Entrevista | “Não cair naquela coisa do ator ter que fingir um sotaque. Isso é muito doloroso”: Mariana Bardan e Eduardo Melo, criadores de Cangaço Novo, falam sobre nova temporada
- Aianne Amado

- há 2 horas
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Em entrevista ao Oxente Pipoca, a dupla fala sobre pertencimento, drama e a força política na série.

Parceiros criativos e cúmplices desde a faculdade, o casal Mariana Bardan e Eduardo Melo compartilham há anos o mesmo sonho: viver de roteiro. Hoje, depois de uma trajetória marcada por persistência, experimentação e projetos dos mais diversos formatos, a dupla assina uma das produções mais relevantes do audiovisual brasileiro recente: Cangaço Novo. A série, que rapidamente se consolidou como um fenômeno de crítica e público, transformou a dupla em um dos nomes mais interessantes da dramaturgia nacional contemporânea.
Mesmo não sendo nordestinos, Mariana e Eduardo alcançam na série um nível raro de organicidade na representação do sertão e de seu povo. Em vez da repetição da estética da miséria ou da caricatura do sertanejo ingênuo, a série aposta em personagens contraditórios, inteligentes e profundamente humanos, numa das mais nobres representações audiovisuais do sertanejo.
Antes de chegar ao sertão de Carcará, porém, os dois já haviam transitado por caminhos bastante distintos. No portfólio convivem animações infantis, dramas adultos, documentários esportivos e narrativas de ação — um conjunto heterogêneo que evidencia não apenas a versatilidade de ambos, mas também uma recusa em se acomodar e ser rotulado. Deu certo: essa mistura criativa resultou no convite para um novo desafio – escrever Bruna Surfistinha 2, continuação de um dos filmes mais emblemáticos da cultura pop brasileira dos anos 2010. Eles toparam, é claro.
Em meio à calorosa recepção da segunda temporada de Cangaço Novo, o Oxente Pipoca conversou por vídeo com o casal. Entre risos, memórias e reflexões sobre criação, a entrevista revela o profundo respeito que têm pela cultura nordestina e, sobretudo, pelo ato de contar histórias. Confira a seguir.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Eu fui dar uma “stalkeada” para me preparar para entrevista e vi que minha minha crítica estava no seu perfil [do Instagram], Mariana. Fiquei muito feliz que você compartilhou.
Mariana Bardan: Eu adorei. Muito obrigada pelo seu carinho, sua atenção.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Ganhei muitos pontos com meu pai com aquela crítica, tá? Ele se emocionou. Ele é muito “sertão”, a vida dele sempre foi muito “sertão”, então Cangaço Novo, para ele, é a melhor série. MB: Que lindo! Maravilhoso. Qual o nome dele? Aianne Amado (Oxente Pipoca): Aimar, bem diferente. O que já faz o gancho para a minha primeira pergunta – que é quase uma curiosidade pessoal – sobre a escolha do nome dos personagens. É maravilhosa! Ubaldo, Dinorah, Dilvânia, Leinneane (com doi N’s como eu!)... Além de se encaixar perfeitamente com o perfil psicológico dos personagens, esses nomes também são marcadores regionais e sociais muito claros. Como se deu o processo dessas escolhas? MB: Olha, Ubaldo especificamente veio porque na época que a gente estava criando a série, lá em 2013, eu estava lendo um livro do João Ubaldo Ribeiro. Eu gostei muito do livro e aí, enfim, uma homenagem, talvez, ou influenciada pelo próprio autor, a gente usou esse nome. Leinneane, eu lembro que em algum momento ela era Reinneane, né, Edu? Por conta de que a gente queria que fosse uma mulher que quisesse reinar. E aí, depois de uma consultoria que a gente fez, veio essa sugestão de chamá-la de Leinneane por conta da lei mesmo, sabe? Fazer uma brincadeira com a palavra “lei” e o nome dela.
Vem muito também da família do Edu, que é uma família nordestina. Zeza é um apelido de Cisélia, que é o nome da mãe da nossa cunhada, que é baiana. Então, a gente vai meio que fazendo um catadão. Eduardo Melo: Pois é, acho que é isso: um mosaico. Algumas referências familiares, outras que a gente também foi recebendo sugestões… Porque o projeto vai passando por várias consultorias.
Mas tinha sempre esse cuidado do nome. Tem uma uma frase que Mari fala muito: “nome é destino”. E acho a gente que se envolvia com esse contexto – os nomes tinham que ter alguma gravidade, tinham que de fato já apresentar um pouco desses personagens. E eu acho que a gente teve sorte desses nomes se encontrarem bem com seus personagens e com seus atores.
MB: E essa frase que eu falo, na verdade, é emprestada da Letícia Simões, que é roteirista também, que escreveu a segunda temporada com a gente.
Teve uma outra coisa que eu esqueci de contar, Aianne, sobre o nome dos bandidos. A gente é muito fã de Guimarães Rosa e ele é muito talentoso em tudo que faz e principalmente em colocar nome nos personagens. Então, em alguns nomes a gente quis homenageá-lo, também buscando nomes que ele deu. Por exemplo, acho que Fa Fa Fa é um nome que eu li no livro dele e a gente acabou utilizando.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E aí, como eu falei, dei um “stalkeada” em vocês, mas eu não consegui achar de onde o Eduardo é.
EM: Nasci e fui criado em São Paulo, mas a minha relação com o Nordeste vem do berço mesmo. Meu pai é cearense e minha mãe é baiana. A família da minha mãe migrou inteira da Bahia para São Paulo. Já a família do meu pai majoritariamente ficou no Ceará. Então eu me sinto um pouco dentro do que eu brinco que é essa “colônia nordestina em São Paulo”. Eu cresci nessa família que é um tanto junto e um tanto espalhada.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E Mariana, para você, de onde vem esse interesse no cangaço e no sertão? MB: Eu venho do interior de São Paulo – nasci em Tremembé e vivi muito tempo da minha vida em Taubaté e São Luís do Paraitinga, que fica tudo ali no no Vale do Paraíba.
Quando, conversando com Edu, pensando em ideias que a gente pudesse ter para desenvolver projetos, para tentar trabalhar com roteiro – que era o que a gente mais queria –, a gente sempre tinha essa coisa de olhar para o que a gente gosta: gosta de ver, gosta de fazer, gosta de de ouvir… e a família do pai do Edu especificamente é muito rica na criatividade, no jeito de lidar. Isso sempre me interessou muito.
Teve também um livro que eu li há muito tempo atrás, que se chama Maria e o Cangaço, e até foi feita uma série sobre ela. Esse livro me mostrou um outro lado do cangaço antigo, do qual a gente já sabe, mas divulga pouco – um lado mais violento, muito mais negativo, principalmente do ponto de vista das mulheres. Isso me interessou muito, e eu pensei como seria ter uma família e principalmente uma cangaceira que não tivesse que passar pelo que a gente sabe do passado. Daí surgiu Dinorah e enfim a família toda, numa tentativa de ir contra. “Como seria se a gente tivesse mais espaço?” “E como a gente conquistaria esses espaços enquanto mulher?”

Aianne Amado (Oxente Pipoca): Eu fiquei muito surpresa de saber que vocês não são nordestinos, porque a representação da série é muito orgânica e vívida, parece muito que vocês se inseriram naquele meio por muito tempo. Como foi o processo de pesquisa para alcançar esse nível de realismo e fugir dos estereótipos, da estética da miséria, da ingenuidade que normalmente é atribuída às pessoas do sertão?
EM: É maravilhoso ouvir isso porque a gente perseguiu com muita força esse sentimento de ter que estar de fato dentro. E aí eu fui descobrindo que minha vida inteira foi uma pesquisa. Não só por ser de uma família nordestina ou de ir para o Nordeste – porque quase todas as férias a gente visitava algum parente –, mas acho que essa relação foi se dando muito por voltar a esse lugar de se ver na tela. De não se ver inferiorizado, de não se ver menosprezado, de se entender parte de um país.
Para mim sempre foi uma coisa muito doida, porque eu nasci em São Paulo, mas eu sou filho de nordestinos, então nos meus ambientes sociais eu era nordestino. E se eu vou para o Nordeste, eu nasci em São Paulo – meus primos nordestinos, minhas tias nordestinas falam que eu sou de São Paulo. Era muito interessante você entender que você vive nesse lugar do meio. assim, É, e me deu mais força de eu acreditar, vou colocar os personagens da maneira que eu acredito. Eu brincava muito com a Mari. A gente fazia muito esse exercício quando a gente ia escrever um diálogo, que era buscar a voz de alguém que a gente conhecia. Então as falas, os diálogos, eles já eram uma tentativa de conseguir colocar ritmo, sentido, respeitando essa prosódia.
Mas claramente são muitos processos ainda depois do roteiro. E foi lindo, porque a direção abraçou a ideia de que todos os atores deveriam ser nordestinos, a produção, o Prime… e aí vem o elenco e vem tantas outras pessoas que colaboram tanto.
MB: Te ouvindo, eu lembrei de que a gente inclusive pedia muito para os atores… porque a grande maioria é nordestina, mas não é necessariamente cearense – é de toda a região. E como a gente tá falando de uma cidade fictícia, a gente acredita que isso nos dê uma licença para poder colocar cada um a sua gíria, cada um o seu jeito de falar. Às vezes isso pode parecer que, enfim, estamos generalizando, mas na verdade é um desejo enorme de mostrar a variedade, sabe?
EM: E não cair naquela coisa do ator ter que fingir um sotaque. Isso é muito doloroso. Vem com a tua voz, vem com a tua fala, contribua! E foi muito legal que todo mundo se entendeu nesse lugar de contribuição e todo mundo amou. O que a gente mais ouviu do elenco e de vários atores foi: "Gente, sempre pediram para eu esconder o meu sotaque. Vocês são malucos, vocês estão pedindo para eu usar o meu sotaque!"
Meu pai é de um distrito chamado Sucesso em Tamboril, Mas a cidade mais próxima e que a gente visitava muito quando a gente tava lá era Crateús. “Cratará” foi essa brincadeira aí com Crateús e por a gente também poder ter liberdade total, não ter uma uma amarra.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): De fato parecia que eu estava vendo uma prima minha falar, é o mesmo tom de voz, as mesmas escolhas de palavras. E o nordestino, as pessoas do sertão, podem até não ter uma inteligência universitária, acadêmica, mas eles são extremamente inteligentes de outras formas, além de ter uma cultura local riquíssima. E acho que o roteiro de vocês demonstra bem isso.
MB: Aianne, sem dúvidas. Eu acho que o conhecimento do sertanejo – de qualquer região do Brasil, o sertanejo do interior – traz um conhecimento que você não vai conseguir na universidade. E isso é muito rico! Eu sou muito apaixonada por esse tipo de conhecimento, e acho que a gente queria muito explorar e expor isso.
Eu gosto de lembrar talvez do Moacir, que é um personagem que tem um papel pequeno, mas toda vez que ele aparece eu vejo o meu tio que é do interior, o Edu vê o tio dele que é do interior, mas o meu é do Sudeste, o dele é do Nordeste e torço para que quem for do Centro-Oeste também possa se identificar de de alguma forma. Acho que é um desejo e um amor muito grande pelo país que a gente tem, pelas pessoas.
EM: Eu queria falar um pouco dessa questão, porque a gente dá dignidade aos personagens. Não importa a sua origem, não importa a sua formação, porque os conhecimentos e as vivências são tão complexos, tem tanto a ver com as suas experiências.
A gente ouviu uma coisa na primeira temporada que foi muito feliz. Falava assim: “em Cangaço Novo, você pode pegar o pior personagem, ele não tem faculdade, mas ninguém é burro.” Exato. E isso foi muito, muito importante, inclusive, para a gente não ter julgamento – porque é uma série de antivilões, né? Todos têm lados de luz, lados de sombra e a gente não pode como criadores da série, julgá-los. A gente quer que os personagens tenham vida e que eles sejam interessantes, independente da história que a gente vai vê-los.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E agora, comparando a primeira temporada com a segunda, o que foi que mudou na escrita? O sucesso e toda essa expectativa alterou a maneira de construção ou vocês já tinham uma forma de escrever e continuaram porque sabiam que ia dar certo?
MB: O sucesso acho que altera na medida que todo mundo tem muita expectativa. Tem a expectativa do público, tem a nossa, tem a da equipe, tem a dos atores, tem de todo mundo. E aí, se você pensar muito nisso, se você se preocupar muito com isso, pelo menos para mim, trava um pouco. A gente pensou e a gente veio com a mesma energia de “vamos fazer uma história que a gente quer ver, que a gente quer contar” – porém, agora, Dinorah tem rosto, Jeremias eu sei como fala, como se movimenta… então foi um pouco mais confortável descrever por saber quem eles são e como eles falam. Mas foi difícil, é muito difícil escrever uma segunda temporada.
EB: [Rindo] A gente passa a vida inteira tentando fazer a primeira e você não pensa exatamente quão complexo pode ser a segunda! O começo foi muito difícil porque a gente já tinha ali uns pequenos planejamentos. A gente começa a abrir os primeiros textos e aí imediatamente vem a comparação dos seus primeiros primeiros textos da segunda temporada, com um texto que foi desenvolvido, trabalhado, que passou por diversas consultorias, entende? Era um choque! Mas falamos: "calma, tá vindo", e a cada versão a gente reencontrava a série, reencontrava os personagens, até um passo que virou ficou divertido. É muito, muito interessante poder escrever com o elenco que você já conhece e ama.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Vocês trabalham com gêneros públicos, temáticas e mesmo formatos muito diferentes– documentário, animação infantil, ação… Dentre esse conjunto da obra de vocês, conseguem identificar um fio condutor, alguma coisa que une todos eles?
MB: O desejo de contar história, eu acho que é uma coisa que une muito mesmo, e drama. O Edu fala muito isso: às vezes é uma série de ação, a gente põe drama; às vezes é uma série de animação para criança, para pré-escolar, a gente põe um draminha, nem que seja “ai, meu amigo quer brincar de bola e eu quero brincar de amarelinha!”. Algum conflito a gente sempre busca porque a vida é um pouco conflituosa.
EB: Eu costumo dizer que eu sou devoto ao drama. Eu vejo o drama como uma tecnologia – uma tecnologia de contar histórias. E aí, dentro dessa tecnologia, eu tento entender ele com várias camadas. Quando você pega uma camada de uma história adulta e traz para uma história infantil, ela altera todas as outras estruturas desse drama, mas continua drama: personagens enfrentando certas dificuldades, personagens descobrindo verdades que você não quer descobrir…
E é muito divertido assim. Eu digo que no mesmo dia que eu escrevi um assalto de um banco, eu escrevi como é a metamorfose de uma borboleta.
MB: E para além disso a gente trabalha muito diferente, então acho que já tem essa ajuda de cada um pensar de um jeito.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Mariana, eu vi um comentário seu falando que Cangaço Novo foi o “despertar” da dupla no audiovisual, mas vocês já tinham feito algumas produções antes. Um vasto portfólio. O que você quis dizer “despertar”?
MB: Que pergunta difícil. Olha, Aianne, despertar porque foi muito difícil a gente conseguir se colocar no mercado como roteirista. Eu havia feito muitas outras coisas na vida antes – não que eu seja muito experiente, mas eu já tinha trabalhado muito e em muitas outras áreas do audiovisual visual antes de trabalhar só com roteiro. Esse era o meu grande sonho: eu queria trabalhar com roteiro, queria trabalhar com criação. E acho que – acho não, com certeza Cangaço Novo foi o projeto que me permitiu, que eu criei para me permitir trabalhar com o roteiro. É um pouco nesse lugar que eu quero dizer de despertar. Eu estava sempre fazendo várias várias coisas e agora, felizmente, por causa de Cangaço Novo, eu posso dizer que eu só trabalho com roteiro.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E para o futuro, quais os riscos pretendem tomar? EB: Olha, eu gosto do risco. Eu falo para Mariana que eu gosto de projeto diferente. Eu tenho o maior medo que as pessoas me rotulem: “ele escreve isso” ou “ele escreve aquilo”. Eu quero que as pessoas vejam que a gente pode escrever boas histórias, se ela entender que a gente faz sentido para o projeto dela.
E nessa onda, a gente foi convidado para escrever a continuação de Bruna Surfistinha! Eu e Mariana fomos os roteiristas de Bruna Surfistinha 2 – que nada tem a ver com animação de criança e muito menos com assalto ao banco. Falamos assim: "Nossa, pela vamos fazer um projeto que ninguém morre!" [risos]. E isso foi muito maravilhoso.
Tem uma série de animação nossa, que se chama Tum Tum e que está sendo produzida pela TV Pinguim e a primeira janela é a TV Cultura. Isso nos encheu de orgulho, porque nós dois fomos grandes espectadores da TV Cultura na infância, na adolescência.
MB: Se [antes] eu disse despertar, agora eu diria permanecer. Porque é difícil também. Não é porque você fez uma vez ou duas vezes, no caso da segunda temporada de Cangaço Novo, que é uma garantia que você vai fazer uma terceira e que você vai fazer sempre. Então o frio na barriga é o mesmo.
AA: Não se preocupe que eu acho que não tem a menor chance vocês serem rotulados. É o portfólio mais diverso que eu já vi no audiovisual.
MB: Deus te ouça! Deus e todo mundo te ouça, viu?



















