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  • Foto do escritorÁvila Oliveira

Crítica | Folhas de Outono (Kuolleet Lehdet)

Aki Kaurismäki pinta belo romance resoluto, mas que esbarra nos detalhes

Foto: Divulgação


Numa Helsinque atual, duas almas solitárias em busca de amor se encontram por acaso em um bar de karaokê. No entanto, o seu caminho para a felicidade é cercado de obstáculos - desde números de telefone perdidos a endereços errados, alcoolismo e um encantador cão de rua.


Esse é um filme bem nos moldes de um romance clássico dos anos de Era de Ouro, onde o foco é centrado única e exclusivamente no casal principal e os poucos coadjuvantes que circundam as cenas existem com a mera função de impulsionar a relação dos protagonistas. Porém mesmo com um roteiro enxuto e com uma duração curta, o roteiro consegue tropeçar em alguns obstáculos que se contradizem e impedem a narrativa de amarrar seus arcos.


O maior deles é o uso da tecnologia e da maquinaria quando convém. A produção faz questão de enfatizar o cenário capitalista pós-moderno da cidade onde a trama se desenvolve na cenografia e no design de som. Os protagonistas se veem presos num ciclo de subempregos rodeados de parafernálias e instrumentos que condicionam uma péssima qualidade de trabalho e de vida. Mas esses equipamentos parecem ser inexistentes quando num dos momentos chave do enredo o casal troca telefones e endereços num pedaço de papel, por exemplo, fazendo com que a problemática que toma bons minutos de tela pareça rasa, embora entenda-se o apelo ao romantismo à moda antiga.

Foto: Divulgação


Esse mesmo problema também aparece, e dessa vez mais cansativa ainda, quando constantemente os personagens – que parecem ter apenas o rádio como meio de comunicação – ouvem em seus aparelhos de som mensagens sobre o quão violenta a Rússia vem sendo com a Ucrânia. E essa panfletagem política pro-OTAN e anti-União Soviética não adiciona qualquer camada ao texto, é apenas o filme dizendo o quão vilanesca é a Rússia e o quão coitada é a Ucrânia. E ele não tem o menor interesse de esconder ou camuflar isso, é uma postura assumida e sustentada.


Visualmente o filme é um encanto, como é de costume do diretor finlandês. Aki elabora esse “cenário capitalista pós-moderno” com um vislumbre artístico quase onírico, onde as cores e as luzes (e consequentemente as sombras) são importantes para realçar personagens e objetos, bem ao estilo Jacques Demy.


Referenciando outros autores ou não, ou melhor, intencionalmente ou não, é inegável que Kaurismäki conduz suas obras sob o mesmo viés introspectivo, com textos econômicos e com a plasticidade tão importante quanto a mensagem – e vem sendo assim desde a década de 90 – mas ainda assim consegue se mostrar atento ao cenário social e político ao seu redor, mesmo que sob uma ótica simplista.


Nota: 3,5/5

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