Foto: Divulgação A atriz Gabrielle Lopes conduz o espectador com olhar expressivo. A história se desdobra em torno de uma mulher neurodivergente numa busca por propósito, e ela sabe como dar base às diversas camadas de sua personagem. Além disso, a direção usa de sensibilidade e de um tom lírico para abordar neurodiversidade no ambiente de um hospital psiquiátrico. Outro componente importante na construção da atmosfera do filme é a trilha sonora e o design de som que se aplicam muito bem especialmente nas cenas com elementos naturais. E a natureza é outro ponto recorrente na narrativa. A água como símbolo de fluidez e de leveza, e a terra como símbolo de organicidade e finalidade. Mas O Espaço Infinito se perde quase que completamente ao tentar intercalar a astronomia ao esoterismo – além de, como já dito, ter os estratos de uma personagem complexa. A mescla de astros enquanto objetos de estudo científico com a astrologia e a constelação familiar fica instável e, como resolução, fica ao mesmo tempo simplória e confusa. Talvez para o roteirista (que também é o diretor) essas construções façam sentido, mas para que está do lado de cá desse misticismo quântico falta convencimento. Ainda assim, o uso do espaço sideral não foi reduzido a contemplação vazia do “nada”, ele é o recurso de ligação intrínseco nas entrelinhas, mas que ao final não sabe bem como amarrar seus vieses de raciocínio. Nota: 3/5
- Crítica | Silêncio (Minissérie)
Mesmo com elenco esforçado o roteiro sai do nada e vai para lugar nenhum de forma quase vexatória. Foto: Divulgação A minissérie abre com uma jovem andando de bicicleta quando do mais absoluto nada um corpo de uma mulher cai da sacada de um prédio num carro ao seu lado. No susto a jovem cai da bicicleta e fica olhando para o corpo em cima do carro quando segundos depois um corpo de um homem cai da mesma sacada. O acusado dos crimes é Sergio Ciscar (Arón Piper), o filho mais velho do casal, que resolve ficar em silêncio desde o acontecido e fica conhecido como o “Assassino da Sacada”. Anos depois de sua prisão, a psiquiatra Ana Dussuel (Almudena Amor) consegue que um juiz autorize um regime semiaberto monitorado – sem que ele saiba – para confirmar que ele está apto para retornar ao convívio social, e é então que as coisas começam a sair do controle. Geralmente minisséries de suspense usam o curto número de episódios para potencializar a trama principal através das histórias paralelas e dos personagens secundários. Mas Silêncio age completamente ao contrário da corrente. O enredo central é movido pelo grande gancho de saber se o protagonista de fato jogou os pais de cima da sacada ou se aconteceu qualquer outra coisa, e as pistas, pessoas, falas e até mesmo objetos induzem o espectador a pensar nas mais variadas conclusões. Mas se você leu isso como uma coisa boa, não é. Todo personagem coadjuvante que aparece introduz situações e contextos tão alheios ao que realmente importa que os desdobramentos parecem enchimento de linguiça até chegarem em algum fechamento. O elenco de rostos conhecidos da tv espanhola até que tenta tornar tudo relevante com atuações competentes e esforçadas. Elisabet Gelabert interpreta a mãe de Sergio (Elisabet e Arón já foram mãe e filho anteriormente em Elite); o sempre desconfiável Ramiro Blas interpreta um pastor que ajuda Sergio a trabalhar numa estufa gerenciada por sua igreja; Cristina Kovani vive uma jovem ficcionada por Sergio e que vive um romance secreto enquanto ele fica preso; e Manu Ríos (que já foi par romântico de Arón também em Elite) dá vida ao namorado dessa jovem obcecada. Foto: Divulgação Curiosidade, birra, força do ódio ou do hábito, seja lá qual motivo te faça chegar na resolução de tudo, vai te fazer perceber que se aquilo fosse transformado num curto filme ele construiria momentos melhores sem tantos buracos, tantos espaços e tantas guinadas que no final das contas não vão a qualquer lugar. O desfecho é tão simplório, tão básico e tão redundante que todos os esforços (os bons e os ruins) parecem irrelevantes no final. O primeiro episódio é sólido, conciso e consegue criar um bom tom para os episódios seguintes. Pronto. O que segue são ideias que não se sustentam, ações contraditórias e segredos que levam o enredo ao nível do absurdo. Se equilibrando entre o suspense policial e o drama psicológico, Silêncio poderia ter feito mais (ou menos) em prol de um texto mais preciso. Menos detalhes que se engodam e se perdem pelo caminho, menos coincidências óbvias que acham que estão tapando lacunas gigantescas e menos reviravoltas que acreditam ser espertalhonas, mas que acabam virando quase piadas involuntárias. Nota: 2/5
- Crítica | Desejo Proibido
Filme romantiza mais uma história problemática e já se torna um dos piores do ano Foto: Divulgação Chegando aos cinemas com sessões antecipadas neste fim de semana, o longa polonês Desejo Proibido tem sua estreia oficial em circuito nacional marcada para treze de abril. Com direção de Tomasz Mandes, da franquia 365 dias da Netflix, a história foca em Max (Simone Susinna) que depois de se envolver com a filha de Olga, começa a desenvolver um sentimento pela mesma (Magdalena Boczarska) e inicia um romance com ela sem saber da relação entre as duas. Os dois embarcam em um romance tórrido, até que a filha de Olga descobre e põe tudo a perder. Entrando nessa onda de sucesso de longas pseudo-eróticos, Desejo Proibido tenta engatar uma história que já entrega sua problemática através da sinopse. E assim como outros sucessos do gênero, o longa pretende alcançar um bom público dando ênfase nessas cenas mais quentes, porém, ele consegue falhar já nesse primeiro ponto e entrega um casal protagonista bem insosso, sem carisma e sem química. Comparando com 50 Tons de Cinza, por exemplo, trilogia responsável pelo boom de filmes eróticos, Desejo Proibido tem cenas de romance que são bonitas visualmente mas que não entregam absolutamente nenhum tipo de sentimento para o telespectador. Muito disso é culpa da direção. É possível enxergar em Tomasz Mandes uma tentativa falha de fazer uma direção parecida com a de Sam Taylor-Johnson em 50 Tons. Ela abusa de um bom jogo de câmera, com takes menos centralizados e explora uma paleta de cores em tons frios, e, mesmo não sendo um bom filme, Taylor-Johnson consegue convencer na direção usando esses artifícios. Em Desejo Proibido nós encontramos essas mesmas similaridades na condução da história, em falta com a originalidade, algo que também é visto em outros longas do diretor. Foto: Divulgação Dando foco agora a história, Desejo Proibido parece que tenta surpreender um telespectador que, em sua maioria, já sabe todos os grandes plot-twists desse gênero. E, quando foca no drama e na relação entre mãe e filha, o longa consegue acertar o seu tom, mérito principalmente das duas atrizes, que são bastante competentes e, sem dúvidas, entregam a melhor parte do filme. Já o mocinho é terrivelmente péssimo, carismático tal qual uma porta e com uma beleza extremamente artificial, daquelas que a gente vê em homens de catálogo de perfume de terceira categoria. Entre esses personagens, mal existe um diálogo e você não consegue entender como uma juíza em plena consciência das suas faculdades mentais se apaixona por uma criatura tão sem sal. No fim das contas, é difícil tirar um saldo positivo das longas duas horas de projeção de uma história que não parece decidir para onde quer ir e acaba falhando em absolutamente todas as tentativas. Quando você pensa que Desejo Proibido conseguiu encerrar, pelo menos, de uma maneira satisfatória, mais cinco minutos colocam tudo a perder com uma das resoluções mais absurdas e vergonhosas que você vai assistir. Claro, o homem se envolve com você e com sua filha, mas no final, o amor sempre vence né? Uma pena que histórias romantizam problemáticas tão absurdas ainda consigam espaço nas telas. Desejo Proibido não consegue ser nem um bom filme de drama, nem traz boas cenas eróticas e nem te faz rir tanto da vergonha alheia que ele se propõe. O meu desejo é que ele seja proibido mesmo. Nota: 0,5/5
- Crítica | Adolescência (Minissérie)
Filmada em plano-sequência, produção é impactante e devastadora na mesma medida. Divulgação Em meio a quantidade absurda de conteúdo nos streamings, é preciso garimpar para achar algo que valha a pena nosso tempo, e de vez em quando surge algo como Adolescência, que se destaca pela altíssima qualidade. A minissérie já começa com o pé na porta – com o perdão do trocadilho – com a polícia local invadindo a casa de uma família e prendendo o filho mais novo, de treze anos. A sequência é chocante e assim se segue por todo o primeiro episódio. Não se sabe direito o que está acontecendo até que o investigador diz qual a acusação: ele é suspeito de matar uma colega da escola. O garoto a todo instante afirma ser inocente, mas há provas irrefutáveis. Este é só o ponto de partida para uma história forte e arrasadora que me deixou completamente fascinado. A premissa pode lembrar Em Defesa de Jacob, minissérie do Apple TV+ estrelada por Chris Evans, mas a semelhanças param na superfície. Além do modo inovador de filmar cada um dos episódios, há muito mais complexidade envolvida aqui e os dilemas são muito mais aprofundados, não parando no “matou ou não matou?”. O fato de cada um dos quatro episódios serem gravados em plano-sequência, sem qualquer corte perceptível, deixa a experiência muito mais imersiva, muito mais íntima, com a direção sensacional de Philip Barantini, o que se fez essencial em um enredo tão poderoso quanto esse. Eu não queria piscar o olho para não perder nenhum detalhe. E ainda não é isso o que mais impressiona, e sim como a narrativa trabalha as consequências e motivações de um crime brutal sem desumanizar o envolvido. A pergunta aqui não é somente se ele fez ou não fez, mas o que o levou a fazer, o que há por trás disso e como a família lida com o fato, como ela se culpa por não ter antecipado ou percebido o comportamento diferente, se é que havia. É um drama humano, brutal e atual. A adolescência não é um período fácil e o modo como a trama aborda a relação dos jovens com as redes sociais, a pressão por um padrão de masculinidade imposto pela sociedade, é tudo feito de uma forma muito honesta e madura, que nem sempre é fácil de ser assistida, pela crueza do desenvolvimento. Divulgação O elenco é primoroso e deve ter ensaiado a exaustão para que tudo saísse no nível de excelência que o texto e a direção exigiam. Stephen Graham – que também é co-criador da minissérie – no papel do pai tem uma performance irretocável, assim como Christine Tremarco na pela da mãe. É impossível não se emocionar por eles. Ashley Walters e Faye Marsey são Luke e Misha, os investigadores encarregados do caso, e eles não deixam seus personagens perderem a perspectiva de que são pessoas, e não apenas máquinas atrás da verdade. Erin Doherty está brilhante no papel da terapeuta, com um trabalho carregado de sutileza. Por último e definitivamente não menos importante, Owen Cooper no papel de Jamie, o garoto acusado. O rapaz é um achado neste trabalho dificílimo onde ele poderia facilmente cair em armadilhas do exagero e não o faz, trazendo uma atuação completamente genuína, o que deixa tudo ainda mais crível. Os quatro episódios são muito bem divididos no que querem contar. Escritos por Graham e Jack Thorne (da também ótima minissérie deste ano Cidade Tóxica), a dupla consegue aprofundar o atordoamento inicial da primeira hora de uma maneira brilhante, passando para a segunda que aborda a busca pela arma do crime na escola e denuncia de certa forma as falhas do sistema escolar para com os adolescentes e até o parental, através da relação do filho e do detetive. No terceiro temos uma sessão de terapia com Jamie e sua terapeuta, em um episódio complexo e fascinante, cheio de nuances em diálogos meticulosamente trabalhados para despertar diversas reflexões no telespectador. Na última hora o foco volta à família Miller, e por mais que o tempo tenha passado, o sofrimento não cessa. É como viver um luto por alguém que não morreu. As cenas finais são completamente devastadoras e exaltam tudo o que vimos até aqui, de como é pesado lidar com uma situação assim para qualquer das partes envolvidas, mas não deixa de ser humano e é nesta combustão de sentimentos que uma das melhores minisséries da Netflix termina, sendo de longe a melhor estreia do ano até então. Nota: 5/5
- Crítica | Operação Vingança
Suspense funciona, mas tenta vender uma complexidade que simplesmente não existe. Divulgação Charlie Heller (Malek) é um brilhante, mas totalmente introvertido, decodificador da CIA que trabalha em um escritório no porão da sede em Langley e tem sua vida virada de cabeça para baixo quando sua esposa é assassinada em um ataque terrorista em Londres. Quando seus supervisores se recusam a tomar providências, ele decide resolver o problema com suas próprias mãos, embarcando em uma perigosa jornada pelo mundo para encontrar os responsáveis. Sua inteligência se torna sua arma mais poderosa para despistar seus perseguidores e conseguir sua vingança. Operação Vingança é mais um longa estadunidense truqueiro que tenta enfeitar uma história básica de vingança, como o título brasileiro bem sugere, com personagens secundários e subtramas e que servem apenas como enxerto para o arco principal. O que não significa que não funcione como um bom entretenimento para um domingo à tarde em casa, só não vai mais além do que isso, mas tudo nele acha que vai. O roteiro é baseado num romance e tenta jogar com a geopolítica atual sem se comprometer com qualquer lado. O texto usa de fáceis explicações, desenha bem seu contexto e cria situações-problemas facilmente resolvíveis com soluções óbvias que conspiram a favor do protagonista. Ou seja, clichê. Mas não tenho tanto problema com isso se no desenrolar narrativa a história fica fluída e bem-acabada. E aqui, em partes, isto acontece, mas realmente não entendi a vontade de tornar tudo mais complexo do que é, como se, de alguma forma, fosse conceder um aspecto mais sóbrio e menos recreativo ao filme (e, mais uma vez, como se isso fosse um problema, ou o problema). Divulgação O elenco trabalha com papeis bem similares ao que fizeram em suas respectivas filmografias. Rami Malek conduz com tranquilidade o enredo e sabe ser sutil e pungente ao mesmo tempo em quase todos os momentos. Entre os personagens que acima falei que estavam presentes para encher linguiça eu destaco a participação de Jon Bernthal que passeou pelo filme sem qualquer direção. O longa tem boas sequências de ação e é positivo em conseguir criar uma atmosfera de suspense constante que catalisa o desenvolvimento do roteiro que poderia ser bem mais enxuto. É um filme que vai entreter e pode até prender sua atenção, o que hoje em Hollywood é um problema, mas não vai mais longe que isso. Nota; 2,5/5
- Crítica | Sereias (Minissérie)
da bagunça que ela é Divulgação Criada por Molly Smith Metzler, que também criou a sensacional Maid (2021
- Crítica | Cinco da Tarde
No novo longa de Eduardo Nunes, a melancolia da hora dourada se mistura ao luto e a descoberta Imagem: Divulgação Na maioria das vezes, quando nos deparamos com o fim da tarde, aquele momento ao mesmo tempo calmo e caótico, em que tudo parece precisar se encaixar antes que o dia termine de vez —, a sensação de nostalgia ou uma tristeza difícil de explicar surge com mais intensidade do que nunca. Seja observando o pôr do sol da varanda de casa ou apreciando o céu arroxeado pela janela do ônibus, aquela vontade de revisitar toda a sua vida até então é quase inevitável, como se cada tom do entardecer despertasse memórias, reflexões e sentimentos guardados ao longo da vida. Em Cinco da Tarde, do diretor Eduardo Nunes, esse é o sentimento recorrente. Mesmo com uma fotografia predominantemente em preto e branco, o filme funciona como uma majestosa representação de como a troca de experiências, memórias e dores pode se tornar um elo capaz de aproximar duas pessoas, transformando encontros cotidianos em conexões profundas e significativas, mas não necessariamente românticas. Na trama, Anabel, uma jovem de 17 anos que acabou de perder a avó com quem vivia, acaba se aproximando de Meiko, uma tímida vizinha que trabalha em uma floricultura local. Com o passar do tempo, essa aproximação revela sentimentos escondidos e semelhanças improváveis. Voltando ao apartamento da avó, Anabel encontra uma estranha presença, que a faz compreender melhor o momento em que está vivendo. Depois de se encontrarem de uma forma meio apressada mas intensa, as protagonistas passam a construir uma relação de apoio mútuo, de forma que a “luz” que faltava na vida de ambas é preenchida de forma sutil e gradual. A química entre as atrizes Bárbara Luz (Ainda Estou Aqui) e Sharon Cho é, sem dúvida, um dos grandes destaques da trama. Enquanto Anabel compartilha fragmentos de suas memórias com a falecida avó, Meiko encontra, aos poucos, espaço para se libertar das dores e dos sentimentos que a mantinham presa ao passado. Gravado em um Rio de Janeiro frio e, mais uma vez, melancólico, o tom sobrenatural do filme se concentra em locações que a avó de Anabel costumava frequentar ou saudar, à exemplo do Cine São Bento e a Igreja Porciúncula de Sant’Ana. O apartamento compartilhado entre Anabel e sua avó também funciona como um personagem na trama, representando uma redoma para os sentimentos da protagonista. A presença espiritual da falecida naquele ambiente, também serve como um impulso para que a protagonista deixe de lado os seus traumas. Ambientado em um Rio de Janeiro frio e, mais uma vez, melancólico, o tom sobrenatural do filme se constrói a partir de espaços carregados de memória e significado, como o Cine São Bento e a Igreja Porciúncula de Sant’Ana, locais que a avó de Anabel costumava frequentar ou reverenciar. O apartamento compartilhado entre neta e avó também assume um papel fundamental na narrativa, funcionando quase como um personagem. Mais do que um cenário, o espaço se torna uma redoma que abriga os sentimentos, lembranças e angústias da protagonista. A presença espiritual da falecida naquele ambiente atua como um constante lembrete do passado, mas também como um impulso para que Anabel enfrente a solidão e encontre em Meiko o seu ponto de equilíbrio. Ao transformar o luto, a solidão e a memória em elementos centrais de sua narrativa, Cinco da Tarde encontra beleza justamente nos momentos mais silenciosos da existência. Apesar de monótono em alguns momentos, o filme demonstra que algumas feridas não desaparecem por completo, mas podem se tornar mais leves quando compartilhadas. Nota: 4/5
- Crítica | Salón de Belleza (Festival de Veneza 2026)
Apesar de uma fotografia competente, o longa de Nathalia Acevedo traz uma narrativa complexa e sem sentido Divulgação Nos primeiros momentos, a premissa de transformar um espaço dedicado à beleza e ao bem-estar em um lugar que lida com a morte é, no mínimo, intrigante. Sendo ainda uma coprodução entre México e França, seria possível esperar que o encontro entre diferentes tradições cinematográficas trouxesse um impacto significativo. Infelizmente, a combinação entre o olhar latino-americano e a experiência europeia nem sempre resulta em uma obra impactante. Em Salón de Belleza, o potencial da premissa parece, na maior parte do tempo, mais do que aquilo que o filme efetivamente consegue desenvolver. Em uma cidade que nunca é nomeada, um salão de beleza se transforma em um espaço de passagem para pessoas marcadas pelo abandono, onde beleza e morte passam a coexistir. No centro desse lugar está o Individuo, uma figura solitária que cuida do espaço enquanto testemunha a chegada e o desaparecimento daqueles que o atravessam. Entre rituais, lembranças e visões, o filme dissolve as fronteiras entre presente e passado, realidade e imaginação, transformando o salão em um território suspenso. Em uma sequência que parece interminável, nas profundezas de um aquário, o longa apresenta um personagem que nunca é nomeado, assim como a própria cidade onde a história se passa. Desde os primeiros momentos, fica evidente que há diferentes camadas em sua construção, fazendo com que o espectador tente compreender de onde partem suas motivações e o que o mantém preso àquele ambiente. O problema é que essas causas raramente são aprofundadas. A diretora introduz questões relacionadas à sexualidade e à maneira como o protagonista parece estar aprisionado por elas, mas as aborda de forma tão superficial que, ao final, pouco reverberam. O que inicialmente surge como uma dimensão importante para compreender o personagem termina sem força suficiente para se tornar, de fato, uma questão narrativa convincente. Questões relacionadas à desigualdade mexicana também vêm à tona e estão entre os pontos mais fortes do longa, ainda que sejam abordadas de maneira superficial. Revoltas populares, pessoas em situação de vulnerabilidade e minorias que passam pela falta de acolhimento e de espaços onde possam existir de fato. São questões que levam ao próprio espaço que dá nome ao longa, transformando o salão em um reflexo, ainda que fragmentado, das tensões que existem do lado de fora. Divulgação Outro ponto de destaque é a fotografia, profunda e carregada de textura, que encontra nos primeiros planos alguns de seus momentos mais fortes. O silêncio também ocupa um lugar central na narrativa. Mesmo quando a ausência de explicações pode afastar o espectador, a falta de diálogos funciona como uma extensão dos sentimentos do protagonista e das pessoas que estão ao redor. Mais do que explicar o que acontece, o filme usa a falta de diálogo como uma demonstração dos sentimentos dos protagonistas, e as sensações daqueles que tiveram um fim ao seu lado. A montagem, infelizmente, não acompanha a mesma força. As cenas transitam entre presente e passado e são intercaladas por momentos submersos, reforçando uma espécie de fixação do filme pelos espaços aquáticos, sobretudo pelo aquário, que ocupa um lugar na trajetória do protagonista. Embora essa escolha visual desperte curiosidade desde a primeira cena, é apenas próximo ao final que seu significado começa a se revelar. A demora em estabelecer essa conexão, junto aos fragmentos sem sentido, acaba tornando a narrativa confusa em vez de instigante, fazendo com que algumas das escolhas mais interessantes do longa pareçam menos orgânicas do que poderiam ser. No fim, Salón de Belleza é mais um filme com uma premissa e uma estética interessantes, mas que não consegue transformar seu potencial em uma experiência narrativa igualmente potente. Sem dúvidas a escolha de transformar um salão de beleza em um espaço entre a vida e a morte, assim como na tentativa de aproximar questões de sexualidade, desigualdade e vulnerabilidade de uma narrativa tão abstrata é uma escolha interessante. A fotografia e o uso do silêncio resultaram em momentos bonitos mas não são suficientes para compensar uma montagem que frequentemente dificulta a compreensão de personagens cujas motivações permanecem pouco exploradas. O filme termina deixando mais perguntas do que respostas, o que não seria necessariamente um problema, se suas perguntas encontrassem maior força ao longo do caminho. Nota: 2/5
- Crítica | All of a Sudden (TIFF 2026)
Ryusuke Hamaguchi transforma uma longa conversa sobre capitalismo, cuidado e morte em uma emocionante reflexão sobre a importância das relações humanas. Divulgação Depois de passar horas sentado em uma sala de cinema, assistindo a filmes que parecem disputar quem consegue ser mais barulhento, chocante ou grandioso, entrar em uma sessão de All of a Sudden é quase como diminuir o volume do mundo. Durante 196 minutos, Ryusuke Hamaguchi pede apenas que sentemos e escutemos seus personagens conversarem. E, apesar da duração, é impressionante como o tempo passa quando encontramos alguém disposto a realmente nos ouvir. O filme acompanha Marie-Lou (Virginie Efira), responsável por uma instituição para idosos nos arredores de Paris. Tentando melhorar a qualidade de vida dos pacientes, ela busca implementar uma técnica de cuidado conhecida como “Humanitude”, mas encontra resistência dos funcionários e das limitações financeiras impostas pela administração. Em um lugar criado para cuidar de pessoas em seus últimos anos de vida, o dinheiro acaba se tornando uma das maiores barreiras para oferecer dignidade. É nesse ambiente que Marie-Lou conhece Mari (Tao Okamoto), uma dramaturga japonesa que está em Paris para apresentar uma peça e que também enfrenta uma doença terminal. O encontro entre as duas rapidamente se transforma em uma amizade inesperada. Caminhando pelas ruas durante a noite, elas conversam sobre suas vidas, seus medos e, eventualmente, sobre questões muito maiores do que elas mesmas. A partir dessa relação, Hamaguchi constrói uma narrativa que parece estar constantemente procurando uma resposta para uma pergunta simples: como podemos cuidar uns dos outros? Assim como em Drive My Car, o diretor demonstra uma enorme confiança no poder dos diálogos. Aqui, ele leva essa característica ainda mais longe. Grande parte do filme é composta por personagens conversando, explicando suas ideias e tentando entender o mundo ao redor. Em determinado momento, inclusive, um personagem pega um quadro branco para explicar literalmente como o capitalismo funciona. É uma cena que poderia facilmente transformar o filme em uma palestra de quase três horas, mas Hamaguchi consegue encontrar humor e humanidade mesmo nos momentos mais discursivos. O aspecto mais interessante da obra é justamente a maneira como esses grandes temas são apresentados através de relações pessoais. O problema do capitalismo não está apenas em uma teoria explicada em um quadro branco, mas na maneira como ele interfere na vida dessas pessoas. Uma instituição que deveria priorizar seus pacientes precisa se preocupar com orçamento. Uma mulher que está morrendo precisa continuar trabalhando. E duas desconhecidas encontram, em uma longa conversa durante a noite, um tipo de conforto que nenhuma estrutura institucional consegue oferecer. Visualmente, o filme acompanha essa proposta. Hamaguchi não procura transformar Paris em um cartão-postal, mas utiliza seus espaços e principalmente a natureza para criar momentos de tranquilidade. As caminhadas de Marie-Lou e Mari lembram, em alguns momentos, comédias românticas que se passam na França, mas aqui não existe necessariamente uma história de amor. Existe algo igualmente poderoso: duas pessoas encontrando uma conexão profunda em um momento inesperado de suas vidas. E é justamente nessas pequenas interações que o filme mais me conquistou. Uma conversa, um gesto de carinho, uma cena envolvendo bonecos de dedo ou até uma sequência aparentemente simples de cuidado físico conseguem transmitir mais emoção do que os grandes discursos. Hamaguchi parece acreditar que a empatia também pode ser uma forma de resistência. Apesar disso, nem tudo funciona perfeitamente. Com 196 minutos, All of a Sudden exige bastante do espectador. Algumas das discussões filosóficas acabam se prolongando mais do que deveriam, e há momentos em que a narrativa parece perder o ritmo construído entre Marie-Lou e Mari. Para quem não tem paciência para filmes essencialmente baseados em diálogos, a experiência pode ser especialmente desafiadora. Ainda assim, o filme nunca deixa de ser interessante porque Hamaguchi entende que seu maior trunfo não está nas respostas que oferece, mas nas perguntas que seus personagens fazem. Em vez de transformar a discussão sobre envelhecimento, morte e capitalismo em algo puramente pessimista, ele encontra espaço para falar sobre amizade, compaixão e a capacidade que temos de cuidar uns dos outros. O mais bonito de All of a Sudden é que, depois de quase três horas e vinte minutos, o filme não termina com uma grande conclusão sobre como consertar a sociedade. Ele termina com a ideia de que talvez ainda exista esperança enquanto continuarmos cuidando uns dos outros. Apesar de sua duração e de alguns momentos excessivamente discursivos, All of a Sudden é um drama delicado e profundamente humano, sustentado pelas excelentes atuações de Virginie Efira e Tao Okamoto e pela sensibilidade de Hamaguchi. Um filme que começa falando sobre instituições, capitalismo e morte, mas que, no fim, está muito mais interessado em falar sobre pessoas. Nota: 4/5












