Crítica | O Diabo Veste Prada 2
- Ávila Oliveira

- há 1 hora
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Carisma, perspicácia e charme continuam em alta, para mostrar que a moda é cíclica, a mídia está sucateada, e que o bom e velho cinema leve deveria voltar a ser tendência.

Em O Diabo Veste Prada 2 (2026), Miranda Priestly (Meryl Streep) luta contra Emily Charlton (Emily Blunt), sua ex-assistente que se tornou uma executiva. Miranda se aproxima da aposentadoria enquanto compete pela publicidade em meio ao declínio da mídia impressa.
Mesmo tendo plena consciência da crise criativa que assola Hollywood de forma intensa há pelo menos uma década, não sou o purista que critica sequências, remakes e recomeços contanto que haja de maneira incisiva uma motivação clara que “justifique” aquele movimento, para além do monetário, que é a unanimidade. O Diabo Veste Prada (2006) é um longa-metragem que tem uma legião de fãs ao redor do mundo por unir, essencialmente, cinema, moda e comunicação. Algumas coisas me confortaram nesta continuação antes mesmo de assisti-la, como a distância temporal entre ela e o anterior, o fato de ser o mesmo elenco, David Frankel na direção de novo (junto com quase toda a equipe técnica do primeiro filme) e Aline Brosh McKenna como roteirista mais uma vez. Ou seja, querendo ter uma perspectiva positiva, é uma produção que estava alinhada para acontecer eventualmente, e que maturou por necessários 20 anos para vir à luz. E o resultado surpreende.
Moda, enquanto termo referente à roupas e acessórios, vai muito além do vestuário, sendo um fenômeno social, cultural e simbólico que acompanha a história da humanidade e reflete valores, hierarquias e transformações sociais. Para alguns teóricos, os ciclos da moda levam em torno de 20 anos para se repetir e, coincidentemente ou não, este foi o período que levou para a continuação estrear. Reassistir ao longa de 2006 dias antes de ver o de 2026, e tendo passado alguns anos desde que o vi por completo pela última vez, foi, de fato, uma revisita. Em 2006 não existiam smartphones como os conhecemos hoje, nem a lógica dominante de redes sociais, influencers e tendências virais instantâneas, e uma revista fashion a nível Vogue/Runway, de fato, ditava tendências; o e-commerce se limitava aos computadores, e os algoritmos não nos acompanhavam por onde íamos. O segundo filme sabe de tudo isso e mostra de maneira nada sutil logo nos seus primeiros minutos.
Num cenário onde os grandes veículos demitem suas forças de trabalho em massa por mensagens impessoais, é como se toda a representação do que aqueles jornalistas, redatores e críticos defendiam também sumisse um pouco, especialmente no tocante à arte. A pauta central é como esse novo direcionamento da mídia, guiado por marcas, patrocinadores e espaço de propaganda, luta para se manter relevante enquanto as métricas e os números altos importam mais do que a qualidade de um trabalho substancial.
Ao mesmo tempo, o longa entende que o cenário mudou de forma irreversível. Há um olhar irônico para esse novo ecossistema, em que relevância e autoridade são constantemente disputadas em medidas voláteis. O roteiro evita um posicionamento simplista, tomando partido claro na defesa de que profissionais com repertório teórico sólido, senso estético apurado e vivência cultural não apenas continuam relevantes, como deveriam ocupar os espaços de protagonismo, mesmo em um ambiente cada vez mais orientado por imediatismo. A impressão é de que as críticas e as cutucadas descompromissadas do primeiro, dessem segurança para que o segundo carregasse na munição, tudo isso dialogando sem perder a sofisticação.
David Frankel é um dos cineastas responsáveis por consolidar certa leveza “feel good” característica do cinema estadunidense da segunda metade dos anos 2000, e outra vez ele demonstra plena consciência desse legado ao atualizá-lo sem perder sua identidade. Acho que não existam mais palavras a serem ditas que contemplem a maestria de Meryl Streep. E sem contar com o inquestionável talento da dupla Streep e Anne Hathaway, existe um magnetismo entre as duas e um fascínio já estabelecido para além da diegese e que funciona como propulsor para a construção e ambientação deste filme. Ademais, o retorno de Emily Blunt e Stanley Tucci com mais cenas e com um mais profundo (pelo menos em quantidade de texto) desenvolvimento de seus personagens, ajuda a dar sustentação para que o roteiro não dependa exclusivamente das duas protagonistas.

O desfile de figurinos funciona não apenas como deleite estético, mas como comentário sobre permanência e reinvenção. Elementos que marcaram os anos 2000 retornam com naturalidade, como statement belts, botas de cano alto, blazers estruturados e boinas, convivendo com clássicos atemporais do ambiente corporativo feminino, como a saia lápis, o vestido envelope e o trench coat. Nesse sentido, a figurinista Molly Rogers acerta ao tratar o vestuário como narrativa, utilizando marcas como Prada, Chanel, Dior, Zadig&Voltaire, Dries Van Noten, Emporio Armani e Valentino não apenas como vitrine, mas como extensão das personagens e de seus lugares naquele universo competitivo.
Naturalmente, trata-se de um filme que encontrará forte ressonância entre entusiastas da moda, especialistas e diletantes, e espectadores atraídos pelo espetáculo visual e pelo status de filme-evento. A trilha sonora carregada de música pop de passarela e as participações especiais ampliam essa sensação, transformando a experiência num produto que ultrapassa a tela. O Diabo Veste Prada 2 compreende que seu maior trunfo está justamente nesse equilíbrio entre nostalgia e atualização, revisitando um universo já consagrado enquanto reflete sobre sua permanência em tempos de transformação acelerada.
É uma produção que sabe se curtir, sabe se referenciar (a direção de arte brinca bastante com o cerúleo), e sabe exagerar sem perder a linha que costura a trama principal. É engraçado, é ácido, é emocionante, é energético e, tal qual seu antecessor, será “atual” por pelo menos mais 20 anos. É uma continuação que atinge o exato mesmo frescor do original, e encontra relevância ao reconhecer que, assim como a moda, o cinema também se reinventa em ciclos, adaptando-se sem mudar os aspectos de seu cerne temático, mesmo o cinema brando, reconfortante e inofensivo. É a lembrança de um estilo comercial recente, mas já obsoleto, onde a diversão não anula o muito que se tem a dizer.
Nota: 4,5/5



















