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- Entrevista | Rafael Carvalho fala sobre a importância da Mostra Cinema Conquista: "Um festival é uma vitrine"
Em entrevista ao Oxente Pipoca, o crítico de cinema e curador discutiu sobre o papel da Mostra no cenário Como você enxerga o papel do crítico no ecossistema de uma Mostra como a Cine Conquista? Rafael Carvalho: A nossa mostra tem um orçamento limitado para trazer críticos de fora, mas eu acho que era a coisa da “crise da crítica”. Acho que não se tem mais aquele “grande crítico” que todo mundo conhecia; você tem os nichos, um crítico
- Crítica | Cara-de-Barro
Suspense se apresenta e se resolve bem mesmo “fora de contexto” dos quadrinhos Divulgação Matt Hagen é um jovem de Gotham cuja rápida ascensão como astro de Hollywood é interrompida quando um criminoso o deixa gravemente desfigurado. Abandonado e desesperado, ele procura um tratamento experimental capaz de restaurar sua aparência. O procedimento funciona, mas provoca consequências inesperadas que afetam sua percepção da realidade e o conduzem por um caminho destrutivo de vingança. Gosto, antes de tudo, que Cara-de-Barro é um filme que se sustenta por si só, sem precisar do contexto de duzentos outros filmes de heróis para se apresentar ao público. Embora se passe em Gotham e faça parte do universo do Batman, a produção funciona muito bem como um suspense policial com elementos de ficção científica sem se apoiar necessariamente nos ditos easter eggs. Se o nome da cidade não fosse mencionado, seria perfeitamente possível acompanhar essa história sem associá-la ao universo dos quadrinhos. O texto conhece suas próprias possibilidades e não depende de referências externas para moldar sua identidade. O roteiro amarra bem os pontos e conduz a narrativa com segurança e aposta em uma abordagem que, de certo modo, é até contida. Mas acaba por criar uma elegância própria dentro dessa contenção. A decisão de não exagerar nas infinitas possibilidades de deformação física do protagonista ou transformar os efeitos visuais em um espetáculo constante confere ao trabalho um estilo particular, com mais textura e personalidade. O horror corporal aparece de maneira eficiente, acompanhado por elementos noir que ajudam a constituir uma atmosfera incômoda, sem que a produção precise recorrer aos excessos para provocar o espectador. Essa escolha também se reflete na construção dos personagens, que sustentam boa parte da narrativa sem tantos recursos visuais e de ação (o que é bastante comum em filmes do gênero). As atuações são precisas, com uma força de expressão que não requer grandes gestos ou diálogos explicativos para transmitir o que cada personagem carrega. O texto cuida em apresentar suas motivações e seus conflitos sem subestimar a inteligência do público, mas também sem deixar lacunas importantes para a compreensão da história. Tudo parece ocupar o espaço necessário, sem muitas arestas e sobras e sem a necessidade de transformar cada cena em um grande acontecimento. Cara-de-Barro parte de um enredo até bem simples, mas sabe utilizar sua estrutura narrativa como caminho para torná-lo muito mais rico. As camadas que surgem ao longo da trama ampliam os horizontes da história, acrescentam detalhes e dão profundidade aos personagens sem tornar a experiência mais “complicada” do que deveria. O filme entende que o enredo não precisa ser grandioso ou ramificado demais para alcançar resultados expressivos. Basta saber o que contar e como contar Nota: 4/5
- Crítica | John Wick 4: Baba Yaga
O pináculo de uma franquia que mudou os rumos do cinema de ação hollywoodiano Foto: Divulgação A cada filme de John Wick, me pergunto se o diretor Chad Stahelski e o roteirista Derek Kolstad tinham em mente desde o primeiro longa que transformariam uma enganosamente simples história de um homem vingando seu cachorro em uma franquia definida por uma das mitologias mais sólidas e impressionantes já vistas em Hollywood. Ampliando o escopo do seu universo sem nunca perder de vista seu principal atrativo — suas cenas de ação —, a dupla não apenas reavivou a carreira de Keanu Reeves no papel-título, como ofereceu um frescor ao gênero de ação que era mais do que necessário após anos de mediocridade. Mesmo assim, havia um temor natural de que essa expansão a cada filme pudesse desgastar a história, como se o sucesso crescente da franquia subisse à cabeça de seus criadores. Felizmente, esses medos se revelam infundados após se assistir John Wick 4: Baba Yaga, já que o filme não apenas retém tudo que os antecessores tinham de melhor, como ainda consegue introduzir novos elementos e personagens que solidificam esse universo. Stahelski e os roteiristas Shay Hatten e Michael Finch (que substituem Kolstad) conseguem não apenas criar uma obra que merece o adjetivo de “épica” sem soar exagero, mas que também é surpreendentemente humana e íntima. Muito desse mérito vem do entendimento de que, uma vez que a figura de John Wick já foi tão bem estabelecida nos filmes anteriores, não faz mal termos mais dos outros personagens, sejam os velhos ou os novos. Uma das (muitas) perguntas que John Wick 4 faz é: como a vingança iniciada por John lá no primeiro filme e transformada em uma guerra aberta contra a Alta Cúpula impacta os seus aliados e inimigos? Não apenas a morte de um dos personagens mais importantes da franquia já ilustra um dos princípios mais bem-estabelecidos dessa mitologia — regras e consequências —, mas a introdução dos novos personagens amplia o nosso olhar, principalmente pela maneira orgânica como são inseridos na trama mesmo a essa altura. As atuações de Donnie Yen como Caine — um assassino cego com uma trajetória que reflete a de John — e Hiroyuki Sanada como Koji — o gerente do Hotel Continental de Osaka e velho amigo do protagonista — dão peso o suficiente para que aceitemos toda a trajetória que eles possuem com John Wick. Além disso, as inserções do enigmático Mr. Nobody (Shamier Anderson), a concierge Akira (Rina Sawayama numa ótima estreia nos cinemas) e do abjeto vilão Marquis de Gramont (Bill Skarsgard) dão estofo à história e a enriquecem — e eu gostaria de ver pelo menos dois ou três spin-offs baseados em alguns deles. Foto: Divulgação Mas não se engane: esse filme ainda é de John Wick. Se o personagem é apelidado de “Bicho-Papão” (“Baba Yaga”) não à toa, o trabalho de Keanu Reeves nunca nos permite esquecer da humanidade que ele possui, mesmo quando é o mais mortífero possível. Sim, o vemos matar impiedosamente dezenas e dezenas de inimigos das mais variadas maneiras (e é admirável a criatividade da equipe de produção em sempre inovar nas mortes), mas o diferencial está em quando o vemos se cansar, ser atingido e ferido, em sua vulnerabilidade e humanidade. Se o filme também pergunta o custo desta guerra de um homem só a outras pessoas, também pergunta se John faz o que faz apenas para sair dessa vida de violência ou se é capaz de mudar esta natureza, e o final agridoce oferece uma resposta. O intimismo dessas perguntas e desses momentos é balanceado pelas proezas técnicas das cenas de ação. É curioso que o longa vá na contramão dos anteriores para restringir essas cenas a três grandes sequências que norteiam cada ato, seja em Osaka, Berlim ou Paris. Embora isso signifique que em alguns momentos ele se arraste um pouco (a duração de 2h49 nem sempre se justifica), isso é plenamente justificado pela grandiosidade das sequências. Com elas, Stahelski comprova que é definitivamente o maior diretor de ação de Hollywood hoje em dia, elaborando setpieces variados e mantendo sua assinatura — sequências com o mínimo de corte que não escondem a violência, a brutalidade e a elegância, e amparadas pela fotografia neo-noir de Dan Lausten. É visível como ele busca se superar sem no entanto soar arrogante e se perder no processo; em particular, o clímax estendido em Paris pode muito bem ser uma das melhores, senão a melhor, sequência de ação da história do gênero em Hollywood, com direito até mesmo uma belíssima referência aos filmes de faroeste, em particular O Bom, o Mau e o Feio. Mesmo pecando um pouco em seu ritmo, John Wick 4: Baba Yaga é um encerramento glorioso para a jornada de John Wick nos cinemas e faz jus ao que foi feito na franquia até aqui, elevando-a (ainda mais) a um novo patamar. Mesmo servindo como uma espécie de “final” a essa história, certamente não é o fim deste universo nos cinemas — não apenas pelos filmes e séries derivados já anunciados, mas por aqueles com potencial para surgirem a partir do mostrado aqui. Resta torcer para que a excelência e supremacia do universo de John Wick se mantenha, já que após este quarto capítulo, fica a certeza de que Keanu Reeves, Chad Stahelski e tantos outros criaram com êxito uma das maiores e melhores franquias da história do cinema de ação em Hollywood e que mudou o gênero para sempre. Nota: 4,5/5
- Crítica | Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (1ª temporada)
acima de tudo o personagem e sua inteligência, sua visão de enxergar além do básico, do que é esperado, mostra
- Crítica | Tipos de Gentileza
Yorgos projeta estudo sobre crenças humanas, mas não vai muito além do rascunho Foto: Divulgação O filme que disputou a Palma de Ouro apresenta três histórias entrelaçadas que exploram os caminhos imprevisíveis da vida e os desafios pessoais de seus protagonistas. Em uma narrativa, um homem busca recuperar o controle de sua vida após se perder em um caminho incerto. Em outra, um policial tenta reconstruir seu relacionamento com a esposa, que retorna misteriosamente após um período desaparecida, transformada de maneiras que desafiam sua compreensão. Por fim, uma mulher determinada a se tornar líder espiritual se lança em busca de uma pessoa dotada de habilidades únicas, numa jornada que testará sua própria fé e convicções. Depois de passar por trabalhos mais pré-moldados o cineasta grego Yorgos Lanthimos volta a acenar para seus traços originais e, digamos, menos convencionais, retomando a parceria com o roteirista Efthymis Filippou. Mas até quem conheceu o trabalho de Yorgos no auge de sua autêntica esquisitice vai perceber que agora ele busca um diálogo maior com o comercial. A estrutura narrativa de antologia e a temática de mistério fantástico (?) fazem lembrança imediata a pioneira Além da Imaginação (The Twilight Zone). A série que até hoje influencia ideias e roteiros mundo à fora usava das mais variadas alegorias visuais e estilísticas para abordar os limites da natureza humana. E apesar de querer esbanjar um alto valor de entrelinhas e excentricidade, o texto e o título querem basicamente brincar com as perspectivas do poder da crença e das paixões humanas. Foto: Divulgação A primeira história indubitavelmente funciona melhor do que as duas seguintes pelo efeito surpresa que gradativamente vai perdendo a força nos capítulos 2 e 3. É uma ideia que funciona até literalmente se tornar irritante e entediante. A direção do cineasta segue taciturna e passadas duas horas a cadência das ações já não consegue atingir uma fluidez que se sustente mesmo sendo três enredos diferentes, mesmo tendo alívios cômicos com bastante ironia e sarcasmo e mesmo com os absurdos que o argumento usa para garantir que o espectador ainda esteja acordado. Um dos aspectos que mais me admira no cineasta grego Yorgos Lanthimos é sua confiança com o elenco. Ainda que nos mais tolos de seus filmes ele sempre coloca as atrizes e os atores em situações pouco ou jamais exploradas em seus currículos. Apesar de todo o elenco está visivelmente comprometido em transmitir o máximo de credibilidade nos inimagináveis contextos criados no filme, Jesse Plemons é a grande estrela e consegue puxar para si os melhores momentos. Ao final fica parecendo que o filme atira para tudo que é lado no desespero por passar mensagens ou lições de moral, mas a verdade é que ele acerta poucos alvos e não atinge tão distante quanto mirou. Nota: 3/5
- Crítica | Deadpool & Wolverine
Se esse for o novo MCU, um futuro deprimente nos aguarda Foto: Divulgação Não é novidade para ninguém que os filmes de super-heróis atingiram seu ápice de popularidade alguns anos atrás e posteriormente começaram a sofrer grandes rejeições pelo público em geral e até por aqueles que eram apaixonados por esse universo, mas que ficaram saturados de ver tanto do mesmo, produção após produção. É nesse cenário de fracassos e descontentamentos - com alguns poucos filmes que se salvam - que surge Deadpool & Wolverine, a mais recente aposta da Marvel que tem como carro-chefe o apelo pela nostalgia e a enxurrada de fan service. Olhando para trás e analisando os dois longas anteriores do Deadpool já dava para esperar o que encontraríamos nesse terceiro filme, de piadinhas que quebram a quarta parede até zoação com todo universo cinematográfico da Marvel. Só que dessa vez teríamos uma contribuição a mais, ninguém menos que o Wolverine, adorado por tantos e interpretado pelo querido Hugh Jackman. Logo pensei que não era tão difícil errar nesse, afinal bastava entregar uma boa aventura com algumas pitadas de fan service para agradar aquele fã mais exigente. Infelizmente eu estava bastante enganada a respeito. O alívio cômico, adorado por tantos e presente nos longas anteriores, quando usado vez ou outra durante o desenvolvimento da narrativa conseguiam até trazer um bom equilíbrio para contar a história. Aqui, contudo, o excesso e o exagero de piadinhas que podem até agradar outro público, mas que não me agradaram nem um pouco, serviu somente para diminuir ainda mais minha paciência com o filme que não caminhava para lugar nenhum e que a cada duas frases soltava algo sem sentido somente para ocupar espaço e tempo na tela. Foto: Divulgação Deadpool & Wolverine se pauta unicamente na nostalgia e faz dela seu maior pilar para tentar contar alguma história. No entanto, para a surpresa de quase ninguém, não é só de fan service que se faz um bom filme e isso fica escancarado aqui. Com um roteiro que não vai a lugar nenhum, basicamente inexistente, um fan service excessivo, que até satura, lutas que não empolgam e uma vilã extremamente fraca, praticamente nada nesse longa se sustenta ou se salva, a não ser a trilha sonora que renderam alguns poucos momentos bons. Sinto que a Marvel colocou muitas de suas fichas nesse filme esperando desesperadamente o sucesso e o fim da fase ruim, mas se esse era o trabalho capaz de dar uma respirada e um alívio na Marvel, saio sem muita confiança no que o futuro do MCU tem a oferecer. Mesmo não esperando muita coisa e com baixas expectativas ainda consegui sair decepcionada. No final, o saldo foi um ou outro risinho singelo e fraco, não mais que isso. Nota: 2/5
- Crítica | Assassino Por Acaso
Identidade, desejo e o star power de Glen Powell num dos melhores filmes do ano Foto: Divulgação Viver é um constante encenar-se. Quem somos nós perante o mundo, as pessoas à nossa volta? Quais máscaras escolhemos a depender dos ambientes onde estamos? No cinema de Richard Linklater a identidade é sempre um tema recorrente, seja na dimensão romântica da trilogia Before, no amadurecimento de Boyhood ou até no ato de borrar as linhas entre diferentes personas de O Homem Duplo. Em Assassino por Acaso, essa temática já é apresentada nos primeiros momentos, quando vemos o protagonista Gary Johnson (Glen Powell) a discutir com seus alunos na faculdade que dá aulas em Nova Orleans. Mais do que num aspecto didático e verborrágico, porém, o filme consegue apresentar esse jogo de identidades e personas através da vida monótona de Gary. O próprio fato dele colaborar com a polícia da cidade em casos de flagrantes já é por si só um bom indicativo de que dentro dele pulsa o desejo por uma vida diferente, de ser outra pessoa, e essa oportunidade aparece quando ele precisa personificar diferentes “assassinos profissionais falsos” para pegar esses suspeitos em flagrante. Mas quando seu caminho se cruza com a de Madison Figueroa (Adria Arjona) e ela se apega a uma de suas personalidades como assassino — o sedutor e charmoso Ron —, logo Gary se vê dividido entre o homem que é e o que deseja ser. Linklater é um exímio artesão de roteiros, e o de Assassino por Acaso, coescrito com Powell, consegue essa proeza de convergir discussões psicológicas, filosóficas e existenciais que poderiam se perder em sua densidade, tratando-as com uma notória acessibilidade e simplicidade (que não é o mesmo que simplismo). O próprio aspecto didático do filme, exemplificado nas cenas de Gary dando aulas, é por si só muito bem-encaixado no decorrer da trama pra discutir e prenunciar aspectos dela. A maneira como Gary navega entre diferentes personalidades — e gradualmente se vê mais confortável como a de Ron — é organicamente alocada numa embalagem da comédia romântica/policial e até do neo-noir, com o uso de elementos como o voice over e a femme fatale . Foto: Divulgação Mas mesmo ao agregar referências de diversos gêneros e propostas, Linklater evita um erro comum do cinema contemporâneo: cair num lugar de autoconsciência quase cínica, onde o filme precisa demonstrar a todo instante que sabe com que gêneros está trabalhando e que, portanto, está acima deles. O que acontece aqui é o contrário: Assassino por Acaso abraça o absurdo de sua premissa (ligeiramente baseada numa história real, inclusive) e a trata com sinceridade, como atesta o próprio uso do voice over . Assim, tornam-se críveis as transformações e oscilações de Gary no que se refere à(s) sua(s) personalidade(s) — com um interessante jogo metalinguístico sobre a própria natureza do que é atuar —, bem como o culminar da obra, que rejeita um moralismo pedante para honrar a jornada de seus personagens principais. Outro fator importantíssimo para que essa jornada seja abraçada por nós, espectadores, vem justamente através do talento de Glen Powell, que consegue sair aqui da sombra que o vinha acompanhando nos seus últimos filmes: um galã carismático condenado a personagens de uma nota só. É possível se maravilhar com o carisma e charme do ator em seu Ron ou outra das personas, mas Powell — que já vem trabalhando com Linklater há quase 20 anos — tem a oportunidade de transitar entre diferentes identidades, sumindo por trás de personalidades tão distintas (e um subestimado trabalho de maquiagem) e constatando que é sim um dos nomes mais interessantes e talentosos de sua geração. Da mesma forma, Adria Arjona é um deleite em seu papel de femme fatale, brincando com as expectativas de Gary/Ron e do público durante o segundo e terceiro atos. Inclusive, é através da química ardente e cheia de desejo e tesão do casal principal que o filme encontra um dos seus maiores trunfos, além de reverberar a ideia de encenação aqui proposta; prova disso é a brilhante cena em que eles precisam “atuar” numa discussão conforme um dirige ao outro quanto ao que dizer e como reagir. Nessa tensão quanto a quem somos vs. quem desejamos ser e o preço que estamos dispostos a pagar por isso, Assassino por Acaso me lembrou inclusive — e digo isso com muita humildade — o meu conto A Outra Ana . Claro que Linklater é um artista muito mais talentoso que eu, visto que sua versatilidade e capacidade de hackear os códigos de Hollywood é o que faz dele um dos melhores e mais brilhantes diretores estadunidenses dos últimos 30 anos. Assassino por Acaso é outro ponto forte de sua carreira, apresentando uma temática que lhe é tão cara (e que poderia facilmente alienar o público) numa embalagem nova e fresca e desde já despontando como um dos melhores filmes do ano. Nota: 4,5/5
- Crítica | A Filha do Palhaço
A arte irônica do cômico e do trágico Foto: Divulgação/ Embaúba Filmes Imagine que você tenha que conviver por um tempo com um familiar com quem você não tenha proximidade, intimidade, e que não se sinta tão à vontade próximo. Seria estranho, não é? Porém, imagine também que você precise desse momento de aproximação para esclarecer alguns pontos e questões da vida e entre os dois. Parece menos assustador, certo? Bem, é assim que temos A Filha do Palhaço. A adolescente Joana (Lis Sutter), decide passar um tempo na casa de seu pai, Renato (Demick Lopes). Os dois nunca tiveram um relacionamento de pai e filha normal, ela, que morava com a mãe, só tinha a rápida presença dele nos natais, então é aparente a mágoa que há naquele contato inicial. Uma raiva contida da filha e, ao mesmo tempo, uma curiosidade e necessidade de conhecer aquele homem a quem chamava de pai. O desenvolvimento da trama acontece em volta dessa convivência, e a partir dela vai moldando a história dos dois e, principalmente, as questões pessoais do pai. Enquanto nos apresenta aquela dança de sentimentos e ressentimentos entre os dois, também somos apresentados à solidão de Renato, um “ex-ator” que agora vive profissionalmente de apresentações de comédia com sua personagem, Silvanelly. Demick Lopes é, inquestionavelmente, o maior destaque do elenco. A entrega de todas as emoções de seu personagem, faz com que o público as sinta e as compreenda. A dor de sua perda, seus conflitos, sua solidão. Demick transmite com tanta veracidade, que não há como não se conectar ao seu Renato, e isso faz com que em muitos momentos fique difícil não reparar na ausência de sentimentos de sua colega de cena. A direção guia tudo com a maestria necessária para trazer o equilíbrio que a trama pede. Renato traz tantas questões e problemas guardados em si, que esse dueto entre a atuação de Demick e a direção de Pedro alavanca a obra a outro patamar. Você consegue sentir o que o personagem sente, e a graça irônica de como alguém que trabalha com comédia possa ter uma carga dramática tão volumosa é o que dá o toque à história. Apesar de estar no palco rindo e fazendo os outros rirem enquanto Silvanelly, Renato traz em si uma solidão palpável, e no olhar de ser intérprete fica nítida toda a guerra que há dentro de si, o que torna fácil a conexão com quem assiste. Ele mergulha em sua necessidade em trabalhar no palco, mas por trás, é aquela famosa frase clássica que impera; “ninguém sabe como tá a mente do palhaço”. Foto: Divulgação/ Embaúba Filmes Pedro Diógenes rege o filme com a mão necessária, coloca todos os sentimentos em seu local devido e não se prende a exageros para evocar a emoção de seu drama. O roteiro, assinado por Diógenes e Amanda Pontes, começa e encerra no ponto certeiro, deixando a sensação de satisfação com a história. Nas questões técnicas o longa também não deixa a desejar, o uso da fotografia é bastante bem aproveitado, principalmente nas cenas em que Demick é o foco. A trilha acompanha bem a trama e o drama, e o encaixe fica bem equilibrado. A participação de Jesuíta Barbosa agrega, mesmo que seu personagem tenha pouco tempo em tela, sua atuação deixa uma marca. Falando agora como um cearense orgulhoso de sua, é difícil não lembrar do queridíssimo Paulo Diógenes e sua eterna Raimundinha durante o filme. Outro detalhe muito bacana é poder reconhecer vários dos locais por onde o longa passa, e isso trouxe a mim uma sensação maior de proximidade e conexão com a história. Um sentimento de que o cinema pode (e deve) estar em todos os lugares. É gratificante ver e saber que o cinema cearense continua trazendo obras tão boas assim, e torço para que haja ainda mais oportunidades para contar histórias da nossa gente na nossa terra. Nota: 4/5
- Crítica | Grande Sertão
Guel Arraes opta por estilo intenso e sufocante e acaba pecando pelo excesso Foto: Divulgação Numa grande comunidade da periferia brasileira chamada “Grande Sertão”, a luta entre policiais e bandidos assume ares de guerra e traz à tona questões como lealdade, vida e morte, amor e coragem, Deus e o diabo. Riobaldo (Caio Blat) entra para o crime por amor a Diadorim (Luisa Arraes), mas nunca tem a coragem de revelar sua paixão. A identidade de Diadorim é um mistério constante para Riobaldo, que lida com escolhas morais e dilemas éticos, enquanto busca entender seu lugar no mundo e sua própria natureza. Nesse percurso transcorre as batalhas e escaramuças da grande guerra do Sertão. O filme se passar numa espécie de futuro distópico e adapta o primoroso e internacionalmente louvado romance de Guimarães Rosa para essa realidade. A direção de Arraes é marcada por muita inquietação e por muito movimento. Com uma câmera que fecha nos rostos dos atores e escolhe criar ambientes claustrofóbicos, por inúmeras vezes carece de espaço, de ângulos abertos que pudessem mostrar a grande escala dos cenários e que facilitasse a ambientação do espectador com aquele lugar montado para a história. Falta também tempo para o texto respirar e se assentar. Por mais que o elenco entregue atuações bastante competentes – destaco o trabalho de Luís Miranda – a escolha de manter os diálogos fiéis às rimas e aliterações do texto base requer pausas e uma cadência que permita as falas se apresentarem sem pressa. Foto: Divulgação A direção de arte trabalhou bem numa estética que remete ao pós-apocalíptico imortalizado pelos Mad Max de George Miller, mas para além da plástica nada mais serve de embasamento para o contexto em que o enredo está inserido. Além disso o desenho de som do filme se soma a tudo já dito ajudando a criar o caos planejado, e incômodo não esperado. O som é sempre alto, tem muito tiro, muito grito, funk, explosão... Sou defensor ferrenho de adaptações e suas liberdades tomadas para a criação de um novo produto. E analisando a partir do livro Grande Sertão: Veredas o que foi retirado fez muita falta, infelizmente. De sertão mesmo, geograficamente falando e tudo que ele implica, não se tem nada. O filme esquece todo o traço naturalista de Guimarães Rosa que desempenha um papel de protagonismo na trama. O autor passou anos estudando a região, clima, vegetação e comportamento humano para desenhar com uma linguagem revolucionária o espaço onde seu romance se passa. Como pontos positivos têm-se uma abordagem mais atual e madura quanto às questões de sexualidade dos protagonistas, e inserções de capítulos históricos do Brasil como subtextos. A falta de precisão e estabilidade em tomadas longas, o excesso de cortes, e na verdade o excesso de forma geral são, no fim das contas, os grandes vilões. A narrativa de Guimarães Rosa é infalível, mas dentro de um contexto pouco desenvolvido acaba por perder boa parte do impacto e da organicidade. Nota: 2,5/5
- Crítica | A Hora Da Estrela
Relançado nos cinemas, filme seminal de Suzana Amaral emprega um olhar irônico e melancólico ao clássico de Clarice Lispector Foto: Vitrine Filmes “Me diga uma coisa: você é feliz?”, pergunta Glória (Tamara Taxman) em determinado momento a Macabéa (Marcélia Cartaxo), a protagonista de A Hora da Estrela. Ao que esta responde apenas: “feliz serve pra quê?”. Essa simples troca de diálogos resume muito da essência do filme, que adapta o último romance lançado por Clarice Lispector em vida. Relançado nos cinemas em uma versão remasterizada pela Sessão Vitrine Petrobrás, o longa de estreia de Suzana Amaral é talvez um dos grandes clássicos do nosso audiovisual, conquistando diversos prêmios, inclusive o Urso de Prata de Melhor Atriz para Marcélia no Festival de Berlim em 1986. Longe de apresentar um fio narrativo sólido, A Hora da Estrela segue as desventuras de Macabéa, uma jovem e ingênua alagoana de 19 anos que se muda para o Rio de Janeiro após a morte da tia que a criava. Enquanto trabalha como datilógrafa e alimenta sonhos de ser artista um dia — mesmo sendo desprezada pela sua origem nordestina, sua aparência e seu semianalfabetíssimo —, ela se envolve com Olímpico de Jesus, também nordestino como ela, mas a relação não demora a apresentar suas fraturas. O olhar feminino de Suzana Amaral para conduzir essa história é fortemente carregado de uma ironia nas escolhas estéticas e formais que nos guiam através da jornada de Macabéa, seja nos diálogos curtos e ácidos, no humor seco e nas quebras de expectativa (a cena da personagem “flertando” com o guarda da estação de metrô é excelente nesse sentido). Mas essa ironia não esconde — e não me parece querer esconder — a profunda melancolia que cerca essa personagem. Na verdade, é justamente por ir por um caminho mais “cômico” (entre aspas pois o filme passa longe de ser uma comédia) que Suzana denuncia ainda mais gravemente as opressões que afligem nossa protagonista. Foto: Vitrine Filmes Assim, há algo de mordaz e também de doloroso em ver o quanto Macabéa sofre e o quanto parece muitas vezes alheia a esse sofrimento, em especial aqueles causados pelas pessoas próximas a ela, como Glória e Olímpico. Mas é um grande mérito da direção de Suzana e da atuação de Marcélia que a personagem nunca é relegada a uma posição de “coitadismo”. Pelo contrário, há uma vida pulsante nela, o desejo de crescer, de experienciar o que desejada. É fácil ver porque Marcélia foi contemplada com o urso de Prata logo em seu papel de estreia: ela confere diversas nuances a Macabéa, dotando-a de uma agenda própria (em especial em relação à sua sexualidade, a despeito da opressão que lhe é imposta por ainda ser virgem) e também de contradições e falhas — como na cena em que se recusa a ser chamada de baiana por Glória, por achar que “todo baiano é macumbeiro”. É justamente por ser tão perceptível em Macabéa sua autonomia e vivacidade, em contraste com uma postura conformista e passiva em diversos momentos, que o final dela é ainda mais trágico — mesmo que, novamente, seja carregado da mais fina ironia, dada as predições feitas pela cartomante Carlota (Fernanda Montenegro numa curta, mas marcante aparição). Apesar de alguns leves tropeços na direção da cena final em si, toda a sequência climática do filme captura perfeitamente a maneira como ele trilha um caminho que é até meio cínico, mas possui profunda empatia pela sua protagonista, que se constitui como uma das melhores criações do nosso cinema. De quebra, ainda nos permitiu vislumbrar pela primeira vez o imenso talento de Marcélia Cartaxo, que segue sendo uma das melhores atrizes brasileiras vivas. Nota: 4/5
- Crítica | Fale Comigo
O terror sabe se apresentar como jovem mesmo estando num molde bem conhecido Foto: Divulgação A mais nova moda entre um grupo de jovens na Austrália é se deixar serem possuídos por espíritos errantes em pequenas festas particulares e filmar o resultado dessas possessões para se divertir e compartilhar na internet depois. Bom, certamente o jogo vai sair do controle e dali pra frente o desacerto vai ser imensurável. Vamos começar colocando as cartas na mesa. O trajeto de Fale Comigo é bem conhecido e está presente nos melhores e também em alguns dos piores filmes comerciais do gênero. Temos jovens, temos um jogo, temos assombrações sobrenaturais e temos uma maldição a ser quebrada. Mas os irmãos Danny e Michael Philippou – youtubers e diretores estreantes – sabem precisamente o que fazer com tudo e como apresentar essa estrutura sem parecer repetitivo, pelo contrário, eles têm tanto domínio do material que têm em mãos que conseguem literalmente brincar com o terror (numa cena específica mais do que em qualquer outra) e deixar a experiência do filme mais lúdica do que se espera de um terror. Foto: Divulgação O longa-metragem tem apenas uma hora e meia de duração, mas sabe aproveitar cada segundo. Os três atos são muito bem marcados e muito bem distribuídos fazendo com que vários dos atores coadjuvantes tenham bons momentos em cena. E que elenco comprometido em botar os (seus) fantasmas para fora! Eles passam pelo suspense, pela comédia e pelo drama reflexivo e se mostram superconfortáveis em todos os momentos. E todo o elenco tem um argumento bom para trabalhar, em especial a protagonista Mia (Sophie Wilde) que um ano após perder sua mãe luta para seguir com sua vida em meio à depressão e ao vazio deixado por sua progenitora. A relação entre o real, o imaginário, os pesadelos e as visões de fato sobrenaturais fazem de Mia uma personagem cheia de camas a serem exploradas. Sem efeitos grandiosos, sem cenografias complexas, mas com um trabalho de maquiagem de qualidade, o sucesso do filme depende do trabalho dos atores e das espertas e enxutas escolhas dos diretores. O ritual é simples, e os objetos existem por qualquer que seja a razão. A produção não se demora elaborando teorias sobre a mão que, quando apartada, consegue evocar espíritos. E tampouco está interessada em dar explicações e respostas, isso certamente vai ficar paras a já confirmada continuação – ou continuações. Porém isso não limita o longa a explorar as possibilidades que sua motivação oferece. Ele funciona tanto como abertura de uma infinita e provavelmente cansável franquia, mas também funciona como solo. Ele se encerra de maneira redonda dentro de sua própria mística mostrando que os jovens diretores têm bagagem de conteúdo, de técnica e têm estilo para maquiar bem suas escolhas. Nota: 4/5
- Crítica | O Livro dos Prazeres
vai te deixar com mil pensamentos sobre como levamos a vida diante do caos que é viver no Brasil de 2022












