Entrevista | Vandré Ventura fala sobre “Princesa Lavínia", Lei Paulo Gustavo e a ocupação negra no audiovisual
- Caio Augusto

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Vandré Ventura reflete sobre os desafios de ocupar espaços historicamente negados a profissionais negros no audiovisual e comenta o processo de criação de Princesa Lavínia.

Com uma trajetória construída entre o cinema e a publicidade, Vandré Ventura se consolidou como uma das vozes emergentes do audiovisual do Sul do Brasil. Primeiro diretor de produção negro da região e agora assumindo a direção de seu primeiro longa-metragem, o realizador vê em Princesa Lavínia não apenas um projeto artístico, mas também um gesto político e afetivo. Nascido da experiência pessoal com a sobrinha que dá nome ao filme, o projeto parte de uma inquietação familiar para discutir racismo estrutural, representatividade e o impacto dessas violências na infância.
Em conversa com o Oxente Pipoca, Vandré relembra sua trajetória periférica, comenta a importância das políticas públicas de incentivo para a democratização do cinema brasileiro e reflete sobre resistência, pertencimento e a responsabilidade de abrir caminhos para novas gerações de profissionais negros no audiovisual.
Caio Augusto (Oxente Pipoca): Queria começar falando sobre o projeto, que foi viabilizado pela Lei Paulo Gustavo e marca sua estreia como proponente em editais. Como você avalia a importância desses editais e como vê esse desafio agora como proponente e diretor?
Vandré Ventura: Cara, a importância dos editais de inclusão é enorme. Eles fizeram e fazem com que a Savana, que é a minha produtora, consiga dar um passo adiante de forma oficial. Ela passa a ser reconhecida por órgãos nacionais, pela Ancine e por outras organizações. Quando você é contemplado, passa a pertencer oficialmente a esse espaço do cinema.
Isso ajuda uma produtora periférica, que é o meu caso, a ser vista como um espaço real de criação, com capacidade administrativa e criativa para executar projetos. Você passa a pertencer a um núcleo que toca também a sua intelectualidade profissional. Você passa a ser reconhecido intelectualmente. Isso é muito importante. Enquanto os festivais não reconhecerem melhor funções como a direção de produção, continuamos sendo colocados em um lugar secundário. Quando somos contemplados por leis de incentivo, começamos a pertencer de fato. A produtora ganha confiança e o realizador também passa a ocupar um lugar de pertencimento intelectual.
Normalmente, as pessoas estão acostumadas a ver corpos como o meu, periféricos, negros, em lugares de subalternidade no audiovisual, nunca liderando equipes ou conduzindo conversas importantes. Então, quando uma produtora como a minha é contemplada, isso traz esperança. Não só para mim, mas para todo mundo ao redor. Eu vou gravar esse projeto inteiro na cidade e no bairro onde cresci. Isso é político. Quando você volta para a sua quebrada ocupando um lugar de liderança e poder, isso arrasta outras pessoas. Eu tenho experiência real disso.
A Savana é contemplada pela Lei Paulo Gustavo, mas ela não é contemplada sozinha. Muitas pessoas são contempladas junto com ela. Nós sinalizamos um lugar que estava apagado no mapa e colocamos uma região específica novamente em evidência. Ser contemplado pela Lei Paulo Gustavo me deu a sensação de que eu não preciso mais sair para vender suco no sinal, vender gás, lavar ônibus ou trabalhar na construção civil. Tudo isso eu já fiz. Isso me colocou em outro lugar.
E eu queria que outras pessoas tivessem a experiência que eu tive na primeira vez que entrei em um set de filmagem. Ver isso muda a perspectiva de qualquer pessoa. É por isso que faço isso. A contemplação da Savana é a contemplação de muitos. Essa é a importância de uma lei como essa: trazer luz para pessoas que nunca tiveram oportunidade de participar desse espaço com dignidade.
Caio Augusto (Oxente Pipoca): Recentemente assisti ao filme Um É Pouco, Dois É Bom, de Odilon Lopes, considerado o primeiro cineasta negro gaúcho. Você, sendo o primeiro diretor de produção negro do Sul e agora assumindo a direção de um longa, como vê a importância dessa trajetória e dessas ocupações de espaço?
Vandré Ventura: Às vezes eu nem sei se isso é ocupar ou resistir. Porque resistir não é ocupar, é contenção. Você vai se segurando enquanto tem saúde e força, mas uma hora isso fragiliza. O mercado audiovisual exige muito. Exige termos em inglês, conhecimento técnico, lentes, milímetros, ordem do dia. Mas exige tudo isso de um jeito elitizado. Quem vem do meu lugar normalmente não teve acesso a esse vocabulário. Então ele não facilita, porque o audiovisual não nasceu da massa popular.
Mas, ao mesmo tempo, isso é fascinante. Porque eu adoro chegar e mostrar que não preciso dominar todos esses códigos para fazer as coisas funcionarem. É lindo entrar numa escola pública e mostrar para um menino de chinelo que ele pode bater uma claquete com o próprio chinelo para fazer o barulho. Isso é maravilhoso. Só que o audiovisual não está preparado para a nossa resiliência. Eu não me tornei diretor de produção quando cheguei ao set, a vida me fez diretor de produção. E, quando cheguei lá, apliquei humanidade nas relações. Foi por isso que minha entrada foi tão meteórica: as pessoas estavam carentes de humanização.
Percebi que faltava isso nas relações dentro do set, que muitas vezes são arrogantes. Então entendi que existe um mercado que não está preparado para nós, para mim, para outros periféricos, para mulheres, para pessoas trans. Uma mulher diretora de fotografia é constantemente desrespeitada. Já vi isso muitas vezes. Uma pessoa trans pede uma lente e é questionada sobre por que escolheu aquela lente. Um homem branco cis não passa por isso. Então o mercado ainda não está preparado para ver um Vandré liderando um set de filmagem. Falando de decupagem. Não de café.
Quando alguém como eu chega a um lugar de liderança, o mercado “buga”, porque não está preparado para ver determinados corpos ocupando espaços de poder. Surgem barreiras sutis, como uma forma de testar nossa permanência. Por isso, muitas vezes, o que fazemos é mais resistência do que ocupação. Ainda não estamos estáveis nesses lugares; estamos resistindo para permanecer. Mas cada permanência abre caminho. Quando alguém vê minha trajetória e percebe que eu consegui, outras pessoas passam a imaginar que também podem. Isso tem muito valor.
Eu também precisei de referências para acreditar que havia espaço para mim. Por isso entendo minha trajetória como uma responsabilidade: sei que estou sendo observado, e isso me faz querer continuar.
Caio Augusto (Oxente Pipoca): Sobre a trama de Princesa Lavínia: qual foi o pontapé inicial? Você teve referências específicas ou partiu de vivências?
Vandré Ventura: O primeiro impulso foi dor. Foi uma dor muito íntima. Minha família é uma família negra, mas durante muito tempo nós fomos despolitizados em relação à questão racial. Isso é muito comum: você vive as violências, mas não nomeia. Você sente, mas não entende. E essas violências acabam sendo reproduzidas dentro de casa, comentários sobre cabelo, sobre nariz, sobre tom de pele. Tudo isso sempre existiu no ambiente familiar.
Até que um dia ouvi minha sobrinha, a Lavínia, ainda muito nova, dizendo que não gostava do próprio cabelo, que não gostava do próprio nariz. E aquilo me desmontou. Porque eu pensei: “como uma criança tão pequena já está rejeitando o próprio corpo?” De onde vem isso? A resposta era evidente: vem do mundo, da escola, da televisão, da publicidade, da ausência de representatividade, da violência cotidiana.
Aquilo ficou em mim. Depois conversei muito com a minha irmã, mãe da Lavínia, e ela começou a relatar experiências de racismo que viveu quando era criança, situações que nunca tinham sido verbalizadas dentro da família. Então percebi que aquilo não era um caso isolado. Era um ciclo, e esse ciclo precisava ser interrompido. Foi daí que nasceu a vontade de contar essa história: primeiro como gesto de cuidado, depois como gesto político.
Existe uma linha muito fina entre expor uma dor e elaborar essa dor artisticamente. Eu não queria fazer um filme que violentasse a Lavínia, nem que usasse a imagem dela de forma irresponsável.
Queria construir uma narrativa que partisse dessa experiência, mas que alcançasse outras meninas também. Que outras crianças pudessem se ver ali. Que outras famílias pudessem se reconhecer. Então o roteiro foi surgindo desse desejo de acolhimento, e não apenas de denúncia. Claro que existe denúncia, mas existe também afeto. Existe cuidado. Existe amor.
Eu queria que esse filme dissesse para meninas negras: “vocês são lindas”. E isso parece simples, mas não é. Porque muitas vezes ninguém diz isso para elas, ou, quando diz, diz tarde demais. Então Princesa Lavínia nasce desse lugar: de dizer cedo, de afirmar cedo, de proteger cedo.
Caio Augusto (Oxente Pipoca): Temos uma tradição aqui no Oxente Pipoca: pedir que o entrevistado indique um filme brasileiro que goste ou ache importante para o público assistir.
Vandré Ventura: Vou indicar o filme que me trouxe até aqui: Os Amigos Bizarros do Ricardinho. Esse curta mudou minha vida. Foi feito por um amigo meu, do mesmo bairro onde cresci, e colocou nossa cidade no mapa. Entrei naquele set atravessando uma rua, e nunca mais parei de trabalhar no audiovisual. É um filme muito especial para mim e eu recomendo muito que assistam.



















