Crítica | O Mago do Kremlin
- Caio Augusto

- há 2 horas
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Entre o épico político e a frieza narrativa: um Assayas deslocado de sua própria força intimista.

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Quando penso em Oliver Assayas, penso que, esteticamente, os seus filmes se destacam pelo uso intenso do movimento de câmera e pela tentativa de capturar o fluxo da realidade, criando uma sensação de urgência e imersão. Ao longo da carreira, ele evoluiu de narrativas sobre adolescência para reflexões mais maduras, incorporando elementos do melodrama e explorando o impacto da cultura visual contemporânea. Um cinema que dialoga com nomes como Wong Kar-wai e Hou Hsiao-hsien, mas ainda focado em uma forte relação da juventude com a maturidade.
Em sua mais nova obra, Assayas nos leva para uma crônica política com uma ambição ao épico da narrativa política russa, retratando a trajetória de Vadim Baranov, que, ao longo de duas décadas, deixa o teatro experimental para se tornar um influente conselheiro de Vladimir Putin, acompanhando sua ascensão ao poder ao substituir Boris Yeltsin. A montagem adotada para o filme, para desenvolver a narrativa, nos remete a uma estrutura de capítulos, quase como a de uma série de TV. Confesso que fiquei, no mínimo, curioso para saber a opinião de Assayas sobre os bastidores da política russa, e é, no mínimo, louvável que ele esteja tentando colocar tantos aspectos históricos em seu filme, mas o problema é que o filme mal consegue manter esse ritmo em um nível cinematográfico.
Logo na primeira metade do filme, é possível perceber o que parece ser uma propaganda ocidental e uma perspectiva unilateral do momento que tenta representar. E os soviéticos são colocados, representados de uma forma um tanto quanto caricata que, por vezes, parece que estou vendo uma sketch do SNL. Isso se estende ao tratamento que Assayas dá a Putin, a partir do qual Jude Law traz uma surpreendente semelhança física que parece totalmente minada por sua falta de personalidade. A sua presença nunca é realmente sentida, nem a de Baranov como resultado, o que prova ser uma enorme desvantagem para um épico político de duas horas e meia destinado a pegar uma figura misteriosa e evocar de seu mito qualquer sentimento, além da indiferença entediada.

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Não funciona como um filme histórico, e também não é engraçado nem perspicaz o suficiente para se tornar uma sátira. O fato de assumir o controle da mídia ser um dos pilares de um estado totalitário dificilmente é uma revelação. O que vou dizer, porém, é que, pelo menos, eu não estava entediado, e Paul Dano realmente faz um ótimo trabalho interpretando esse não personagem. Posso estar enganado, mas sinto que Assayas não possui traquejo para lidar com esse universo que ele se propôs, justamente por acreditar que ele se dá melhor com perspectivas intimistas e focadas em um personagem, como em Personal Shopper (2016) e Irma Vep (1996). Nesta última obra, ele me parece irreconhecível, ele foca em cinismo de inversões oportunistas, mas abraça uma frieza que não me envolveu em muitos momentos. No geral, é um filme muito plano em relação ao seu conteúdo.
No entanto, ele oferece belas mensagens de identidade, notícias falsas, a ideia que temos de uma “sociedade perfeita”. Mas, como eu disse, esse ritmo idêntico, com atores moderadamente eficientes, uma direção muito clássica, incapaz de produzir qualquer emoção, faz com que eu o esqueça muito rapidamente. De qualquer forma, cinematograficamente, permanece bastante fraco, tem medo de arriscar e se sujeita a muitas explicações através da narração, impedindo que o espectador esteja sujeito a qualquer tipo de imersão.
Nota: 2/5



















