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  • Entrevista | Marcelo Botta fala sobre “Betânia”

    O diretor conversou com exclusividade com o Oxente Pipoca sobre seu primeiro longa-metragem, que acumula participações em festivais nacionais e internacionais. Divulgação Depois do sucesso da exibição no 74º Festival de Berlim, o longa maranhense Betânia passou por mais de 20 festivais em 16 países. A lista inclui eventos de peso no cenário internacional, como os festivais de Guadalajara (México), Leeds (Inglaterra), Toulouse (França), Rio, Mostra de SP, Huelva (Espanha), Taiwan e o Malaysia International Film Festival, onde recebeu o prestigiado troféu New Hope Award. A estatueta abriu as portas do mercado asiático para o longa brasileiro. Betânia passou por mais três festivais na Índia e outros dois na China após a premiação na Malásia. O filme chega aos cinemas do Maranhão no dia 24 de abril de 2025. O lançamento em todo Brasil será no dia 8 de maio, e você pode conferir a entrevista exclusiva feita pelo Oxente Pipoca com Marcelo Botta, diretor do longa, abaixo: Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Eu acompanhei algumas entrevistas contigo ano passado quando o filme estreou em Berlim, e sei que a ideia deste filme partiu de um documentário que você fez sobre a Dona Maria do Celso, que inspirou a personagem Betânia. E sei que você tem uma afinidade com o gênero documental e também com a comédia pelos seus trabalhos na MTV. Queria começar perguntando o que te motivou nessa jornada, seja na personagem ou no cenário, a dirigir um longa de ficção sobre esse ambiente? Por que você sentiu a vontade de fazer uma ficção a partir daquela realidade? Marcelo Botta: Voltando lá atrás no meu trabalho, eu participei em 2001, quando eu tinha 16 anos, de um concurso de videoclipe na escola que era para você filmar uma versão sua de um videoclipe de alguma música conhecida. E na época estava estourando o Diário de um Detento dos Racionais. E ninguém queria saber muito de fazer trabalho de vídeo lá na escola que eu estudava em São Carlos, no interior de São Paulo. Então eu falei: "Cara, vamos fazer o clipe do Diário do Detento.” E a gente conseguiu que uma juíza me autorizasse, menor de idade, a ir numa cadeia com a câmera. Lá eu filmei tudo de modo documental, preso sendo libertado, preso saindo, preso chegando, ouvi atrocidades de todo tipo dos presos que eu entrevistei, e fizemos um vídeo que foi até premiado neste concurso da escola. Então o primeiro trabalho, entre aspas, audiovisual da minha vida, já foi no documentário, e sobre uma coisa um pouco mais densa. Mas eu tive sempre dentro de mim essa coisa da comédia, de ser aquela pessoa que gosta de fazer a piadinha, de fazer uma leitura mais irônica das coisas, então eu gosto tanto de fazer rir, quanto de fazer chorar. Eu acho que para mim o audiovisual não é só contar histórias, eu acho que é a arte de causar emoção, de criar emoções e sensações. Acho ruim quando você assiste uma coisa e fica indiferente. É legal você sentir aquilo. Acho que nesse mundo que a gente vive onde as pessoas estão meio anestesiadas e meio hipnotizadas com essa questão dos algoritmos, das redes sociais e o modo de vida que a gente vive hoje, parece que todo mundo está um pouco letárgico. A gente está inerte a essas situações que a gente está vivendo de tanta coisa acontecendo, de guerra, de crise climática, de toda essa guerra tarifária, do genocídio que tá acontecendo em Gaza. Parece que todo mundo anda meio anestesiado para não sentir as dores desse momento da humanidade. E eu acho que o cinema ele tem esse papel de lembrar que a gente é humano, que a gente tem capacidade de sentir, que a gente tem sentimento, que a gente sorri, que a gente sente raiva, que a gente sente saudade, que a gente sente vontade de chorar, que a gente sente todo tipo de emoção, que é o que nos torna humanos. Acho que a inteligência artificial nunca vai ter essa capacidade de chorar e de rir que a gente tem. Então temos que nos apegar no humano. Então eu tive, como você lembrou, os trabalhos na MTV, dos programas de comédia, mas eu sempre soube que meu sonho era o cinema. E aí quando eu tive a oportunidade de fazer uma série documental para TV, filmando histórias de pessoas inspiradoras de lugares isolados da América do Sul, foi muito bacana. A gente foi para o Atacama, Amazônia, Patagônia, filmamos no Chile, na Argentina, no Peru, na Bolívia, na Colômbia. E o último episódio foi no Brasil, no Maranhão, com a dona Maria do Celso. E foi um episódio que mexeu muito comigo. Eu tenho uma relação com a dona Maria até hoje. Ela fala: "Você é como um filho para mim” e eu sinto uma conexão muito grande com ela e com a família dela. Estive lá em 2018 para filmar, depois eu voltei em 2019, depois eu voltei em 2021, depois eu voltei em 2022, depois eu voltei em 2024. Quase todo ano, desde que eu filmei com a dona Maria, eu volto e tive a oportunidade de fazer a travessia dos Lençóis diversas vezes, entender, conhecer diferentes povoados. Tive a oportunidade de conhecer Baixa Grande, Canto dos Atins, Ponta do Mangue, Pataca, Lavado, Queimada dos Brito, Queimada dos Paula, Betânia, Ponta Verde, Travosa, são muitos povoados diferentes que existem nos lençóis, são centenas de povoados e eu tive a oportunidade de conhecer uma dezena deles que foram muito importantes para mim, para observar o modo de vida deles. Como a gente vive nesse mundo muito conectado e todo mundo tem as mesmas influências, eu acho que esses lugares mais isolados, eles conseguem preservar um modo de vida e suas culturas de forma mais íntegra do que os lugares que estão mais difusos, onde a coisa já está mais misturada. Nessa pesquisa a gente descobriu que além da riqueza da paisagem, que é mundialmente conhecida, que é um patrimônio da humanidade os Lençóis Maranhenses, que a grande riqueza dos Lençóis está na cultura do povo de lá. É um lugar onde você tem o Bumba Meu Boi, você tem os cantadores, os compositores que escrevem versos que falam sobre a realidade do povoado e dos Lençóis. Você tem muitos artistas locais, tem as incelenças que são cantadas nos velórios, os rituais que são feitos nos velórios, os rituais que são feitos nas diferentes etapas da a vida. E tudo isso me deixou muito fascinado ali em 2018, quando eu fiz essa imersão dos Lençóis. 3 anos depois a gente já estava naquela situação da pandemia, em 2021. Eu perdi muita gente próxima, realmente foi muito triste para mim, meu sogro, um tio, um primo, meus dois avôs. Eu perdi em um período de poucos meses, cinco pessoas muito próximas e aí veio aquela sensação de que “cara, o mundo vai acabar, vai todo mundo morrer e a gente não fez o filme que a gente queria.” A gente ficou trabalhando para conseguir pagar as contas e fazer a produtora girar, mas a gente não conseguiu fazer um filme como a gente gostaria de ficção. Tínhamos essa coisa do documentário, fizemos séries de TV, mas não um longa de ficção mais autoral, nessa pegada que mistura os gêneros, drama e comédia, da forma que eu sempre sonhei em fazer. Falei: "Cara, será que o mundo vai acabar? A gente não vai ter nem tempo de fazer esse filme?" E aí eu falei com o meu sócio. Naquela época que não tinha nem Ministério da Cultura, a Ancine estava totalmente paralisada. A gente fez uma loucura de se arriscar e realizar esse filme contando com a equipe que a gente tem, muito foda, muito talentosa, muitas pessoas incríveis que que mergulharam nesse filme sem nem titubear. Estava todo mundo trancado em casa no lockdown há mais de 2 anos e foi uma oportunidade que as pessoas sentiram de descomprimir, de sair daquele isolamento, daquela coisa claustrofóbica justamente ir para um lugar tão imenso que faz a gente se sentir tão pequenininho que são os Lençóis Maranhenses. Então, as pessoas abraçaram a causa de fazer esse filme de forma coletiva e igualitária, todo mundo ganhou um cachê igual para fazer a filmagem, foi uma coisa muito bonita. Todos ganharam o mesmo valor por semana, porque era um filme que tinha só os recursos próprios para utilizar e era muito na raça. Então foi muito importante esse sentimento de todo mundo abraçar essa ideia de fazer um filme saindo da pandemia. Um filme que celebrasse a vida, mas mostrando também a morte, porém com uma mensagem de esperança no plano de fundo. Uma mulher de 65 anos que que ousa recomeçar a vida depois dos 65. Acho que é uma mensagem tão forte para todos nós enquanto humanidade que tivemos que enfrentar essa pandemia e agora estamos enfrentando genocídios, crise climática cada vez mais intensa, entre tantas outras coisas. Temos que buscar essa esperança. Por isso para mim o filme ele vem como um impulso. Eu mesmo procurando na vida um sentido, sabe? Quando tudo está despedaçado, tudo está derretendo. Onde é que a gente encontra algum sentido para continuar lutando para viver? É na comunidade, na força do afeto, da família, da união das pessoas. E na beleza da vida, da natureza, da cultura, da arte, da música. É um filme que celebra a cultura dos Lençóis, e principalmente a cultura do Maranhão. Eu sou um cara que me considero “emaranhado”, já venho para o Maranhão há muitos anos, e sou encantado com a cultura do Maranhão, a cultura do Nordeste como um todo, na verdade. Eu conheço muito dos estados do Nordeste, mas com o Maranhão eu tive essa relação muito de alma. E eu estava falando com o meu sócio Gabriel [Di Giacomo] esses dias, que eu tinha uns 9, 10 anos, quando minha irmã mais velha começou a ouvir Bob Marley no último volume, ela tinha uns 14 anos na época. Ela ouvia Bob Marley no último volume o dia inteiro em casa, ela vivia com uma camisetona do Bob. Então ela me influenciou muito ali a ouvir Bob também. Tive oportunidade em 2012 de dirigir um programa com o [Marcelo] Adnet, o Adnet Viaja e a gente fez dois episódios na Jamaica, e pude filmar na Jamaica por uma semana. E depois num momento muito difícil da minha vida, eu vi uma entrevista do MV Bill falando sobre o Alton Ellis, que é um músico muito importante do Rocksteady, que é o gênero musical que precede a terminologia reggae, ali da década de 60 e 70. E quando eu ouvi o Alton Ellis eu estava numa fase de depressão muito intensa na minha vida, tinha passado por uma série de coisas, estava em um momento muito muito baixo astral mesmo. E o MV Bill falando do Ellis soou como uma luz para mim. Eu conhecia muito do Bob Marley para frente. Aí eu comecei a ouvir o Bob Marley para trás, o que tinha na Jamaica antes. E aquele momento lá para 2015 e 2016, eu sinto que assim como a Betânia renasceu, com a ideia de começar de novo, na minha vida foi muito importante aquele meu renascimento motivado pela música e pela cultura jamaicana. E rapidamente eu cheguei no Maranhão porque é a Jamaica brasileira. Em algum momento, alguém falou para mim: "Cara, e o Maranhão? Maranhão é a Jamaica brasileira". Eu comecei a dar uma atenção maior ao Maranhão nas minhas pesquisas e eu falei: "Cara, eu preciso ir para o Maranhão". Foi aí que surgiu todo esse movimento de ir para a dona Maria do Celso, fazer o documentário e a história da dona Maria que me levou a querer fazer o Betânia. Então, a minha irmã ter colocado para o Bob Marley lá quando eu tinha 9 anos foi uma oportunidade que a vida me deu. Muita coisa veio dali. Sou muito grata à minha irmã por me apresentar o Bob Marley. Eu gosto muito de pesquisar coisas atuais e antigas e tudo isso me deu uma vida, uma alegria de viver naquela época difícil que eu estava. Hoje eu tenho uma vida muito diferente. Eu me casei, eu tenho um filho, eu tenho alegria na vida, eu tenho vontade de viver. Mas naquele momento, 10 anos atrás, eu estava em um momento muito difícil. Eu digo que eu devo tudo que eu tenho ao reggae, a Jamaica mesmo, porque foi a Jamaica que me levou até o Maranhão. Foi a Jamaica que me levou até minha esposa. Eu estava num clube de reggae em São Paulo, que é o Fatiado Discos, num dia desses que estava ainda numa fase um pouco difícil da minha vida. Fui lá sozinho, fui sozinho para o rolê, imagina você ir sozinho para o rolê, você não conhece ninguém, fica ali meio por fora. E aí eu conheci a Mariana, Mariana Cristal, que é minha esposa, diretora de arte do filme Betânia também. Conheci ela no clube de reggae e hoje a gente é casado, a gente tem nosso filho. Até minha esposa e meu filho eu devo ao reggae, porque se eu não tivesse ido atrás do reggae naquele dia, naquele domingo, sozinho no clube de reggae, eu nem ia ter conhecido a mulher da minha vida. Então, o reggae me salvou de tantas formas, eu penso que a cultura, a arte, ela tem esse poder, de salvar a gente, a arte salva. E eu tive essa oportunidade através da arte jamaicana, de conhecer o sabor da vida e a encontrar a arte do Maranhão. Quando eu cheguei no Maranhão, eu vi que era muito além do reggae, era muito além da Jamaica brasileira. Que o Maranhão ele pulsa a cultura em todos os lados. Você anda aqui por esses centros históricos e você vê o Tambor de Crioula, o Bumba Meu Boi, a Capoeira, o Cacuriá, são tantas expressões artísticas assim como o reggae também. Isso tudo para mim é muito lindo. O Maranhão é um estado de uma riqueza cultural gigantesca, e eu sentia que ainda assim o Maranhão estava sub-representado na grande tela dos cinemas. Existem autores maranhenses importantíssimos, como Frederico Machado, na história toda do cinema. A gente tem uma juventude vindo aí, George Pedrosa, que fez o curta-metragem Casa de Bonecos, que foi para Roterdã. A gente tem uma série de novas e novos cineastas maranhenses que estão fazendo curtas. Eu acho que vai ter uma onda do cinema maranhense vindo por aí que já está sendo construída. Mas eu sentia naquele momento que talvez o Maranhão merecesse uma longa-metragem que mostrasse essa força da expressão cultural maranhense e com potencial para viajar ao mundo de festivais internacionais, mas que também pudesse ser um filme popular. Porque ainda existe essa distinção entre o mundo dos filmes de festival de um lado e o mundo do cinema comercial na outra ponta. E eu tenho essa vontade, de conciliar e de criar um lugar onde os nossos filmes possam ser apreciados no Festival de Berlim, mas também possam ser apreciados por uma família maranhense que vai ver o filme e vive aquela experiência coletiva, porque a gente fala que Betânia é cinema comunitário. Ele foi feito em comunidade. Se não fossem as pessoas que moram em Santo Amaro do Maranhão e no povoado de Betânia, que pertence ao município de Santo Amaro do Maranhão, se não fossem as pessoas da comunidade, esse filme não existiria. Esse filme fala sobre a comunidade, mas ele foi feito pela comunidade. Por isso a gente fala que é um cinema comunitário, a gente aprendeu uma forma de fazer cinema. O Betânia começou como um filme muito pequenininho, mas ele foi se impondo e apresentando que na verdade é um filme grandioso. Você olhando parece que é um filme que tem um orçamento gigantesco, mas é porque teve muita gente talentosa e muita gente que abraçou o filme e que foi apoiador, que fez parceria, muita gente local. Um filme com elenco 100% maranhense, que desde o início era uma coisa muito importante para mim. Tudo isso confluiu no nascimento do filme. Eu voltei lá para quando eu tinha 9 anos de idade, ouvindo Bob Marley, passa por quando eu tinha 15, 16 anos e fiz o documentário inspirado na música do Racionais e toda a minha vivência na comédia. Eu pensava: "Cara, eu gosto dessa mistura de gênero, eu gosto de borrar o limite entre os gêneros, então eu vou tentar fazer isso no cinema". Então, eu queria fazer um filme que tivesse uma história do Sul Global, mas que trouxesse as histórias do Sul Global mais leves. Muitas vezes os autores colocam só a coisa pesada, só a parte dura da vida da gente que vive na América Latina ou África. Comecei a pensar, por que que eu tenho tanta dificuldade de achar um filme para assistir? Primeira coisa que eu já estou com um bode completo de filme feito no Hemisfério Norte. Para eu ver um filme estadunidense hoje tem que ser uma coisa muito absurda. É realmente muito difícil para mim, é muito difícil, não tenho nada contra, mas eu já vi demais na minha infância, na nossa infância, na Sessão da Tarde e nas locadoras etc., acho que já vi o suficiente. Então quando eu tinha poucos, 19, 20 anos, comecei na faculdade, eu vi muito cinema italiano, vi muito muito cinema francês, muito bem, obrigado. Agora, desde meus 30 anos, hoje eu estou com 40, então faz uns 10 anos que eu foquei em assistir o cinema do Sul Global. Me interessa ver filmes da Ásia, do Sudeste Asiático, da África, da América Latina, do Caribe, filmes antigos desses lugares, filmes contemporâneos desses lugares. Eu acho que minha maior paixão é o cinema brasileiro, o que mais me inspira, o que eu mais gosto de ver é o cinema brasileiro contemporâneo. Então é tudo isso que me move. Com muita desigualdade, mas existe uma cultura, existe uma tradição, existe a música, existe a celebração. A vida não é só o sofrimento. A gente tem a celebração. E eu acho que muitos filmes do Sul Global, eles acabam retratando mais a parte dura da vida. Mas quando é que as pessoas estão celebrando a vida nesses lugares? Elas celebram a vida, cara. Então, eu queria mostrar um filme que fala sobre o Sul Global, mas mostrando para o que o cara do Norte Global também possa se identificar. Também posso falar: "Caramba, minha mãe também não quer se mudar da cidadezinha que ela mora para morar na capital.” O cara lá de Paris possa pensar que a mãe mora numa cidadezinha pequena, também passa pelo mesmo conflito de tentar convencer a mãe a sair do lugar mais isolado. Tem coisas que são universais, mas é uma história que representa o Sul Global e representa uma brasilidade de uma forma não óbvia. Isso me fascina no Maranhão, ele traz uma brasilidade que não é tão óbvia, porque ela não é tão conhecida. Mesmo no Brasil, pouquíssima gente conhece o Bumba Meu Boi. Pouquíssima gente de outros estados teve a oportunidade de vir viver o São João de São Luís, que é completamente diferente do São João do Ceará, de Pernambuco, ou da Paraíba. Completamente diferente. É um São João que tem o Cacuriá, que tem o Bumba Meu Boi, tem várias expressões que são muito próprias daqui, então, essa riqueza cultural do Maranhão me fascina muito. Eu cheguei no Maranhão pelo reggae, depois eu descobri que era muito mais que o reggae, e decidi que tinha que fazer uma busca por algo original. Eu acho que cinema é você se arriscar. Eu não quero fazer filmes que eu me sinta seguro, simplesmente. Divulgação Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Betânia é um filme prosaico. Ele enfatiza a força da oralidade, da história contada sem um registro físico, sem um documento, me lembrou de certa forma o Narradores de Javé, da Eliane Caffé. E queria puxar para um tópico inevitável que são as músicas do filme. Como você fez um registro ou levantamento de todas aquelas toadas e incelenças presentes no filme que estão tão bem encaixadas e ajudam a narrativa a progredir? Marcelo Botta: Eu sou um cara que adoro história, eu estudo história. Então senti que essa produção tinha a oportunidade de registrar na tela, num filme, parte daquela história que está só na oralidade. Então quando a dona Maria do Zuca conta a história do povoado, que antes chamava Pau Seco, e veio o padre Carlos Barcelar, que vinha todo ano catequizar e então uma hora ele leu o evangelho e viu aquele lugar tão bonito, com o nome feio, desse Pau Seco, ele abriu a Bíblia aleatoriamente e caiu na página que falava de Betânia, e ela narra isso. Eu falei: "Cara, dona Maria do Zuca me contando isso, eu preciso colocar isso no filme, eu preciso que as pessoas que assistem à Betânia entendam que esse povoado tem uma história secular e que as pessoas já estão morando aqui há muito tempo. Uma forma de colocar isso no filme, foi criando a cena em que elas estão tomando café junto na casa da Betânia e deixando elas contarem. Então, os moradores de Betânia, que são atores não profissionais e que atuam no filme, obviamente eles atuavam sem um roteiro nesses momentos. A gente criava situações para parecerem o mais espontânea possível e de fato elas estavam sentadas ali tomando um café e conversando sobre a vida, quando elas começam a cantar “Meu São Benedito”. A equipe estava se preparando para gravar, elas começaram a cantar, aí eu olhei para equipe e falei: "Vamos rodar isso aqui". E a gente rodou aquele presente que elas estavam dando pra gente. Aquela pérola é um momento musical que, inclusive, onde o filme passou, na Europa e na Índia, essa cena das senhorinhas cantando o “Meu São Benedito”, foi a cena em que as plateias do mundo inteiro se deliciaram. As pessoas riam com aquele sorriso de brilho no olho, um sorriso que não é sarcástico, um riso honesto e de coração, de lavar a alma. Mesmo o cara lá da Alemanha, ele vê aquela cena e se emociona. Então essas senhoras, elas têm um poder muito grande, dona Maria Lúcia, dona Maria do Zuca, dona Marília, dona Chagas. Além da dona Maria do Celso que é a surpresa no finalzão dos créditos. Senti que era uma oportunidade de colocar, cumprir uma função histórica também de uma forma legal e não como uma palestrinha ou um livro de história. Não nesse sentido. Não tem intenção de contar a história, mas de registrar de forma divertida. Dentro do filme algumas histórias contam a história do povoado. E no caso das toadas que a gente colocou no filme, foi uma coisa muito legal, porque é lógico que eu já conhecia bastante o São João daqui de São Luís, que é enorme e tem as toadas clássicas que o povo mais conhece aqui: “Se não existisse o sol, como seria para terra se aquecer?” “O Maranhão, meu tesouro, meu torrão. Fiz essa toada para ti, Maranhão”. Então, a gente tem inúmeras toadas que são muito conhecidas aqui na ilha. Só quando a gente aprofundou a pesquisa, eu descobri que existia o boi da Betânia e que ele estava adormecido desde que o Canário Velho faleceu, o seu Chagas. Há uns 3 anos antes da filmagem, o seu Chagas, que era o principal Canário, faleceu. E desde que ele faleceu, o boi estava adormecido. Foi muito interessante que a gente entrou na casa do Marquita, que é um dos cantadores, com o Misael Pereira, e eles começaram a cantar toadas escritas por eles que contavam diversas histórias, inclusive a história do seu Chagas. Se você reparar, o filme começa com Marquita cantando: "É, Canário Velho, que deixou tristeza, faz parte da natureza, mas eu te chamo". Ele está falando do seu Chagas. E tem o trecho: "Aqui na Betânia, canário não canta só em cima daquela serra, já canta dois curió". Ele está contando a história da Betânia. E só nesse verso ele resume o filme. O filme fala: ninguém faz nada sozinho. E é louco que no documentário que eu fiz que inspira o filme, a dona Maria do Celso já falava assim: "Ninguém faz nada por si só. Eu luto por muitos. Eu não luto só por mim, não.” E aí o Marquita vem 3 anos depois e me canta isso, sabe? Eles estão dizendo a mesma coisa. O ciclo fechando direitinho. O Tião Carvalho trouxe toda a musicalidade dele, as toadas dele também. Então, quando juntou a musicalidade do Tião Carvalho com as toadas do Misael e do Marquita, fez uma força e aí juntou as incelenças cantadas pela Dona Maria Do Zuca, Dona Chagas, Dona Lúcia, Dona Marly. As incelenças são as músicas cantadas nos velórios dos Lençóis. O caderno da Dona Maria do Zuca que aparece no filme tem letras de incelenças que são cantadas por elas. Então, aquilo encaixou bem no filme é a música daquele lugar. A gente na pesquisa só teve o trabalho de identificar e falar: "Olha, tem essas incelenças, qual que tem mais a ver com o roteiro? Ele tem 10 toadas, qual que tem mais a ver com a história?”. A gente percebeu que a música poderia cumprir uma função, como você disse, de mover a história para frente. De não ser só uma trilha sonora ali. Ela é parte da narrativa. É um filme muito musical, a gente conta que ele tem mais de 60 momentos musicais no filme. As músicas estão sempre ajudando a dar ritmo, mas elas também estão ajudando a contar a história. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Vamos comentar agora sobre o atual cenário do cinema brasileiro. O Brasil e o mundo estão tomando mais conhecimento da riqueza e da diversidade do cinema muito graças às políticas públicas de incentivo, aos editais etc. Mas me revolta ver que o cinema brasileiro ainda é sufocado pelas produções internacionais no mercado. Semana passada estreou um filme estadunidense medíocre baseado num joguinho e devorou todas as salas de cinema do Brasil e isso ainda me irrita muito. O que você acha que ainda falta para o cinema brasileiro ganhar o espaço à altura dos filmes importados e um volume maior na distribuição? Marcelo Botta: Políticas de Estado, o cinema deveria ser política de Estado. Eu acho que a cota de tela tem que ser maior, mais bem empregada e acho que o valor do ingresso tem que ser diferente. O filme brasileiro teria que ser mais barato. Então, o que a gente tem conseguido agora com Betânia para o lançamento dia 24 de abril no Maranhão e 8 de maio, lançamento nacional, estamos tentando negociar com os cinemas, principalmente aqui no Maranhão, que se chegue num valor bacana que todo mundo possa pagar meia. Então, aqui no cinema que a gente vai estrear, as pessoas vão poder pagar meia, meia entrada para todo mundo. Então, o sujeito chega lá, na boca do caixa e vê o filme estadunidense, custando o mesmo preço que o filme brasileiro, e ainda por causa da história colonial do Brasil, existe o pensamento de achar que o que vem de fora é melhor. E pensam, se tá o mesmo valor eu vou ver o de fora que vale mais a pena, é um pensamento triste, mas existente. Mas como você combate isso? Deixa o cinema brasileiro mais barato, ter subsídio, além da cota de tela, ter subsídio e taxar os filmes americanos. Não está tendo guerra cambial aí no comercial? Vamos taxar os filmes americano. Como é que a Coreia do Sul fortaleceu a indústria deles? Quando perceberam que o Missão Impossível lá atrás, tinha dado mais dinheiro do que a indústria automobilística da Coreia inteira naquela época, né? Eles fizeram a conta e pensaram: "Cara, isso aqui é mercado, isso aqui é indústria, isso aqui, além de cultura, soft power, isso aqui é economia. Isso aqui move a economia. Hoje a indústria audiovisual coreana é gigante. Então, acho que a gente tem exemplos no mundo. A Coreia era como o Brasil, a taxa de filmes coreanos não ocupava as telas de cinema lá, era igual do Brasil entre, 20%, 15%, 10%, como também é maioria dos países do mundo. Estava vendo agora os dados da Espanha, e não foge muito. Os filmes espanhóis vistos na Espanha são 14%, 13%, 12%, entendeu? Na maioria dos países é assim que é. Hoje se não me engano na Coreia acho que 80% dos filmes são coreanos. Então assim, o estadunidense vai ter que disputar ali aqueles 20% do público que sobrou de sala da Coreia com o filme europeu, ou da América Latina, porque 80% é filme local. Eu acho até que o Brasil tem uma capacidade de originalidade, de inventividade, de originalidade maior que a Coreia. Olha o tamanho do Brasil. Olha a diversidade cultural desse país. A gente teria o potencial de fazer o que a Coreia fez numa escala muito maior, até pelo tamanho do Brasil. O Brasil é maior em termos de quantidade de pessoas, de território e tem mais diversidade cultural, acho que tem mais potencial para criar um cinema original, diferente. Então, a gente tendo essa política de estado que é cota de tela e achar um preço do ingresso, né, que seja o filme brasileiro chegue lá no caixa aí e seja meia entrada para todo mundo, imagina se tivesse essa lei: Filme nacional, todo mundo paga meia. Isso é uma lei que faria toda a diferença. O filme brasileiro teria um subsídio que o ingresso ficaria pelo menos 30% a 40% mais barato. E o financiamento. Investir no financiamento de filmes de uma forma também que você falou a importância dos editais que estão sendo descentralizados, isso é fundamental. Mas a gente percebe que tem produtora em São Paulo, por exemplo, que sempre acabam ganhando os editais, eles vão para aquelas produtoras de sempre. Então, é legal poder distribuir nacionalmente, a gente tem que cada vez mais fazer isso, ter editais regionais e fortalecer, sair desse eixo do Rio-São Paulo, mas o dinheiro que ainda tem para São Paulo, se você for ver, sempre cai na mão das mesmas produtoras. Deveria ter uma limitante dizendo: a produtora já tá no nível 4, 5 da Ancine, ele não pode acessar aquela linha. Aquela linha é só para produtor nível 1, 2, 3. Isso existe. Mas é um pouquinho de dinheiro que vai para as produtoras de nível 1, 2, 3 e o grosso do dinheiro vai para as produtoras as mesmas de sempre. Isso deveria mudar também, para que haja uma pluralidade maior. As produtoras que já que já pegam edital em São Paulo, principalmente, são produtoras antigas e gigantescas que que tem uma estrutura muito grande e cara, legal, eles também precisam continuar produzindo, mas eu acho que é necessário que haja mais linhas para produtores nível 1, 2, 3, entende? E ter linhas específicas para os níveis 4 e 5, sinto que ainda precisa acontecer essa mudança. Não é papel do governo investir no cinema apenas para representar culturalmente o Brasil, é uma indústria que gera emprego, que gera renda, que move a economia. Então tem essa parte da gente se unir e mostrar para esse centrão aí que manda no Brasil que é importante investir no audiovisual em termos econômicos. Não é falácia, é real, os números estão aí. Quando você vê um filme que dá bilheteria, o dinheiro que ele move, o tanto de recurso que ele promove… um filme que dá mais de 4 milhões de espectadores como O Auto da Compadecida 2, o tanto de gente que ele leva pro cinema… então cada R$ 1 investido no cinema, ele volta, ele volta multiplicado pra economia brasileira. É parte da política de estado e que a gente tem que cobrar, não adianta achar que vai se auto-regular sozinho, tem que ter lei, tem que ter leis mais incisivas. E o preço mais acessível para o cinema nacional, assim o pai ou a mãe de família quando forem levar seus filhos ao cinema poderem sentir a diferença. Agora, aí passa por uma questão de nós realizadores, cada um faz o filme que quer, não tô aqui para falar que devem fazer o filme assim ou assado, né? Mas nós realizadores, produtores, também podemos buscar produzir mais filmes que tenham essa capacidade de dialogar com a família brasileira. Existem filmes que não vão dialogar por natureza, é óbvio, é classificação indicativa, é um filme que tem muita cena de sexo, ele vai ser 18+, é óbvio que uma família não vai ver esse filme. O pai e a mãe podem ver, mas os filhos pequenos não vão ver. Então já dá uma travada. A maioria dos filmes brasileiros autorais não funcionam muito para a família inteira. Ele vai funcionar para os 16+, alguns até por 18+. E isso também é super legal, são ideias originais, está cheio de filme ótimo em festival, eu adoro, eu sou público deles. Mas assim, é importante ter os filmes que façam carreira de festival e que levem a família brasileira para o cinema coletivamente. Quais filmes brasileiros fizeram carreira de festival e levaram as pessoas coletivamente para o cinema? Filmes que você possa tanto sozinho quanto com a sua mãe, seu pai, sua avó, suas tias, seus filhos, seus sobrinhos, seus primos.... São poucos filmes que chegam nesse lugar conciliatório de fazer carreira internacional de festival e de ser filme de público. A gente teve o Ainda Estou Aqui, um ótimo filme, com um momento político bem marcado e com um cineasta já renomado. Então, é possível. Só que a gente não pode ter um filme desse, com essas características, a cada 20 anos, é para ser bem mais frequente. A gente tem que ter todo tipo de filme sendo feito. Isso é muito importante. Mas quanto mais frequência tiver na produção desses filmes que tem potencial de ser filme de festival e ao mesmo tempo filme comercial, acho que aí a gente vai fazer o brasileiro entender que o cinema nacional é constante e impositivo. Aqui no Maranhão, o Betânia é um assunto popular, ele é filme comercial, é um filme que pode ser visto pela família inteira, ele promove debates e reflexões dentro da família. Mas que não é por isso que ele se torne um filme puritano, ele mostra a tragédia climática, ele mostra o conflito de gerações – uma menina lésbica em conflito com a mãe – mas ele é feito do jeito que a família toda pode ver junto e refletir junto e sair do filme todo mundo mais fortalecido, mais unido, mais ciente, menos hipócrita, aceitando mais as diferenças. O cinema também pode ser esse lugar das pessoas celebrarem a vida juntos e depois refletirem sobre o filme juntos. Acho que é filme ele tem que ser vivido e digerido ao longo de dias, meses ali, você ficar lembrando dele, comentando as discussões. É um desafio conseguir fazer esse tipo de filme, ser apreciado pelo público de Berlim, mas também ser visto pela sua família. E acho que quanto mais filmes brasileiros chegarem nesse lugar de ser comercial e ser “arte” ao mesmo tempo, mais vai quebrar esse pensamento atrasado de: "Ah, o Brasil só faz filme desse tipo ou daquele tipo". O público brasileiro vai entender: "Não, o Brasil faz filme bom". Brasileiro faz filme bom. Eu sei que é difícil. O mundo nos empurra para você escolher, ou você vai fazer algo comercial ou você vai fazer algo para cinéfilo. A gente é empurrado, porque na hora que você vai financiar um filme, eles querem te encaixar para um lado ou para outro. O sistema quer que você caia numa ponta ou na outra. Ou você faz filme de festival, que no Brasil vai dar 3.000 pessoas no cinema, ou você faz filme comercial que não vai ter ressonância nenhuma fora do Brasil. Só vai ter público aqui, comédia comercial que faz público aqui, mas fora do Brasil ninguém não ouviu falar desse filme. Então é difícil chegar neste lugar comum, mas acho que é esse tipo de filme que também vai ajudar a gente a mudar esse cenário. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Para finalizar, queria que você indicasse alguns filmes brasileiros que você tenha como favoritos, ou que te influenciaram, ou que você gostaria de recomendar para que mais pessoas conheçam. Marcelo Botta: Vou recomendar alguns dos mais recentes que acho que preenchem todos esses requisitos. Saudade Fez Morada Aqui Dentro (2022). Filme lindo e me identifiquei muito com a forma como o Haroldo dirigiu o filme e como conseguiram achar o tom de atuação, a sensibilidade. E mostra um Brasil também rural e inspirador, e é um filme que pode ser visto pela família. Ele é um filme que fez carreira em festivais, mas que é acessível para todos os públicos, e atualmente está na Netflix e acho que merecia ser mais visto e comentado. A Vizinhança do Tigre (2014), do Affonso Uchoa, acho que está disponível no Mubi. É um filme que consegue construir essa linha ténue entre a ficção e o documentário de uma forma muito legal. Você fica o tempo todo se perguntando o que é documentário e o que é ficção. Eu acho inteligente a forma pouco óbvia como ele que ele cria a linguagem é um filme muito inspirador. E Estranho Caminho (2024), do Guto Parente, também está no Mubi. Eu conheci o Guto aqui no Guarnicê, em junho do ano passado, mas só depois eu fui ver o filme e putz, adorei a narrativa, achei um filme que também desafia o óbvio, e tem uma linguagem muito inovadora.

  • Crítica | Demolidor: Renascido (1ª temporada)

    Uma série sem alma, que ocasionalmente entretém. Divulgação Quando Demolidor estreou sua 1ª temporada na Netflix em 2015, a promessa era de uma produção mais sombria do que os filmes da Marvel que víamos no cinema, e ela cumpriu esse papel muito bem até 2018, quando foi encerrada, trabalhando diversas nuances do personagem, com belas sequências de ação, vilões à altura e coadjuvantes carismáticos. Agora, voltando para “casa” – Disney é dona da Marvel –, a pegada é diferente. Tem um foco maior na advocacia, com Matt (Charlie Cox) lutando por justiça através do seu escritório, pelo lado correto da lei, mas quando Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) – antigo Rei do Crime – reaparece almejando uma carreira política em Nova York, seus caminhos voltam a se cruzar e suas identidades passadas voltam a emergir. O problema é que a série parece não saber o que fazer com essas tais identidades e desperdiça o potencial. De início, dá a impressão que ela sabe que rumo vai tomar. As drásticas decisões que toma já no primeiro episódio poderiam ser lidas como ousadas, mas no decorrer da temporada fica claro que a intenção era somente descartar personagens da série anterior, já queridos e estabelecidos, substituindo por novos, mas que o roteiro falha em desenvolver, utilizando os rostos conhecidos de outrora como artifício meramente nostálgico. Karen (Deborah Ann Woll), Foggy (Elden Henson) e Justiceiro (Jon Bernthal) servem basicamente para isso e a tentativa de usá-los como motivação para atitudes do protagonista é uma boa ideia, mas mal executada, bem como grande parte de Demolidor: Renascido. Dos antigos, Fisk tem um papel maior, assim como sua esposa Vanessa (Ayelet Zurer). Há um foco no casamento complicado dos dois e eles chegam até a fazer terapia de casal – outra boa ideia jogada de qualquer jeito – com Heather (Maragarita Levieva), novo interesse amoroso de Matt. Apesar da boa química com Cox, a personagem é de uma nota só e nem o talento de Levieva salva de cair no marasmo. O elenco, no geral, é competente, mas não consegue fazer milagre com o roteiro que recebe. Com exceção de D’Onofrio, que me irritou muito mais do que instigou com sua performance, causando por vezes até um riso involuntário. Divulgação Estou ciente dos problemas nos bastidores do processo criativo e isso explica muitos problemas aqui. Quando a série foi anunciada, o plano era que tivesse 18 episódios, que depois foram reduzidos a 9 quando uma nova equipe assumiu. É visível como algumas ideias permaneceram e foram cortadas pelo meio, parecendo um retalho do que deveria ter sido. Arcos que começam bem, mas foram mal trabalhados e entregam um resultado apático, sem vida. As cenas de ação que eram famosas por serem extremamente bem ensaiadas e filmadas na série da Netflix, aqui são cheias de cortes que dificultam o envolvimento do telespectador, o que é uma pena. Há episódios bons pelo meio, como o 5º, onde Matt está no meio de um assalto a banco. Ele foi chamado de “filler”, mas eu nem acredito nesta nomenclatura porque há um desenvolvimento eficaz do protagonista e mesmo se fosse “filler”, isso nunca foi sinônimo de ruim, divertindo mais do que os episódios focados na trama principal, em que vilões vão e voltam sem causar muito impacto. O final ensaia uma melhora, mas seria muito mais proveitoso se a temporada tivesse sido bem construída, pois sem uma boa base, não importa quão bonita é a cobertura: ela ainda é frágil. No entanto, consegue deixar o terreno preparado e levanta o potencial para uma 2ª temporada mais forte. Espero não me enganar de novo e ganhar algo tão esquecível quanto esta 1ª. Nota: 2,5/5

  • Entrevista | Calebe Lopes fala sobre seu novo curta-metragem, “Ataques Psicotrônicos”

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor baiano falou sobre seu trabalho no cinema de gênero, as inspirações, a relação do filme com a religião evangélica e a sua trajetória em festivais. Divulgação Medo e loucura, convicção e descoberta, fé e razão são poéticas que reúnem dois personagens em comum propósito. Ataques Psicotrônicos acompanha, em uma única locação, a noite de Erick (Ednei Alessandro), um ex-pastor, e de Virgínia, uma cientista (Jane Santa Cruz) em busca de solucionar um zumbido que atormenta a mente de Erick. Incrustado na estranheza, Calebe Lopes trabalha com texturas imagéticas e sons metálicos para traduzir sensorialmente a psique de seus personagens. O curta-metragem, oitavo da carreira de Calebe, tem se destacado com uma trajetória sólida em diversos festivais Brasil afora, incluindo-se aí o Panorama, em Salvador, o Janela de Cinema, em Recife, o FestCurtasBH, em Belo Horizonte, e o Fantaspoa, em Porto Alegre, além de estar selecionado para a 34ª edição do CurtaCinema, no Rio de Janeiro. O Oxente Pipoca, que divulgou com exclusividade o trailer de Ataques nas redes sociais, pôde entrevistar Calebe para falar acerca do filme e você pode conferir abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Primeiramente eu queria agradecer, em nome do Oxente Pipoca, pela disponibilidade para a entrevista, e também te parabenizar por Ataques Psicotrônicos. É muito interessante fazer um exercício de voltar à época da nossa primeira entrevista, lá em 2023, quando eu tinha assistido seus demais curtas, e definitivamente Ataques se tornou o meu favorito dos seus filmes, e acredito que essa opinião vai ser compartilhada por muita gente. Queria que você falasse um pouco de onde surgiu a inspiração para o curta e como foi o processo de produção, escalação dos atores principais, gravação, quais os principais desafios? Calebe Lopes: Primeiro queria agradecer à janela que o Oxente Pipoca dá, não apenas enquanto cineasta nordestino, baiano, que está fazendo cinema de gênero, mas também por estar na seara do curta-metragem. Sobre Ataques Psicotrônicos, eu escrevi o roteiro em 2021, enquanto a gente ainda estava na pandemia. E eu estava num processo de não saber exatamente qual seria o próximo projeto, quais seriam os próximos passos, porque os filmes que tinha colocado em editais não tinham sido selecionados. E aí Klaus [Hastenreiter, colega de Calebe na Olho de Vidro Produções] me deu essa ideia de trabalhar em algo sem grana, com uma equipe pequena, com uma única locação. Não só por uma questão de orçamento, mas pelo contexto pandêmico - e eu estive muito inserido em toda aquela paranoia da pandemia. Um dia eu estava num grupo de Facebook da UFBA, um grupo grande com mais de 40 mil pessoas. E aí vi um post de um cara falando em caps lock: “ELES QUEREM ME MATAR, NÃO DEIXA QUE ELES ME MATEM, EU PRECISO DE AJUDA”. E aí vi uma galera meio preocupada, respondendo nos comentários desse post, e outras pessoas falando: "Ah, esse cara faz isso sempre". Eu joguei o nome dele na busca do grupo e vi que tinham vários e vários posts dele, todos muito parecidos, pedindo ajuda em caps lock, sem explicar muito o que estava precisando, mas dizendo que queriam matá-lo. E aí eu comecei a ler os comentários do post e em um deles alguém falava que ele estava sofrendo de “ataques psicotrônicos”, usava essa expressão que até então eu desconhecia. E aí eu fui jogar no Google pra entender o que era isso, e descobri que existe essa característica da esquizofrenia paranoide, da pessoa achar que está sendo perseguida, que está sofrendo uma espécie de tortura psíquica através de aparelhos eletrônicos. Comecei a mergulhar mais nisso e descobri que existe uma comunidade na internet de pessoas que falam sobre isso: canais do Youtube, blogs, etc. E aí num dos blogs a autora falou em um dos posts que tinha um chip implantado na cabeça dela, e que ela sabia quem tinha feito isso: o pastor da igreja que frequentava. E aí fui mergulhando cada vez mais nessa ideia toda. A princípio, eu quis fazer um documentário, só que aí depois de um tempo comecei a considerar que a ficção me permitiria ir para um lugar que me interessava mais e que o documentário não permitiria, por exigir um certo distanciamento. E o filme passou por várias etapas: de início pensei em fazer uma coisa totalmente [David] Cronenberg, aí depois quis ir para outro extremo, de fazer um giallo, depois abandonei isso e pensei que poderia ser um filme meio Boca do Lixo, meio Walter Hugo Khouri, meio Jean Garrett, e por último veio a ideia de misturar tudo isso, mas tendo um norte com o cyberpunk japonês, algo meio [Shinya] Tsukamoto. A partir daí, eu fui pegando elementos dessas coisas e misturando com outras - e aí veio, claro, David Lynch. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Você falou dessas referências, e realmente uma coisa que ficou muito nítida foi a inspiração em Cronenberg (principalmente Scanners), com um toquezinho do Lynch de Eraserhead, e teve gente que comparou também a Tetsuo, do Tsukamoto. Eu lembro que você compartilhou em seu Instagram uma lista de filmes que te serviram de referência e inspiração para esse filme em específico, e queria te perguntar: como você articula essas referências no decorrer de suas obras, tanto na questão estética quanto narrativa? Porque ao mesmo tempo em que acho algumas referências mais explícitas, também vejo muito um trabalho de “antropofagia”, de você moldá-las a uma realidade soteropolitana e brasileira. Calebe Lopes: Eu gosto muito da ideia de trabalhar com referências. Vez ou outra a gente vê cineasta que nega suas referências; já estive em debate com diretor que alguém perguntou sobre quais filmes o inspiraram e ele falou que nenhum, ou que não sabia dizer. Mas eu acho que os meus filmes são muito resultado de minha cinefilia, em primeiro lugar. Faço filmes para aprofundar minha cinefilia, porque acho que cada filme que eu faço é uma obsessão, e quero cada vez mais mergulhar mais fundo naquelas ideias, na estética, em todos os elementos que compõem o filme. Então eu passo um longo processo usando o filme que eu estou fazendo para descobrir novos filmes, livros, quadrinhos. Só que ao mesmo tempo o meu processo criativo, essa coisa das referências, elas nunca são diretas. O que é muito engraçado, porque quando o filme está pronto e eu vou revendo-o, exibindo em festivais e mostrando às pessoas e ouvindo elas falando sobre, é aí que vou percebendo que tem muita coisa que remete diretamente a vários outros filmes. Mas quando a gente tá nesse processo criativo de escrever roteiro ou de fazer a decupagem, muito dificilmente a gente vai ter uma referência direta, de pensar em filmar de tal maneira porque foi feito assim num outro filme, ou fazer uma homenagem. Tanto que nem uso a palavra “referência”, eu gosto de usar a palavra “inspiração”. De início minha inspiração principal era Cronenberg, então o estudei muito durante esse processo todo, revi a filmografia dele, comprei vários livros sobre ele. Só que depois de um tempo eu comecei a notar que eu estava estudando Cronenberg para me afastar dele, porque o estilo de filme que eu buscava era quase um anti-Cronenberg, justamente apostando nessa estilização, nesse maneirismo, nesse antinaturalismo, até no tom que os personagens falam e na escrita dos diálogos, na movimentação de câmera, na mise-en-scène. Então, fui me afastando dele e me aproximando dessas outras inspirações, mas também nunca racionalmente copiando nada. Acho que dentro desse meu processo de cinefilia, que vai expandindo enquanto faço filmes, fui entendendo cada vez mais o valor do inconsciente, e é uma bandeira que eu tenho levantado. Por exemplo, o Claudio, que é o curta anterior que fiz, tem muito de Dario Argento, de Mario Bava, de Brian De Palma, mas eu não vi nenhum filme deles enquanto me preparava para fazê-lo. Mas esses sempre foram cineastas que gostei, que cresci assistindo, então eu quis deixar meu inconsciente trabalhar. Aí hoje, quando eu vejo algum filme de Argento ou De Palma, às vezes noto um plano ou uma ideia que eu falo: "Caramba, isso tá em Claudio". Mas não foi proposital, sabe? E aí eu tenho cada vez mais valorizado esse processo. Eu gosto sempre de citar uma fala de Rita Azevedo Gomes, de que ela só entende os filmes que faz depois de ter feito, quando eles já estão prontos. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A gente tem visto uma onda de produções que usam e abusam de recursos técnicos como a fotografia P&B ou os planos-sequência, mas te acompanhando nas redes sociais vejo que você é bastante crítico desses recursos que, no fim das contas, não comunicam muita coisa e soam apenas vazios. Num filme como Ataques, que certamente vai chamar a atenção pela fotografia P&B ou a razão de aspecto em 4:3, quais foram as razões para tais escolhas estéticas e técnicas? Como você espera que elas comuniquem a narrativa ali apresentada? Calebe Lopes: Acho que no caso de Ataques, veio muito dessa ideia de tentar causar estranhamento, não por um “fetiche do estranhamento”, mas por buscar dar uma resposta a um certo tipo de cinema brasileiro. A gente está num momento do cinema e do streaming onde há essa ideia da nitidez e da clareza, e hoje em dia, quando alguém vai criticar a fotografia de um filme, às vezes ela fala que não conseguiu enxergar nada, ou quando ela vai elogiar, é porque conseguiu enxergar a cena ou perceber as cores. Ao mesmo tempo as câmeras, as lentes, as telas, tudo busca cada vez mais nitidez. Eu acho que a partir do momento que você começa a ter uma extrema nitidez, a partir do momento que a imagem de cinema tenta replicar o que a gente vê com os olhos humanos, isso já não me interessa de jeito nenhum. Para mim, o visual de Ataques vem muito disso, de tentar se distanciar dessa ideia de uma imagem da vida e remeter a uma imagem de cinema. E no fim das contas, todas esses elementos técnicos que você citou vão colaborando para essa ideia de desconforto, porque o 4:3 é uma razão de aspecto muito apertada, principalmente se você investe em planos próximos, como era o nosso caso. O preto-e-branco vai trazer essa atmosfera quase que onírica, de estar distanciando da realidade, e aí somado a isso vem todo o trabalho de fotografia e de color grading que vai embaçar a imagem. A gente gravou com uma câmera que é muito barata, de certa forma, não é exatamente uma câmera de cinema, é uma Panasonic GH5, que você usa para filmar evento, casamento. E vejo muitas pessoas perguntando se foi gravado em película ou se tentamos emular 16mm de alguma forma, e a ideia não era exatamente essa, era sujar a imagem mesmo. Para mim o que fazia mais sentido era que o filme tivesse essa imagem suja, quase que corrompida, até porque tinha a ver com toda aquela maluquice que os personagens estão vivendo, com todo tipo de cinema que a gente queria remeter. E aí claro que vai entrar o próprio Eraserhead do Lynch, o Tetsuo, o Pi do [Darren] Aronofsky, e essas escolhas apontavam para o maneirismo, que é uma das bandeiras que tenho levantado; essa consciência de que tudo que tinha pra ser filmado já foi filmado. Então resta a nós, cineastas, encontrar novas maneiras de filmar, novos ângulos, novas perspectivas, porque os temas, as histórias, os tropos já foram gastos. E eu acho que isso tudo também dialoga com algo que norteia a minha cabeça enquanto cineasta, que é essa ideia de que o cinema de gênero no Brasil é um terreno muito fértil, mas que de certa forma ele foi sequestrado pelo cinema americano. E tudo o que fizermos sempre será comparado, sempre terá Hollywood como parâmetro de qualidade. Paralelo a isso, o cinema brasileiro ficou muito relegado a esse interesse pelo realismo social, e pelas questões políticas muito literais. E de certa forma eu acho que a gente foi perdendo a capacidade de imaginar, e me interessa enquanto cineasta imaginar, recuperar esses territórios imaginários que um dia nos foram negados ou roubados, daí fazendo a “antropofagia” de que você falou antes. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Falando em “antropofagia”, Ataques traz mais uma vez a questão da religião evangélica em sua narrativa, assim como já tinha acontecido em A Triste Figura. Na nossa outra entrevista você comentou que cresceu e passou muitos anos dentro da igreja evangélica, então de que maneiras você acha que esse tópico surge dentro de suas obras? E o que você pensa da maneira como o audiovisual brasileiro contemporâneo costuma retratar os evangélicos, em especial com toda essa ascensão conservadora e aumento do percentual da população que se declara evangélica? Calebe Lopes: A questão do evangélico faz parte de mim. Em determinado momento da vida eu comecei a me preocupar se não estaria me repetindo, se não corria o risco de fazer filmes muito iguais, mas é realmente quem eu sou, porque isso me formou, eu nasci num lar evangélico na periferia de Salvador, passei mais de duas décadas da minha vida sendo evangélico e levando a sério tudo aquilo. Então quando abandonei a religião foi libertador mas também um grande choque, pois foi algo que formou também meus traumas, minhas cicatrizes, minhas paranoias. E Ataques é muito sobre isso, ele nasce dessa reflexão sobre as coisas que ficam depois que você sai de um de um esquema que, no meu caso específico, não era nem uma igreja evangélica normal, era uma seita mesmo, uma seita evangélica. Eu acho que muito de como encaro a vida é também resultado de tudo que eu vivi lá. Então para mim, o meio evangélico, por exemplo, está muito lotado de encenação. Um culto é uma mise-en-scène, é uma apresentação teatral, por vezes cinematográfica. E essa ideia [da teatralidade] me guiou muito durante A Triste Figura, pois foi uma das coisas que mais me fez me afastar, o fato de que existia uma corrida para performar espiritualidade, para ver quem era mais amigo de Jesus. Para mim foi aterrador ver, durante a pandemia, qual era o posicionamento dos evangélicos diante de como o país estava. Teve um dia que minha mãe chegou para mim e falou: “olha, eu vim te dizer que eu não vou tomar vacina, porque os médicos da igreja falaram para não fazer isso, e se eu conseguir a cloroquina eu vou tomar”. E eu lembro que nesse dia fui dormir muito mal, e na época eu já estava escrevendo o roteiro de Ataques. E para mim essa sensação que senti nesse dia permeou o filme todo, essa sensação de derrota diante de um projeto de poder, porque eles se alastraram de tal forma pelas camadas da sociedade que você tinha médico evangélico receitando cloroquina. E isso está presente de diferentes formas no curta, em especial a imagem da lua, do olho, aquela sensação de estar sendo vigiado o tempo todo, de que não há escapatória. Eu acho que é importante que diretores evangélicos ou ex-evangélicos façam filmes sobre o meio, mas sobre a maneira como o cinema brasileiro geralmente lida com isso tenho certa aversão, porque cai no lugar do estereótipo. Eu acho que existe no cinema brasileiro um distanciamento que é muito causado por essa sensação quase aristocrática, que boa parte da esquerda de classe média e classe média alta brasileira tem, essa coisa do “somos melhores que eles”. Existe uma espécie de julgamento moral, ao apontar para eles e chamá-los de moralistas e de talvez criar um cenário maniqueísta, de bem contra o mal, nós contra eles, que eu penso que não é por aí. Tem boas exceções, eu acho, mas geralmente o cinema brasileiro não contempla a complexidade e ambiguidade do evangélico, porque ele ignora que a experiência do evangélico no Brasil é, antes de tudo, uma experiência de fé mesmo, de espiritualidade, de realmente se conectar com Deus. Para mim, o catolicismo no cinema sempre rendeu esteticamente coisas muito mais interessantes do que a igreja evangélica, mas eu acho que isso também tem a ver porque o cineasta brasileiro não sabe filmar nada daquilo de um jeito interessante também. É tudo meio desinteressado, é tudo meio etnográfico demais ou “National Geographic”. Sei lá, vai num culto de verdade, ouve essas pessoas, tenta entrar na cabeça delas assim, quase como esse exercício mesmo do Ataques Psicotrônicos de tentar realmente entender o que está acontecendo lá dentro e se imaginar lá dentro. Pensa que aquilo tudo que aquela pessoa está acreditando é real, acredita que é real junto com ela. E aí a partir disso você constroi seu filme. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Antes mesmo de assistir Ataques eu já estava bem feliz em acompanhar a trajetória do curta em festivais, seja em Salvador, Recife ou outras capitais. Como tem sido esse processo para você? De trocas com o público e outros realizadores, da possibilidade de assistir ao seu filme ser exibido e depois falar dele junto ao público? De quais maneiras você avalia a importância desse tipo de percurso para um realizador independente? Calebe Lopes: A ideia de Ataques era a de ser um filme estranho, que dificilmente agradasse às pessoas. Eu escrevi em 2021, filmamos em 2022, montamos imagem, som e efeitos visuais em 2023, e lançamos em 2024, e durante esse tempo eu fui entendendo que talvez ele não circulasse muito, talvez ele não fosse para grandes festivais, talvez as pessoas desgostassem dele porque era meu filme mais arriscado. E está sendo o contrário; sendo muito sincero, eu não esperava que as pessoas fossem gostar tanto. Quando eu paro para olhar o Letterboxd, a grande maioria das notas é bem alta, até mais alta do que os meus filmes anteriores. Fomos para festivais que são bem relevantes tanto dentro do cinema brasileiro, do circuito de festivais convencional, quanto do circuito de festivais de cinema de gênero. Então eu acho importante isso, porque os festivais proporcionam o objetivo final que acredito que a maioria das pessoas que fazem filmes têm: exibir o seu filme numa tela de cinema. E eu acho que ele é um filme que cresce muito no cinema. Para mim está sendo ótimo poder ver o filme circulando tanto, e está sendo ótimo também poder viajar com o filme, que é uma coisa que eu nunca consegui fazer tanto com os meus anteriores, e agora estou conseguindo estar em boa parte das sessões e conversar com as pessoas. E aconteceu uma coisa também que ainda não tinha acontecido nessa proporção, que é justamente essa coisa das pessoas virem realmente falar comigo e conversar sobre o filme, e é o tipo de coisa que você vê geralmente acontecendo com diretor de longa, não com diretor de curta. Por exemplo, o Panorama começou semana retrasada e acabou semana passada, e o filme passou no primeiro dia de competição. E daquele dia até o final do festival eu fui parado por várias pessoas que não me conheciam e que vinham querer conversar sobre o filme. E isso aconteceu também nos outros lugares, aconteceu em Recife e em Belo Horizonte. Eu acho que o fato do filme ser estranho conta, sabe? Traz um ar de novidade. É uma das coisas que eu mais ouço, um dos adjetivos que as pessoas mais usam para definir o filme é “estranho”, ou “diferente” ou “esquisito”. E uma das coisas que as pessoas mais falam também é que gostariam de ver um longa disso. Para quem faz curta, às vezes isso soa como uma pressão, mas para mim é muito um norte, mostra que esse tipo de filme dá certo. Eu acho que tem um interesse muito saudável por ver coisas que ainda não se viu no cinema brasileiro, e para um realizador o festival é importante, porque ele vai te colocar em contato com o público, vai te colocar em contato com outros cineastas, vai proporcionar que você faça networking. E o curta geralmente é o seu cartão de visitas dos projetos de longa que você está tentando emplacar em rodada de negócios, em reuniões, em editais. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, gostaria de ouvir de você indicações de suas produções nacionais favoritas, ou daquelas que te conquistaram nos últimos tempos e você acha que todo mundo devia assistir, especialmente dentro do campo do cinema de gênero. Calebe Lopes: Eu consegui ver agora no Panorama um longa recifense chamado Salomé, dirigido por André Antônio, que é um filme queer que mistura vários gêneros e vai aos poucos vai virando uma loucura. Foi o filme que mais gostei de ver esse Panorama. Pude rever esses dias um filme que eu já tinha assistido lá no FestCurtasBH, que é um curta de Yuri Costa chamado E Seu Corpo é Belo, que para mim é o melhor curta de gênero brasileiro que eu vejo em muito tempo. É muito um filme que me instiga inclusive criativamente, porque talvez seja o melhor tipo de filme possível, aquele que te dá vontade de fazer filme. E vou recomendar um filme que foi muito importante no roteiro de Ataques Psicotrônicos, que é um longa chamado Era uma vez Brasília, dirigido por Adirley Queirós, que é uma ficção científica da Ceilândia. Ele é um filme pós-golpe, especificamente muito embebido por todo esse processo do impeachment que Dilma Rousseff sofreu, mas ao mesmo tempo eu acho que é um filme mais interessado em traduzir um estado de espírito que ser uma reportagem ou registro histórico, ele é quase que uma ressaca do golpe. Acho que é um filme que nega completamente qualquer tipo de catarse, e aí para mim foi muito importante assistir isso, porque eu entendi que o cinema brasileiro também tem espaço para os filmes de derrota. A gente está sendo derrotado quase que todos os dias; não é possível que os filmes não reflitam isso de alguma forma. E é bom que para além dos finais felizes o cinema reflita isso, até para fugir da alienação. Talvez às vezes a gente perca, e essas derrotas possam ser tão ou mais importantes e educativas que as vitórias, sabe?

  • Crítica | Drop: Ameaça Anônima

    Um suspense moderno com pulsação digital e tensão constante. Divulgação Lançado na última semana nos cinemas brasileiros, o filme Drop: Ameaça Anônima passou meio despercebido dentre a enxurrada de salas disponíveis para o blockbuster do mês baseado no jogo Minecraft. Mas a trama, escrita por Jillian Jacobs e Chris Roach e dirigida por Christopher B. Landon, consegue surpreender quem busca uma boa história de suspense para se entreter. Usando a funcionalidade real dos airdrops — recurso de compartilhamento de arquivos via bluetooth, disponível nos sistemas ios — como ponto de partida, conhecemos Violet (vivida com intensidade e nuance por Meghann Fahy), uma mãe viúva que decide dar um novo passo em sua vida amorosa ao conhecer Henry (Brandon Sklenar) através de um app. O que deveria ser um encontro romântico comum se transforma em um jogo macabro quando Violet começa a receber mensagens ameaçadoras de um número anônimo. A cada nova instrução, o medo cresce e a sensação de impotência do espectador acompanha o desespero da protagonista. Sendo bem sincera, sou uma grande fã dos trabalhos mais recentes do diretor Christopher Landon, que incluem Como Sobreviver a um Ataque Zumbi, A Morte te dá Parabéns e Freaky, filmes que misturam elementos de horror clássico com bom humor. Aqui em Drop: Ameaça Anônima, Landon parece encontrar um cinema mais consciente, se voltando às referências de grandes tramas de suspense e thrillers, um pouco diferente do que estávamos acostumados a ver. E é muito interessante ver o diretor explorando as nuances do gênero, ainda mantendo sua essência. Landon opta por uma direção mais contida do que em seus trabalhos anteriores. O uso de espaços limitados, como o restaurante e o carro, reforça a sensação de confinamento. A mise-en-scène é limpa e funcional, deixando que a performance da atriz e o design de som carreguem a tensão. O diretor evita cortes excessivos e usa planos médios e closes longos para explorar a linguagem corporal da protagonista, o que amplia a nossa imersão na história. Divulgação Acerca da trama, Drop: Ameaça Anônima te envolve rapidamente através da empatia que nutrimos pela protagonista e também pelo ritmo frenético que ele impõe logo nos primeiros minutos da trama. As coisas vão escalonando de uma maneira que te deixa vidrado. O roteiro, ainda que parta de uma premissa que já vimos antes (estranhos sendo controlados por mensagens anônimas), consegue manter a tensão viva com reviravoltas bem posicionadas. A progressão dramática respeita os beats clássicos do thriller, com uma clara divisão em três atos — mas evita didatismos. A dúvida constante sobre quem está manipulando os eventos sustenta a narrativa até o clímax. O que começa como uma ameaça externa vai ganhando contornos mais íntimos e psicológicos, até o espectador se perguntar: quem é a verdadeira ameaça? Meghann Fahy é o coração do filme. Sua atuação evita exageros e encontra força no realismo e fácil acreditar em Violet. Ela, que teve um destaque fenomenal na segunda temporada de The White Lotus, prova que também tem força para ser uma excelente protagonista nos cinemas. Brandon Sklenar também entrega uma performance interessante, jogando com a ambiguidade do personagem sem nunca escorregar no óbvio. Para alguns, se há um ponto fraco, talvez seja o terceiro ato, que pisa um pouco no acelerador da verossimilhança em favor da ação, mas mesmo esse exagero tem seu lugar em uma narrativa que claramente quer brincar com os nervos do espectador. Drop: Ameaça Anônima é um suspense elegante e eficiente, que prova que o terror mais inquietante muitas vezes vem da tecnologia (e de nós mesmos). Uma história de vigilância, confiança e sobrevivência que prende até o último segundo. Sua força está na economia narrativa e na linguagem visual funcional, que juntas criam um thriller psicológico com elegância e precisão. Um ótimo exemplo de como um filme pode gerar tensão com recursos simples, mas bem aplicados. Nota: 3.5/5

  • Crítica | Pecadores

    Suingada e inspirada, fantasia sobrenatural é impactante e surpreendente. Divulgação Ryan Coogler apresenta Pecadores, uma nova e visionária imaginação do terror, estrelada por Michael B. Jordan. Dispostos a deixar suas vidas conturbadas para trás, irmãos gêmeos (Jordan) retornam à sua cidade natal para recomeçar suas vidas do zero, quando descobrem que um mal ainda maior está à espera deles para recebê-los de volta. O primeiro esforço positivo do filme do versátil cineasta Ryan Coogler é a constante luta para fugir do óbvio. O texto é encorpado como um volumoso livro que se impõe sobre uma estante de livros do mesmo gênero. Embora a cena inicial indique o tom que o longa seguirá eventualmente, a maneira com que a contextualização se desdobra em todo o primeiro ato faz o espectador por alguns momentos esquecer do que está por vir, tamanha a imersão nas personalidades, no cenário e nos detalhes. E o roteiro não leva nada do que é apresentado ao público em vão, tudo é deliciosamente mostrado, todos os personagens importam, todas notas musicais somam ao ritmo da narrativa. É muita coisa para digerir e o filme saboreia cada pedaço com calma e com vontade. É importante distinguir que a produção em nenhum momento tenta esconder suas verdades, suas pautas, seus questionamentos e seu gênero. Não é porque existem subtextos e camadas que o cerne daquele argumento é deixado de lado, pelo contrário, ele fica embrulhado como um aguardado presente cuja vontade de se abrir é tão grande quanto o cuidado e a beleza com que é construída a embalagem. E quando o filme resolve se mostrar ao público é quando a diversão, de fato, se inicia. Entre Um Drink no Inferno (1996) e A Última Noite (2006), Pecadores não precisa se esforçar para impor sensualidade, tensão e misticismo. Ainda assim, algumas decisões como a de evocar falas já ditas e situações já explicadas para justificar escolhas criativas, que poderiam ter sido evitadas para deixar o filme mais solto, mais livre. Mas nada disso chega a prejudicar a estrutura ou o apurado. A facilidade e a leveza com que tantas abordagens permeiam o mesmo tom constante por todo o longa é de encher os olhos. E o espetáculo sensorial é também agradável aos ouvidos. Usando a música como ritual, de fé ou social, ele transborda identidade e sonoridade. Existe uma sequência específica que mostra a fluidez e a força da música através do tempo, que é um dos momentos mais bonitos criados pelo cinema estadunidense até hoje. Divulgação Da mesma forma que falei que todos os personagens são importantes, todo o elenco está à altura dessa relevância. Michael B. Jordan brilha em seu trabalho e desenha bem, em suas distinções, seus dois protagonistas. Miles Caton, Delroy Lindo e Jayme Lawson são apenas alguns dos nomes que resolvi destacar entre todos que ganham espaço em cena. O elenco por completo entendeu a autoridade dos diálogos e expressam cada palavra com veemência, autenticidade e domínio do texto. O resultado é revigorante, empolgante e efervescente. É afrocentricidade empregada de forma inteligente, com alegorias ricas, e sem esquecer o divertimento. Nota: 4/5

  • Entrevista | Joe Pimentel fala sobre “Antonio Bandeira - O Poeta das Cores”

    Em conversa com o Oxente Pipoca, o diretor tratou de seu documentário a respeito do falecido pintor cearense. Divulgação Estreou nos cinemas no último dia 10 de abril o documentário Antonio Bandeira - O Poeta das Cores, que faz uma síntese da vida e obra do pintor cearense pioneiro do abstracionismo no Brasil. Com depoimentos e entrevistas, e conduzido pelo sobrinho de Antonio, Francisco Bandeira, o filme é dirigido por Joe Pimentel, que conversou com exclusividade com o Oxente Pipoca sobre a produção. Confira a entrevista na íntegra: Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Vou começar literalmente pelo final, eu vi que nos créditos finais tem “Ideia Original: Francisco Bandeira, Maria Amélia Mamede e Joe Pimentel", mas eu gostaria de saber de quem foi o pontapé inicial para a realização deste documentário. Quem procurou quem com a dita ideia original? Joe Pimentel: Então, deixa eu te falar, eu conheci o [Francisco] Bandeira na década de 90, eu fui trabalhar no curso de Comunicação Social da UFC para montar um laboratório de vídeo lá. E o Bandeira trabalhava no laboratório de fotografia, fotografia analógica e tal. Como eu sempre gostei de fotografia, comecei nessa área com fotografia, conheci ele nesse laboratório. Logo depois, durante um tempo lá, alguns anos depois, ele começou a me encher o saco com a ideia de que eu tinha que fazer um filme sobre o tio dele, algo que ele sempre teve vontade de realizar. Confesso que no início eu não dei muita bola para isso, mas ele continuou insistindo, foram anos de insistência [Risos]. Até que alguns amigos começaram a me cobrar pelo tanto que ele falava disso. Então foi através da Marú, da Maria Amélia, que era e ainda é uma amiga nossa em comum. Ela que realiza o Festival de Jazz e Blues em Guaramirim, amiga das antigas. Marú me ligou um dia e falou: "Vamos fazer o filme do Bandeira, cara". E começamos a ver como viabilizar o projeto, como levantar dinheiro, se conseguiríamos apoio da Lei Rouanet, e foi a partir daí que tomei gosto. Me aproximei mais do Bandeira e comecei a ter acesso ao arquivo dele. Ele tem muita coisa, muita carta, muitos postais, muitos escritos do tio e sobre o tio. E aí eu comecei a ver e entender que o tio dele realmente merecia um filme, ele estava com toda a razão, daria samba a gente fazer um filme. Logo depois eu percebi que não seria tão fácil fazer um filme sobre Bandeira. Porque ele é um personagem que já morreu há 50 anos. Não tem nenhuma imagem em vídeo dele, a não ser aquela que a gente usa no último momento do filme, mas que não tem nada a ver, de certa forma, com a trajetória dele. Ali é uma imagem feita aqui no no Mucuripe. Por isso que eu deixei para para mostrar no final. Então comecei a perceber isso e percebi também que a maioria das pessoas que falavam do Bandeira falavam por conta de ter pesquisado alguma coisa, mas não tiveram convivência com ele. Porque aquelas pessoas também já tinham partido. Os grandes amigos dele como o [Arthur] Piza, que foi o último grande amigo dele vivo e faleceu em 2017. Então vi que ia ser esse desafio, fazer um filme com esse personagem com pouco material iconográfico. E a partir daí que eu pensei, Cara, vou fazer filme só com falas, então como é que eu vou contar essa história?” Quer saber uma coisa? Eu vou contar a história do jeito que ela me foi contada. Foi um cara que é alucinado pelo tio e que vive a vida inteira correndo atrás das memórias do tio.” Fui lá e fiz isso. Claro que o tratamento é um pouco ficcional. Uma camerazinha ali, ele entra em quadro como se fosse uma cena de ficção e tal. E ele faz dois papéis, o do sobrinho que procura o tio e lá na frente ele vira o tio. A gente tirou partido da semelhança física dos dois e transformou num tipo de alucinação. Tem uma parte que poucas pessoas percebem, mas que o Francisco fala que ele foi tomado por aquela ideia, a ponto de começar a viver o próprio tio. Outro recurso foi utilizar os textos do Antonio, os poemas dele. Chamei o [Claudio] Jaborandy, que tem aquela voz mais grave e rouca e ele emprestou a voz aos textos do Antonio. Então, o filme é contado a partir disso, desses dispositivos. O sobrinho que procura o tio, o tio que se manifesta através não só dos desenhos e pinturas, mas também da voz, da palavra, da opinião e que se expressa fundamentalmente através da arte dele principal, que era a pintura e que fez isso de uma maneira muito vigorosa, muito inteligente, muito inventiva. Foi um cara que chegou na Europa naquele período em que estava todo mundo lá e ele percebeu o que é que estava acontecendo ali, e trouxe para o Brasil uma maneira de pintar que até então era completamente inovadora para aquele período. E as pessoas falam isso nos depoimentos do filme, se ele não tivesse falecido com seus 45 anos, hoje ele seria um artista mundialmente conhecido como o Pollock e tantos outros mestres que dialogavam com esta forma de expressão. Divulgação Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Você falou da dificuldade de conseguir pessoas que tiveram contato com ele, e eu prestei bastante atenção nos nomes que apareceram nas entrevistas, e fique feliz de ver o Silas de Paula, que foi meu professor na no curso de Jornalismo da UFC, ele é um dos seres humanos mais brilhantes que já conheci. E então eu queria saber como é que foi essa escalação daquelas pessoas que estão no corte final do filme, como é que vocês chegaram naqueles nomes a partir do roteiro? Joe Pimentel: Eu acho que você tem que fazer com que as pessoas que estão assistindo ao filme gostem daquele personagem, entende? Então fui procurar pessoas que eu percebi que eram literalmente aficcionados pelo Bandeira, que gostavam da obra dele e o admiravam, e não era só porque estudaram e poderiam dar aquele depoimento frio. Eu vi um artigo de um livro que o Gilmar de Carvalho publicou, onde o Silas abordava essa questão da imagem, dele tratar muito bem essa coisa do seu registro e de estar um tempo à frente. Ele sacou isso, ele se vendia muito bem, fez uso isso muito bem. E ainda bem que ele fez isso, ainda bem que ele se fotografou para caramba. Ajudou muito a gente. [Risos] Eu fiquei pedindo um monte de fotos para quem eu sabia que poderia ter, e depois que o filme estava em processo de finalização as fotos continuaram chegando, e resolvi não mexer mais. Mas enfim, fui atrás da Vera Novis, que é a biógrafa dele, ela tem um livro chamado Antonio Bandeira - Um Raro, mais duas pessoas que tinham feito um trabalho acadêmico, tinham ido em Paris estudar a obra do Bandeira, e para não ficar só nessa coisa dos especialistas, marchands, etc, eu chamei pessoas de outras áreas, inclusive, ia começar a fazer o filme assim, colocando pessoas de outra áreas que admiravam a obra do Bandeira. Vai começar lá com o Waltinho Carvalho, que foi a primeira pessoa que eu filmei. Eu queria fazer encontros, mas acabei não conseguindo fazer esses encontros, dificuldade de produção, de data e veio a pandemia também, atrapalhou um pouco o filme. Aí coloquei lá o Halder [Gomes] com Fausto Nilo, que eram duas pessoas que eu sabia que gostam do Bandeira. O Halder é um cara que é alucinado por artes plásticas, ele é um professor. Você conversa com ele sobre artes plásticas, é um negócio absurdo, ele sabe muito mais daquilo do que de cinema. Falo para ele que ele é um artista plástico frustrado [Risos]. Então é isso, eu acho que de uma certa forma, as pessoas falam com tanto tesão do Bandeira que o filme passa um pouco isso, você termina se interessando por ele. Pelo menos é isso que as pessoas têm falado. Alguns vem dizer que o filme te deixa interessando pelo Bandeira, mas que é um filme pequeno e eu acho que o filme é grande o suficiente. Quando eu montei o filme, eu chamei algumas pessoas para assistir o filme aqui em casa, eu não estava montando na produtora para ficar mais confortável. Uma das pessoas que chamei foi o Halder e ao final perguntei o que ele tinha achado e ele disse: "Tá bom, o tamanho tá legal e tal". E eu pensei que tinha acertado porque é para esse tipo de público que o filme existe. Porque é um filme meio de nicho mesmo, não é um conteúdo para todos os públicos. Tanto é que a gente pretende, depois da distribuição nos cinemas, tentar disponibilizar ele em algum canal específico onde o público interessado tenha fácil acesso. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Confesso que eu tinha pouco conhecimento sobre o Antonio Bandeira até assistir ao documentário. Não sabia que ele também fazia poesia e nem que gostava de andar com um fotógrafo para fazer diversos registros seus. Existe algo sobre ele que você só aprendeu ou descobriu com ele durante o processo de realização do documentário? Joe Pimentel: A verdade é que quando comecei a fazer o filme, a filmar, conversar com as pessoas, eu já tinha lido bastante, eu tinha conversado bastante com o Francisco. Tinha algo que eu percebi antes de começar a fazer o filme, que era quando eu ia conversar com as pessoas sobre o Antonio Bandeira sempre havia uma leitura meio folclorizada sobre ele. “Ah o Bandeira deu um murro em não sei quem, o Bandeira fez isso e aquilo” só faltavam dizer que ele teve um caso com a Rainha Elizabeth, porque de tudo se falava. Então, comecei a pensar no que era verdade disso tudo. Aí comecei a pensar nisso. Imagina um cara que sai de uma cidade, uma província com 300.000 habitantes, vai para o Rio, depois vai para Paris, aí volta para cá. Tu imagina o folclore, entre aspas, que as pessoas criavam em torno dele, entende? Então, assim, eu ouvia muito disso e o filme fala sobre esse tipo de destaque. Inclusive, tinha pessoas que estão no filme que, durante o processo, tinham uma opinião sobre o Bandeira, eu senti que no meio dos questionamentos que eu fiz, começaram a mudar a perspectiva em relação ao que estavam falando. Tinha alguns depoimentos, alguns fragmentos de depoimentos que levavam para esse lado dele. O Bandeira que bebia e que andava nu pelas ruas de Paris, correndo atrás de freiras e tal. Eu não estava interessado nesse cara. Estava interessado em dizer que ele era um cara brilhante, que comeu o pão que o diabo amassou, chegou lá e aconteceu. E mais do que isso, dizer qual foi o cenário em que isso aconteceu. O que é que estava acontecendo nesse universo das artes plásticas no mundo e depois no Brasil. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Para finalizar, eu queria que indicasse para os leitores desta entrevista alguns filmes brasileiros, dois ou três, que você tenha como favoritos, ou que tenham influenciado você, ou acha que as pessoas deveriam conhecer mais. Joe Pimentel: Tem um filme brasileiro que eu gosto muito, que é o Estômago (2007). Eu adoro esse filme. Acho que todos nós temos que assistir e reforçar essa ideia de assistir o filme do Waltinho [Ainda Estou Aqui], que está fazendo o maior sucesso. Até falei hoje numa entrevista, a gente está batendo palma para esse filme, mas é um tipo de cinema que a gente não faz tanto aqui no Brasil. Que é um cinema mais competitivo, um cinema com mais recursos. A gente faz muito cinema, mas é muito cinema para pouca gente ver, sabe? E eu questiono muito esse modelo da gente fazer cinema. Claro que tem filmes que são necessários fazer, que não necessariamente tem que ter bilheteria e tudo mais. Mas eu acho que a gente poderia transformar esse cinema, se livrar um pouco das garras do Estado, não ficar com essa leitura tão paternalista. Então assim, é muito filme e pouquíssima distribuição dos filmes. A gente precisa repensar um pouco esse modelo. Tem um cinema muito vigoroso que é o cinema brasileiro do período lá dos anos 80, 90, de grandes mestres aqui do nosso cinema, como o Walter Lima Jr. e documentários do Eduardo Coutinho que são essenciais, como Cabra Marcado Para Morrer (1984). E é isso, torço que o nosso cinema consiga se firmar cada vez mais e que a gente consiga não só passar a fazer muitos filmes, o que estamos conseguindo graças a Deus, voltamos a fazer através dessa lei de incentivo, mas que a gente possa fazer o brasileiro assistir a esses filmes? E para isso é preciso vários mecanismos que a gente tem que pensar como um todo.

  • Crítica | The Pitt (1ª temporada)

    Sem medo do realismo, 'The Pitt' faz mais que sobreviver ao plantão: dá aula de resiliência ao gênero. Divulgação Já dizia o grande Gil: o melhor lugar do mundo é aqui e agora. Reinventando o drama médico procedural, The Pitt — série da Max cuja primeira temporada terminou nesta quinta-feira (10/04) — leva essa máxima ao extremo. “Aqui”, porque a série se desenrola quase inteiramente (com exceção das cenas inicial e final) no mesmo cenário: o fictício Pittsburgh Trauma Medical Hospital, carinhosa e ironicamente apelidado de The Pitt – mais precisamente, a história se passa entre a ala de emergência e a triagem. Sabemos que, lá fora, há uma perseguição policial e um festival de música, crianças deixadas desacompanhadas e jovens usando substâncias ilícitas para turbinar os estudos, mas nada disso é mostrado. O que poderia facilmente se transformar num exercício claustrofóbico, redundante ou cansativo acaba se tornando um dos mais belos trabalhos de roteiro da TV atual. Comandado por Valerie Chu e R. Scott Gemmill, o texto se resolve nas ações e diálogos e, para isso, se vale do formato de ensemble (quando múltiplos personagens principais compartilham a narrativa). Sob a liderança de Dr. Robby (Noah Wyle), acompanhamos diversos profissionais de saúde durante vários casos, de diferentes gravidades, que entram e saem daquele plantão. Cada situação revela novas camadas dos personagens, que, inevitavelmente, deixam escapar traços de suas histórias pessoais, afinal, como manter uma postura estritamente profissional diante da dor de pais que acabaram de perder um filho ou de filhos que acabam de perder um pai? Pouco a pouco, a carga emocional da profissão nos oferece as peças para montar o quebra-cabeça humano que são esses personagens: uma médica que sonha engravidar após um aborto voluntário; uma mãe que, depois de ser presa defendendo o filho, busca recomeçar na carreira; um médico que vive para o trabalho, mas não conseguiu salvar seu mentor na pandemia; um jovem prodígio que, tentando conciliar vida pessoal e profissional, cai nas mesmas armadilhas do vício que combate todos os dias; uma residente amarga, mas apaixonada pelo que faz; uma enfermeira-chefe veterana, exaurida pela rotina massacrante. E por aí vai. Mas nem o roteiro mais refinado sustentaria sozinho essa salada de personagens sem um elenco à altura – até porque, inevitavelmente boa parte dos diálogos se baseiam em termos altamente nichados no universo hospitalar, não fazendo o menor sentido para a audiência não especializada na área da saúde. A série preza pelo realismo constante, e a naturalidade das atuações é essencial para nos inserir na seriedade da profissão retratada. Na tentativa de destacar as atuações que mais chamam atenção, estaria fadada a listar mais da metade dos atores e atrizes encontrados no IMDB da série. Me atenho, então, ao protagonista: Wyle entende exatamente sua função enquanto líder, roubando a cena na maioria das vezes, mas, vez ou outra, deixando espaço para seus colegas se destacarem. Na missão de dar vida ao médico, líder e professor da equipe, consegue balancear uma postura imponente e um olhar vulnerável, transmitindo, apenas com um levantar de sobrancelhas ou uma passada de mãos no rosto, exatamente o dilema “profissional x humano” que a série propõe. Em algumas das cenas, quando tenta encorajar sua equipe, Dr. Robby diz precisamente o oposto do que está sentindo, e cabe a Wyle todos os louros por fazer isso de forma tão convincente. Muitos atores de maior prestígio não conseguiriam a maestria que ele obteve. Divulgação O “agora” se materializa no formato temporal da série: o tempo diegético acompanha o tempo de exibição. Ou seja, os quinze episódios de cerca de uma hora correspondem a quinze horas seguidas na vida dos personagens. Essa escolha, acertadíssima, não é inédita na televisão (os mais experientes certamente lembrarão de Jack Bauer e suas 24 horas — a série que imortalizou o formato em tempo real na televisão), sendo ideal para representar a adrenalina da medicina de emergência e contribuir para o realismo da obra. O número de episódios, embora quase o dobro do padrão atual nas séries de streaming, é ideal para desenvolver a trama sem pressa ou excesso: o suficiente para nos familiarizarmos (e, em alguns casos, apegarmos) aos personagens, sem exagerar na dose de quantos eventos e reviravoltas podem acontecer em uma só temporada – e, por consequência, em um só plantão. O primeiro episódio marca a troca de turnos entre os plantonistas da noite e os do dia, dentre os quais estão os residentes Melissa King (Taylor Dearden), Trinity Santos (Isa Briones), Dennis Whitaker (Gerran Howell) e Victoria Javadi (Shabana Azeez), em seu primeiro dia no hospital. Eles servem como nossos representantes em tela, descobrindo, junto da audiência, o funcionamento daquele caos organizado. A adaptação deles (e nossa) é essencial para manter o fôlego da narrativa, garantindo que o formato de tempo contínuo não se torne repetitivo ou exaustivo. Diferenciando-se das tendências atuais, a montagem da série é cautelosa ao evitar cortes excessivamente rápidos, mesmo nas cenas mais agitadas. Para transmitir a tensão, a produção se apoia em movimentos de câmera dinâmicos e ângulos inusitados, capturando um cenário iluminado pela luz branca refletida em paredes ainda mais brancas, apenas contrastados com o azul e verde das roupas dos plantonistas e, por vezes, o vermelho sangue. Por sinal, em obras que buscam o realismo, a direção de arte tende a passar despercebida, seguindo a lógica do “se não chamar atenção, o trabalho foi bem feito”. Mas, especialmente em The Pitt, não se pode ignorar o rigor primordial da equipe de maquiagem e efeitos especiais, que trazem alguns dos planos mais verossímeis já vistos na ficção hospitalar. Por fim, o “melhor” se justifica pois se trata da modernização e aperfeiçoamento de um gênero de televisão seriada que parecia saturado e fadado às reexibições de séries já produzidas. Ao trazer o drama médico procedural para a década de 2020, The Pitt oferece frescor não pela inovação absoluta, mas por uma releitura bem executada. E faz isso deixando uma clara mensagem política, se posicionando criticamente contra o sistema de saúde estadunidense e à disseminação de desinformação, o que é feito organicamente ao longo da trama. A série retrata tão bem a seriedade da temática que se torna sua própria inimiga ao tentar emplacar um romance puro e juvenil entre Javadi e o enfermeiro Mateo Diaz (Jalen Thomas Brooks), destoando totalmente do restante das cenas. Os elementos de leveza em meio ao drama são satisfatoriamente preenchidos nas relações causais entre equipe e pacientes, não necessitando dessa muleta narrativa para prender ainda mais a atenção do público – e, em contraste, esse plot causa exatamente o oposto. A relação entre Dr. Robby e Drª. Collins (Tracy Ifeachor), mais madura e complexa, já seria o bastante para preencher a cota de ship da série. Esse entrave narrativo, porém, não elimina todos os outros acertos. Diante da excelente recepção do público — que só cresceu com o formato de lançamentos semanais —, a Max confirmou novas temporadas antes mesmo do encerramento da primeira. Sorte dos fictícios pacientes de Pittsburgh, que estão nas mãos de uma equipe médica de primeira. E sorte nossa, espectadores, que ainda podemos contar com mais uma dose de televisão de qualidade. Nota: 5/5

  • Crítica | Operação Vingança

    Suspense funciona, mas tenta vender uma complexidade que simplesmente não existe. Divulgação Charlie Heller (Malek) é um brilhante, mas totalmente introvertido, decodificador da CIA que trabalha em um escritório no porão da sede em Langley e tem sua vida virada de cabeça para baixo quando sua esposa é assassinada em um ataque terrorista em Londres. Quando seus supervisores se recusam a tomar providências, ele decide resolver o problema com suas próprias mãos, embarcando em uma perigosa jornada pelo mundo para encontrar os responsáveis. Sua inteligência se torna sua arma mais poderosa para despistar seus perseguidores e conseguir sua vingança. Operação Vingança é mais um longa estadunidense truqueiro que tenta enfeitar uma história básica de vingança, como o título brasileiro bem sugere, com personagens secundários e subtramas e que servem apenas como enxerto para o arco principal. O que não significa que não funcione como um bom entretenimento para um domingo à tarde em casa, só não vai mais além do que isso, mas tudo nele acha que vai. O roteiro é baseado num romance e tenta jogar com a geopolítica atual sem se comprometer com qualquer lado. O texto usa de fáceis explicações, desenha bem seu contexto e cria situações-problemas facilmente resolvíveis com soluções óbvias que conspiram a favor do protagonista. Ou seja, clichê. Mas não tenho tanto problema com isso se no desenrolar narrativa a história fica fluída e bem-acabada. E aqui, em partes, isto acontece, mas realmente não entendi a vontade de tornar tudo mais complexo do que é, como se, de alguma forma, fosse conceder um aspecto mais sóbrio e menos recreativo ao filme (e, mais uma vez, como se isso fosse um problema, ou o problema). Divulgação O elenco trabalha com papeis bem similares ao que fizeram em suas respectivas filmografias. Rami Malek conduz com tranquilidade o enredo e sabe ser sutil e pungente ao mesmo tempo em quase todos os momentos. Entre os personagens que acima falei que estavam presentes para encher linguiça eu destaco a participação de Jon Bernthal que passeou pelo filme sem qualquer direção. O longa tem boas sequências de ação e é positivo em conseguir criar uma atmosfera de suspense constante que catalisa o desenvolvimento do roteiro que poderia ser bem mais enxuto. É um filme que vai entreter e pode até prender sua atenção, o que hoje em Hollywood é um problema, mas não vai mais longe que isso. Nota; 2,5/5

  • Entrevista | Jottapê fala sobre trabalho como dublador em "Sneaks: De Pisante Novo"

    Ator e cantor falou com Oxente Pipoca sobre experiência de participar da equipe de dublagem da história infantil. Divulgação Sneaks: De Pisante Novo é um filme animado estadunidense que chega aos cinemas brasileiros em 17 de abril. Com participação de Rayssa Leal na dublagem, a produção conta ainda com as vozes de Jottapê e Christian Malheiros, atores da série Sintonia, da Netflix. O longa acompanha a história de Téo (Jottapê) e Beca, dois tênis que vivem uma jornada repleta de emoção e descobertas. Enquanto Téo prefere a segurança e o conforto de sua caixa de sapatos forrada de veludo, Beca sonha em viver a vida fora da caixa e explorar o mundo. A aventura deles começa quando são inicialmente conquistados em um sorteio por Edson, um jovem prodígio do basquete, mas tudo muda quando os tênis são roubados do garoto por um colecionador de tênis que planeja desmontá-los para fazer falsificações baratas. Durante uma ousada fuga, Téo se vê separado de Beca, dando início a uma busca emocionante pelas ruas de Nova York, com a ajuda de Beto (Christian Malheiros), um tênis estiloso e apaixonado por tudo o que brilha. Sneaks: De Pisante Novo tem direção de Rob Edwards e Chris Jenkins, com roteiro de Edwards. O elenco original conta com Anthony Mackie, Laurence Fishburne, Keith David e Chloe Bailey. Na press day do filme, o Oxente Pipoca conversou com o ator e cantor Jottapê, que dá voz ao personagem principal da animação. Jottapê falou da sua experiência com dublagem e sua relação com o filme. Confira a entrevista na íntegra abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Antes de mais nada, eu queria começar falando com você sobre a sua experiência: você tem uma trajetória tanto na atuação quanto na música. Como foi, para você, receber esse convite e participar desse filme? Jottapê: Cara, eu gostei muito de receber esse convite, especialmente depois que me mostraram o roteiro. Eu sou um grande fã de tênis, gosto muito mesmo. Já tinha tido algumas experiências com dublagem quando era mais novo, mas foram coisas bem esporádicas. Agora, dublar o protagonista de uma animação foi a primeira vez — e foi uma experiência muito legal. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Imagino que deve ter sido uma experiência diferente, né? Ainda mais por ser o protagonista. Você se preparou de alguma forma específica? Teve algo que chamou a atenção ou que foi diferente nesse processo? Jottapê: Então, eu confesso que no início, quando vi que ia ter que dublar um tênis, eu fiquei um pouco confuso, né? Eu falei: 'Como que eu vou fazer a voz de um tênis?' Mas depois eu pensei, tipo assim, acho que até é um pouco mais fácil, porque como não existe uma referência, eu posso criar. Aí eu tentei trazer a minha própria voz, claro, essa coisa mais rouca, que foi o que eles curtiram, né? Eles acharam que já tinha uma identificação do personagem com a minha voz. Mas ali eu também trouxe algumas coisinhas, tipo uma linguagem mais infantil às vezes, puxando pro mais agudo naqueles momentos que o personagem grita e tudo mais. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E tem uma coisa muito legal: você é pai, né? Tem dois filhos. Eu imagino que, pra você, o sentimento também deve ser diferente agora, ao gravar um filme infantil e saber que, no futuro, seus filhos vão assistir. Como foi, pra você, essa experiência de saber que, em algum momento, eles vão estar ouvindo a sua voz como um tênis? Jottapê: Claro! Na pré-estreia, provavelmente eu vou levar a minha filha, a Atena, que é a maiorzinha, né? Porque o outro ainda é muito bebezinho pra levar no cinema. Mas a intenção foi justamente essa. Eu tentava imaginar as crianças assistindo, sabe? Então, tentei trazer uma linguagem que elas pudessem entender assistindo ao filme — principalmente a mensagem que ele passa. Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A mensagem do filme é muito bacana, né? Principalmente nessa questão da aceitação e, ao mesmo tempo, de introduzir um pouco da cultura dos sneakers, da cultura do hip-hop — eu achei isso muito legal. Queria saber se você também faz parte dessa cultura, se é um fã desse universo. E já teve alguma coisa, tipo o Téo, que você não queria tirar do armário de jeito nenhum, queria guardar com carinho? Jottapê: Olha, na verdade, que nem eu comentei, eu gosto muito de tênis também, mas vamos dizer que eu sou um sneakerhead um pouco diferente — eu gosto de comprar e usar, né? Tipo assim, nossa, sempre que eu mexo tem aquele tênis, mas eu uso mesmo. Eu sempre falo: tem amigos meus que gostam muito de carro, aí eles compram o carro dos sonhos e falam: 'Não, não posso andar muito, senão vai aumentar o KM e depois não vou conseguir vender.' Aí eu falo: 'Você acabou de conquistar o seu sonho e já tá pensando em vender?' Então eu sou mais de usufruir mesmo, sabe? E eu sempre comento que o personagem do Téo faz o inverso da minha vida, né? Eu vim da periferia e conquistei, entrei nesse universo, nessa outra realidade. E ele tá fazendo o caminho contrário. Gabriella (Oxente Pipoca): Como foi para você trabalhar novamente com o Christian, agora em uma vibe totalmente diferente? Vocês já tinham atuado juntos em uma série mais puxada para o drama, e agora estão dublando dois personagens em um filme infantil, que também constroem uma relação de amizade bem bonita. Vocês chegaram a conversar sobre essa mudança, trocaram ideias sobre essa nova experiência? Jottapê: É, então, na verdade foi tudo bem corrido. Diferente de Sintonia, que a gente se via durante três meses, que é o tempo de uma temporada, praticamente todos os dias gravando, nesse a gente não gravou juntos, né? Eu gravei num dia, ele gravou no outro, então a gente acabou não se encontrando e nem conseguiu falar sobre ainda. A gente vai se ver na pré-estreia e vai assistir junto, então foi bem diferente. Ah, mas ficou muito legal. Gabriella (Oxente Pipoca): Ficou muito bacana, que bom! Eu amei. E outra coisa que eu queria saber: você teve uma virada recentemente na sua carreira, né? Chegou a comentar que vai dar uma pausa nos filmes e tudo mais. Como esse trabalho está significando para você nesse momento da sua trajetória artística? É uma nova virada, com outros caminhos surgindo. Você pretende conciliar a carreira de atuação com outros projetos? E tem vontade de seguir também na dublagem? Jottapê: Cara, dublagem é algo que eu gostei muito de participar. Nós estamos fazendo esse filme, então provavelmente vai ser mais uma coisa aí nesse leque artístico que eu vou buscar também. A atuação é algo que sempre vai me acompanhar, né? Essa virada de chave que você comentou é mais específica até da parte do funk, porque era uma realidade que eu mesmo vivia, né? Não é um personagem como o Doni. Então eu pretendo continuar, sim, com as atuações, com as dublagens. Agora, musicalmente, a gente vai reformular muita coisa. Gabriella (Oxente, Pipoca): Pra fechar, aqui no Oxente Pipoca a gente sempre faz essa pergunta pra quem conversa com a gente: qual a sua dica de filme brasileiro? Pode ser o seu favorito, algum que você assistiu recentemente e queira recomendar pro público… Aquele que você pensa: 'não, esse aqui o pessoal precisa assistir’. Jottapê: Entendi. Eu vou indicar dois, pode ser? Gabriella (Oxente Pipoca): Pode, claro! Quanto mais, melhor! Jottapê: O primeiro que eu vou indicar é um filme antigo já, mas é O Menino da Porteira, que foi o primeiro filme em que eu fui protagonista. Eu adoro esse filme. E o segundo, um filme nacional que eu vou indicar, é um com o Christian Malheiros — ele faz um dos protagonistas também — que é Sete Prisioneiros. Na minha opinião, é um dos melhores filmes nacionais, muito bom mesmo. Gabriella (Oxente Pipoca): E agora, pra encerrar de fato mesmo, eu queria saber uma coisa: se os seus temas favoritos — aqueles que você mais gosta de explorar na arte — pudessem falar, o que você acha que eles diriam sobre você? Jottapê: Olha…que eles já pisaram em lugares muito inusitados. (Risos)

  • Análise | Onde estão os atores nordestinos nas obras sobre cangaço?

    Um histórico de apagamentos em obras que lidam com um fenômeno inerente à região Nordeste. Divulgação Estreou nesta sexta-feira (04) a série do Disney+ Maria e o Cangaço, que foca na vida de Maria Bonita (Ísis Valverde), em seus anos no bando de Lampião (Júlio Andrade). A série, que teve seu lançamento oficial em Recife e foi gravada em Cabeceiras, no sertão da Paraíba, se destaca pelos números do seu elenco: são 56 personagens, dos quais 52 são interpretados por atores e atrizes nordestinos. Ainda assim, é notório que os dois papéis principais da obra serão estrelados por uma mineira e um gaúcho, respectivamente. Faço aqui um adendo: esta não é uma crítica tampouco um ataque aos méritos de Ísis e Júlio, dois artistas celebrados que há muito já comprovaram a força de seus talentos. O intuito é justamente discutir uma problemática que não se inicia nem se encerra em Maria e o Cangaço, mas que vem acompanhando o audiovisual brasileiro já há quase um século. É ótimo ver que o elenco da série é majoritariamente nordestino, mas seria tão difícil assim achar um ator e atriz nordestinos para interpretar Maria Bonita e Lampião? Ao contrário do que estes parágrafos iniciais possam dar a entender, não acredito que a origem de um artista é o único critério que vai determinar a qualidade da obra caso ela seja produzida num contexto geográfico; poderia até extrapolar esse ponto para outras discussões (artistas héteros interpretando personagens LGBTQIA+, homens dirigindo filmes protagonizados por mulheres, protagonistas negros(as) dirigidos por pessoas brancas, etc.), mas vou me ater a ele em específico. Basta ver figuras consagradas como Matheus Nachtergale, um dos nossos grandes atores e que já apareceu em tantas produções ambientadas no Nordeste (O Auto da Compadecida, Amarelo Manga, Narradores de Javé, Mais Pesado É o Céu, etc.) que é fácil esquecer que ele nasceu em São Paulo. Recentemente tivemos o longa cearense O Melhor Amigo (2025), que dentre os elogios que recebeu estava o cuidadoso trabalho com os sotaques dos protagonistas interpretados por Vinícius Teixeira (carioca) e Gabriel Fuentes (mineiro). No entanto, quando se vê uma longa trajetória de obras centradas no movimento do cangaço que preferem privilegiar atores sudestinos/sulistas para interpretar essas figuras históricas, pode se constatar um problema em nosso audiovisual. Embora o Nordeste seja muito vasto e plural para ser limitado apenas ao signo do cangaço (assim como à seca, à pobreza, ao messianismo, aos sotaques estereotipados, etc), trata-se de um movimento inerente à região, que não encontrou paralelo em outras partes do país justamente porque nasceu, se desenvolveu e morreu nas condições aqui apresentadas. O pesquisador cearense Marcelo Dídimo, em seu livro O Cangaço no Cinema Brasileiro (2010), destaca que o cangaço fascina cineastas e espectadores Brasil afora desde pelo menos a década de 1920, quando o movimento ainda era ativo e figuras como Lampião e Corisco ainda eram vivos. Em um extenso trabalho de catalogação, ele identificou até aquele período um total de 48 filmes sobre o tema, entre curtas, médias e longas-metragens, documentário ou ficção. Para Dídimo, esses filmes não apenas poderiam ser alocados em um gênero próprio – o nordestern, em alusão ao western/faroeste, mas com elementos tipicamente brasileiros e nordestinos – mas também se gerariam no entrecruzamento com outros gêneros, como as comédias, (porno)chanchadas, o cinema documental e etc. Divulgação Quando falamos da representação do cangaço no cinema brasileiro, é inevitável não pensar em algumas obras específicas, a começar por O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto. Produzido pela Companhia Vera Cruz e um dos primeiros longas nacionais a ganhar projeção internacional (vencendo dois prêmios em Cannes), o filme se baseava livremente na história de Lampião para abordar o triângulo amoroso formado entre os cangaceiros Teodoro (Alberto Ruschel) e Galdino (Milton Ribeiro) e a professora Olívia (Marisa Prado). No entanto, não só o trio principal era composto por sudestinos (Prado e Ribeiro) e um sulista (Ruschel) – além do próprio Barreto ser paulista –, como o filme foi gravado no interior de São Paulo. Na década seguinte, foi a vez do Cinema Novo voltar seus olhos para o Nordeste e para o cangaço, como evidenciado pelos trabalhos de Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969). No entanto, embora Glauber fosse baiano e ambos os filmes tenham sido rodados no interior da Bahia, vale apontar que o ator Maurício do Valle, que interpretou o personagem Antônio das Mortes em ambos os filmes, era carioca. Ainda que em Deus e o Diabo... tenhamos a figura de Corisco interpretada pelo baiano Othon Bastos, pode se ver que mesmo em casos com um diretor e ambientação legitimamente nordestinos não se teria uma garantia por um elenco majoritariamente nordestino. A partir dos anos 1990, o movimento da Retomada vai ser marcado pelo advento de alguns estados nordestinos (em especial Pernambuco) como novos polos de produção do audiovisual nacional para além do eixo Rio-São Paulo. De acordo com a pesquisadora Ângela Prysthon, esse cinema mainstream do estado, mesmo que não deixasse de ser realista, buscou afirmar uma espécie de sotaque fílmico através da caricatura, do estranhamento, do excesso de caráter local, acentuando-se o folclórico na mesma medida que se aderia a um discurso modernizante e tecnológico. Com isso, o espaço urbano de Recife (e outras capitais nordestinas) passa também a ser uma nova fonte de ambientação para estas obras, desviando-se da costumeira abordagem de retratar o Nordeste a partir do sertão e dos seus espaços interioranos. Isso não quer dizer, porém, que a ênfase no regionalismo (e por extensão no cangaço) não estivesse presente no cinema da Retomada. Ela pode ser encontrada em obras como a já citada O Auto da Compadecida (2000), que contava com o pernambucano Marco Nanini no papel do cangaceiro Severino de Aracaju – mas também com Enrique Díaz, peruano radicado brasileiro, como seu braço direito. Falando em Díaz, seu irmão Chico deu vida a Corisco no longa cearense Corisco e Dadá (1996), com o papel de sua companheira cabendo à paraense Dira Paes. Temos também Baile Perfumado (1996), do pernambucano Lírio Ferreira e do paraibano Paulo Caldas, que foi estrelado pelo também paraibano Luis Carlos Vasconcelos como Lampião... e pelo paulista Duda Mamberti como o mascate Benjamin Abrahão. Mais recentemente tivemos a série original do Prime Video Cangaço Novo (2023), que, assim como Bacurau (2019) visa atualizar a figura do cangaceiro para os tempos contemporâneos (ou até futuros, no caso de Bacurau). Embora ambas as obras se destaquem por elencos majoritariamente nordestinos (ainda que no filme de Kleber Mendonça Filho tenhamos a paranaense Sônia Braga e a mineira Bárbara Colen entre os papéis principais), aqui o questionamento é de outra ordem: é possível invocar a figura do cangaceiro, tão historicamente demarcada? Atualizá-la sem, no entanto, desprovê-la dos contextos que regeram o início, desenvolvimento e fim do movimento? O que nos traz de volta a Maria e o Cangaço, que representa um novo capítulo numa discussão longa e que não possui respostas fáceis. É inegável que o cangaço exerce fascínio, seja numa análise mais estritamente fílmica – a maioria esmagadora desses filmes citados são ótimos, senão obras-primas do nosso cinema – ou histórica, dadas todas as marcas que deixaram no Nordeste. Em meio a todas as suas nuances (Heróis? Vilões? Selvagens? Vigilantes do povo ou capachos dos coronéis?), uma coisa é certa: os cangaceiros são intrinsecamente nordestinos. E não me parece que o audiovisual nacional ainda compreendeu isso por completo.

  • Entrevista | Diretor e vozes principais de "Abá e sua Banda" falam sobre a animação infantil

    Durante press day do filme que chega aos cinemas em 17 de abril, Humberto Avelar, Filipe Bragança e Robson Nunes conversaram com o OP. Divulgação Um reino de frutas. Um rei sem forças para continuar no comando. Um príncipe órfão de mãe e avesso ao seu destino. Um mundo em risco iminente. Estes são alguns dos ingredientes de Abá e sua Banda, uma aventura musical que acompanha a trajetória de um jovem abacaxi em conflito com seus sonhos e suas responsabilidades. É uma história de aceitação e amadurecimento. Na trama, que será lançada em 17 de abril nos cinemas de todo o país, Abá é um jovem príncipe cujo maior desejo é ser músico. Ele consegue escapar do castelo do pai sem ser reconhecido por ninguém. Quando conhece Ana, uma garota que toca bateria, o rapaz percebe a oportunidade de formar uma banda ao lado do amigo de infância, Juca, um músico genial. É o primeiro passo para seguir o sonho de criança: tocar no Festival da Primavera, o maior evento do reino de Pomar, responsável pela renovação da natureza. Abá vai precisar da ajuda dos amigos para enfrentar Don Coco, que quer acabar com a diversidade que existe no local. Durante o evento de press day do filme, o diretor Humberto Avelar (que também dá a voz ao vilão da história), Filipe Bragança (voz de Abá) e Robson Nunes (Juca) conversaram com o OP sobre o longa infantil que promete agradar crianças e adultos com um roteiro perspicaz que fala sobre muitos dos males do mundo atual de forma didática e lúdica. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiramente queria dizer que eu amei o filme e me diverti bastante assistindo e gostaria de saber como vocês acham que Abá e sua Banda, apesar de ter uma pegada infantil, pode ajudar as crianças a se envolverem com temas como meio ambiente, justiça e tirania? Humberto Avelar: Bem, como é um tema geral, posso dar uma palhinha. Estamos vivendo um momento difícil no mundo, com muito antagonismo e polarização. O filme, de certa forma, toca nesse assunto através do vilão, que é totalitarista e quer que todos estejam a seu serviço e sejam iguais a ele. Isso é uma questão muito importante. Ele é o Coco, que simboliza uma cabeça dura, alguém que não consegue entender a diversidade—o fato de que cada um pode ter um sabor, um jeito, um formato e uma cor diferente. Acho muito interessante como o filme aborda esse tema de forma leve, já que é uma animação infantil. Assim, as crianças têm o primeiro contato com essa questão desde cedo. Uma coisa interessante é que, apesar de haver uma guerra e uma batalha no final entre o povo e o tirano, o conflito não é resolvido propriamente pela violência. A chegada das abelhas, que têm o poder do pólen, faz essa violência regredir. Ou seja, os guardas voltam a um estado mais puro, retornando ao que eram quando ainda eram coquinhos, antes de serem colhidos. Eles são, de certa forma, purificados daquela raiva. Quando a raiva desaparece e o pólen se espalha, conseguimos pensar melhor. Tanto que, no final da história, a coroa é jogada para o público, e não há mais um rei. O Abá não assume o trono; em vez disso, temos uma guitarra no final, simbolizando outra forma de liderança e expressão. É uma maneira de mostrar que existem soluções além da polarização e da violência. Podemos olhar para o outro, conversar e aceitar as diferenças. Essa é uma forma muito legal de introduzir esse assunto para as crianças. Filipe Bragança: Eu acho que, para complementar, porque você já falou muita coisa, um bom filme de animação infantil, como é o caso do nosso, reconhece que a criança não vai para o cinema sozinha. Então, provavelmente, os pais estarão juntos. E eu acho que é muito importante que o filme se comunique também, não só com as crianças, mas com os adultos. E talvez até plantando sementinhas e criando reflexões que podem surgir de uma maneira mais intensa nas crianças só depois de vários anos. Eu fiquei pensando sobre Vida de Inseto, que é um filme muito político, e eu só fui entender isso quando reassisti depois de muito tempo. Porque, quando era criança, para mim, era só um filme em que as formiguinhas brigavam com os gafanhotos e era isso. Mas, na verdade, ele traz reflexões políticas importantes também. E eu acho que esse é o caso do nosso filme, Abá e sua Banda. Ele traz reflexões importantes que podem entreter não só as crianças, mas também os pais, os jovens, os adultos que forem assistir. Ele consegue discutir um pouco de política e, como o Humberto falou, encontrar soluções que não se baseiam apenas na governabilidade ou nesses termos, mas talvez em algo maior. No caso do filme, a música aparece como um elemento importante para a união e para a criação de uma sensibilidade coletiva, de um povo. Então, eu acho que isso é muito bonito e que o filme é muito inspirador nesse sentido. Além de ser, claro, um filme divertido, né? Robson Nunes: Eu concordo plenamente com os dois, e o Felipe falou sobre plantar sementes… Se tem um filme que faz isso, é esse, viu, gente? Porque temos várias frutas ali! Mas, trocadilhos à parte, eu acho que há essa percepção dos pais que estão assistindo, porque eles têm uma visão geral da questão política e tudo mais. Só que tudo isso é introduzido para as crianças de uma forma muito lúdica, mostrando como as coisas acontecem e como existem várias perspectivas. Eu não sei se essa é a palavra certa, mas um dos pontos altos do filme é justamente a diversidade e como ela é abordada. Essa forma lúdica com certeza impacta tanto as crianças quanto os adultos. Eu já estava muito orgulhoso de ter feito esse filme, mas, quando vi tudo pronto, fiquei ainda mais entusiasmado. Sou um verdadeiro entusiasta desse projeto! Onde quer que ele vá, eu estou chamando a galera para os festivais, divulgando, agitando para que, depois do dia 17, todo mundo vá assistir. Tenho muito orgulho de fazer parte disso e de saber que nosso cinema tem uma animação tão incrível assim—uma obra que preenche todas as esferas possíveis e necessárias. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como foi para vocês dublar uma animação tão divertida? Imagino que tenha sido um trabalho muito satisfatório e bem diferente do que vocês estão acostumados em atuações para filmes. Como foi essa experiência, especialmente envolvendo canto e trilha sonora? E para você, Robson, que fez uma voz bem diferente da que costuma fazer, como foi esse desafio? Robson Nunes: Ah, eu… eu fiquei… é sempre uma satisfação, né? E assim, a dublagem já é muito gostosa de fazer. Se você vai fazer um trabalho direcionado para criança, então, né… Mas a voz original tem todo um charme, porque é você, né? Você tem total liberdade para criar ali, para propor, porque a animação é feita a partir do que a gente interpretou. Então, a gente fica mais livre para propor, para jogar, e foi uma delícia, porque o Juca era esse cara… Eu tava falando na outra entrevista que a gente teve um tempo para criar a voz, para achar como seria o Juca. Então, eu mandei algumas opções, aí o Humberto falou: "Pô, acho que assim tá legal". E era uma delícia fazer. Tanto que, quando terminou a pré-estreia no Rio agora, a minha afilhada de 4 aninhos chegou e falou: "Mas não era você! Faz a voz dele!". Aí eu fazia, e ela ficou encantada, sabe? Então, é uma delícia. Trabalhar para esse público é muito gratificante, ver o olhinho deles brilhando… é muito legal. Filipe Bragança: Eu queria deixar o devido crédito para a Carol também, que faz a Ana. Ela não está aqui conosco, mas é uma excelente dubladora e fez um trabalho espetacular. A personagem é muito divertida, e isso se deve muito ao trabalho dela. Foi muito bom esse nosso trio que conduz o filme, porque são personagens muito autênticos. E a gente pôde, justamente como o Robson disse, explorar essa liberdade. Eu já tinha dublado animação antes, mas nunca tinha feito a voz original, então foi uma experiência muito divertida e especial. Inclusive, foi ainda mais marcante porque estávamos em um período de pandemia. Fizemos a dublagem em 2021, né? Foi isso, Humberto? Sim, 2021. Então, ainda vivíamos um momento difícil, com pouca esperança e alegria para todos nós. Poder entrar no estúdio e contar uma história tão divertida, com personagens tão lúdicos, podendo brincar com isso, foi muito especial dentro desse contexto. Então, é isso… foi muito massa, foi muito legal, muito especial. Humberto Avelar: Uma curiosidade interessante sobre o processo foi que, como começamos na pandemia, inicialmente marcamos para gravar as vozes no estúdio, mas, com a chegada da pandemia, tudo foi cancelado. Ficamos esperando a situação melhorar, mas o filme não podia parar. Então, algo que eu já tinha feito em algumas produções menores e que funcionava bem foi criar uma voz de guia. Eu montei o storyboard e o animatic. Para quem não sabe, o animatic é basicamente o storyboard editado no tempo do filme, com todos os takes organizados para que a gente possa planejar o andamento da produção. Isso era essencial para calcular os custos do filme, definir quantos cenários seriam necessários e entender melhor o trabalho de cada cena. Como precisávamos seguir com o processo, gravei todas as vozes do filme em casa! Minha esposa, Mônica, fez as vozes femininas, e meu filho, Gabriel, que tinha 5 anos na época, fez algumas vozes de criança. Então, o filme inteiro existe nessa versão, com a minha voz e a da minha esposa. E o mais curioso é que minha esposa acabou ficando com os papéis da Moran Queen e da Mel Melancia, enquanto eu fiquei como o Dom Coco, o vilão da história. Depois, claro, substituímos todas as vozes pelos atores oficiais, mas foi um trabalhão. No fim, montamos o filme todo nessa versão de guia, e quando assistimos, percebemos que ele já estava pronto para ser animado, mesmo sem as vozes definitivas. Foi uma loucura, mas deu certo. Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme já passou por alguns festivais, então vocês já tiveram um gostinho da recepção do público. Qual é a expectativa de vocês para o lançamento no dia 17? Como esperam que o público receba o filme? Humberto Avelar: A gente tem certeza de que as crianças vão gostar, porque até a gente já experimentou durante todo o processo de execução do filme. A gente foi mostrando para criança o tempo todo, testando. A gente fez aquelas exibições testes com o público para ver como é que funcionava. A gente fez os festivais, a gente sabe que as crianças embarcam. Agora, a nossa missão é promover o filme para as crianças irem lá assistir, né? Porque esse trabalho já é um outro trabalho, divulgar. Filipe Bragança: Eu acho que é um momento especial para o cinema brasileiro como um todo, né? A gente vem de uma toada muito importante, então eu espero que o filme surfe um pouco nessa onda. E espero também que não seja só uma onda, mas que o nosso público passe a valorizar mais o cinema feito aqui, pelos nossos artistas, pelos nossos atores, dubladores, realizadores, enfim. Então, estou esperançoso. Acho que pode ser um filme muito vitorioso nesse sentido. E, mais importante que isso, é um filme sensível, especial e que é sentido não só pelas crianças. Na pré-estreia, por exemplo, eu estava com um amigo da minha idade, que adora cinema, e ele estava super empolgado com o filme. Então, acho que é isso: o filme cumpre com o que tem que cumprir, sabe? É um bom filme. Robson Nunes: O filme é muito maneiro, eu concordo e acho que vai bombar! Eu tô na torcida aqui para que, em 2026, o Juca, o Abá, a Ana Banana virem bonecos de Olinda, entendeu? Eu tô nessa torcida para que todo mundo veja, porque a gente tem que valorizar o que é nosso e saber que a gente manda bem, né? A gente sabe fazer cinema e fazer muito bem! Então, é isso, dar valor ao que é nosso. E como eu falei, tô divulgando, falando para a família… Minha família é grande, só com a bilheteria deles já vai ter uma galera no cinema! Então, façam o mesmo!

  • Entrevista | Carol AÓ fala sobre o curta "O Céu Não Sabe Meu Nome"

    A diretora conversou com o Oxente, Pipoca e falou sobre o título do filme, suas referências e sobre o atual momento do cinema baiano. Divulgação Com produção da Arruda Filmes e produção associada da Prodigo Films e Sinny Comunicação, O Céu Não Sabe Meu Nome mergulha nos laços entre gerações, acompanhando uma neta que ressignifica a morte de sua avó através das memórias antes não ditas. A obra explora de forma delicada a fusão entre passado e presente, permitindo uma reflexão sobre legado, memória e sonhos. Após ganhar a Menção Honrosa na mostra competitiva da Première Brasil - Novos Rumos no Festival do Rio e o Prêmio de Melhor Fotografia na VI Mostra Competitiva de Cinema Negro Adelia Sampaio, o curta vem cursando uma carreira relevante em diversos festivais, entre os quais: Seattle Black Film Festival, 37th Virginia Film Festival, 2nd NYBRFF - NEW YORK BRAZILIAN FILM FESTIVAL, 13th Africa International Film Festival (AFRIFF), 4ª Festival Internacional de Cinema de Realizadoras - FINCAR, Semente - 2º Mostra Itinerante de Cinema Negro, no sertão do Pajeú, 13th Toronto Black Film Festival 2025, 29th Washington, DC Internatcional Film Festival, o filme foi selecionado para abrir o Festival Panorama Coisa de Cinema, que acontece até o próximo dia 9 de abril, na Bahia. Confira a entrevista na íntegra: Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Olá, Carol, queria começar parabenizando pelo lindo trabalho. O filme é muito sensível e quando falo lindo é lindo na narrativa e na plástica também. Eu me emocionei bastante e me fez pensar em várias pessoas da minha família e do meu convívio. Vou começar perguntando a você sobre o título do filme. Ele surgiu antes, durante ou depois do filme e o que ele significa? Porque eu tive minha interpretação, mas eu queria saber a versão oficial. Carol AÓ: Primeiro quero agradecer a vocês pelo espaço, por estarem aqui. Eu acompanho vocês, principalmente no Twitter e eu gosto bastante do conteúdo. Então é um prazer imenso estar falando com você hoje aqui também, para além de qualquer registro. E sobre o título, eu tenho uma fissura por títulos. Eu geralmente construo as minhas histórias primeiro pensando no título que eles podem ganhar. O caso curioso do “Céu” é porque realmente eu tinha escrito um conto sobre essa história. Era sobre esses processos com minha avó, sabe? Ela faleceu tem um bom tempo, considerável, em 2012, e eu tinha muitas questões com esse assunto de morte, da passagem, o que isso significava. Eu tinha uma sensação muito esquisita de que ela descobriu que morreu, quando eu descobri que ela morreu. Então isso para mim foi muito marcante. Depois disso, eu fiquei pensando se minha avó tinha um sonho, porque ela nunca verbalizou isso. E isso ficou matutando muito na minha mente sobre esse processo de sonhar. Sobre as mulheres, principalmente negras, que têm esse atravessamento racial, sobre quais seriam esses sonhos delas. E quando eu comecei a pensar na história como um todo me veio essa imagem de mulher legado. Uma mulher legião, uma mulher que representasse o todo em pluralidade e que chegasse nesse céu, nesse lugar de topo, inalcançável. Ao mesmo tempo, esse topo é também para onde elas direcionam sua fé, suas orações e suas crenças, para onde direcionam suas esperanças. Esse lugar que não deu um nome para ela, mas ao mesmo tempo era importante, era uma descoberta. Apesar do céu não saber seu nome, naquele momento final, e com a realização do filme – eu terminei o filme com o nome de minha avó – veio desse lugar de reivindicar o espaço no céu. Quase também como pedindo esse espaço para a sociedade enxergar essas histórias mínimas, de pessoas que tiveram que priorizar sobrevivência em vez da realização de um sonho. De pessoas que não tiveram tempo nem de elaborar sobre o quê havia sonhado ou sobre quê queriam realizar. E é curioso porque mesmo o filme não revela explicitamente, diretamente, qual era o sonho. Na minha cabeça o sonho de minha avó era cantar, ela cantava muito. E no filme tem aquela cena do samba que a avó, agora jovem, acaba cantando pro marido. Eu quis falar desse sonho que uma pessoa próxima reconhece, mas o todo não reconhece. Então, o título tratou de buscar o espaço dessas mulheres, como um todo. Acho que o filme consegue abarcar a pluralidade de mulher no Brasil, óbvio que aí acaba sendo marcado mais por um traço racial, mas eu compreendo que essa é a história de muitas. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Eu li que esse foi o primeiro trabalho da Inês Mendes como atriz e ela entregou um desempenho honesto e delicado no papel. Deu para sentir que aquela personagem conversava com ela de muitas formas. Como o filme chegou até ela e como foi o processo de trabalhar com ela? Carol AÓ: Foi meu primeiro filme como diretora também. Jamile [Kazumbá] e ela são neta e avó na vida real. E a gente ainda estava procurando quem seria a avó do filme porque eu estava com uma necessidade específica de sentir a liberdade de criação nessa personagem. Naquele momento eu estava me desafiando também a preparar o elenco, eu queria fazer aquilo. E durante uma conversa na casa de Jamile eu comecei a observar a vó dela. Ela é toda simpática, uma energia muito bonita. E eu falei: "Jamile, será que sua avó não topa fazer um teste"? No começo ela ficou resistente. Eu acho que para ela era uma coisa que era tão inimaginável de acontecer, né? Então, eu acho que ela me encontrou. Porque no final, eu senti que eu ter escolhido Jamile para ser uma das protagonistas foi importante por ter me levado à sua avó. Esse encontro tinha que acontecer. Fiquei encantada por Dona Inês, pela forma como ela sorria, pela forma também como ela gesticulava, falava. E para mim foi um verdadeiro deleite viver esse processo, essa descoberta com ela, porque sinceramente, eu acho dona Inês uma atriz profissional. Acho que foi muito importante também a forma como a gente se conectou. Foi muito fácil, eu converso com ela ainda hoje. Eu brinquei com ela outro dia assim: “Dona Inês, eu acho que vou botar a senhora em todos os meus filmes. A senhora vai ser o meu Leonardo DiCaprio.” Ela disse: “Muito bom, muito bom. Quem é Leonardo DiCaprio?” [Risos] Ela é maravilhosa e abençoa todo mundo, todo mundo é filho dela. E foi um prazer imenso levá-la para o Festival do Rio, fazê-la ter aquela experiência, de ser reconhecida como artista, que foi uma coisa linda de ver. Eu tenho investigado tanto esse processo de Dona Inês, que eu gostaria de fazer um documentário, despretensioso, para mostrar esse processo dela, mas principalmente sobre sua entrega e os ensaios, incrível. Tem umas cenas que caíram, mas que era gostoso de ver ela decorando as falas. Dona Inês ficava ensaiando enquanto fazia as coisas dentro de casa, ela dava fala, do nada. Jamile chegava e perguntava "Oxente, minha avó, o que você está fazendo aí?” E ela respondia “Ah, menina, tô aqui gravando o texto”. Então foi especial ver o compromisso dela. O set era um ambiente novo para ela, um espaço novo, então todo mundo da equipe a abraçou, ficou nesse lugar de muito cuidado, de afetividade. Então foi muito gostoso estar com ela, de ter vivenciado essa primeira experiência dela, que eu tenho certeza que quem assistir vai sentir, eu tô doida para que a Globo contrate ela. [Risos] Divulgação Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Carol, muita coisa agora [Risos]. Queria falar do cinema baiano. Eu acho que desde Glauber Rocha o cinema da Bahia é um dos pilares do cinema brasileiro. Para mim, atualmente, ele apresenta um potencial criativo muito grande, para além de nomes consagrados como Sérgio Machado e Edgar Navarro, por exemplo. Mas nomes como Glenda Nicácio, Ary Rosa, Haroldo Borges... Carol AÓ! Inclusive queria até citar dois grandes web amigos com quem eu aprendo muito: Calebe Lopes e o Marcos Alexandre, que são dois gênios. Então assim como o cinema cearense, que completou 100 anos ano passado e já tem uma produção notável, o cinema baiano também já tem uma longa estrada, mas vem começando a ser mais visto, dentro e fora do Brasil, muito graças às políticas e incentivos públicos, aos editais e aos fomentos. E quando falei do potencial criativo do cinema baiano é porque eu sinto que o cinema baiano tem a habilidade de conversar com qualquer estilo e gênero sem perder a identidade, tenho visto filmes de drama, filmes históricos, filmes que abordam ancestralidade, ficção científica, afrofuturismo... Queria que você comentasse um pouco sobre como você vê esse atual momento do cinema baiano e o que você acha que ainda falta para os filmes brasileiros ganharem ainda mais visibilidade? Carol AÓ: A resposta vem na mesma pegada da pergunta [Risos]. Legal você ter falado de Marcos Alexandre porque já conversei muito com ele sobre isso, que eu acho que a maior potencialidade do cinema baiano são as histórias, e a forma como a gente busca acessar o outro. Antes quero dizer que agradeço muito a sua pergunta porque para mim é muito importante reconhecer o “Céu” como um filme baiano. Eu não vou dizer que eu tive raiva da minha cidade, mas ter que partir de Salvador me doeu, na real. Porque toda hora isso estava me empurrando, eu não busquei morar em São Paulo. Aconteceu e do nada eu fiquei. E isso não mudou a minha forma como eu enxergo o mundo, a forma como eu trabalho, na verdade exatamente por eu ser baiana é que no audiovisual eu consegui ter um diferencial, porque nunca escondi minhas referências. Eu sempre trouxe as minhas referências nos projetos em que eu trabalhei, quando tinha folclore envolvido, eu trouxe minhas histórias de infância, sabe? Em tudo que eu pude colaborar eu trouxe minhas vivências e minha história, porque o baiano tem isso, e na verdade vou expandir, o nordestino tem isso. E não por esse papo de fraqueza, força, histórias de superação... acho que se trata do cotidiano, das banalidades também, de você reconhecer que as histórias estão ali acontecendo na sua frente. Se você pegasse uma câmera e estivesse em Salvador filmando ao acaso você ia fazer um filme, a vida é cinematográfica, independente do cenário, independente de quem deu “ação” ou não. Então, isso transforma, de alguma forma, esse olhar para a construção, a narrativa, a coletividade também, que é uma busca também da gente ser mais coletivo. E é óbvio que aqui também tem outros movimentos semelhantes. Aqui que eu falo São Paulo, que é onde estou nesse momento. Aqui também tem esse movimento de busca, mas eu sinto que no Nordeste é natural, não precisa ser estimulado ou forçado. A gente tem uma energia coletiva diferente. Reconheci que é preciso que eu cresça para outros crescerem também, nunca quis ser a única. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Inclusive achei muito bonito no pôster você ter colocado “Um filme de Carol AÓ e Equipe”. Carol AÓ: Sim, eu sempre acabo me esquecendo de mencionar isso, mas é porque isso foi muito natural, eu não quis pagar de “nossa como ela é diferentona”, mas eu quis apenas reconhecer que aquele esforço era coletivo. Tem também a importância da escolha da equipe, exatamente por ser uma equipe baiana, né? Eu queria muito, eu consegui isso. A gente levou o filme para filmar em Salvador, na casa onde eu nasci no Subúrbio Ferroviário de Salvador, que era uma coisa que a gente batalhou muito para acontecer. E isso já estava no projeto que enviamos pro edital do PROAC quando a gente ganhou, então não foi uma surpresa nem nada, a gente não teve nenhuma questão sobre isso. A história ganhou sabendo que a produção ia acontecer em Salvador e a pós-produção ia acontecer em São Paulo, que, querendo ou não, eram os acessos que eu tinha, de onde vieram os apoios. Foi importante frisar que a minha prioridade era ter uma equipe baiana e que ela tivesse à vontade e que ela estivesse recebendo pelo projeto. Óbvio que se tratando de um curta, os valores são menores, mas era muito importante para mim que acontecesse desse jeito. E continuando nas suas perguntas eu acho que o que está faltando para o cinema baiano na verdade é uma estrutura que a gente ainda está correndo atrás. A SalCine, que é o primeiro plano de desenvolvimento audiovisual da cidade, está se movimentando e isso veio de uma articulação muito grande. Tenho acompanhado de longe também, sabendo informações com amigos cineastas e matérias que saem. A gente fala sobre o acesso a estrutura, a equipamentos, a câmeras também. O fluxo de equipamentos com locadoras ainda vem muito do Sudeste, eu consegui com uma parceria de São Paulo os equipamentos para o “Céu”, mas poucas locadoras no Nordeste podem disponibilizar seus equipamentos por um valor simbólico para uma produção independente no período completo de filmagens incluindo as etapas de teste. E aí entra na questão do que o acesso a esses equipamentos proporcionam, na qualidade de imagem e de som. Eu cheguei a falar com Marcos Alexandre que está lançando o novo filme dele [Meu Pai e a Praia], que se ele tivesse falado comigo na época que eu estava finalizando “O Céu” talvez eu conseguisse algum tipo de apoio na pós. E não é falando do resultado do filme dele, que está lindo, mas era fazer as produtoras, que podem pegar um filme na parceria, entenderem que existe um número de pessoas em Salvador buscando essas parcerias, desejando acessos e formação. Então nós temos boas histórias, um cenário bom e pessoas incríveis que estão fazendo audiovisual lá, cito aqui minhas contemporâneas e conterrâneas Ana do Carmo, Juh Almeida, Tais Amordivino, Vilma Martins, Camila Ribeiro, Everlane Moraes, Viviane Ferreira, Safira Moreira... existe uma galera grande que está movimentando o cenário e construindo e que precisa dos recursos e da estrutura. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Para finalizar queria que indicasse filmes nacionais para os nossos leitores. Podem ser filmes favoritos, filmes referências ou filmes que você acha que mais pessoas deveriam conhecer. Carol Aó: Não tem como eu não indicar e citar Central do Brasil, esse filme é quase como se fosse uma bíblia para mim, inevitavelmente é o meu o filme de cabeceira, ele me apresentou o tipo de audiovisual que gostaria de seguir. Indico também A Vida Invisível, filme em que eu fui continuísta e as trocas com Karim foram aulas para mim sobre a construção de realidade e cinema. Saudade Fez Morada aqui Dentro, todos deveriam assistir a esse filme, ele é absurdo, um alinhamento de planetas de tão forte que é sua narrativa, elenco e direção. Café com Canela, Marte Um, Ilha... que são filmes contemporâneos e muito sensíveis que me impactam muito. Tem um que acho que mostra a Bahia desnuda, que foca a narrativa nos atores e finaliza muito bem que é A Grande Feira - inclusive, homenageei o filme na cena do samba. Além desses, Jonas e o Circo Sem Lona, poesia pura, o cotidiano é extraordinário.

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