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  • Foto do escritorGabriella Ferreira

Análise | Franquia Halloween e o conceito de final girl

Laurie Strode é considerada por muitos a primeira final girl dos slashers. Sua história chegou ao fim em Halloween Ends

Divulgação


Em outubro, chegou ao fim a franquia “Halloween” com o lançamento do longa “Halloween Ends” nos cinemas. Originalmente veiculado pela primeira vez em 1978, a franquia se consolidou como um marco do terror pela figura do vilão Michael Myers e também pela por ter a final girl mais conhecida nos filmes slashers. Laurie Strode (interpretada por Jamie Lee Curtis) cativou o público e foi determinante para que a figura feminina (e o termo) ficasse cada vez mais presente no gênero.


A palavra “final girl” surgiu pela primeira vez por Carol J. Clover, em 1992, no livro “Men, Women and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film” (em tradução livre: homens, mulheres e motosserras: a questão de gênero nos filmes de horror moderno). A pesquisadora é referência na área dos estudos feministas no contexto cinematográfico utilizando como base Jacques Lacan e Judith Buttler. Estudando a fundo filmes slashers, de possessão e de tramas com vingança, Clover investigava, principalmente, o motivo dos filmes de terror trazerem sempre uma figura feminina em protagonismo quando majoritariamente do público que consumia essas obras eram homens?


Para a investigação de Clover, Laurie Strode foi uma personagem chave, capaz de subverter os papéis de gênero antes definidos para as mulheres nessas obras, sendo a figura na qual os telespectadores se identificam durante a narrativa. Em “Halloween - A Noite do Terror”, o plot do slasher recai nas mãos de uma mulher que tem como objetivo lutar contra as forças malignas. É claro que, em 1978, Laurie representava a mulher pura e recatada que recusava sexo com o namorado e que defendia as crianças de quem cuidava com todo fervor. Ela era a representação puritana e machista do que a sociedade americana esperava das mulheres nessa época e, além de tudo, as narrativas dessas personagens eram escritas em sua maioria por homens.


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O próprio Carpenter, ao responder as críticas sobre as personagens mais sexualmente ativas sempre morrerem (um dos maiores exemplos é a sequência inicial de ‘Halloween’, explica: “Os críticos erraram o ponto, eu acho. Porque se você reparar a garota que é a mais sexualmente contida continua esfaqueando o cara com uma faca longa. Ela é a mais frustrada sexualmente. Ela é quem o matou. Não porque ela é virgem, mas porque toda aquela energia reprimida começa a sair. Ela usa todos aqueles símbolos fálicos no cara...Ela e o assassino têm uma certa ligação: repressão sexual”. Ou seja, a existência da final girl, no caso, seria uma forma de punir a sexualidade feminina? Ou seria a representação do desejo masculino de uma mulher que revida mas ainda sim submissa ao homem?


O caso é que de 1978 para cá, a fórmula dos slashers foi reutilizada e reinventada com exaustão até chegarmos em 2018. Quarenta anos depois, a franquia “Halloween” volta às telas com uma sequência direta que ignora os outros trocentos filmes que invocaram a figura de Michael Myers. David Gordon Green foi responsável por reviver o longa e trazer Laurie de volta ao universo de Haddonfield. Ignorando outras linhas temporais estabelecidas em outros longas, o “Halloween” de 2018 é uma sequência direta de 1978. Muito bem recebido, o primeiro filme deu origem a mais dois longas que exploraram as nuances da final girl mais famosa de todos os tempos.


Em 2018, Laurie é reapresentada como uma mulher alcoólica, problemática e extremamente armamentista. Ela vive isolada, em uma casa extremamente protegida e aterrorizada pelos traumas causados por Michael. Nessa linha do tempo, ela é portadora de estresse pós-traumático e não consegue ter relações (amorosas e familiares) bem sucedidas. Com o retorno do vilão, Laurie resolve enfrentá-lo de uma vez por todas para proteger a sua família e as consequências disso puderam ser vistas no longa “Halloween Kills”, lançado em 2021.


Já “Halloween Ends”, a estrutura da personagem retoma esse lado protetor, especialmente em relação a sua neta, mas, também a coloca como a única pessoa capaz de derrotar Michael Myers de uma vez por todas. Ela, neste terceiro longa, volta ao protagonismo e é apresentada como uma mulher pacata, mais forte e determinada a ajudar os outros e encontrar um propósito na vida. Mesmo sendo uma total decepção (narrativamente falando), “Ends” consegue colocar a franquia de volta à Strode e a sua relação com o mal na forma de Michael Myers.


Seu ato final representou bem esse antagonismo criado entre esses dois polos opostos. É o bem contra o mal. Vilão contra final girl. E mesmo que a história não termine da forma mais satisfatória para os fãs da franquia ou os de um bom filme de terror, ele representa bem as nuances de uma final girl tão histórica e representativa para o gênero. Laurie Strode merecia, talvez, um filme melhor, mas, teve o final digno e descansará intocável como uma das personagens mais icônicas e clássicas do mundo dos slashers.

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