Crias do Brasil #3 | Gabriela Amaral Almeida: “A violência me interessa como linguagem desde antes de eu entender o que era expressão”
- Gabriella Ferreira

- há 3 horas
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Entre fantasmas, violência e humanidade, Gabriela Amaral Almeida reflete sobre o Brasil, o cinema e os monstros que insistimos em esconder debaixo do tapete.

Existe algo de profundamente brasileiro nos monstros criados por Gabriela Amaral Almeida. Não porque eles habitem florestas assombradas ou carreguem lendas folclóricas, mas porque nascem de algo muito mais próximo: a violência cotidiana, as relações de poder, os afetos reprimidos e as estruturas sociais que insistimos em fingir que não existem.
Ao longo de uma trajetória que atravessa curtas-metragens, televisão e alguns dos filmes mais importantes do horror nacional contemporâneo, a diretora construiu uma obra em que o medo raramente surge do desconhecido. Em seus trabalhos, o horror costuma emergir justamente daquilo que conhecemos bem demais.
De A Sombra do Pai a O Animal Cordial, filme que muitos anos após sua estreia continua parecendo um retrato desconfortavelmente atual do Brasil, Gabriela utiliza o gênero para investigar comportamentos humanos, tensões sociais e violências frequentemente naturalizadas.
Para ela, porém, esse interesse não surgiu como uma escolha intelectual posterior. Era algo que já existia antes mesmo de compreender plenamente o cinema como forma de expressão. “A violência é algo reprimido na gente desde muito cedo. Como mulher, eu acho que percebi isso muito nova. Existe uma diferença muito clara na forma como meninos e meninas são ensinados a lidar com a frustração. As meninas aprendem a engolir essas frustrações, a não demonstrá-las”, reflete.
Segundo a cineasta, foi justamente essa repressão que transformou a violência em objeto permanente de curiosidade artística.
“Entender quando essa violência vem à tona, entender quando ela explode, sempre foi um ponto de curiosidade para mim. Esse tipo de história me atraía por ser catártico, por ser uma forma de expressão. Quando comecei a escrever, a violência aparecia como elemento de desorganização daquilo que a gente considera normal. Ela me interessa como linguagem desde antes de eu entender o que era expressão.”
Muito antes dos longas que a tornariam uma das principais vozes do horror brasileiro, Gabriela encontrou nos curtas-metragens um espaço fundamental para experimentar narrativas, estéticas e obsessões temáticas que mais tarde atravessariam toda sua filmografia. Ela relembra que o cenário dos anos 2000 e início dos anos 2010 foi decisivo para uma geração inteira de realizadores.
“O curta-metragem foi um veículo de treino para muitos cineastas que estão aí hoje fazendo longas. Era uma época de muita efervescência. Existia apoio para realizar os filmes, mas também para exibi-los. Os festivais permitiam que a gente se encontrasse, visse os trabalhos uns dos outros e construísse uma comunidade.”
Apesar de frequentemente tratado como etapa de passagem, Gabriela rejeita a ideia de que o formato seja menor. “Sempre digo que um curta não é menor que um longa, assim como um conto não é menor que um romance. A diferença é comercial. A gente deixa de fazer curtas não porque eles sejam menos importantes, mas porque eles não estão dentro dessa lógica de mercado. Para mim, foram um campo de experimentação absolutamente fundamental.”
Essa defesa do cinema de gênero também acompanha sua trajetória acadêmica. Antes mesmo de dirigir seus primeiros filmes, Gabriela já dedicava suas pesquisas ao horror, estudando a obra de Stephen King na graduação, na iniciação científica e no mestrado. Na época, porém, o interesse pelo gênero ainda despertava estranhamento. “Eu me lembro das pessoas perguntando: ‘Mas o que existe para estudar nisso?’. Havia um preconceito muito grande. Mesmo quando fui estudar em Cuba, existia um certo deslocamento. As pessoas estavam muito interessadas no cinema social, como se o horror não pudesse ser social também.”
Para a diretora, essa transformação acompanha o próprio momento histórico vivido pelo mundo contemporâneo. “A gente vive um período de transição. Estamos entre um mundo velho que acabou e um mundo novo que ainda não surgiu completamente. Esse lugar intermediário é o terreno das assombrações. É o terreno do medo. O horror contemporâneo aparece justamente para lidar com algumas dessas angústias.”
O reconhecimento crescente do gênero não está restrito aos festivais especializados. Filmes de horror passaram a disputar os principais prêmios do cinema mundial e ganhar espaço em debates acadêmicos, críticos e culturais. Para Gabriela, essa mudança demonstra que finalmente o gênero passou a ser compreendido como uma linguagem capaz de abordar questões tão complexas quanto qualquer outro formato narrativo.
Confira abaixo a entrevista completa com Gabriela Amaral Almeida:
O horror como linguagem e catarse
Antes de se tornar uma das principais cineastas do horror brasileiro contemporâneo, Gabriela Amaral Almeida já observava a violência como um fenômeno social e emocional que atravessava sua experiência cotidiana. Muito presente em toda a sua filmografia, ela surge não apenas como elemento narrativo, mas como ferramenta para investigar relações de poder, desigualdades e frustrações que muitas vezes permanecem reprimidas. Para a diretora, o interesse pelo tema nasceu muito antes da consolidação de uma carreira no cinema.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Deixa eu me apresentar. Eu sou Gabriella, faço parte aqui do Oxente Pipoca e estou muito feliz de falar com você, que é uma das minhas diretoras favoritas. Eu sempre falo para todo mundo que, quando me pedem uma dica de filme, costumo indicar As Boas Maneiras e O Animal Cordial. Então estou muito feliz de conversar com você. Primeiramente, queria falar sobre a sua filmografia, que é muito marcada por personagens atravessados por violência e tensão social. Em algum momento você percebeu quando o horror se tornaria sua principal linguagem para tratar desses temas e transformá-los em metáforas?
Gabriela Amaral Almeida: Nossa, Gabi, um prazer estar aqui. Uma honra. Muito obrigada pela confissão. Fico feliz que O Animal Cordial tenha te tocado.
A opção pela violência, eu acho, sendo uma diretora mulher, vem de uma percepção muito antiga. A violência é algo reprimido na gente desde muito cedo. E eu acho que, como resposta a tanta injustiça que acontece comigo, que eu vejo acontecer e que eu registro acontecendo no mundo, entender a violência, entender quando ela vem à tona, entender quando ela explode, sempre foi um ponto de curiosidade meu.
Sem querer psicologizar demais, eu acho que desde muito nova percebi a diferença na maneira como meninos e meninas são ensinados a reagir à frustração. As meninas são educadas a engolir essas frustrações, a não demonstrá-las. Então esse tipo de história sempre me atraiu por ser uma forma de catarse, uma via de expressão.
Quando começo a escrever minhas primeiras histórias, a violência aparece como elemento violentador, como forma de expressão dos personagens, mas também como algo que bagunça uma situação que a gente considera normal, uma organização social que a gente considera normal, mas que talvez não seja.
Então eu acho que a violência é um meio de expressão para mim desde antes de eu entender o que era expressão. Ela me interessa como linguagem.

Divulgação: A mão que afaga (2011)
O curta-metragem como espaço de descoberta
Muito antes de dirigir longas como O Animal Cordial e A Sombra do Pai, Gabriela construiu sua trajetória dentro do circuito de curtas-metragens. Integrante de uma geração que encontrou nos festivais um espaço de formação, troca e experimentação, ela enxerga esse período como fundamental para o desenvolvimento de sua linguagem cinematográfica e para a consolidação de uma cena autoral que hoje ocupa espaço de destaque no audiovisual brasileiro.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Antes dos longas, você construiu uma trajetória importante nos curtas-metragens. Eles foram um espaço para experimentar e encontrar sua identidade cinematográfica?
Gabriela Amaral Almeida: Muito. Muito, muitíssimo. Eu acho que o curta-metragem dos anos 2000, começo dos anos 2000 até metade dos anos 2010, foi um veículo de treino para muitos cineastas que estão aí hoje fazendo longas. Estou falando de gente como Juliana Rojas, Marco Dutra, Kleber Mendonça Filho, Anita Rocha da Silveira, os meninos da Filmes de Plástico e tantos outros.
Foi uma época de muita efervescência. Não só porque existia apoio público para realizar os curtas, mas porque havia uma rede de festivais muito forte, que permitia que os filmes circulassem. A gente se encontrava, via os trabalhos uns dos outros, se conhecia.
E isso faz parte da própria realização do filme. O filme só se completa quando encontra o público, quando encontra outros realizadores. Eu sempre digo que o curta-metragem não é menor do que o longa, da mesma forma que um conto não é menor do que um romance. A diferença é comercial. A gente deixa de fazer curta não porque ele seja inferior, mas porque ele não está dentro dessa lógica de mercado. Não é algo facilmente vendável, não gera lucro, não tem uma janela simples de exibição. Mas, para mim, foi um espaço de experimentação absolutamente fundamental.
O horror deixou de ser um gênero menor?
Durante décadas, o horror ocupou uma posição marginal tanto na crítica quanto na academia. Hoje, porém, o cenário parece bastante diferente. Filmes do gênero disputam os principais festivais do mundo, acumulam indicações a grandes premiações e ganham espaço em pesquisas acadêmicas. Tendo acompanhado essa transformação desde dentro das universidades e posteriormente da indústria audiovisual, Gabriela observa como a percepção sobre o gênero mudou profundamente nos últimos anos.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você conseguiu construir uma voz autoral dentro de um gênero que durante muito tempo foi tratado como menor. Você acha que o horror brasileiro vive hoje um momento diferente daquele que encontrou quando começou?
Gabriela Amaral Almeida: Completamente. Antes mesmo de fazer filmes, eu estudava Stephen King na faculdade. Estudava as adaptações dos livros dele para o cinema. Fiz isso na graduação, na iniciação científica e depois no mestrado.
E eu lembro muito das pessoas perguntando: “Mas o que você vai estudar aí? O que existe para estudar nisso?” Meu orientador, Wilson Gomes, sempre foi muito aberto ao horror. Ele próprio estudava a construção do monstro no horror moderno. Mas existia esse preconceito, esse desconhecimento.
Depois fui para Cuba e vivi uma experiência interessante. Não diria que sofri preconceito, mas havia um deslocamento. As pessoas estavam muito interessadas no cinema social, como se o horror não pudesse ser social também. Havia um interesse muito forte pelo cinema europeu, pelo cinema direto, e eu estava lá falando de Stephen King e de John Ford. Hoje isso mudou muito.
Você encontra pesquisadores dedicados ao horror, encontra disciplinas sobre o tema, encontra gente estudando isso dentro da academia. Inclusive em Cuba. Mas não é só a academia. O próprio meio cinematográfico passou por uma transformação. O horror deixou de ser visto como uma linguagem menor e passou a ser entendido como ferramenta legítima para contar histórias sobre o mundo em que vivemos.
E eu acho que isso tem a ver com o momento histórico que estamos atravessando. A gente vive uma época de transição. Estamos entre um mundo velho, que nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, e um mundo novo que ainda não se estabeleceu. E esse espaço intermediário é justamente o terreno das assombrações. É o terreno do medo. Então acho que o horror contemporâneo surge com muita força porque ajuda a dar forma a essas angústias.

Divulgação: Miurilo Benício em O Animal Cordial (2017)
Quando O Animal Cordial deixou de ser ficção
Se existe uma obra que consolidou Gabriela Amaral Almeida como uma das principais vozes do horror brasileiro contemporâneo, essa obra é O Animal Cordial. Ambientado quase integralmente dentro de um restaurante, o longa transforma um espaço cotidiano em palco para uma escalada de violência física, sexual, moral e simbólica, expondo tensões de classe, masculinidade e poder que atravessam a sociedade brasileira. Ao revisitar o filme anos depois de seu lançamento, a sensação é de que ele não envelheceu. Pelo contrário: parece ganhar novas camadas de significado conforme a realidade brasileira se aproxima cada vez mais da brutalidade retratada em cena.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu revi O Animal Cordial esta semana para conversar com você. Já tinha assistido várias vezes, mas a sensação que tive agora foi de que ele fica mais atual a cada revisão. Ele usa o horror, a violência e a tensão para discutir masculinidade, poder, classe e várias outras questões. E eu fico com a impressão de que ele antecipa um Brasil mais agressivo, mais violento, que viria depois. Como você enxerga isso hoje?
Gabriela Amaral Almeida: Tem uma coisa interessante. Eu brinco muito com esse filme porque lembro que, quando escrevi o argumento, o Rodrigo Teixeira, produtor do filme, adorou imediatamente. Mas algumas pessoas que leram o projeto na época falavam: “Nossa, mas o brasileiro não é tão violento assim”.
E eu lembro muito do contexto daquele momento. Era aquele período de efervescência do ódio da classe média, pré-impeachment da presidente Dilma. Começava a emergir publicamente uma exaltação da raiva, um ódio muito explícito, uma misoginia muito evidente contra uma mulher que ocupava aquele espaço de poder.
Aquilo me impactou profundamente e acabou funcionando como combustível para a história. Você meio que capta certas coisas no ar quando está escrevendo. Elas começam a aparecer ao seu redor e acabam entrando no filme.
Eu costumo brincar que, conforme o tempo passa, O Animal Cordial deixa de ser aquele filme que algumas pessoas viam quase como uma fantasia de violência e passa a parecer um documentário sobre o Brasil.
A atualidade que você percebe talvez venha justamente disso. Quando eu concebi a história, aquilo ainda estava começando. Hoje está completamente exposto. Essa violência declarada, essa misoginia, esse ódio social que atravessa diferentes classes, mas principalmente certos setores da classe média e da classe dominante, está absolutamente à mostra. Então acho que o filme continua atual porque, infelizmente, a realidade se aproximou muito dele.
O medo mora na espera
Mais do que as explosões de violência que marcam O Animal Cordial, o filme é lembrado pela sensação constante de desconforto. Há uma tensão crescente que transforma cada diálogo, cada olhar e cada silêncio em ameaça. Para Gabriela, o medo está menos na violência em si e mais na expectativa de que ela aconteça.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Outra coisa que gosto muito no filme é justamente essa sensação de claustrofobia e desconforto. Como é construir isso? Como provocar o espectador não apenas através da violência, mas através da tensão?
Gabriela Amaral Almeida: Essa é uma pergunta muito boa porque acho que, quando falamos de filmes de medo, precisamos ampliar um pouco a discussão para além do horror ou do terror. O filme de medo é aquele em que nos ligamos a um personagem porque tememos pela vida dele, pela segurança dele. E para construir isso, a construção do tensionamento é tão importante quanto a construção da catarse.
Os momentos de violência, na verdade, acabam funcionando como momentos de distensão. É curioso dizer isso, mas muitas vezes eles trazem alívio. Porque o que mantém o espectador preso é a pergunta. Vai acontecer ou não vai acontecer? Vai morrer ou não vai morrer? Vai trair ou não vai trair? Está falando a verdade ou não está?
O medo mora nessa espera. Quando você assiste a um filme de fantasma, por exemplo, o que gera tensão não é necessariamente o fantasma. É a possibilidade de ele aparecer. É a expectativa daquela aparição.
Então acho que o grande trabalho de direção nesses filmes está justamente na construção dessas linhas de força. Não se trata de choque pelo choque. Trata-se de construir uma corda que vai sendo esticada até o limite.

Divulgação: A Sombra do Pai (2018)
A infância como território da melancolia
Se O Animal Cordial explora a violência coletiva e social, A Sombra do Pai percorre um caminho muito mais íntimo. O horror continua presente, mas surge atravessado pelo luto, pela ausência e pela solidão da infância. A origem da história, segundo Gabriela, remonta aos anos em que estudava cinema em Cuba.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Além de O Animal Cordial, você tem A Sombra do Pai, que eu também adoro. Só que ele vai para um lugar muito mais íntimo, melancólico e emocional. O que te atraiu na ideia de contar uma história de luto e vazio através do horror?
Gabriela Amaral Almeida: Foi uma das primeiras histórias que me veio à cabeça quando eu estava estudando cinema em Cuba. A primeira imagem era a de uma menina que planta uma mãe. Isso surgiu muito cedo para mim. Eu gosto muito de Eraserhead, do David Lynch, e essa ideia apareceu a partir desse imaginário: uma criança que acredita que pode cultivar uma mãe.
Mas existe outra influência muito importante ali, que é Stephen King. Uma parte muito significativa da obra dele é dedicada à infância. À infância melancólica, à infância isolada, à infância diferente. São crianças que passam por situações inimagináveis, coisas que muitos adultos não suportariam, mas que possuem uma resiliência extraordinária. O King chama isso de “shine” em O Iluminado.
Essas crianças especiais, muitas vezes solitárias, acabam se tornando heróis extraordinários justamente porque enfrentam essas situações. Eu sempre enxerguei a infância como um espaço de melancolia. Porque ela é diferente do mundo adulto. Você depende das decisões dos seus pais, das vontades deles. E quando essas vontades entram em conflito com as suas, você não tem muita capacidade de interferir.
Então acho a infância um território dramaticamente muito rico. Eu também era uma criança muito introspectiva. Me refugiava nos filmes, nos livros, na ficção. Então existe muito dessa experiência pessoal misturada à minha admiração pelo modo como Stephen King olha para essas crianças deslocadas e solitárias. Foi desse conjunto de coisas que nasceu A Sombra do Pai.
Aprender fora da zona de conforto
Nos últimos anos, Gabriela ampliou sua atuação para além do cinema autoral, dirigindo episódios de séries, novelas e projetos para streaming. Em vez de enxergar essas experiências como desvios de sua trajetória, ela as vê como oportunidades de crescimento artístico.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Depois de O Animal Cordial, você também teve experiências muito diferentes, dirigindo séries, trabalhando em streaming e até realizando o remake de Quarto do Pânico. Como você enxerga esses trabalhos dentro da sua filmografia?
Gabriela Amaral Almeida: Eu acredito muito na prática. O cinema é uma arte extremamente difícil. É uma linguagem que exige um conhecimento prático muito refinado. E eu acredito profundamente no exercício constante dessa prática.
Pode parecer contraditório, mas experimento muito nesses trabalhos considerados mais comerciais. Experimento o texto de outros autores, experimento outras formas de produção, outros ritmos, outras exigências. Recentemente dirigi uma série para a Netflix, por exemplo, e cada projeto me coloca diante de desafios diferentes.
Eu aprendo muito trabalhando fora do cercado do gênero onde me sinto confortável. A prática envolve tanto a experimentação estética quanto a resolução de problemas concretos. Você precisa filmar muitas cenas por dia, tomar decisões rápidas, encontrar soluções para situações inesperadas.
Então eu vejo esses trabalhos como um exercício permanente. Eles me permitem continuar aprendendo e, ao mesmo tempo, encontrar espaços para colocar minha voz dentro de estruturas que não necessariamente nasceram de mim. Cinema, para mim, é um lugar de constante experimentação. Mesmo quando estamos falando de projetos mais comerciais.

Divulgação: Quarto do Pânico (2026)
Entre perseguições e monstros: os próximos caminhos
Ao falar sobre o futuro, Gabriela demonstra o mesmo entusiasmo de quem ainda está descobrindo novas possibilidades dentro do cinema. Os projetos que pretende levar às telas nos próximos anos apontam para direções distintas, mas carregam temas que já aparecem de forma recorrente em sua obra: relações familiares, conflitos morais, questões de classe e personagens em transformação.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A gente sempre acaba noticiando algumas novidades da sua filmografia lá no Oxente Pipoca. Recentemente falamos sobre Cão de Guarda. Queria que você contasse um pouco mais sobre o que podemos esperar dos próximos anos da Gabriela Amaral Almeida.
Gabriela Amaral Almeida: Que massa, Gabi. Olha, existem dois filmes que me são muito, muito, muito caros. São Cão de Guarda e Crocodila.
Cão de Guarda é um filme que escrevi especialmente para o Murilo Benício. Ele é um artista que me encanta pela forma como constrói personagem. Eu acho o Murilo uma potência como ator. E existe também uma dimensão humana nisso. A gente passa mais tempo com as pessoas que fazem cinema do que com a própria família. São meses trabalhando juntos, doze horas por dia. E eu tenho procurado cada vez mais estar cercada de pessoas que admiro artisticamente, mas também como seres humanos. E o Murilo é uma dessas pessoas. Então escrevi esse filme pensando nele.
Mas existe também um tema que me interessa muito. É aquele momento em que pais e mães deixam de ser figuras idealizadas e passam a ser vistos como pessoas reais, com falhas, contradições e limitações. Quando acontece essa ruptura? Em que momento um adolescente ou um jovem adulto percebe que os pais são humanos? Era isso que eu queria investigar. E espero que as pessoas encontrem também muita ação no filme, porque eu gosto muito de dirigir ação.
Existe um estigma muito estranho de que mulheres não sabem dirigir cenas de ação. E eu sempre lembro daquela história da Lucrecia Martel, quando foi convidada para dirigir um filme da Marvel e disseram que chamariam alguém para cuidar das cenas de ação. E ela respondeu que justamente as cenas de ação eram a parte mais interessante, porque é onde a câmera realmente fala. Eu concordo muito com isso.
A ação tem uma relação muito forte com ritmo, movimento e coreografia. Tem algo de dança nela. E eu gosto muito desse tipo de construção.Foi uma das razões pelas quais me interessei por fazer Quarto do Pânico. Existe um trabalho de decupagem ali que me fascina muito. Então podem esperar um filme com perseguições, carros, motos, reviravoltas e essa relação entre pai e filha atravessando tudo. É um road movie e estou muito animada para que ele finalmente encontre o público.
O segundo projeto é Crocodila, que talvez esteja ainda mais próximo do horror que as pessoas costumam associar ao meu trabalho. É um body horror sobre uma herdeira carioca de quarenta anos que começa a se transformar em um crocodilo no Rio de Janeiro. E, à medida que essa transformação acontece, ela precisa decidir de quem vai se alimentar.
Ela começa a se perguntar que tipo de pessoa vai comer. Pessoas da mesma classe social? Pessoas de outra classe? Quem merece ser devorado? Então existe um dilema moral e social atravessando essa transformação física.
É um horror corporal, mas também um horror social. Um projeto que desejo realizar há muito tempo e que espero conseguir levar às telas em breve. Porque fazer cinema é muito difícil. Às vezes as pessoas imaginam apenas a parte criativa, mas existe uma combinação enorme de fatores para que um filme realmente aconteça.
Os humanos por trás dos monstros
Ao longo da conversa, um tema reaparece diversas vezes. Seja falando de violência, infância, horror ou relações familiares, Gabriela retorna constantemente à dimensão humana dos personagens. Mesmo em universos marcados pelo medo e pela brutalidade, seu interesse parece estar menos nos monstros e mais nas pessoas.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Olhando para toda a sua filmografia, existe algo que conecta todos esses trabalhos?
Gabriela Amaral Almeida: Nossa, essa é uma pergunta difícil. Muito difícil. Talvez eu nem tenha uma resposta definitiva para ela. Mas, pensando agora, eu tenho a sensação de que aquilo que conecta os meus filmes é a atenção que dou ao humano.
Independentemente da estrutura narrativa, do gênero ou da proposta de cada obra, existe uma preocupação muito grande com a construção da humanidade desses personagens. Eu não acredito muito nessa divisão simples entre mocinhos e vilões.
O que me interessa é entender pessoas. Entender suas contradições, suas falhas, suas vulnerabilidades, seus desejos. Então talvez seja isso.
Talvez o que conecte os meus trabalhos seja justamente essa tentativa de encontrar humanidade em personagens que, muitas vezes, estão vivendo situações extremas. É uma pergunta difícil, mas acho que essa seria minha resposta hoje.
Os fantasmas que insistimos em ignorar
Ao longo da carreira, Gabriela utilizou o horror para falar sobre violência doméstica, desigualdade, misoginia, luto, ressentimento e abandono. Assuntos que frequentemente permanecem escondidos sob a superfície da vida cotidiana. Por isso, a pergunta final da entrevista parecia inevitável.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, tenho uma pergunta que talvez também te faça pensar um pouco. Você costuma usar o horror para revelar aquilo que a sociedade tenta esconder. Hoje, o que você acha que o Brasil mais tenta esconder de si mesmo?
Gabriela Amaral Almeida: Nossa. Tanta coisa. Que pergunta boa. Eu acho que o Brasil tenta esconder de si mesmo a responsabilidade pelas atrocidades que cometemos como sociedade.Não estou falando das individualidades. Estou falando coletivamente. Existe uma tendência muito forte de varrer determinadas coisas para debaixo do tapete.
E isso tem relação com essa ideia recorrente de que a memória do brasileiro é curta. Eu acho que muitas vezes a gente esquece deliberadamente. Não é simplesmente um esquecimento natural. É uma escolha de não encarar certos acontecimentos. A gente empurra para debaixo do tapete eventos, situações e comportamentos que deveriam nos fazer refletir. E isso cria monstros.
Tudo aquilo que a gente não encara, tudo aquilo que a gente não elabora, tudo aquilo que a gente tenta esconder, acaba voltando. E normalmente volta com mais força, com mais raiva.
Eu acho que a sociedade brasileira gosta de esconder uma certa responsabilidade pelas coisas que produz. Mas ela sempre retorna de alguma forma.Talvez seja justamente isso que o horror nos ensine.
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