top of page
Background.png

Entrevista | Rafael Carvalho fala sobre a importância da Mostra Cinema Conquista: "Um festival é uma vitrine"

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • 12 de set. de 2025
  • 10 min de leitura

Em entrevista ao Oxente Pipoca, o crítico de cinema e curador discutiu sobre o papel da Mostra no cenário local e regional, bem como os papéis da curadoria, cineclubismo e crítica no ecossistema audiovisual.

Divulgação


Realizada entre os dias 7 e 12 de setembro, em Vitória da Conquista – BA, a 16ª edição da Mostra Cinema Conquista reuniu vários filmes premiados e promoveu diversos debates sobre os rumos do cinema brasileiro contemporâneo. Entre os longas exibidos, estiveram: O Último Azul, Oeste Outra Vez, Kasa Branca, Ritas, Saudade Fez Morada Aqui Dentro, Centro Ilusão, O Melhor Amigo, 3 Obás de Xangô e A Queda do Céu.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar o curador da Mostra, Rafael Carvalho, que é também crítico e pesquisador de cinema, além de natural de Vitória da Conquista. Na entrevista, Rafael falou da importância do evento trazer para o público conquistense filmes que não são exibidos no circuito comercial da cidade, ajudando também a descentralizar a cadeia audiovisual no país. Ele também comentou sobre o papel crucial dos cineclubes locais e do curso superior de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) para a realização da Mostra. Esses e outros temas discutidos você pode conferir na íntegra abaixo:

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Conquista é uma cidade fortemente atrelada ao imaginário do cinema nacional por ser a terra natal de Glauber Rocha, mas só temos as redes Multiplex dos shoppings como ofertas de salas de cinema à população local. Lembro de quando era criança e ir no Cine Madrigal, algumas das minhas primeiras memórias no cinema foram lá, mas foi mais uma sala de rua que fechou depois de perder espaço para esses shoppings. Nesse sentido, como uma Mostra como a Cinema Conquista pode oferecer ao público da cidade a chance de ver filmes que normalmente não encontrariam espaço no circuito comercial?


Rafael Carvalho: Essa é a 16ª edição da Mostra, mas ela tem mais de 16 anos, porque houve alguns anos em que a Mostra não conseguiu ser realizada. Então nisso isso aí a gente consegue perceber uma resistência, uma tentativa de manter esse evento. Hoje a gente tem um curso de Cinema na UESB, aqui em Vitória da Conquista, mas quando a Mostra começou, esse curso não existia. Então ela surge muito com essa vontade de fazer de Vitória da Conquista um polo voltado para o cinema, para o pensamento, pra discussão, pra circulação dos filmes. E agora a gente já pode falar também de produção, existem filmes produzidos pelos alunos, egressos, professores.


Vitória da Conquista tem essa coisa de ser a terra de Glauber Rocha, mas a gente também tem um passado aqui de muitos cinemas. Década de 80, até início dos anos 90, assim. Aqueles cinemas de rua, cinemas enormes, que levavam muita gente. Então sempre teve essa atração muito grande, mas aí veio a coisa do Multiplex, esses cinemas de rua foram fechando. Eu sou de Vitória da Conquista, me formei aqui. Me lembro que na minha época de estudante de jornalismo tinha uma dificuldade imensa, mas também tinha muitos cineclubes. Tem um cineclube muito importante aqui, que é o Janela Indiscreta, e todas essas todas essas atividades, como a Mostra, ou o curso de Cinema da UESB, foram frutos do Janela Indiscreta. Eu sou fruto dele.


Então, o que a gente fazia era assistir esses filmes nesses espaços, cineclubes e determinadas exibições que aconteciam, mas isso foi se perdendo um pouco. Então, a Mostra acabou ocupando esse espaço, que é um momento de atualização, eu sempre digo. A gente precisa atualizar as pessoas de Vitória da Conquista desses filmes que estão em destaque no cenário nacional e internacional. Eu acho que a gente pode até falar já desse fortalecimento no calendário cultural da cidade. Então para a gente é muito importante ter a Mostra como mais um polo de exibição, de discussão, de debate e de circulação.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A edição deste ano presta homenagem aos 15 anos do curso de Cinema e Audiovisual da UESB. Como você avalia a relevância do curso para o audiovisual local? E pensando em um cenário mais geral, o quão importante é ter os cursos da área presentes nas universidades brasileiras?


Rafael Carvalho: O curso de Cinema é um marco para a cidade, para esse cenário cultural da cidade. Eu digo isso porque não é só uma questão da formação, é uma questão de como você muda um pouco o cenário da própria cidade, e isso não é uma coisa que você faz em 1 ano, 2 anos, demora um pouco. E eu vejo hoje a gente pensando essa comemoração a partir das atividades que já estão acontecendo aqui, de debates, de conferências, em que o curso de cinema, além de ser homenageado, é um grande parceiro. Então, os professores, coordenadores do curso estão muito próximos da Mostra, contribuem com a programação.


Uma coisa que é importante falar é sobre esses cursos de Cinema no interior, ou seja, que não são na capital. A gente tem um outro exemplo muito forte aqui na Bahia, que é o curso de cinema da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano) em Cachoeira. Tem saído muita coisa interessante do curso de Cinema de Cachoeira, é um polo muito forte; é mais pertinho de Salvador, mas ainda é interior. E o curso de Cinema em Conquista tem se fortalecido nesse sentido, de pensar esses cursos em outros lugares.


No Brasil também, têm surgido muitos cursos de Cinema que estão fora dos eixos centrais, das capitais ou das grandes cidades. Isso mostra que primeiro existe um interesse, uma vontade por essa formação. As pessoas se formavam muito a partir do jornalismo, até da publicidade, e as pós-graduações eram mais difíceis ainda. Então a gente poder dizer que tem no interior da Bahia um curso de Cinema que está fazendo 15 anos é uma vitória muito grande.


E aí têm os problemas, as dificuldades do curso, mas tudo aquilo, todas as discussões, são no sentido de como vamos superar isso, quais os caminhos que a gente precisa enfrentar, quais os caminhos que a gente pode trilhar a partir de agora. Há todo o debate em relação às políticas públicas, de descentralização, como fazer com que a verba e o trabalho público cheguem também para o interior, não fique só no eixo Rio-São Paulo, mas também não só na capital Salvador, que venha também para o interior. E os alunos estão participando das atividades, fazendo colocações, participando das conferências, vindo nas sessões, participando dos debates, contribuindo também.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Você citou a importância do Janela Indiscreta para essa formação cinéfila e também para o incentivo à realização de eventos como a Mostra. Tenho feito algumas pesquisas que envolvem o cineclubismo, e é interessante ver como eles são elementos centrais na formação cinéfila e audiovisual, e temos visto um ressurgimento dos cineclubes, especialmente no meio online. De que formas você acredita que os cineclubes podem colaborar para o desenvolvimento de um ecossistema audiovisual local?


Rafael Carvalho: Esse tema também me interessa muito, porque eu não sei se você tem essa impressão, mas quando a gente fala de cineclube, parece que é uma coisa um pouco antiga, do passado. Mas, cara, eu acho que existe hoje um movimento no Brasil inteiro, eu vejo em Salvador também e vejo aqui o movimento cineclubista muito forte, muito intenso. Principalmente porque a gente tá vivendo um momento de mudança na maneira como a gente assiste qualquer coisa partir dos dispositivos móveis. O streaming, a dificuldade de levar as pessoas para os cinemas, muitos cinemas de rua que estão fechando, ou tentando se manter.


E aí, eu acho que o próprio cineclube se reinventou muito e tem se reinventado muito nos últimos anos. Os cineclubes online já existiam, mas a partir da pandemia eles se frutificaram muito. A gente tinha um cineclube presencial aqui em Vitória da Conquista, e eu estava na coordenação, e na época da pandemia a gente começou a fazer achando que ia ser muito complicado, mas deu muito certo, e por um tempo, depois da pandemia, a gente ainda continuou. Agora ele tá parado, mas existem outros assim.


O cineclube sempre foi um sinônimo de resistência, mas hoje a gente tem uma diferença que para mim é muito central assim, talvez em relação a tempos atrás. Antigamente, existia uma dificuldade de conseguir os filmes. Então a gente ficava buscando os filmes, eu os assistia em boa qualidade ou em melhor qualidade, sem legendas. Acho que hoje é o oposto: tem um excesso de filmes, e a gente precisa encontrar outras maneiras de atrair essas pessoas para eles. E a atividade cineclubista tem uma dimensão um pouco mais calorosa. Porque não é só assistir ao filme, você assiste o filme, você conversa, tem debate, às vezes tem convidados. Sempre tem essa coisa da conversa, do debate, do encontro e a gente acaba criando uma comunidade em torno do cineclube. 

 

Divulgação


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Rafael, já acompanho suas pesquisas sobre a crítica de cinema há um bom tempo, foram fontes valiosas para a minha dissertação do mestrado e agora têm sido para a tese de doutorado. Como você enxerga o papel do crítico no ecossistema de uma Mostra como a Cine Conquista? De que forma você pensa que ele pode dar visibilidade ao evento e aos filmes nele assistidos, mas sem cair em um lugar de condescendência com o cinema brasileiro?


Rafael Carvalho: A nossa mostra tem um orçamento limitado para trazer críticos de fora, mas eu acho que é primordial essa aproximação entre a exibição e a recepção. E aí, eu acho que a gente estabelece uma grande questão, que é o estado atual da crítica de cinema. Acho que você tá se batendo com isso aí, uma série de discussões e debates que a gente tem. Assim como estava falando dos cineclubes, a experiência e a atividade da crítica também têm mudado nos últimos anos, e a gente também de uma certa forma está aprendendo a lidar com isso e a se reinventar nesse cenário.


Tem uma coisa que, pelo menos na época que eu fiz mestrado e doutorado em crítica, se discutia muito, era a coisa da “crise da crítica”. Mas a crítica sempre esteve em crise, e o ideal é que ela esteja em crise mesmo, porque a gente, enquanto crítico, tem que estar inquieto, não pode nunca achar que as coisas estão dadas. A crítica serve justamente para isso, para chacoalhar, para mexer um pouco no sistema.


Pensando no futuro da crítica, o que será dela? Como que a gente vai se reinventar, como que a gente vai se manter? Existem aí uma série de discussões sobre a crítica especializada e os influenciadores digitais, e um certo embate em relação a isso, uma certa reinvenção desses modelos de produção, quer dizer. Na época que eu comecei a escrever, basicamente a gente tinha críticas escritas. Hoje a gente tem podcast, gente fazendo no YouTube, gente fazendo no TikTok, gente fazendo no Instagram, fazendo texto e vídeo, ou só texto, ou podcast. Então é um ecossistema muito variado, que nos dá um panorama muito aberto.


Acho que a gente tá numa certa sinuca de bico, e precisa repensar algumas coisas, de uma certa forma tentar resgatar alguma relevância. Mas ainda sobre a questão da crise da crítica, apesar das perdas de alguns espaços, veículos que não existem mais, eu nunca vi aparecer tanto crítico quanto hoje em dia. Muita gente nas redes sociais, no Letterboxd, escrevendo para sites e veículos. Acho que não se tem mais aquele “grande crítico” que todo mundo conhecia; você tem os nichos, um crítico que trabalha em determinado espaço e tem aquele grupo ao redor dele. Então, os críticos também acabam criando espaços e criando modelos ao redor de si, ao redor de seus veículos, ao redor de suas atividades.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Ainda vemos uma grande concentração de festivais e lançamentos no eixo Rio-São Paulo, mesmo com a força que polos audiovisuais locais, como o baiano, pernambucano ou cearense, têm demonstrado nos últimos anos. Como eventos como a Cinema Conquista podem ajudar a descentralizar a produção e circulação de filmes brasileiros?


Rafael Carvalho: Eu olho para a programação da Mostra Cinema Conquista e parece que a gente quis fazer uma seleção de filmes que tivessem um foco no Nordeste. Mas eu juro para você, não foi intencional. Simplesmente os filmes surgem, os filmes aparecem. Quando a gente vai ver, tem um monte de filme do Ceará, tem um monte de filme de Pernambuco, tem os filmes baianos. Tem Oeste Outra Vez, de Goiás. Claro que tem também Rio e São Paulo, mas eu acho que dava para montar uma programação só com filmes do Nordeste. E nem é por uma questão de “valorizar”, é porque os filmes se impõem, é incontornável. O Último Azul é um filme incontornável, assim como O Agente Secreto.


Claro que quando a gente também olha e fala: "Poxa, temos que apostar nesses filmes, temos que apostar nesse cinema”. Porque acho que é um papel também da mostra, a gente estar atento a isso, não só as questões temáticas. A gente tem filmes de várias temáticas, esteticamente diferentes também, com várias propostas, mas essa questão regional também é um interesse muito grande que a gente tem.


Eu faço curadoria e seleção para outros festivais, e sempre digo: o que é um festival? Um festival nada mais é do que uma vitrine onde a gente está expondo filmes e dizendo: "Olha, acho que você devia assistir esses filmes, não porque eu acho que eles sejam maravilhosos, incríveis, a melhor coisa que vocês vão assistir na vida, mas simplesmente porque que eles estão aí, eles são interessantes e acho que tem uma grande chance de você se identificar com esses filmes”.


O pensamento é: o que eu vou colocar nessa vitrine? O que eu vou oferecer para esse público daqui? Inevitavelmente penso na descentralização, penso nesses filmes regionais. A gente tem filmes e curtas metragens feitos aqui em Vitória da Conquista que estão na programação. São filmes que vieram de professores, alunos e egressos do curso de Cinema. Então, isso também é descentralização; é a gente mostrando “olha, existe filme aqui”. Existe filme feito em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, em Salvador, no Ceará, no interior do Ceará, no interior de Pernambuco. Mas a gente está muito feliz com a programação e com a seleção que a gente tem, porque realmente a gente tem a convicção de que está oferecendo para o público uma vitrine muito vistosa, muito bonita.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Seja dos filmes exibidos na Mostra ou outros que você assistiu e amou.


Rafael Carvalho: O filme de encerramento da mostra é o Oeste Outra Vez do Érico Rassi, que eu citei aqui. Eu acho esse filme tão maravilhoso, é um filme feito em Goiás, é um western à brasileira, que vai falar um pouco sobre um certo comportamento masculino tóxico. É um filme que tem muita violência, mas ao mesmo é muito bem-humorado, muito engraçado, muito divertido, e lida com essas questões. É um filme super bem realizado, é um trabalho primoroso que o Érico faz.


E vou indicar um filme baiano, que é o Saudade Fez Morada Aqui Dentro, do Haroldo Borges. Acho esse filme maravilhoso, lindo, assim, de uma sensibilidade incrível. Sou muito fã do trabalho do pessoal da Plano 3. Não vou citar mais, mas acho que esses são filmes até mais acessíveis, eu gosto e indicaria para todas as pessoas assistirem.

LEIA TAMBÉM NO SITE:

FILMES BRASILEIROS DE 2026

bottom of page