Crítica | Olhe Para Mim (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Toda a potência de um cinema queer e de gênero às margens alagoanas do rio São Francisco.

Em entrevistas recentes feitas aqui para o Oxente Pipoca, tem sido possível observar um padrão: a produção pioneira de filmes (sejam eles longas ou curtas-metragens) através de editais públicos em diversos estados que não possuíam uma tradição cinematográfica, especialmente no Nordeste. Olhe Para Mim, de Rafhael Barbosa, se inscreve nesse panorama, sendo o primeiro longa-metragem feito em Alagoas com estes recursos oriundos de editais.
E desde os primeiros segundos já se nota que cada centavo gasto na produção do filme foi muito bem gasto. Após os letreiros que contextualizam a lenda da coruja rasga-mortalha, muito conhecida nos interiores do Nordeste, tem-se de cara um plano geral que nos lança sobre Penedo, às margens do rio São Francisco, aproximando-nos da cidade e de suas paisagens, que na primeira das cinco partes do filme são quase um personagem à parte. Também é a maneira pela qual Barbosa vai apresentar e convergir seus personagens principais: Marcelo (Ulisses Arthur), um jovem soturno e sensível; e Sandra (Rejane Faria) e Ivan (Luciano Pedro Jr.), mãe e filho que viajam rincões adentro com uma missão e habilidades específicas.
Olhe Para Mim começa envolto nas características e nas texturas do cinema de gênero e então se transmuta em um road movie, o que pode frustrar aqueles que esperavam algo a partir do que foi indicado pelo seu começo. Também é um filme assumida e orgulhosamente queer, não só pela construção de Marcelo como essa figura deslocada e contra as normas, ou no seu primeiro encontro com Ivan e a subsequente relação dos dois, mas em toda a construção do mundo, onde mesmo a figura da Monga assume esses contornos disruptivos (com o bônus dela ser interpretada por Aura do Nascimento, protagonista de Salomé, filme que conversa muito com este aqui pelas suas intersecções entre o cinema de gênero e vivências queer no Nordeste).
Progressivamente, Olhe Para Mim nos imerge neste mundo repleto de elementos do realismo mágico, sobretudo pelos elementos ritualísticos e simbólicos das religiões de matriz africana, conjugando diversas referências para “antropofagizá-las” e criar uma narrativa muito única, onde os mitos e lendas locais norteiam as vidas dos personagens, em que Agora Estou Sofrendo do Calcinha Preta coexiste tanto com sua versão original – Bleeding Heart do Angra – quanto com Hope There’s Someone de Ahnoni and the Johnsons (o uso dessa nos minutos finais me desarmou de um jeito que poucos filmes na minha memória recente fez).
Nem tudo é explicado e tudo bem; há algumas coisas que parecem soltas, em especial os tipos de trabalhos feitos por Sandra e Ivan, mas é de se admirar a confiança com a qual o filme se reinventa, adentra o reino do mítico e do mágico sem perder a sua essência queer. Essa confiança é refletiva na direção segura e exuberante de Rafhael Barbosa, desde os já referidos planos gerais (o dos barcos atravessando o São Francisco é de deixar o queixo caído) até as sobreposições de cenas que evocam a dimensão íntima e sensual deste road movie. No fim, a sensação é de que, mesmo que o filme não seja exatamente aquilo que se poderia esperar a partir do seu começo, ele é o que tinha de ser. E se são produções como essas que Alagoas tem a entregar para o cinema brasileiro, então que venham muito mais delas.
Nota: 4/5



















