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Crítica | Salón de Belleza (Festival de Veneza 2026)

Foto do escritor: Giulia Meneses
Giulia Meneses
há 23 horas
3 min de leitura

Apesar de uma fotografia competente, o longa de Nathalia Acevedo traz uma narrativa complexa e sem sentido 


Divulgação


Nos primeiros momentos, a premissa de transformar um espaço dedicado à beleza e ao bem-estar em um lugar que lida com a morte é, no mínimo, intrigante. Sendo ainda uma coprodução entre México e França, seria possível esperar que o encontro entre diferentes tradições cinematográficas trouxesse um impacto significativo. Infelizmente, a combinação entre o olhar latino-americano e a experiência europeia nem sempre resulta em uma obra impactante. Em Salón de Belleza, o potencial da premissa parece, na maior parte do tempo, mais do que aquilo que o filme efetivamente consegue desenvolver.


Em uma cidade que nunca é nomeada, um salão de beleza se transforma em um espaço de passagem para pessoas marcadas pelo abandono, onde beleza e morte passam a coexistir. No centro desse lugar está o Individuo, uma figura solitária que cuida do espaço enquanto testemunha a chegada e o desaparecimento daqueles que o atravessam. Entre rituais, lembranças e visões, o filme dissolve as fronteiras entre presente e passado, realidade e imaginação, transformando o salão em um território suspenso. 


Em uma sequência que parece interminável, nas profundezas de um aquário, o longa apresenta um personagem que nunca é nomeado, assim como a própria cidade onde a história se passa. Desde os primeiros momentos, fica evidente que há diferentes camadas em sua construção, fazendo com que o espectador tente compreender de onde partem suas motivações e o que o mantém preso àquele ambiente. O problema é que essas causas raramente são aprofundadas. 


A diretora introduz questões relacionadas à sexualidade e à maneira como o protagonista parece estar aprisionado por elas, mas as aborda de forma tão superficial que, ao final, pouco reverberam. O que inicialmente surge como uma dimensão importante para compreender o personagem termina sem força suficiente para se tornar, de fato, uma questão narrativa convincente.


Questões relacionadas à desigualdade mexicana também vêm à tona e estão entre os pontos mais fortes do longa, ainda que sejam abordadas de maneira superficial. Revoltas populares, pessoas em situação de vulnerabilidade e minorias que passam pela falta de acolhimento e de espaços onde possam existir de fato. São questões que levam ao próprio espaço que dá nome ao longa, transformando o salão em um reflexo, ainda que fragmentado, das tensões que existem do lado de fora.


Divulgação


Outro ponto de destaque é a fotografia, profunda e carregada de textura, que encontra nos primeiros planos alguns de seus momentos mais fortes. O silêncio também ocupa um lugar central na narrativa. Mesmo quando a ausência de explicações pode afastar o espectador, a falta de diálogos funciona como uma extensão dos sentimentos do protagonista e das pessoas que estão ao redor. Mais do que explicar o que acontece, o filme usa a falta de diálogo como uma demonstração dos sentimentos dos protagonistas, e as sensações daqueles que tiveram um fim ao seu lado. 


A montagem, infelizmente, não acompanha a mesma força. As cenas transitam entre presente e passado e são intercaladas por momentos submersos, reforçando uma espécie de fixação do filme pelos espaços aquáticos, sobretudo pelo aquário, que ocupa um lugar na trajetória do protagonista. Embora essa escolha visual desperte curiosidade desde a primeira cena, é apenas próximo ao final que seu significado começa a se revelar. A demora em estabelecer essa conexão, junto aos fragmentos sem sentido, acaba tornando a narrativa confusa em vez de instigante, fazendo com que algumas das escolhas mais interessantes do longa pareçam menos orgânicas do que poderiam ser.


No fim, Salón de Belleza é mais um filme com uma premissa e uma estética interessantes, mas que não consegue transformar seu potencial em uma experiência narrativa igualmente potente. Sem dúvidas a escolha de transformar um salão de beleza em um espaço entre a vida e a morte, assim como na tentativa de aproximar questões de sexualidade, desigualdade e vulnerabilidade de uma narrativa tão abstrata é uma escolha interessante.


A fotografia e o uso do silêncio resultaram em momentos bonitos mas não são suficientes para compensar uma montagem que frequentemente dificulta a compreensão de personagens cujas motivações permanecem pouco exploradas. O filme termina deixando mais perguntas do que respostas, o que não seria necessariamente um problema, se suas perguntas encontrassem maior força ao longo do caminho.


Nota: 2/5


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