top of page
Background.png

Crítica | O Profeta (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Fé e poder num longa moçambicano de grandes aspirações artísticas, mas muito aquém delas.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Recentemente li Terra Sonâmbula, do autor moçambicano Mia Couto, para um dos clubes literários de que faço parte. Chamou-me a atenção os elementos do realismo mágico que o escritor imprimia em sua obra, abraçando aspectos do animismo, daquilo que nós ocidentais entendemos por “fantástico” ou “sobrenatural”, como uma parte integrante do mundo da obra, tratadas com naturalidade ou sem qualquer espanto. 


Parte desse sentimento está presente em O Profeta, do diretor Ique Langa, mas sob uma outra chave: a da fé. Ao acompanhar a jornada do pastor Helder (Admiro Laura Munguambe) ao realizar uma espécie de pacto faustiano para aumentar seu rebanho (com resultados cada vez mais sombrios), Langa traz esses elementos aparentemente tão antagônicos – a fé cristã e as magias ancestrais constantemente demonizadas –, evitando caminhos óbvios para tratar seu tema, sobretudo no âmbito estético e formal.


É uma longa de indubitável beleza, isso é certo, apostando numa fotografia P&B e em diferentes razões de aspecto que reforçam os aspectos mágicos e poéticos da obra e comunicam os diferentes momentos de Helder, sua esposa e seu rebanho de fiéis. A câmera de Langa prioriza tomadas longas, planos estáticos que reduzem seus personagens a meros elementos da natureza que os cerca (seria ela o verdadeiro poder ao invés do Deus cristão? Não sabemos), enquanto os instantes de pesadelo, onde o peso das ações de Helder se volta contra ele e sua consciência, ganham ainda mais força pela paleta de cores ou as imagens e seus cortes desorientadores.


No entanto, tamanha primazia estética não é o bastante para nos fazer esquecer do quão falho o filme é em relação ao tratamento do seu cerne temático e narrativo. Grandes obras do cinema foram feitas apostando numa cadência reflexiva e intimista para tratar da fé (como A Palavra, de Carl Theodor Dreyer), mas aqui Langa nunca consegue imprimir a tensão que deseja, sobretudo a partir do momento em que Helder faz o seu “pacto”. As tomadas longas se revelam cansativas quando o filme parece querer apostar numa outra chave, e ele ainda sofre de sucessivos falsos finais que tornam a sua curta duração muito maior do que já é. Não ajuda que Admiro não parece dar conta da latitude dramática pedida pelo filme para seu personagem, de modo que suas crises de consciência e seus conflitos morais parecem desinteressantes ou até mesmo tediosos.


É louvável que Langa aposte num outro modo de se pensar cinema para discutir temas que já renderam tantas abordagens como a fé e a religião. Mas apesar deste panorama muito único do que seria essa fé cristã num contexto em que ela ora se digladia ora se alia com outras forças sobrenaturais presentes no mundo, O Profeta nunca avança para além da sua estética chamativa, convertendo-se numa experiência apática – e considerando que ser “morno” ou apático é uma forma condenável de ser cristão, esse acaba sendo o maior pecado do filme.


Nota: 2/5


LEIA TAMBÉM NO SITE:

FILMES BRASILEIROS DE 2026

bottom of page