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  • Entrevista | Fernando Fraiha fala sobre o processo de direção de ‘Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa’

    O cineasta conta sobre sua entrada no projeto, o processo de filmagens e o que esperar do universo do Chico Bento nos cinemas. Divulgação Próximo de completar 1 milhão de espectadores, o filme Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa se consolida como uma das grandes estreias do cinema nacional de 2025 até o momento. Em entrevista exclusiva para o Oxente, Pipoca?, o diretor Fernando Fraiha compartilha a experiência de dirigir um filme protagonizado por um dos personagens mais amados do Brasil. A trama acompanha Chico Bento (Isaac Amendoim), que costuma subir em sua amada goiabeira para pegar a fruta sem que o dono das terras saiba. O que ele não imaginava é que sua árvore estaria ameaçada pela construção de uma estrada na região. Esse não é o primeiro trabalho de Fernando Fraiha no universo Maurício de Sousa. O cineasta fez parte da produção dos filmes Turma da Mônica: Laços e Turma da Mônica: Lições. Quando perguntado sobre como o processo de Chico Bento se diferenciou dos projetos anteriores, Fraiha explicou que, quando Daniel Rezende, diretor dos outros filmes da Turma, levou o projeto de Laços para a produtora Biônica, da qual Fraiha é sócio, o filme já estava em um estágio avançado. O contato de Fernando com os filmes da Turma da Mônica começou a partir desse momento. O diretor conta que nunca imaginou dirigir um filme infantil e que teve seu primeiro contato com esse universo ao dirigir uma cena de Laços em que Magali pega todas as coisas da geladeira para arrumar suas malas, inclusive sua icônica melancia. Neste momento, Fraiha se emocionou muito. Foi um sentimento de nostalgia e de lembrança da infância e do baú de HQs que ele guardava embaixo da cama. Depois desse envolvimento direto e orgânico com o projeto, Fernando relembra que, em uma pausa para o café na sala de roteiro e edição, Daniel Rezende comentou que Fernando seria uma escolha ideal para dirigir um filme do Chico Bento. Daniel destacou que o DNA do Chico é muito cômico e que Fernando já tinha uma forte ligação com a comédia. Inicialmente, Fernando achou que era apenas uma brincadeira e nem cogitou a ideia, pois na época estava envolvido com outros filmes. Com o tempo, Daniel apresentou uma proposta de roteiro sobre o Chico para Maurício de Sousa e pediu a ajuda de Fernando para pensar em uma história. A ideia foi repassada para Raul Chequer, que já escrevia para a série Choque de Cultura (com o próprio Fernando) e para a animação Irmão do Jorel. Aos poucos, foi se formando um consenso sobre a narrativa do filme. Essa passagem de bastão para Fernando aconteceu de uma forma muito orgânica. Ele brinca dizendo que acha que foi "manipulado" por Daniel, que soube lidar muito bem com a situação e abrir espaço com a Maurício de Sousa Produções. Foram dois anos escrevendo uma história em parceria, até que Daniel convidou Fernando para dirigir Chico Bento. Foi um processo longo, diluído ao longo de dois anos. Sobre a seleção dos aspectos e histórias do Chico que seriam adaptados para o longa, Fernando conta que “Seu Maurício” trouxe muitas HQs para a equipe, além de referências encontradas na internet e no acervo pessoal dos roteiristas. “Toda vez que a gente emperrava, a gente olhava no catálogo de ideias. E foi tudo muito orgânico. E é muito lindo essa coisa do seu trabalho ser passar o dia lendo quadrinhos e anotando ideias. Essa fase da pesquisa foi muito gostosa”, conta. Quando perguntado sobre as dificuldades nas gravações, Fernando diz que o processo foi prazeroso até o fim. Ele ressalta que as diárias eram desgastantes devido ao deslocamento entre locações. Filmar em uma fazenda envolvia uma viagem de uma hora até o local, e como o filme foi rodado com luz natural, havia pouca margem de controle sobre as condições climáticas. Tudo isso exigia paciência. Fernando destaca que foi mágico sair de um processo de preparação de nove semanas de ensaio com o elenco, em conjunto com Larissa Mauro, preparadora de elenco. Durante esse período, houve muita decupagem do roteiro e, por consequência, no set, devido à preparação dilatada, as filmagens aconteceram de forma fluida e tranquila. Fernando ainda ressalta: “Trabalhar com criança é uma viagem. Elas são os melhores seres humanos. A gente deveria parar tudo que estamos fazendo hoje e dar todos os cargos para as crianças – governo dos países, torná-las presidentes e CEOs de banco”, ri. Divulgação O filme cumpre a missão de honrar os fãs antigos do Chico Bento e, ao mesmo tempo, trazer uma nova geração para esse universo. Fernando destaca que ver a comoção do público com o filme o emociona profundamente. “Eu fiquei viciado em ver os comentários no Letterboxd sobre o filme. Em meus outros trabalhos, eles tinham uma repercussão legal, mas eu nunca tinha escrito e dirigido um filme que chegasse tão fora da bolha. Ver seu trabalho indo tão além, isso é muito emocionante.” Por fim, quando perguntado sobre outras possíveis adaptações do Chico para o cinema – inclusive se teríamos talvez Chico Bento no Shopping ou Chico Bento em: A Hora da Onça Beber Água –, Fernando afirma que já existe um roteiro novo. “Tudo que eu posso dizer sobre a sequência do filme é que o Isaac [Amendoim] está fazendo uma novela, e enquanto isso, a gente está entendendo se vai ter 2 ou não. A gente quer muito fazer. A gente luta muito por isso.” “É difícil fazer cinema no Brasil. Isso por uma série de circunstâncias que vão além da nossa vontade. O que eu posso adiantar é que o roteiro do Chico Bento 2, escrito por mim, Elena Altheman e Raul Chequer, eu acho muito lindo mesmo. Pra mim, é ainda melhor que o roteiro do primeiro filme, que já é uma história que me apaixona muito!” Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa está em cartaz nos cinemas e tem previsão de estreia no Prime Video em 22 de março de 2025.

  • Crítica | Dia Zero (Minissérie)

    Elenco estelar tenta mascarar mediocridade do suspense político, mas não é suficiente. Divulgação Quando eu ouvi falar que Robert De Niro faria uma minissérie, logo me animei. Era a primeira dele e não poderia ser qualquer coisa. Mas infelizmente é. De Niro é George Mullen, um ex-presidente amado por todos, apartidário (risos), como insistem em nos lembrar de tempos em tempos durante os primeiros episódios. Ele precisa sair de sua aposentadoria para cuidar de uma grande missão: liderar as investigações de um terrível ataque cibernético que matou mais de 3 mil pessoas. Lembram daquele filme O Mundo Depois de Nós, também da Netflix? Então, é como se acontecesse a mesma coisa, só que o foco aqui é na presidência dos Estados Unidos, ao invés de uma família. O longa de Sam Esmail tem seus defeitos, mas passa longe de ser genérico como esta minissérie. Além de De Niro, Joan Allen é sua esposa Sheila, Lizzy Caplan é sua filha, Connie Britton é sua ex-chefe de gabinete, Jesse Plemons é seu assessor, Angela Basset é a Presidente em exercício, Matthew Modine é o presidente da Câmara dos Deputados, Dan Stevens é um apresentador reacionário, Clark Gregg é um bilionário suspeito, McKinley Belcher III é um agente e Gaby Hoffman é uma empresária da tecnologia. Eu não dei muitas informações sobre quem é quem para evitar spoilers, mas tudo é tão previsível que não faria muita diferença, sendo sincero. Os atores estão no automático e isso é desdobramento de um roteiro superficial que não os desafia. Os personagens fazem exatamente aquilo que se espera deles e a maioria são de uma nota só, estão ali com apenas uma função. São apenas seis episódios e não há muito tempo para trabalhar bem todos eles e suas relações, mas com certeza poderia ser feito um trabalho melhor pelo roteiro, principalmente com o protagonista. Quando há uma sombra de nuance dele, logo se transforma em mais uma reviravolta infundada. A produção tenta vender a ideia de um político amado por quase todos em um mundo tão polarizado, mas soa muito irreal. Em uma determinada cena, Mullen contém uma população revoltada com um discurso – vazio e formulaico – e ao terminar, é aplaudido. Não só é pouco plausível, como chega a ser ridículo, só para citar um exemplo. Nota-se que foi uma minissérie cara, não só pela constelação que forma o elenco. Há um cuidado com os cenários, por mais comuns que eles sejam, e as sequências de ação são bem filmadas, mesmo que não sejam exatamente tensas ou muito elaboradas. É caro, mas não deixa de ser ordinário. Divulgação O final faz jus a tudo que foi construído até então, ou seja, não há muito o que dizer. A resolução do grande mistério é jogada de qualquer forma e sem qualquer esforço de realmente surpreender ou fazer o mínimo sentido em meio a já tantas coisas inautênticas. Há a tentativa, mas tudo estava tão enfadonho que as viradas não conseguiam surtir algum efeito, além da apatia. É uma pena o desperdício deste elenco em uma produção que se assemelha a um filme de suspense político qualquer com pitadas de ação, onde a mediocridade é a regra. Imagino que ofereceram uma bolada de dinheiro a De Niro primeiro, e depois todos os outros atores foram embarcando graças ao nome dele estar envolvido. É a única explicação para tantos nomes grandes e que, geralmente, escolhem bons projetos, toparem algo tão esquecível, ainda que não seja inassistível. O ritmo oscila, mas é mantido pelas viradas insanas, então em algum momento, há entretenimento pelo menos. Nota: 2,5/5

  • Entrevista | Allan Deberton fala sobre seu novo filme ‘O Melhor Amigo’

    O cineasta falou sobre suas influências, Canoa Quebrada e potência do elenco em conversa exclusiva com o OP. Divulgação No próximo dia 13 de março chega aos cinemas de todo o Brasil o filme O Melhor Amigo, segundo longa-metragem do premiado diretor Allan Deberton (Pacarrete). Adaptado de um curta homônimo do cineasta lançado em 2013, o musical traz Vinicius Teixeira e Gabriel Fuentes nos papéis principais. A trama se passa na praia de Canoa Quebrada, onde o reencontro entre Lucas (Vinicius Teixeira) e Felipe (Gabriel Fuentes) faz acender antigos desejos. Enquanto Lucas se joga neste paraíso solar, em busca de uma paixão ardente e incerta, Felipe, com sua presença sempre tão misteriosa, parece escorregar por entre os dedos. Ávila Oliveira: Allan, queria começar agradecendo o seu tempo em meio às correrias de tanto trabalho. Vamos começar falando do curta-metragem de 2013. Já existia a ideia e a vontade de transformar este curta num longa quando ele foi feito ou foi uma ideia que apareceu depois. E se apareceu depois o que motivou? Allan Deberton: Primeiro, obrigado, Ávila, pela oportunidade da entrevista. É sempre muito bom ter uma mídia especializada e temática no âmbito do cinema nordestino inclusive. O Melhor Amigo é um filme cearense, mas ao mesmo tempo eu costumo trabalhar com a equipe bastante nacional, até para potencializar mesmo esse intercâmbio cultural, que eu acho também interessante. E a ideia do longa-metragem é uma ideia antiga. Ela surge da repercussão do curta através do seu lançamento lá em 2013, quando na época, por algum acidente, o curta foi colocado no Youtube e houve uma ampla repercussão. Foi meio instantâneo para o filme chegar a ter mais de um milhão de visualizações e uma lista de centenas de comentários. Como realizador, eu fiquei curioso sobre como e qual estava sendo a repercussão. E eu percebi que o sentimento maior era de muita simpatia com o projeto e de intimidade com a história. O público se via naquela situação e naqueles personagens, se envolvia com a trama e se colocava no lugar do protagonista em termos de sentimentos e experiências parecidas. Então foi legal perceber que o curta jogava com as particularidades dos espectadores. E junto com isso veio também uma certa confusão, porque muita gente achava que era um pedaço de um longa, uma parte de algo que foi cortado. Tinha gente procurando o filme completo e outros comentando “ah, queria ver mais”. Enfim, eu fui muito levado pela ideia de dar uma continuidade a essa história, sabe? E como realizador mesmo até fazer um exercício de como fazer uma versão. Nesse caso fazendo uma versão de algo meu, mas ao mesmo tempo tendo como referência outro curta que circulou bastante nacionalmente e internacionalmente que foi o Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010), do Daniel Ribeiro, que inspirou o longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014). Comecei a escrever o roteiro em 2014 e por volta de 2017 eu já tinha uma versão do roteiro. Mas aí entramos naquele período político bem conturbado, já havia sido aprovado uma parte do dinheiro para o financiamento em 2019, porém tudo ficou meio nebuloso e só a partir de 2021 que a gente de fato começou o processo, em 2023 ele foi filmado e agora está sendo lançado com a distribuição da Vitrine Filmes. Ávila: Ano passado eu tive a oportunidade de conversar com o Pedro Diogenes sobre Centro Ilusão quando ele estreou no Festival do Rio, e eu perguntei a ele sobre as referências que ele teve para o filme, porque Centro Ilusão é um musical cheio de particularidades, ele é mais intimista. E O Melhor Amigo evoca mais a ideia coletiva que se tem quando se pensa em musical, muita coreografia, muita cor, muita alegria. E eu queria saber quais foram as suas referências e influências para o filme, e qual sua relação com o gênero musical. Allan: Eu sou um diretor que mesmo nos curtas, e especialmente em Pacarrete, que tenho como ponto de partida dos meus trabalhos uma base sonora, uma discografia. Então quando eu começo um projeto eu monto uma playlist das músicas que eu gostaria de escutar nesse projeto, e isso vai me trazendo um pouco do espírito e do tom, criando a energia da obra. E para O Melhor Amigo, entendendo que o cenário do curta gera um cenário praiano, um cenário de muitas cores, ao mesmo tempo com um público jovem, tropical e tudo mais, entendi que o longa-metragem também deveria beber das mesmas fontes, né? Eu logo vi que a música do longa-metragem era um assunto importante. Então, da mesma forma, eu comecei o projeto já preparando a seleção musical. Num segundo momento eu fui percebendo que algumas das músicas se encaixavam na narrativa e que funcionavam no contexto do filme, dentro da linguagem. A questão da dança é algo que sempre esteve presente na minha vida. Não como bailarino, gostaria muito de ter sido, tenho até uma tatuagem na perna, mas como espectador, como apaixonado mesmo, sabe? Eu nasci em 1982 então muito do meu cinema como referência é o cinema americano mesmo que eu tinha acesso através das locadoras no interior onde eu nasci. Então Footloose, Flashdance, Dirty Dancing, e as comédias românticas e romances mais densos como Uma Linda Mulher, Proposta Indecente, enfim, eles foram uma grande escola para mim no sentido de cinema e cinema com um apelo mais popular, para um público mais comercial. Como cineasta formado em universidade pública e entendendo o cinema brasileiro e toda a sua riqueza, especificidades e diversidade, por mais que eu tente trazer um espírito comercial para as minhas produções – por conta dessas referências antigas e latentes – eu quero também agregar no lugar estético e artístico da realidade brasileira. Então O Melhor Amigo surge dentro dessa cartilha nostálgica dos nos 80 e 90. Eu também quis trazer nomes da televisão brasileira que acho que mereciam estar de volta à tela, foi um resgate afetivo, mas também de reconhecimento pelos artistas incríveis que eles são. Eu queria tanto homenagear essas pessoas envolvidas, mas queria pegar emprestado todo o talento delas para o filme. E isso cria um espírito nostálgico de Sessão da Tarde, sabe? Eu quis criar um filme sem pretensões políticas diretas dentro de uma questão social, mas que o objetivo primário fosse a diversão. Ávila: Como foi “cearencizar” o Vinícius e o Gabriel para o filme? Porque no trailer em que a gente vê o Gabriel cantando “Amante Profissional” dá pra perceber o bom trabalho que foi feito no sotaque dele. Allan: Eu não queria que essa preocupação especificamente com sotaque trouxesse algum estresse ou ansiedade no processo. Eu falei para o elenco não cearense que buscasse se aprofundar no nosso jeito e na nossa forma, mas que não pirasse nisso. Até porque como falei eu gosto de expandir as abordagens e influências do filme. E por se passar em Canoa Quebrada que é um lugar bastante receptivo às diversas culturas e turistas nacionais e internacionais, é muito sincero que essa interlocução seja muito fluida. Em Canoa Quebrada você percebe que desde muito tempo os negócios de lá são negócios de turistas que se fixaram lá. Tem restaurantes de portugueses, italianos, cubanos... e quis trazer essa mistura ao filme. Divulgação Ávila: O cinema cearense vem ganhando mais reconhecimento e espaço Brasil e mundo afora e vem aumentando também em volume. E eu fico feliz que isso permite que artistas locais consigam mais trabalhos sem obrigatoriamente terem que sair daqui. E em O Melhor Amigo temos nomes como Solange Teixeira; a incrível Adna Oliveira que também está em Centro Ilusão e que é de uma firmeza e de um talento refinado, ela canta bem, atua bem. Tem a Mulher Barbada que por si só é um espetáculo. Eu queria saber como foi trabalhar com tantos talentos representativos e nossos neste filme que é também uma celebração cultural. Allan: E para além desses nomes que você lembrou tem também o Denis Lacerda, que ganhou o Prêmio Multishow de Humor, Souma, Muriel da Cruz, o Walmick (de Holanda) que é um cearense radicado em São Paulo. Eu quis realmente potencializar o projeto trazendo o que há de melhor no nosso elenco local. E isso não significa que não foram testados cearenses para os protagonistas também, eu tinha um desejo de que a gente conseguisse encontrar nomes locais para os dois personagens, mas eu me vi muito bem resolvido com esse grande corpo de elenco expressivo do Ceará. E o Gabriel Fuentes é um achado. Ele é um ator excelente e foi muito bom trabalhar com ele, assim como o Vinícius Teixeira. Os dois foram incríveis e trouxeram subjetividades precisas que os personagens pediam. Eles entregaram muito bem inclusive a presença musical. Eu lembro de ter visto o Vinícius numa montagem do musical O Livro de Mórmon e ficou na minha cabeça o quanto ele foi bem em cena. E teve também as participações especiais que fazem parte da nostalgia que falei, Cláudia Ohana que é uma atriz maravilhosa presente no nosso imaginário da televisão, super talentosa; o Mateus Carrieri que é um galã global e faz uma participação espetacular; e a própria Gretchen que soma muito à musicalidade, à graça e à humanidade do filme. Ávila: Ano passado o Karim mostrou Beberibe ao mundo em Motel Destino, e agora você leva Aracati aos cinemas com a famosa praia de Canoa Quebrada. Qual a importância deste lugar para você? Allan: Eu nasci em Russas, então na época da escola as viagens e passeios de final de ano a gente ia para Majorlândia, que era uma praia mais próxima de Russas, era o destino comum. E depois de adolescente e adulto eu comecei a frequentar Canoa Quebrada e ali sempre foi um lugar mágico para mim. Lá era o lugar onde eu me via exercendo a minha juventude, o lugar de sentimentos, da paquera, das brincadeiras, da sexualidade, da bebida. Eu já me via ali ocupando aquele espaço como um homem adulto e não mais como adolescente ou criança dos passeios. É um lugar muito colorido, com uma diversidade muito presente. Então foram com essas lembranças que eu escrevi o roteiro, sabe? Canoa é um personagem e sempre esteve no roteiro. Foi um lugar que acolheu muito bem o projeto, a gente foi muito feliz lá durante todo o processo de produção. Ávila: Allan, eu agradeço mais uma vez o seu tempo e a sua atenção com a gente. A gente do Oxente, Pipoca torce muito pelo sucesso do filme e acredita que ele vai ser muito bem recebido pelo público porque é um projeto que preenche o anseio de quem gosta de musicais, de quem gosta de comédia, de quem gosta de romance e de quem gosta de filmes queer. Sempre que a gente compartilha algo relacionado ao filme é um furor nas redes sociais. Allan: Muito obrigado mesmo. Gratidão a todos do Oxente, Pipoca pela divulgação, pela torcida e pelo carinho que vocês têm com nossos projetos. Eu percebo que em Pacarrete a relação do público é sempre afetuosa e carinhosa. E espero que com O Melhor Amigo as pessoas também sintam isso num lugar de mais diversão. Estou na véspera de filmar meu quarto longa-metragem e em todos eu gosto de tentar me desafiar. Então quem gostou de Pacarrete não espere que O Melhor Amigo seja a mesma coisa, é talvez uma experiência que seja completamente diferente, mas uma experiência que também é boa. Porque ele tem outra forma, outro tamanho, é outra proposta. Da mesma forma com o terceiro longa e com o quarto. O cinema dialoga com pessoas diferentes de formas diferentes e é legal saber que vai encontrar mais públicos e chegar a mais lugares. Mais uma vez agradeço a parceria e a acolhida.

  • Crítica | O Macaco (2025)

    Excesso de temas e abordagens resultam em filme sem tom. Divulgação Adaptado de um conto do mestre do terror Stephen King, O Macaco é dirigido e coescrito por Osgood Perkins (Longlegs) e produzido por James Wan (Jogos Mortais, Annabelle, M3gan). A trama acompanha os gêmeos Bill e Hal (Theo James), que descobrem um antigo macaco de brinquedo no sótão de seu pai. A partir desse momento, uma série de mortes terríveis começa a acontecer. Tentando se livrar do brinquedo e seguir em frente, os irmãos decidem descartá-lo e, com o tempo, distanciam-se desse passado sombrio. No entanto, o terror parece não os abandonar. O elenco também inclui Elijah Wood, Tatiana Maslany e Christian Convery. Stephen King assina o roteiro ao lado de Perkins. Não sou o maior fã de filmes de terror, não gosto de me assustar de graça. Sou uma pessoa facilmente assustável, não precisa de muito para que eu esteja cerrando os olhos (ou tapando com as mãos mesmo) para tentar esperar da melhor forma possível o inevitável susto que precede o momento de silêncio na cena escura. E tenho a plena convicção de que “esse filme dá medo” é algo completamente subjetivo. Então, como um não entusiasta de terror facilmente assustável, digo que como terror O Macaco funciona melhor na comédia, e ainda assim nem sempre. O cineasta Osgood Perkins tem letramento visual e narrativo, e isso ficou claro em sua filmografia até aqui, no entanto, desta vez parece que ele quis despejar muitas de suas referências de uma vez, gerando um filme instável como terror, como suspense e até como comédia, embora essa seja a abordagem mais bem desenvolvida. O texto não se preocupa em explicar com detalhes os “comos” e os “porquês” da mística em torno do macaco (sem querer entrar em méritos narrativos de “suspensão de descrença”) então o que resta ao espectador é sentar e aproveitar os desdobramentos malignos que o objeto traz aos personagens que o cercam. As mortes inusitadas e sarcásticas à lá franquia Premonição funcionam de início, mas vão perdendo o impacto quando se dissipam em meio a diálogos existenciais, em meio as piadas e em meio a incessantes tentativas de ligar pontos que não existem no enredo para justificar tudo que acontece no argumento. Divulgação O elenco é, de longe, quem facilita o caminho tortuoso da narrativa até o final. Os atores que interpretam os protagonistas gêmeos são, tanto na versão infantil (que inclusive estes desatentos olhos não perceberam se tratar do mesmo ator Christian Convery), quanto na versão adulta (Theo James) brincam com as diferentes personalidades de seus personagens que se moldam aos muitos e confrontantes tons que o filme possui. Tatiana Maslany também deixa sua marca em alguns dos melhores momentos da história. Entre os sarcasmos que remetem aos primeiros longas de Tim Burton e um suspense inocente à la Clube do Terror, O Macaco acaba por ser um filme mais inofensivo do que pretende e deixa escapar as poucas boas oportunidades que teve de assumir uma vertente e tentar se consolidar num direcionamento preciso. 2/5

  • O que o Oscar 2025 representa para o cinema brasileiro?

    A contribuição de 'Ainda Estou Aqui' para o nosso eterno recomeço Divulgação Em 1999, Carlos Augusto Calil refletia sobre o “eterno recomeço” do cinema brasileiro, enfatizando que ele sempre “renasce do zero a cada ciclo e os problemas se repetem infinitamente, sem o vislumbre de uma solução estrutural que permita, enfim, a superação dos mesmos entraves. O caso atual — o dito 'renascimento do cinema brasileiro', inventado pela mídia — não é diferente. A retomada da produção mais uma vez se coloca como o marco zero.” O autor escrevia isso no que podemos chamar de “auge do Brasil no Oscar”: em cinco anos, o país foi indicado três vezes na categoria de Melhor Filme Internacional, um feito impressionante para um país fora do eixo europeu, que domina a categoria há décadas. Na época, muitos acreditavam que era questão de tempo até que nossos filmes quebrassem a barreira da língua que imperava na premiação estadunidense e conquistassem espaço nas grandes categorias. De certa forma, eles não estavam errados. Cidade de Deus, embora não tenha concorrido na categoria voltada a filmes falados em língua não inglesa, foi indicado a quatro prêmios, incluindo Melhor Direção. Sendo um pouco especulativo, talvez tenha ficado por pouco fora da disputa de Melhor Filme – algo que, acredito, teria acontecido se, na época, o Oscar já adotasse a regra dos 10 indicados fixos para a categoria principal. Mas, 25 anos depois da nossa última indicação em Melhor Filme Internacional, um outro fez exatamente o que muitos diziam estar “faltando pouco”. Dirigido por Walter Salles, Ainda Estou Aqui foi indicado à categoria mais importante do Oscar, a de Melhor Filme – um feito impressionante para uma produção falada em português e, principalmente, por ter ficado de fora das categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Direção. Algo que, quem sabe, poderia ter acontecido se houvesse mais uma semana de campanha, já que o timing estava todo conosco. Mas, como mencionei antes, isso é pura especulação – algo que estará presente ao longo deste texto. Antes, porém, vale refletir sobre essa crescente presença de filmes estrangeiros na premiação. Divulgação Nos últimos quatro anos, 6 filmes da categoria internacional foram indicados ao Oscar de Melhor Filme. Para efeito de comparação, entre 1990 e 2020, um espaço de 30 anos, apenas 5 alcançaram essa indicação. Não, você não leu errado. E isso não chega a ser surpreendente, já que, nos últimos anos, a Academia tem ampliado consideravelmente seus convites para artistas e profissionais da indústria internacional, prezando pela diversidade, inovação e pelo slogan de "festa do cinema mundial". No entanto, apesar de avanços visíveis, ainda há um longo caminho a percorrer. O indiano Tudo que Imaginamos Como Luz, que arrisco dizer ser o filme internacional mais aclamado do ano, ficou de fora dessa grande festa estadunidense. O alemão-iraniano A Semente do Fruto Sagrado? Restrito à categoria de Melhor Filme Internacional. O irlandês Kneecap, que dominou o BAFTA, sequer conseguiu uma indicação. E nem preciso comentar sobre o domínio europeu na premiação: Ainda Estou Aqui é o único filme não europeu indicado na categoria internacional. Voltando para a citação de Calil, a presença do filme de Walter Salles nos coloca novamente nessa encruzilhada. O cinema brasileiro esteve longe de passar despercebido nos grandes festivais do cinema mundial. Em Cannes, Kleber Mendonça Filho e Karim Aïnouz vêm fazendo bonito com seus trabalhos mais recentes. Em Berlim, o país sempre passa por diversas mostras, incluindo este ano na competição principal com O Último Azul, onde venceu o prestigiado Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri. No Festival de Locarno, não faz nem cinco anos que levamos o prêmio principal com Regra 34, de Júlia Murat. Além da fantástica rodada de festivais que filmes como Pedágio, de Carolina Markowicz, fizeram. Enfim, relatos e exemplos não faltam. Mas por qual motivo o público não consegue se enxergar e/ou acompanhar essa linda jornada que nosso audiovisual vem fazendo? Minha resposta sempre será a mesma: a falta de divulgação dos nossos feitos. Existem, sim, mídias jornalísticas que dão visibilidade a esses momentos, mas o público não tem o hábito de, por conta própria, buscar as histórias do nosso cinema. Embora isso não seja uma falha diretamente atribuída aos veículos tradicionais de comunicação, é, em parte, responsabilidade deles, pois o público tende a consumir o que está mais facilmente acessível e acaba tratando isso como algo “normal”. Se nós, dentro do nosso próprio país, não valorizamos isso como algo natural, quem o fará? Essa falta de reconhecimento também se reflete na distribuição dos filmes brasileiros nos cinemas. Enquanto não pudermos nos reconhecer na tela, com filmes como Kasa Branca e Baby tendo um lançamento amplo e uma presença realmente expressiva nas salas – para citar apenas alguns exemplos recentes –, essa sensação de anormalidade em relação ao nosso cinema não desaparecerá, mas se tornará ainda mais enraizada. E isso apesar de ambos terem sido premiados em diversos festivais. Mas, para o grande público, esses prêmios não possuem o mesmo prestígio do Oscar. Divulgação As políticas públicas precisam desempenhar um papel primordial nessa mudança, seja na urgente regulamentação dos streamings ou na contínua criação de editais culturais que descubram novos realizadores. Com isso, aumenta-se o número de projetos, oportunidades de trabalho, capital cultural, gerando, consequentemente, mais renda – algo que, no fim das contas, é o que acaba sendo cobrado por parte da população que não compreende esses investimentos. O que precisa ficar claro, de forma bem resumida, é: a valorização do audiovisual vai muito além do que é pontualmente destacado nos jornais. Trata-se de um processo que exige investimento contínuo para que, no futuro, os resultados sejam colhidos – ainda que isso não aconteça a curto prazo. Temos a recente cota de tela, mas quais filmes realmente chegam ao público? Apenas aqueles com grandes nomes ou com apelo internacional (diga-se, Oscar)? Ou conseguimos, de fato, abrir espaço para produções que representem nossa diversidade cultural? Por isso, é fundamental valorizar as distribuidoras independentes, que tentam furar a bolha e precisam do apoio da mídia para isso. Mas será que essas mídias estão realmente interessadas? Muitos dizem que Ainda Estou Aqui vai ser apenas um fato isolado… Concordo em parte. O cinema brasileiro não vai se transformar sem políticas de produção, distribuição e consumo mais robustas e bem direcionadas, especialmente para além do eixo sudestino. Mas é inegável que o sucesso de bilheteria de Ainda Estou Aqui não se deve apenas à imensa qualidade do filme. Ele ocorreu, sobretudo, por três fatores: A boa distribuição da Sony Pictures Brasil; O apelo dos nomes envolvidos; O hype e a expectativa gerados desde o Festival de Veneza, que se transformaria no ápice: hype do Oscar. Segundo a Comscore e o Filme B, Ainda Estou Aqui registrou um aumento de 231% na bilheteria após a vitória no Globo de Ouro e, após as indicações ao Oscar, retomou a liderança no ranking dos longas mais vistos no cinema, com R$5,3 milhões arrecadados. “Mas Rafael, o filme já havia batido dois milhões de espectadores antes disso.” Sim, mas o boca a boca semanal que manteve Ainda Estou Aqui vivo nos cinemas tem muito a ver com a vitória do filme em Melhor Roteiro no festival italiano. As redes sociais foram dominadas pela expectativa de um “retorno do cinema brasileiro” à temporada de premiações. Desde o início, a Sony soube aproveitar esse hype e levar as pessoas ao cinema. Divulgação Em sua primeira semana, o filme protagonizado por Fernanda Torres assumiu a liderança das bilheterias no Brasil – algo raríssimo no momento atual para um drama nacional. A Vida Invisível, Bacurau (que, claro, não é puramente um drama) e Motel Destino não chegaram nem perto da quantidade de espectadores em suas respectivas estreias. Sim, a distribuição desses filmes foi muito menor, mas eles ainda contavam com um mínimo de hype devido à sua presença em grandes premiações. O filme de Karim Aïnouz foi o representante do Brasil no Oscar em seu ano, ficando à frente de Bacurau, muito por conta de sua distribuição nos EUA pelo Prime Video – que, no entanto, não fez do longa uma prioridade. Já Bacurau, distribuído pela Kino Lorber, foi amplamente prestigiado nos EUA, chegando a vencer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no New York Film Critics Awards. No entanto, não tinha chances reais no Oscar, apesar de ter sido eleito um dos melhores filmes do ano por diversos veículos – assim como o sucessor de Kleber Mendonça Filho, Retratos Fantasmas. Este último foi selecionado pelo Brasil para o Oscar, mas a ausência de um grande distribuidor nos EUA fez com que suas chances fossem escassas. Motel Destino teve um hype inicial, mas acabou "morrendo na praia" para o público brasileiro após uma estreia morna em Cannes. Meu ponto é: não basta apenas ser aclamado ou ter presença em festivais e premiações internacionais, é preciso criar um sentimento de “podemos, sim, chegar ao Oscar com esse filme”. Essa narrativa é facilmente vendida pela mídia, gera uma falsa ideia de patriotismo e, dependendo das circunstâncias, pode se sustentar ou morrer na praia. Divulgação Ainda Estou Aqui tinha tudo a seu favor – aclamação, prêmios e uma narrativa forte –, mas, sem a Sony Pictures Classics por trás de sua distribuição nos EUA e sem a construção da narrativa de "possível candidato ao Oscar", provavelmente teria sido apenas mais um filme aclamado, com muito menos comoção do público brasileiro. Como citado no início do texto, tudo isso não passa de especulação, mas os exemplos anteriores apontam exatamente para essa dinâmica. Concordo com Lucas Salgado, do O Globo, quando ele escreve que a trajetória de Ainda Estou Aqui mostra que "o Oscar precisa mais do Brasil do que o Brasil do Oscar". O engajamento e a comoção dos brasileiros ao redor do filme reforçam essa ideia. No entanto, ao mesmo tempo, acredito que o Oscar ainda carrega um peso de validação para o público brasileiro, deixando-nos presos a essa dualidade. A própria Fernanda Torres aborda essa questão em entrevista ao canal UOL: "O Brasil tem pena do mundo, pena de o mundo não saber o que a gente sabe. Então, quando alguém fura a fronteira e leva algo que nos é pessoal para fora, temos esse sentimento de 'olha o que a gente tem de rico'. Olha o que a gente... É um sentimento de orgulho nacional bacana, bom de sentir." O público brasileiro vê o Oscar como uma oportunidade ímpar de mostrar o país para os gringos, mas, ao mesmo tempo, precisa entender que não depende 100% do prêmio para isso. A diferença que eu espero que aconteça com o nosso indicado ao Oscar, é que as pessoas se interessem mais em descobrir sobre os filmes que estão sendo lançados, ao invés de esperar que eles cheguem até elas. Assim, seguimos nessa encruzilhada: Ainda Estou Aqui será realmente uma exceção, um ponto de virada ou o início de mais um (dos muitos) eternos recomeços para o cinema brasileiro? Só o tempo dirá, mas podem ter certeza de que o Oxente, Pipoca? estará aqui para acompanhar cada passo e, quem sabe, responder essa pergunta no futuro.

  • Crítica | Um Completo Desconhecido

    Timothée Chalamet brilha em cinebiografia tímida e contida. Divulgação Um Completo Desconhecido é uma biografia sobre a vida do astro Bob Dylan, dirigida por James Mangold. Situado na influente cena musical de Nova York do início dos anos 60, Dylan (Timothée Chalamet), o jovem músico de Minnesota, tem apenas 19 anos e caminha rumo à sua ascensão na música. Passando de cantor folk, para as salas de concerto e ao topo das paradas, culminando em sua performance inovadora de rock and roll elétrico no Festival Folclórico de Newport em 1965, definindo um dos momentos mais transformadores da música do século XX. Sempre falo da importância de recorte (ou recortes) na construção de um argumento de cinebiografia levando em conta a impossibilidade de se contar anos de uma vida em horas de um filme. E se não há um recorte preciso, se a produção resolve dar cabo do maior número de fatos na vida de uma pessoa, que haja uma transgressão no modo em que se conta essa história, que haja personalidade o suficiente para destoar aquela cinebiografia de outras tantas existentes. Um Completo Desconhecido acerta em demarcar o período que quer retratar, mas se limita apenas a isso. O roteiro do filme é baseado no livro Dylan Goes Electric! e foca no início da carreira do músico, desde o anonimato, discos folk, visões políticas, até a incrementação de elementos do rock em suas produções, o que deixou grande parte do seu público inicial completamente incomodado. Chega a ser injusto com a pessoa, com o artista, com a entidade que é (e que foi, no sentido midiático) Bob Dylan a feitura de uma cinebiografia tão comportada, contida e, porque não, limitada. Este é talvez o único e grande problema do filme. Falta inventividade, falta ousadia e falta personalidade, características que qualquer pessoa jamais poderá dizer sobre Dylan. Ainda assim, Timothée Chalamet consegue entregar uma atuação milimetricamente emulada de Bob Dylan, incluindo voz e musicalidade, que ainda assim soa orgânica e despreocupada no “querer impressionar”. Edward Norton também desempenha um papel bem elaborado dando vida ao músico Pete Seeger. Divulgação James Mangold é um cineasta que sabe bem o beabá de biografias em filme. Um de seus trabalhos mais reconhecidos é Johnny & June (2005), filme que conta a conturbada história da relação entre Johnny Cash (personagem também presente em Um Completo Desconhecido) e June Carter. E o que ele faz muito bem aqui é galgar o caminho crescente do filme até um final explosivo que acompanha a jornada musical de Dylan (no dado recorte). Este é um filme como muitos outros. Não deixa qualquer marca e não procura em seu protagonista qualquer traço que construa uma relação mínima de identificação, seja na estética ou seja no texto. É um enredo e um personagem que mereciam mais do que um filme chapado e passável. Nota: 3/5

  • Crítica | Better Man - A História de Robbie Williams

    Irreverente e autoconsciente (até certo ponto), biografia de Robbie Williams se distingue em meio à mesmice atual do gênero. Divulgação Talvez seja difícil para nós, brasileiros, mensurar o tamanho da popularidade de Robbie Williams no Reino Unido (embora você provavelmente conheça uma ou outra música dele, como Angels ou Sexed Up). Mas basta dizer que ele emplacou sete singles no topo das paradas britânicas, 13 dos seus 14 álbuns estrearam em 1º por lá, seis desses álbuns estão entre os mais vendidos da história do país e ao longo de sua carreira foram 18 prêmios Brit Awards. Considerando o impacto de sua trajetória e seus altos e baixos — com direito a problemas conjugais, familiares e com drogas —, a vida e carreira de Williams é a receita certa para o atual (e já saturado) modelo de cinebiografias que superabundam a cada temporada de premiações. Que curioso, portanto, que Better Man seja, sob certos aspectos, uma cinebiografia nada convencional. O primeiro e mais óbvio motivo é aquele que já estampa qualquer foto ou pôster de divulgação do filme: ao invés de aparecer como um ser humano, Robbie Williams é transformado em um chimpanzé de CGI antropomorfizado, dublado sobretudo por ele próprio (que também atua como narrador) e Jonno Davies (que também fornece a captura de movimentos). A decisão incomum pode causar certo estranhamento de início, mas não demora a nos habituarmos a essa figura símia a. Além do mais, transformar Williams em um chimpanzé acaba fazendo sentido justamente pelas vezes em que vemos o artista ser comparado a um animal, seja pela família, pelos colegas, imprensa e tantos mais, apelando à ideia de desumanização com a qual muitos popstar são tratados. Mais do que essa curiosa decisão, porém, o que realmente distingue Better Man da seara de cinebiografias “oscarizáveis” é a irreverência com a qual Williams trata sua própria história. Ao menos em sua primeira hora, o filme se comporta como uma sátira musical, abordando com autoconsciência e um pé no exagero, na fantasia e no lúdico a trajetória de ascensão do artista, como evidenciado na performance de Rock DJ, talvez a mais memorável dentre as sequências musicais do filme. Mesmo nunca deixando de seguir de perto a cartilha do gênero — com direito aos problemas paternos, ao empresário malvadão e à descoberta do prazer no luxo e na luxúria —, o filme consegue remodelar essa cartilha à sua própria imagem, entregando algo próprio. Outro ponto importante é justamente o cuidado da obra em não relativizar ou “passar pano” para as ações erráticas de Williams. Sim, a ausência paterna é apontada como uma grande catalisadora para seu comportamento problemático e de bad boy, mas o filme trata o personagem como o responsável pelos seus próprios erros, longe de se configurar uma biografia chapa branca como tantas que temos visto por aí (alô, Bohemian Rhapsody). Nesse sentido, posiciono o longa como uma espécie de irmão mais novo de Rocketman, onde mesmo com a presença de figuras antagônicas óbvias, nunca havia dúvidas sobre a (ir)responsabilidade de Elton John pelos próprios atos. Aqui, aliás, há um nítido — ainda que óbvio — trabalho de apontar para o senso de autoimagem de Williams, que está constantemente em conflito consigo mesmo, sua necessidade de ser amado e adorado e a incapacidade dessa adoração preencher seu vazio interior. Divulgação Infelizmente, quanto mais se aproxima do auge do estrelato do artista e da sua eventual queda, mais Better Man acaba caindo nas armadilhas básicas do gênero. A irreverência e o tom satírico da primeira metade logo dão espaço a uma abordagem mais séria e dramática que, embora não sem seu peso (a montagem da ascensão do personagem e a sequência de Angels são as minhas favoritas do filme, aliás), acabam tirando muito do brilho que o filme tinha a oferecer justamente por não se contentar com um lugar comum. A própria relação dele com o pai, Peter (Steve Pemberton), reflete essa transformação tonal do filme: o final redentor de ambos, regado a lágrimas e à perdão, pode até ter acontecido na vida real, mas não condiz com o próprio tratamento que o longa dá a Peter e aos efeitos da ausência deste sobre Williams, caindo numa abordagem piegas e excessivamente sentimental que faz parecer que estamos vendo uma outra obra daquela das últimas 2h. Ainda que no fim das contas se transforme exatamente no tipo de filme que tentou não ser, Better Man ainda oferece elementos o suficiente para se distinguir em meio à mesmice de cinebiografias medíocres e previsíveis feitas para ganhar prêmios. É a prova de que um clichê pode ser contado mil vezes e não há problema nisso: é a forma pela qual se conta esse clichê que importa. Nem que essa forma seja ver um chimpanzé de CGI antropomorfizado cumprindo toda a tabela do roteiro de ascensão, queda e ressurgimento de um popstar. Nota: 3.5/5

  • Crítica | O Beijo no Asfalto (1981)

    A trágica atemporalidade do moralismo e hipocrisia brasileiros. Divulgação Homofobia, machismo, fake news, violência policial... poderia estar falando do Brasil de 2025 (infelizmente), mas falo do de 1981, palco no qual se desenrola O Beijo no Asfalto, segunda adaptação da seminal peça de Nelson Rodrigues, aqui dirigida por Bruno Barreto e roteirizada por Doc Comparato. A premissa, creio eu, é bastante conhecida: um homem é atropelado no Rio de Janeiro e é socorrido por outro homem, Arandir, a quem pede por um beijo antes de um morrer. Concedido o beijo, Arandir se vê condenado e perseguido pela sociedade, em razão das ações amorais de um repórter sensacionalista, Amado Pinheiro, e um delegado truculento, Cunha. Curiosamente, Bruno Barreto escolhe começar seu filme não pelo beijo em si, mas pelo pós: vemos a polícia chegando na cena do acidente, onde o homem já está morto, e em seguida Amado (Daniel Filho) e Cunha (Oswaldo Loureiro) maquinando o plano que destruirá a reputação de Arandir (Ney Latorraca) em nome da mesquinhez de ambos. Tudo que sabemos de início do beijo parte do relato de Amado para Cunha, ou de Aprígio (Tarcísio Meira), sogro de Arandir, para suas filhas Selminha (Cristiane Torloni) e Dália (Lídia Brondi). Demora para vermos o protagonista ou escutarmos de sua boca seu próprio relato, mas à essa altura é tarde demais: o estrago já está feito e todos têm sua opinião sobre o ocorrido. Nessa omissão do beijo que dá título ao filme, Bruno constrói uma atmosfera de constante ambiguidade, que diz respeito às ações de Arandir e à sua própria sexualidade, posta em cheque por todos, até mesmo pela sua esposa a partir de certo ponto. Importa menos saber se ele é homossexual e sim como seu ato (de gentileza? De paixão?) é lido por uma sociedade tão preconceituosa e moralista, que contrasta seus valores conservadores com uma sede de sangue animalesca, conforme a vida do personagem é destruída até um culminar trágico e surpreendente. A atuação do saudoso Ney Latorraca é essencial para adquirirmos empatia pelo personagem, que permanece irredutível em suas convicções sobre o que fez e também sobre o que sente por Selminha, mesmo quando esta passa a duvidar dele. Sua moralidade em meio a uma sociedade amoral (e também imoral, conforme os vícios e pecados secretos de outros personagens vêm à tona) é sua força e também sua ruína. Divulgação Também se trata de uma atuação que não necessariamente corresponde a um arquétipo social, como evidenciado nas performances de Meira (o patriarcado), Ribeiro (a polícia) e Filho (a imprensa conivente). Tendo sido lançado nos anos finais da ditadura — o período da “lenta e gradual” abertura política, mas ainda de repressões —, O Beijo no Asfalto consegue capturar essa atmosfera ambivalente, onde os progressos feitos por essa sociedade após os ditos “anos de chumbo” não eliminam a carga histórica de preconceitos e violências (especialmente simbólicas) que diariamente moem tantos Arandirs até hoje. Assistir O Beijo no Asfalto sob a luz do recrudescimento do conservadorismo e do fascismo no Brasil atual só aponta para a genialidade do texto original de Nelson Rodrigues — que, vale lembrar, é de 1961 —, mas também expõe a nossa própria falência e podridão enquanto sociedade. Com um dos melhores e mais emblemáticos planos finais do cinema brasileiro (“Arandir, Arandir, Arandir...”), é uma pequena obra-prima que merece ainda mais reconhecimento, não só por adaptar com êxito uma das peças mais notórias de um dos nossos maiores dramaturgos, mas por (lamentavelmente) dialogar tão com o Brasil de 1961, 1981 ou 2025, mostrando que os piores traços de nossa sociedade seguem firmes e fortes. Nota: 4.5/5

  • Crítica | Aos Pedaços

    Obra instigante que se enclausura em suas escolhas estéticas. Divulgação Assistir a filmes de cineastas nonagenários sempre me desperta o interesse, é como se estivéssemos presenciando uma obra de alguém que tem muito a dizer. O cineasta Ruy Guerra, já consagrado por obras como Os Fuzis (1964) e Os Cafajestes (1962) retorna em mais um longa-metragem em preto-e-branco com Aos Pedaços (2020). Cito o preto-e-branco em especial pois é uma estética adotada justamente pelo uso de luz e sombra que é adotado pelo cineasta. Em Aos Pedaços, Ruy Guerra faz um exercício do estilo para desenvolver a premissa de um homem bígamo que acredita que vai ser assassinado por suas amantes, vivendo tudo quase como um sonho febril. Sonho esse que é retratado com bastante impacto visual, mas que por outro lado tende pro lado teatral mais verborrágico da coisa. A paranoia vivida pelo personagem principal Eurico Cruz (Emílio de Melo) é potencializada pelo texto do filme, que vem muitas vezes através de monólogos do personagem. Há um sentimento de angústia e paranoia que cerca toda a obra, mas que me parece repetitivo quando representado pelo personagem principal. Por outro lado, as personagens Simone Spoladore e Christiana Ubach, que dão vida a Ana e Anna, enriquecem a obra com uma dinâmica quase que Bergmaniana, como se evidenciasse como uma funcionasse como reflexo da outra. O filme se sustenta bastante em criações imagéticas que acabam se tornando um tanto cansativas, e esse sentimento de fadiga acompanha a obra dentro e fora do texto, já que acompanhamos um homem projetando suas angústias. Mas ainda assim, há um certo charme na melancolia que é posta através da montagem do filme, que se repete em poucos cenários, provocando uma inquietação no espectador nessa dinâmica de espaços. Divulgação Por fim, a teatralidade acaba caindo num território protocolar dentro de uma verborragia filosófica que acabou não funcionando muito bem comigo. E certamente há uma potencialização imagética, mas quando tentamos realizar a equação do que é visto com o que é dito, esse fluxo verbal não funciona tanto quanto as imagens, mas quando funciona Ruy Guerra consegue entregar algo muito interessante, pena que parecem lapsos do que poderia ser um grande filme para além de um exercício estilístico. Nota: 2.5/5

  • Crítica | Homens de Barro

    Releitura LGBTQIA+ de Romeu e Julieta apresenta ótimas ideias, mas peca por uma apática execução Divulgação Não é nenhum exagero dizer que Romeu e Julieta é a história de amor mais famosa de todos os tempos — mesmo que seja também uma história permeada pela tragédia, a qual acompanha as várias narrativas que beberam da sua fonte, como Amor, Sublime Amor. Em seus primeiros minutos, Homens de Barro já nos revela que terminará em tragédia, abrindo in medias res com os corpos sem vida de dois dos seus protagonistas, antes de voltar no tempo para mostrar como tais mortes foram a culminação de anos de disputa entre duas famílias rivais nessa pequena cidade sem nome no Rio Grande do Sul — e como um romance proibido emergiu em meio a essa disputa. Longa de estreia de Angelisa Stein (que co-dirige com o argentino Fernando Musa), Homens de Barro usa a base clássica de Romeu e Julieta — aqui enquadrada sob um prisma LGBTQIA+ — para discutir a natureza tóxica e destrutiva da masculinidade. O que começa com uma rivalidade entre Oscar Tamai (Cassiano Ranzolin) e Élvio Miranda (Rafael Guerra) é passado como uma doença infecciosa para seus filhos Pássaro e Marciano, cuja amizade pura e inocente da infância é dissolvida pelo ódio mútuo entre esses dois homens e suas consequências trágicas. Diria que esse prólogo é uma das melhores partes do filme, justamente porque ali naqueles 15-20 minutos iniciais são apresentados quase todos os fundamentos que vão nos ajudar a entender a dinâmica desses personagens em suas versões adultas, conforme são moldados pelos pais a serem um determinado tipo de homem naquele ambiente patriarcal e retrógrado. Entretanto, é justamente quando avança para o presente que os principais problemas do filme aparecem. A aparente rivalidade das duas famílias, que haveria de ser expressa na relação de Pássaro e Marciano (Gui Mallmann e Alexandre Borin em suas versões adultas) é praticamente deixada de lado até retornarmos à cena que abre o filme. Na verdade, o personagem de Borin é praticamente deixado de lado até os 20 minutos finais do filme, conforme o filme prefere focar na relação romântica que emerge entre seu irmão caçula Ângelo (João Prates) e Pássaro. Contudo, considerando que praticamente nada vemos de Ângelo no prólogo do longa, esse desvio de foco narrativo de um irmão para o outro é tratado de uma forma abrupta, assim como a própria aproximação do casal principal. Mesmo a utilização da narração em off de Ângelo acaba sendo um equívoco, visto que sua redundância é nítida a cada vez que é usada (soando mais como uma espécie de atalho para dar conta da enxuta duração de 72 minutos do filme), além do fato de que o próprio personagem recebe pouco desenvolvimento, soando mais como uma ideia do que como uma pessoa de fato dentro da trama. Divulgação O filme consegue pincelar momentos que exploram bem esses efeitos nocivos da masculinidade tóxica e frágil que permeia esses homens — como os comentários sexistas do amigo de Pássaro, Nando (Bruno Fernandes III), ou a falha tentativa de reaproximação de Marciano com Ângelo que apenas revela as fissuras deixadas pela criação machista do pai — mas são momentos isolados que perdem sua força no contexto geral da obra. Por outro lado, se o contato inicial de Pássaro e Ângelo não convence, o desenrolar da sua relação romântica e sexual é um dos maiores acertos do longa, com a câmera de Stein sabendo explorar e filmar seus corpos com uma tocante sensibilidade e sensualidade que, também através da fotografia de Bruno Polidoro, formam um nítido contraste ao ambiente tão embrutecido em que esses personagens vivem. Apesar desses destaques, porém, o saldo final de Homens de Barro acaba sendo de uma obra que, mesmo com uma premissa rica e repleta de possibilidades, acaba caindo numa execução burocrática e um tanto apática, como evidente na encenação da cena climática. Não sei o quanto isso pode ser creditado à sua curta duração, mas fica evidente que diversos pontos da obra poderiam ter recebido um melhor desenvolvimento, restando ao final a sensação de ser um filme inseguro em abraçar mais desse contraste entre a prisão da masculinidade tóxica e a libertação oferecida através do romance entre seus personagens. Nota: 2.5/5

  • Crítica | O Brutalista

    Filme é consistente em sua densidade dramática, mesmo deixando funcionalismo de lado Divulgação Em fuga da Europa do pós-guerra, o arquiteto visionário László Toth (Adrien Brody) chega à América para reconstruir sua vida, seu trabalho e o casamento com sua esposa Erzsébet (Felicity Jones), depois da separação forçada durante a guerra por mudanças de fronteiras e regimes. Sozinho em um novo país estranho, László se estabelece na Pensilvânia, onde o rico e proeminente industrial Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce) reconhece seu talento para a construção. Mas poder e legado têm um custo muito alto. O Brutalista não é um filme sutil, mesmo saudando o brutalismo e suas características enquanto arquitetura, design e forma de expressão, ele mira na grandiosidade e acaba, por vezes, sendo apenas grande. O brutalismo é uma corrente da arquitetura que surgiu na Europa por volta dos anos 50 e que tinha/tem como algumas das características principais o funcionalismo, elementos modulares, paletas de cores monocromáticas, exposição dos materiais usados e formas geométricas contundentes. Não vou querer inventar ou pensar em analogias ligando a corrente ao filme, mas, de toda forma, mesmo mantendo uma unidade visual e temática, deixa completamente o funcionalismo de escanteio. É claro quando um filme é um trabalho feito com paixão por um cineasta e quando é meramente comercial. Este é um longa que o diretor Brady Corbet aparentemente não queria que terminasse. Digo isto pelo excesso de detalhes, de closes, de objetos e até mesmo de sons que acabam inflando a experiência para além do que merecia, mas que transparece o apego zeloso que Corbet teve por aquilo que estava montando. E é esse paradoxo que faz o filme funcionar e que também faz ele se perder. É isto que aproxima e distancia cineasta, personagem e temática. Como falei, o que parece grandioso só é extenso demais, ainda assim o resultado impresso é de um filme caro, imponente e refinado, mesmo não construindo um objeto preciso e definido. Filmado em VistaVision com rigor técnico explícito, o visual sempre apresenta texturas e cores consonantes através de uma fotografia de baixa saturação e excelentes contrastes. A direção de arte é um deslumbre. Através de mobiliários, formas e materiais, o filme situa o espectador nos parâmetros da corrente brutalista numa espécie de aula de campo imersiva onde o modernismo (nem sempre o brutalismo) domina e dita as regras. A trilha sonora passivo-agressiva de Daniel Blumberg é outro destaque na ambientação densa e cínica do enredo. E é nessa densidade narrativa que o roteiro é embasado. É um filme de drama que não tenta fugir do drama e gosta de explorá-lo sem pressa e sem pudor. Divulgação Quase todos os personagens carregam um fardo negativo que interfere nos problemas mal resolvidos uns dos outros. Tem drama familiar, drama pessoal, drama político, drama histórico e até drama geográfico. O texto não economiza nesse peso e, mas senta a mão mesmo é na segunda das duas partes em que o filme se divide (sem contar com um epílogo que destoa do tom das duas partes e que parece ter sido forçado para caber como uma justificativa do que o roteiro queria ter dito e não conseguiu). Apesar do drama constante e da mesma tonalidade apreensiva, fria e em alguns momentos misteriosa, essa segunda parte parece carregar mais do que pode comportar, e desde a elaboração de diálogos até o encerramento propriamente dito, a distribuição dos pontos de inflexão parecem não harmonizar. Adrien Brody faz o papel de coitado sonso como ninguém. E todo o elenco de coadjuvantes que o cercam conseguem entregar personagens bem desenvolvidos e marcantes. No entanto, Felicity Jones esbarra no sotaque e nos maneirismos de uma personagem que é a cara da segunda parte. Arquitetado como uma cinebiografia daquelas de grandes gênios incompreendidos, O Brutalista tem muito a transmitir e evita atalhos, evita uma objetividade que tornaria o filme mais desenvolto e ágil, mas não menos diligente e eficiente. É um filme que se vende como importante e que aparenta importância, mesmo que o espectador não sinta qualquer reação àquela história. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Cobra Kai (6ª temporada)

    Com um desfecho sólido e emocionante, a série mostra que é, e sempre foi, sobre Johnny Lawrence. Divulgação Após 7 anos, a jornada de Cobra Kai chegou ao fim. A produção, que começou sua história sob o teto do finado Youtube Red com o propósito de dar ao personagem de Johnny Lawrence (William Zabka), vilão do filme original, o protagonismo que os fãs da franquia original sempre sonharam, migrou para a Netflix a partir de sua 3ª temporada, onde parece ter encontrado um verdadeiro lar para ampliar seu enredo cheio de galhofas à moda dos anos 80. E, diga-se de passagem, o charme nostálgico nunca se perdeu. Apesar dos altos e baixos ao longo de seis temporadas - sintomas de um prolongamento para além do necessário -, a série nunca pecou no seu aspecto mais consagrado: honrar o legado do sucesso de 1984. Neste último ano, o saudosismo ainda está lá, seja pelo retorno de personagens que marcaram a trilogia original ou pela trilha sonora nostálgica. No entanto, a temporada final também trouxe um toque de inovação ao longo de seus 15 episódios, o que, para o bem ou para o mal, traz um novo ingrediente para aquilo que já vínhamos acompanhando incessantemente há anos. Pensada para ser uma história com 3 “mini-temporadas”, cada pedaço da sexta temporada apresentou início e desfecho de suas tramas. A primeira, lançada em julho de 2024 nos recebeu com a aparente derrota de Terry Silver (Thomas Ian Griffith) e resolução do constante quarteto amoroso entre Sam (Mary Mouser), Miguel (Xolo Maridueña), Robby (Tanner Buchanan) e Tory (Peyton List). Nessa largada, é altamente perceptível a perda de ritmo, que sacrifica alguns desenvolvimentos pessoais de personagens que já tiveram seu arco de autoconhecimento concluído, apenas para justificar a extensão da história com cinco episódios a mais em relação aos anos anteriores. Exemplos disso foram o retorno de Tory ao Cobra Kai de Kreese (Martin Kove) e os constantes desentendimentos entre LaRusso (Ralph Macchio) e Lawrence, que voltaram a ocupar espaço sem agregar novas camadas à narrativa. Ainda assim, esse susto inicial de estarmos diante de um finale com “mais do mesmo” foi, todavia, dispersado à medida em que tivemos acesso às Partes 2 e 3. Como mencionado acima, a inclusão de novos ingredientes à trama se tornou muito bem-vinda à medida em que o enredo nos levava a terrenos mais elevados; exemplos disso são novas descobertas sobre o passado do até então ilibado Sr. Miyagi, que coloca a admiração de Daniel-san em xeque, como também a transferência da ambientação, que sai do Vale de Los Angeles e vai até Madrid para a disputa do mundial “Sekai Taikai”. Com isso, os desafios parecem exigir muito mais em termos de tensão dramática, com consequências reais e, por vezes, inacreditáveis, em especial à forma como termina a parte 2. Em termos mais técnicos, essa ousadia trazida com o fim da série também nos proporcionou a oportunidade de ver um pouco mais do alcance emocional do elenco principal, que quase se desfez em lágrimas em uma cena ou outra. Destaque aqui para a interlocução entre Kreese e Lawrence em um dos episódios finais, em uma sequência digna de nota por sua intensidade e carga emocional, um momento de fragilidade que não estávamos acostumados a ver dessas duas peças. Assim, ainda que em muitos momentos haja escolhas de roteiro que não parecem fazer muito sentido ou sejam extremamente previsíveis, o saldo é positivo. Esses tropeços, embora notáveis, não chegam a comprometer a experiência como um todo. A série compensa suas falhas com momentos de alta emoção, cenas de ação empolgantes e um carisma inegável dos personagens, entregando um desfecho que, no geral, faz jus à sua trajetória e ao carinho dos fãs. Divulgação Encerrar algo que fez tanto sucesso agradando a todos é sempre uma tarefa árdua, para não dizer quase impossível. Ainda assim, por mais que parecesse improvável que isso acontecesse logo com Cobra Kai, é preciso das às devidas vênias: estamos diante de um final perfeito, pelo menos para aquele universo, que endereça suas expectativas com louvor e nunca se leva a sério quando o assunto é breguice, mas sempre mantém o respeito àquilo que a tornou tão cativante ao longo dos anos. Aqui temos um ponto central em toda a jornada que merece destaque: a série sempre foi, e continua sendo, sobre Johnny Lawrence. Embora tenha sido colocado de lado em alguns momentos ao longo das temporadas, o retorno do personagem ao centro da trama acontece de forma quase orgânica. Johnny, que começa como um perdedor preso ao passado e ressentido com a vida, evolui para sensei, pai de menina e, finalmente, campeão mundial de karatê. Sua jornada é marcada por altos e baixos emocionais, que desembocam em um crescimento pessoal sincero e extremamente comovente. Ver essa evolução, culminando em sua redenção completa, é o verdadeiro coração da série. No fim das contas, Johnny Lawrence é o nosso verdadeiro Karate Kid, mostrando que, mesmo décadas depois, é possível encontrar novos caminhos e reescrever a própria história. Com direito a (muita) pancadaria, melodrama e até efeitos especiais mais elaborados que não faziam parte dos ingredientes das temporadas passadas, Cobra Kai encerra sua jornada no auge. Sendo um dos produtos mais adorados da Netflix, a série conquistou uma legião de fãs ansiosos pelo desfecho (incluindo este que vos escreve), entregando o equilíbrio perfeito entre nostalgia, ação e uma conclusão emocional para os arcos de personagens tão carismáticos. Brega como nunca, divertida como sempre, Cobra Kai prova que, de fato, nunca morre. E, embora a história tenha chegado ao fim, é impossível não sentir uma saudade desse universo que, por tanto tempo, nos fez rir, torcer e acreditar na força do karatê, por mais ridículo que isso soe. Nota: 4.5/5

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