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  • Foto do escritorMatheus Gomes

Análise | Argentina, 1985 e a representação da luta democrática

Nunca mais! Como o longa de Mitre se relaciona com o nosso cenário atual.

Divulgação: Amazon Studios


Durante boa parte da segunda metade do séc. XX, a América Latina foi tomada por governos autoritários em muitos de seus países. Nações como Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e o Brasil sofreram com a instauração de ditaduras de cunho militar. Esses governos tinham como elementos basilares de atuação o desmanche das instituições representativas, o cerceamento das liberdades individuais e, acima de tudo, o uso indiscriminado da força para punir deliberadamente inimigos políticos.


O período teve início na década de 60 e foi precedido pela derrocada de modelos democráticos de Estado em diversos países latino-americanos. Apesar de ocorrerem em locais distintos do continente, todas essas incursões possuíam elementos em comum: eram governos ilegítimos consolidados por golpes de Estado maquinados por forças militares escusas. No Brasil, país que “deu a largada” para a adoção desses regimes em 1964, o presidente João Goulart foi deposto após a condução de um governo inicialmente voltado para a satisfação dos interesses populares.


Esse panorama mostrado no Brasil foi sendo replicado à medida em que os outros países do Cone Sul iam assumindo cada vez mais governos autoritários, marcados pelo fascismo e uma enorme violência institucional. Assim, para fazer frente a tais modelos, surgiram os movimentos pró-democráticos que visavam a recuperação das liberdades tolhidas por tais regimes, mesmo após seu término. Nasce, a partir desse cenário, o cinema de resistência – que permanece vivo até hoje.


Em ‘Argentina, 1985’ (2022), podemos ter um vislumbre de como a sétima arte é imprescindível para a apreciação das instituições democráticas, e como lutar pela sua manutenção é um dever cívico. No longa, os juristas Julio Strassera (Ricardo Darín) e Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani), travam uma árdua batalha judicial para punir os militares responsáveis pela tortura, morte e desaparecimento de mais de 30 mil pessoas no período conhecido como a “Ditadura Militar Argentina”. Aqui, não estamos falando de um filme que retrata a época da ditadura em si, mas seus efeitos: milhares de pessoas afetadas urgem por uma retratação ao inferno que sofreram durante o regime.

Divulgação: Amazon Studios


O filme mostra um acerto de contas. O time de Strassera, apesar de claramente em desvantagem, arregaçou suas mangas e enfrentou bravamente os responsáveis pela ditadura. Vale lembrar que até então (o longa se passa entre os anos de 1984 e 85) isso era sem precedentes, já que a Argentina foi a primeira do Cone Sul a julgar civilmente os responsáveis pelas atrocidades causadas durante o período ditatorial. Foram julgados nove líderes que encabeçaram as três juntas militares a governar a Argentina durante a ditadura instaurada em 1976. O resultado, como vimos no longa (e também na história) foi a condenação dos culpados: uma vitória suada.


Trazendo essa perspectiva para a história brasileira, o que temos é uma comparação de causar inveja. Enquanto nossos irmãos argentinos conseguiram a proeza de julgar os algozes do Regime mais sanguinário da América Latina, o Brasil concedeu anistia a grande parte dos responsáveis pela tortura e desaparecimento de civis, o que significa que não podem ser julgados pelos crimes cometidos durante o período. Casos semelhantes se sucederam no Chile e no Uruguai, o qual, por referendo popular, se recusou a investigar seus militares.


Esse cenário dá lugar a mazelas que conseguimos perceber em nossos entornos até os dias de hoje. Se, no filme de Mitre, vimos que grande parte das dificuldades enfrentadas pelos juristas na defesa da democracia era a própria reprovação de uma parcela da sociedade, que mostrava-se conivente ao regime fascista, na realidade não é diferente. Ainda hoje, mesmo após inúmeros relatos historiográficos dos terrores que se sucediam durante os regimes ditatoriais, parte da população (especialmente brasileira) defende o retorno desses regimes pautando-se no sucateamento dos direitos humanos e na censura.


Discursos autoritários mascarados de falsas pretensões democráticas estão cada vez mais comuns, mas essa não é grande preocupação. O horror se dá pela ampla aceitação que esses discursos têm no cenário atual. No Brasil, os ideais fascistas, o negacionismo e o ataque às instituições científicas e culturais são robustecidos por figuras de autoridade, as quais propagam desinformação e brutalização à democracia de forma ampla. Basta olhar para o próprio Argentina, 1985 e comparar os cenários: o longa e os depoimentos trazidos em sua execução são desenhos perfeitos das mazelas que as pretensões autocráticas trazem para uma sociedade. Por isso, exercer nosso dever cívico, enquanto votantes, é crucial para a manutenção da ordem e da legitimidade das instituições democráticas, do mesmo modo que assim lutaram Strassera e Ocampo nos tribunais argentinos.

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