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Crítica | Cangaço Novo (2ª temporada)

  • Foto do escritor: Aianne Amado
    Aianne Amado
  • há 4 horas
  • 6 min de leitura

Ao intensificar a ação, a série faz do sertão um palco de revolta, resistência e coletividade.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Por mais que um crítico tente expressar seu parecer de maneira objetiva e impessoal, sabemos que isso é impraticável: crítica é, fundamentalmente, opinativa e toda opinião é, necessariamente, atravessada por experiências pessoais. Ainda assim, cultivamos a impressão de que nossos juízos se apoiam em um suposto parâmetro universal de letramento audiovisual, como se estivéssemos julgando a partir de critérios estáveis e previamente estabelecidos. Tudo para sustentar uma falácia de que o autor que se distancia do próprio texto escreve mais autoridade.


Para que eu possa falar de Cangaço Novo, no entanto, esse fingimento não se sustenta. Não há como elaborar uma análise que ignore a minha própria história, porque não houve um único frame que não a evocasse. Abro mão, então, dos protocolos e começo esta crítica falando de mim.


Na infância, visitava com frequência o sertão onde meu pai nasceu e onde sua família vive até hoje. Em Poço Redondo (SE), me acostumei com gente entrando sem cerimônia para um café na casa da minha avó; vi meu avô, político, ser tratado como celebridade local; caminhei pelas ruas com minha prima como se, aos 10 anos, fôssemos donas do mundo; ouvi histórias improváveis contadas com a convicção de quem jura ter provas. Lá, deixei de ser meu nome e passei a ser “a filha de”, “a neta de”. Lá, conheci homens de voz alta e ameaça fácil, e também as figuras mais doces, de fé inabalável e vocação para o cuidado.

Depois da adolescência, rendida à vida cosmopolita, essas visitas se tornaram raras. Consigo contar nos dedos quantas vezes voltei ao sertão na última década. Ainda assim, certas obras funcionam como gatilho, trazendo de volta memórias vívidas, que tem gosto de farofa de ovo e bolo de macaxeira. Dois momentos, em específico, intensificaram esse retorno: quando assisti a Bacurau (2019) e ao acompanhar Cangaço Novo (2023 -).


Em sua Poética, Aristóteles defende que a arte tem a capacidade de gerar empatia ao nos permitir experimentar, por meio da representação, as ações e emoções de outros. Trata-se de um exercício de deslocamento: ao nos colocarmos no lugar do personagem, compreendemos melhor suas motivações e conflitos. Existe, porém, uma catarse distinta quando esse “outro” nos é familiar, quando a representação toca diretamente em vivências que reconhecemos como nossas. Nesse caso, a catarse deixa de ser apenas de empatia e passa a ser pertencimento, resistência e celebração.


Evidentemente, a minha experiência de menina da capital passando férias no interior não se compara às batalhas – literais – dos Vaqueiros em Carcará. Nunca precisei defender terra ou presenciei violência explícita. O que se aproxima, porém, é o entorno: a arquitetura, o sotaque, os costumes, as roupas, as relações sociais, as tradições, as piadas, os flertes, as festas, os velórios. A semelhança é tamanha que, em certos momentos, chega a arrepiar.

Esse efeito certamente não é casual. Há um trabalho de pesquisa minucioso que se materializa com precisão na direção de arte, especialmente na cenografia e na caracterização dos personagens. Casas, objetos, tecidos, cortes de cabelo e até o desgaste das superfícies funcionam como marcadores sociais precisos, compondo um universo verossímil e profundamente ancorado em referências concretas. Cada detalhe se mostra pensado para além das funções narrativas, entrando no difícil e maravilhoso terreno da representatividade.


A trilha sonora e a seleção musical reforçam esse enraizamento, evocando o sertão sem recorrer a clichês fáceis. A fotografia segue caminho semelhante: em vez de reiterar a estética da miséria, tão recorrente em representações mainstream do Nordeste, opta por evidenciar a beleza da paisagem, suas cores, texturas e luminosidades.


Assim como na temporada anterior, a série traz uma estrutura semi-maniqueísta: há um vilão de perfil autocentrado mais evidente (Gastão, vivido por Bruno Bellarmino) e uma personagem que se aproxima de certa santificação (Zeza, interpretada por Marcelia Cartaxo), o que delimita lados com maior nitidez. Ainda assim, essa oposição demarcada não resulta em contornos novelescos, já que o restante do elenco é construído a partir de nuances e contradições. Ninguém é inteiramente bom ou mau – o que evita simplificações e adiciona densidade às relações. Nesse equilíbrio, o sofrimento dos protagonistas não é vitimizado, ao passo que suas vitórias são celebradas com mais intensidade, atravessadas por uma combinação ambígua de alívio, prazer e mesmo um certo desconforto moral. 


A única ressalva relevante está na trajetória de Dilvânia, que, ao buscar (merecidamente) mais espaço nesta temporada, acaba enveredando por uma linha narrativa que tangencia um misticismo sagrado. A escolha, ainda que pouco aprofundada, destoa do realismo cru que orienta o restante da série e fragiliza a suspensão de descrença, justamente por não dialogar com o que havia sido previamente estabelecido. Como uma nota desafinada, o descompasso se evidencia e, ainda que de forma pontual, interrompe a imersão.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O elenco, por sua vez, se mantém como um dos maiores trunfos da produção. Há uma organicidade que atravessa do núcleo protagonista às menores participações, criando a impressão de que aquelas figuras saíram diretamente das minhas próprias memórias do interior sergipano. Tamanha verossimilhança, claro, tem um motivo: ela nasce da decisão de escalar atores nordestinos para interpretar personagens nordestinos, eliminando artificialidades e dispensando qualquer esforço de “construção” de sotaque. Como resultado, tem-se atuações que estão mais para presença que para performance. Mérito direto de Gabriel Domingues e Carol Martins, cuja direção de elenco demonstra notável sensibilidade.


Por falar de elenco, o entrosamento dos criminosos principais — Alice Carvalho, Allan Souza Lima, Ênio Cavalcante e Joálisson Cunha — é um dos pontos altos da trama, alcançando a harmonia perfeita entre afeto e conflito que deve ter um bando de cangaceiros. A chegada de novos personagens (entre eles, a ótima participação de Xamã) não desestabiliza essa engrenagem – ao contrário, amplia e reforça a coesão do grupo. O destaque recai sobre Alice Carvalho, que imprime a Dinorah uma naturalidade impressionante. Sua interpretação, sendo a única mulher dentre tantos bandidos, transita com fluidez entre irreverência, humor, seriedade, afeto, zelo, inconsequência e fúria, compondo uma figura complexa e profundamente humana. É de uma entrega rara, que consolida Carvalho, com folga, como atriz mais promissora de sua geração.


Com os personagens já consolidados, a nova temporada avança com mais fluidez e intensidade. A estrutura que abre cada episódio com flashbacks centrados na família Vaqueiro amplia o contexto emocional e histórico do que está por vir, aprofundando as motivações em jogo. As cenas de ação, por sua vez, se organizam a partir de conflitos claros e bem encadeados, sempre coerentes com as características previamente estabelecidas de cada personagem. Tudo faz sentido e nada soa arbitrário. A progressão dramática se constrói em sucessivos picos de tensão, mantendo o espectador em estado constante de alerta e reiterando, a cada novo desdobramento, o risco permanente da missão assumida por eles.


O roteiro, assinado por Mariana Bardan, Eduardo Melo e Fernando Garrido, acerta especialmente ao aprofundar o eixo político da narrativa, evidenciando como, em última instância, os impactos das disputas de ego dos dirigentes recaem sobre a população mais pobre. Entre os arcos, ressalto o que aborda a crise hídrica, contrariando o senso comum ao apontar que o problema do sertão não é a escassez de água, mas a má gestão e falta de políticas públicas.


Em tese, a história da segunda temporada de Cangaço Novo poderia acontecer em diversos outros contextos. Trata-se, no fundo, de mais uma variação do mito de Robin Hood, o anti-herói que rouba dos ricos para dar aos pobres – uma construção narrativa que atravessa  épocas, de Zorro ao Arqueiro Verde, de A Princesa Prometida (1987) a Rogue One (2016). Poucas coisas são tão sedutoras quanto assistir à justiça social sendo operada pelas próprias mãos daqueles que foram historicamente privados dela.


Contar essa história no sertão nordestino, entretanto, adiciona uma camada de significado impossível de replicar em outro cenário. Trata-se de uma região marcada por uma longa história de negligência e ostracismo, onde a luta e a revolta se inscrevem como traços culturais. Não por acaso, afinal, foi o palco da trajetória de Lampião e seu bando. Assim, ainda que a trajetória de Dinorah, Dilvânia e Ubaldo pudesse ser transposta para outros contextos — das favelas cariocas a territórios indígenas ou assentamentos do MST— sem prejuízo estrutural ao enredo, algo essencial se perderia no caminho. Algo que se explicita nas telas mas que, por mais que eu insista em encarar o teclado à minha frente, resiste às palavras, escapa qualquer descrição.


É por isso que sustento a ideia de que há dois tipos de espectador para Cangaço Novo: aquele que conhece o sertão e aquele que apenas ouviu falar. A nova temporada tem fôlego narrativo de sobra para conquistar ambos. Ainda assim, não escondo o privilégio de pertencer ao primeiro grupo.


Nota: 4,5/5




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