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Crítica | All of a Sudden (TIFF 2026)

Foto do escritor: Gabriel Sousa
Gabriel Sousa
há 18 horas
3 min de leitura

Ryusuke Hamaguchi transforma uma longa conversa sobre capitalismo, cuidado e morte em uma emocionante reflexão sobre a importância das relações humanas.


Divulgação


Depois de passar horas sentado em uma sala de cinema, assistindo a filmes que parecem disputar quem consegue ser mais barulhento, chocante ou grandioso, entrar em uma sessão de All of a Sudden é quase como diminuir o volume do mundo. Durante 196 minutos, Ryusuke Hamaguchi pede apenas que sentemos e escutemos seus personagens conversarem. E, apesar da duração, é impressionante como o tempo passa quando encontramos alguém disposto a realmente nos ouvir.


O filme acompanha Marie-Lou (Virginie Efira), responsável por uma instituição para idosos nos arredores de Paris. Tentando melhorar a qualidade de vida dos pacientes, ela busca implementar uma técnica de cuidado conhecida como “Humanitude”, mas encontra resistência dos funcionários e das limitações financeiras impostas pela administração. Em um lugar criado para cuidar de pessoas em seus últimos anos de vida, o dinheiro acaba se tornando uma das maiores barreiras para oferecer dignidade.


É nesse ambiente que Marie-Lou conhece Mari (Tao Okamoto), uma dramaturga japonesa que está em Paris para apresentar uma peça e que também enfrenta uma doença terminal. O encontro entre as duas rapidamente se transforma em uma amizade inesperada. Caminhando pelas ruas durante a noite, elas conversam sobre suas vidas, seus medos e, eventualmente, sobre questões muito maiores do que elas mesmas.


A partir dessa relação, Hamaguchi constrói uma narrativa que parece estar constantemente procurando uma resposta para uma pergunta simples: como podemos cuidar uns dos outros?


Assim como em Drive My Car, o diretor demonstra uma enorme confiança no poder dos diálogos. Aqui, ele leva essa característica ainda mais longe. Grande parte do filme é composta por personagens conversando, explicando suas ideias e tentando entender o mundo ao redor. Em determinado momento, inclusive, um personagem pega um quadro branco para explicar literalmente como o capitalismo funciona. É uma cena que poderia facilmente transformar o filme em uma palestra de quase três horas, mas Hamaguchi consegue encontrar humor e humanidade mesmo nos momentos mais discursivos.


O aspecto mais interessante da obra é justamente a maneira como esses grandes temas são apresentados através de relações pessoais. O problema do capitalismo não está apenas em uma teoria explicada em um quadro branco, mas na maneira como ele interfere na vida dessas pessoas. Uma instituição que deveria priorizar seus pacientes precisa se preocupar com orçamento. Uma mulher que está morrendo precisa continuar trabalhando. E duas desconhecidas encontram, em uma longa conversa durante a noite, um tipo de conforto que nenhuma estrutura institucional consegue oferecer.


Visualmente, o filme acompanha essa proposta. Hamaguchi não procura transformar Paris em um cartão-postal, mas utiliza seus espaços e principalmente a natureza para criar momentos de tranquilidade. As caminhadas de Marie-Lou e Mari lembram, em alguns momentos, comédias românticas que se passam na França, mas aqui não existe necessariamente uma história de amor. Existe algo igualmente poderoso: duas pessoas encontrando uma conexão profunda em um momento inesperado de suas vidas.


E é justamente nessas pequenas interações que o filme mais me conquistou. Uma conversa, um gesto de carinho, uma cena envolvendo bonecos de dedo ou até uma sequência aparentemente simples de cuidado físico conseguem transmitir mais emoção do que os grandes discursos. Hamaguchi parece acreditar que a empatia também pode ser uma forma de resistência.


Apesar disso, nem tudo funciona perfeitamente. Com 196 minutos, All of a Sudden exige bastante do espectador. Algumas das discussões filosóficas acabam se prolongando mais do que deveriam, e há momentos em que a narrativa parece perder o ritmo construído entre Marie-Lou e Mari. Para quem não tem paciência para filmes essencialmente baseados em diálogos, a experiência pode ser especialmente desafiadora.


Ainda assim, o filme nunca deixa de ser interessante porque Hamaguchi entende que seu maior trunfo não está nas respostas que oferece, mas nas perguntas que seus personagens fazem. Em vez de transformar a discussão sobre envelhecimento, morte e capitalismo em algo puramente pessimista, ele encontra espaço para falar sobre amizade, compaixão e a capacidade que temos de cuidar uns dos outros.


O mais bonito de All of a Sudden é que, depois de quase três horas e vinte minutos, o filme não termina com uma grande conclusão sobre como consertar a sociedade. Ele termina com a ideia de que talvez ainda exista esperança enquanto continuarmos cuidando uns dos outros.


Apesar de sua duração e de alguns momentos excessivamente discursivos, All of a Sudden é um drama delicado e profundamente humano, sustentado pelas excelentes atuações de Virginie Efira e Tao Okamoto e pela sensibilidade de Hamaguchi. Um filme que começa falando sobre instituições, capitalismo e morte, mas que, no fim, está muito mais interessado em falar sobre pessoas.


Nota: 4/5

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