Hollywood está atrofiando?
- Aianne Amado

- há 2 horas
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Os novos Moana e Harry Potter expõem o novo paradigma em que não mais se cria algo que as pessoas possam amar, apenas se recicla o que elas já amaram.

Se você é um jovem adulto como eu, aposto que na última semana seus feeds foram invadidos por dois trailers específicos. Eles eram inéditos, porém estranhamente familiares, como ouvir um cover genérico de uma música que você sabe de cor.
É claro, estou falando dos trailers do novo live-action de Moana e da nova série de Harry Potter.
De Moana deixando sua ilha rumo à imensidão do mar a Harry esmagado no armário sob a escada dos Dursley, ambas as prévias operam sob a mesma lógica: acionar o piloto automático da memória afetiva. São colagens de momentos icônicos cuidadosamente escolhidos para nos lembrar por que amamos aquelas histórias. Só que, no lugar da nostalgia quentinha que os estúdios tão claramente tentaram provocar, o que fica é um déjà-vu cheirando a oportunismo.
Até alguns anos atrás, parecer demais com outra obra era quase um pecado capital em Hollywood. Havia uma corrida incessante por ser “original”, “inovador”, “visionário” ou qualquer adjetivo que sugerisse distinção o suficiente para convencer o espectador. Hoje, a repetição não só deixou de ser problema como virou estratégia. E o responsável por essa configuração é o mesmo responsável por quase toda mudança recente no setor audiovisual: o streaming.
Historicamente, os fãs eram ignorados – quando não veementemente rejeitados – pelos produtores. A cultura de massa, ancorada na televisão e nos blockbusters, não precisava deles: o público viria de qualquer jeito. Em 2009, por exemplo, parecia inviável viver em sociedade urbana e não ter assistido filmes originais como Avatar, Up ou Se Beber, Não Case!. A oferta de filmes inéditos se limitava a uma dezena de títulos em cartaz, de modo que uma campanha publicitária minimamente competente já garantiria os resultados esperados. Não era preciso agradar aos fandoms, cujo amor é diretamente proporcional às demandas (e ai se essas demandas não forem atendidas!). Entre agradar milhões que pedem pouco e milhares que exigem demais, a escolha nunca foi exatamente difícil.
Só que essa segurança foi se esvaindo.
O streaming implodiu a lógica da oferta limitada. De repente, todo mundo carregava uma locadora infinita no bolso. O espectador deixou de ser refém da grade de programação e passou a exercer liberdade e autonomia de escolha nunca antes vistas, podendo decidir quando e onde assistir uma imensidão de opções.
Ao contrário das previsões pessimistas dos críticos e teóricos, essa nova lógica não ocasionou a dissipação da audiência. Na verdade, as bilheterias de cinema passaram a alcançar números recordes, enquanto a ficção televisiva norte-americana entrou na sua era de maior popularidade. O que houve de fato não foi uma diminuição do público, mas sim uma fragmentação: as massas viraram nichos, e os nichos viraram bolhas que, alimentadas por algoritmos e redes sociais, passam a se comportar como comunidades altamente engajadas, barulhentas e, sobretudo, mobilizáveis. A cultura geek/nerd se tornou legal. Ser fã deixou de ser estigma e passou a ser identidade – ao ponto de que hoje tem-se a impressão de que todo mundo é fã de alguma coisa.
A indústria percebeu rápido e, se antes os fandoms eram um ruído dispensável, agora são uma garantia de sobrevivência – isso porque, em um cenário de excesso de oferta, ter um público previamente fidelizado virou a única margem de segurança possível. Assim, pela primeira vez, a indústria audiovisual passou a priorizar a experiência do fã. Não por retribuição ao carinho que esses consumidores sempre tiveram aos seus produtos ou qualquer outro discurso corporativo que possa aparecer – mas pura e simplesmente por estratégia de mercado.
Frozen (2013) foi o último filme original a liderar a bilheteria global num ano. Desde então, o topo tem sido preenchido por sequências, remakes, adaptações e derivados de propriedades intelectuais já testadas e aprovadas. Em 2025, todos os 15 primeiros filmes de maior audiência são baseados em algum produto anterior – dentre eles um filme ancorado na marca da Fórmula 1 (!). Na televisão, séries como The Last of Us, Andor e Fallout confirmam a mesma tendência: criar do zero virou exceção, explorar o que já existe é a nova regra. Tudo para evitar o risco do tão temido flop.
Moana e Harry Potter, então, deixam de ser exemplos e passam a ser sintoma. Ambos, além de grandes fenômenos culturais, são fenômenos recentes. Com pouco esforço, consigo lembrar de figurinos, cenários, trilhas e mesmo falas dos dois protagonistas em questão. Essas obras estão vivas na memória coletiva, além de facilmente acessíveis e revisitáveis. Não há lacuna a ser preenchida, tampouco atualização urgente a ser feita.

O argumento de que essas novas versões são “para uma nova geração” não se sustenta. Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001), primeiro filme da franquia, continua perfeitamente funcional em termos técnicos e estéticos. Moana, então, mal teve tempo de envelhecer: nasceu já no auge técnico da animação contemporânea. Entender esses remakes como forma de “atualização” significa tratar o audiovisual como produto descartável — e, em um contexto de emergência de lost media, tal interpretação abre um precedente perigosíssimo.
Afirmo com convicção que, embora partam de histórias infantis, essas produções não estão interessadas nas crianças de hoje, e sim nos adultos que cresceram com as versões originais. Não por acaso, abandonam qualquer traço estético “infantilizado” de leveza, cor ou ludicidade em favor de uma fotografia “naturalista”: um cinza xoxo em Moana, um breu demasiado em Harry Potter – escolhas que se configuram como uma espécie de álibi visual, tranquilizando esses espectadores de que, veja bem, isso aqui não é coisa de criança, mas um consumo perfeitamente compatível com a maturidade que alcançaram.
Não que eu tenha absolutamente nada contra adultos consumindo produtos infantis (eu bem sei quanto me traz conforto reassistir Sakura Card Captors vez ou outra). O problema aqui posto não é revisitar, é substituir. É pegar algo que ainda funciona perfeitamente e refazê-lo – especialmente quando os próprios trailers já entregam se tratar de uma cópia quase quadro a quadro. O resultado seguramente será uma imitação ruim de algo que já foi bom, um produto genérico, ou, para usar o vocabulário dos cronicamente online, a versão “da Shopee” (e qualquer um que viu a peruca do The Rock vai concordar com essa comparação) de dois grandes clássicos da cultura pop deste milênio.
No caso de Harry Potter, há ainda um agravante ético impossível de ignorar. Diante do desgaste pelas diversas tentativas com a franquia da DC, a Warner decidiu apostar suas fichas restantes na exploração do universo bruxo, mesmo sob risco de crise de relações públicas ao financiar diretamente alguém que, em tese, estaria “cancelada”. Uma infelicidade, claro, mas não é como se consciência social fosse exatamente o forte de um conglomerado midiático.
Mas, talvez por ingenuidade, ainda acredito que possamos esperar essa coerência por parte do público. Não peço nem que ignorem o apego pelas obras, apenas que, se sua paixão for de fato incontornável, revisite os filmes, releia os livros, permaneça no que já está produzido e pago. Tá tudo bem. Porém, ao escolher dar audiência à nova série, um gesto de nostalgia se converte em engajamento, incentivo e mais lucro para alguém que sabidamente mobiliza seus recursos econômicos e simbólicos contra a vida de pessoas que vivem às margens da sociedade. E nenhum produto artístico vale uma vida.
Ah, mas se ainda assim bater a vontade de assistir, fique tranquilo: não vai demorar para que outro clássico da sua infância seja reciclado, prontinho para alimentar nossas crianças internas que o mercado insiste em manter em cativeiro.
Essa obsessão pelo seguro (ou seja, pelo que já vem com público/fã garantido) tem castrado a inventividade de Hollywood. Gêneros que antes sustentavam a indústria, como comédias românticas e musicais, foram empurrados para escanteio, abrindo espaço para uma linha de montagem interminável de franquias, spin-offs e adaptações de personagens que parecem ter sido desenterrados da página 27 da edição 59 de algum multiverso irrelevante. Faltam ideias. Falta risco, frescor, imaginação.
A boa notícia é que o público começa a dar sinais de exaustão. No último ano, pela primeira vez em mais de uma década, um filme da Marvel ficou fora do top 10 das bilheterias globais. Ao mesmo tempo, apostas mais inventivas, como a série Ruptura e o longa Pecadores, conseguem furar a bolha e encontrar ressonância mesmo entre audiências mais amplas. Enfim, o domínio absoluto das grandes franquias começa a saturar. Talvez não seja o fim desse ciclo, mas já parece um começo.
Que, assim como Moana, os estúdios saiam da sua zona de conforto e se aventurem no novo.



















