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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Os Rejeitados

A previsibilidade como força num caloroso estudo de personagens e suas solidões

Foto: Divulgação


Não há armadilhas ou surpresas em Os Rejeitados. Diria, aliás, que parte da força do filme reside justamente em nos contar uma história tão velha quanto o próprio cinema: o encontro de almas solitárias que desenvolvem afinidades e conexões que perdurarão para toda a vida, mesmo que seus caminhos não mais se encontrem. E o cinema não é mais sobre como se diz do que o que se diz, no fim das contas? É justamente por entender que não vai revolucionar uma premissa tão básica que Alexander Payne pega o roteiro de David Hemingson e o transforma num dos grandes filmes do ano passado.


Payne nos leva a um internato na Nova Inglaterra em 1970, onde o professor Paul Hunham (Paul Giamatti) recebe a infeliz tarefa de monitorar os alunos que precisarão passar o recesso de Natal e Ano-Novo na escola, incluindo dentre eles o arredio e rebelde Angus Tully (Dominic Sessa). Eventualmente, restam na escola apenas os dois e a cozinheira Mary Lamb (Da’Vine Joy Randolph), que vive o luto após a perda do filho na Guerra do Vietnã.


Não é nenhum spoiler dizer o que acontecerá a seguir. É óbvio que duas figuras tão contrastantes como Paul e Angus logo descobrirão que tem mais em comum do que imaginam e a relação tempestuosa dos dois se transformará. Mas acredite, contar isso não estraga nem um pouco da experiência deliciosa que é Os Rejeitados. Mesmo em meio ao frio e à neve do fim de ano estadunidense, Payne entre um longa caloroso e cheio de sensibilidade e intimidade, conforme mergulha em suas três figuras centrais. Mesmo que o filme nos mostre outros personagens (o primeiro ato parece até uma espécie de Clube dos Cinco antes que uma divertida reviravolta aconteça), são Paul, Angus e Mary – e, é claro, seus intérpretes – quem sustentam e dão vida à obra.


É admirável a maneira como o diretor não se limita apenas à ambientação e recorte temporal, mas a integra organicamente à narrativa, fazendo um filme que se porta como uma legítima obra setentista – especialmente através da fotografia de Eigil Byrd, que confere uma textura deliciosamente retrô à imagem da obra, além de transições de cenas e enquadramentos dos personagens que nos aproximam ainda mais das produções da época. Justamente por nos situar nesse período, o longa parece evitar um certo cinismo que rodeia o cinema contemporâneo, optando por uma genuína apresentação dos sentimentos que permeiam esses personagens, mesmo quando são os mais duros e erráticos possíveis.

Foto: Divulgação


Sim, porque Paul e Angus não são personagens fáceis, e à primeira vista as tensões entre os dois explodem por uma série de razões. Mas é fascinante observar a maneira como o filme os desnuda, provocando uma dinâmica repleta de conexões à medida em que se aproximam. Paul Giamatti e Dominic Sessa (este um estreante, o que é ainda mais notável) eficazmente dão vida a essas figuras complexas e falhas, nos convencendo a cada minuto da gradual relação de mentor-protegido que se forma entre os dois. E o melhor de tudo é ver a naturalidade com a qual essa relação se constrói, sem arroubos sentimentalistas e melodramáticos típicos de obras do gênero, que preferem tomar atalhos a realmente desenvolver seus personagens.


É uma pena que esse mesmo espaço não seja reservado a Mary, que parece sempre tangenciar a relação dos dois homens como uma figura periférica, mesmo que em tese tenha sua própria história. Não há dúvidas do quanto Da’Vine Joy Randolph está maravilhosa e comprometida com o papel, especialmente por conferir à personagem uma abordagem do seu luto que também foge dos clichês, mesmo que sua dor seja palpável. Mas me parece que em alguns momentos o filme não sabe o que fazer com ela, como se esta não fosse a história dos três, mas sim de dois onde ela ocasionalmente toma parte.


Esse, porém, é um pequeno contratempo num longa que se sobressai por uma série de razões. Afinal de contas, mesmo que trilhe caminhos óbvios na sua narrativa (mas não necessariamente na sua execução), Os Rejeitados nos relembra que a solidão é tão atemporal quanto as conexões humanas. Descobrir o prazer de se entranhar com o outro e forjar laços que nos marcam por toda a vida é uma experiência única, e que satisfação ver um filme que entende a beleza que há nesse processo, conferindo esse mesmo prazer em sua forma cinematográfica para nós, espectadores.


Nota: 4,5/5

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