Entrevista | “Todo filme tem seu próprio público, só que ele precisa se encontrar”: Eduardo Nunes e Bárbara Luz falam sobre “Cinco da Tarde”
- Giulia Meneses

- há 8 horas
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Diretor e protagonista do longa falam sobre a mistura de elementos narrativos em uma história de conexão e luto.

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Quando seu principal ponto de conforto deixa de existir e ela precisa reencontrar o próprio lugar no mundo, um laço afetivo sutil se torna seu maior pilar. É essa travessia que vive Anabel, protagonista de Cinco da Tarde, novo longa de Eduardo Nunes. Após a morte da avó, a personagem interpretada por Bárbara Luz encontra um porto seguro ao se aproximar de Meiko (Sharon Cho), sua vizinha tímida, mas acolhedora.
Depois de integrar a mostra Première Brasil da 25ª edição do Festival do Rio, Cinco da Tarde estreou nos cinemas brasileiros em 18 de junho. O Oxente Pipoca conversou com o diretor Eduardo Nunes e a atriz Bárbara Luz sobre a construção dos espaços como elemento fundamental da narrativa, a incorporação do tom sobrenatural e a importância de valorizar o cinema nacional em cartaz no circuito comercial.
Leia a entrevista completa abaixo:
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Primeiramente, parabéns pelo filme. Eduardo, vou começar com você. O fim da tarde nesse filme parece funcionar quase como um estado emocional da narrativa. Qual o significado desse horário para você dentro da história?
Eduardo Nunes: Nossa, olha, já começou assim. Então, é curioso, a gente falou sobre isso ontem. Eu estou aqui em Belo Horizonte, na casa da Bárbara, inclusive. A Bárbara está na França e eu na casa dela. Conversamos sobre isso ontem. Que é curioso esse horário. É um horário em que a luz, mesmo nos pequenos segundos, está sempre escurecendo. É como se toda referência que você tem do mundo fosse desaparecendo. E vem uma noite. Eu acho que por isso, talvez, pelo estado das personagens, esse horário seja tão importante.
Eu acho que isso, de alguma forma, reflete um pouco a mudança. Ele reflete o final de um dia, o início de uma nova etapa. E coincide também com a questão do horário do sino da igreja. E você puxar ele um pouquinho para antes, quando ainda tem um pouco mais de luz. Eu acho que vai um pouco por esse caminho. Tudo bem simbólico.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O apartamento da Anabel parece atuar como personagem da trama. Ele é meio que uma redoma dos sentimentos que ela traz. Como foi o processo de transformar esse espaço num elemento narrativo tão importante?
Eduardo Nunes: Eu acho que no filme ele começa com a imagem do aquário. E termina também com a imagem do aquário. Essa ideia, que claro, não é para quem conseguir, para quem está disposto a isso, mas que passa um pouco dessas duas personagens estarem nesse mesmo ambiente como peixinhos no aquário.
Mas eu acho que a ideia do apartamento da Anabel, que na verdade é da avó dela, é carregar todos esses objetos, essas memórias da avó, mas ao mesmo tempo funcionar como se fosse um redondo de proteção. Onde as duas, tanto no apartamento da Anabel como da Meiko, se sentem protegidas do mundo. E até pela questão da pandemia. Então acho que tem esse símbolo do aquário e também essa questão da memória da avó que está presente nos objetos. O elemento sobrenatural está presente, de maneira sutil, mas um pouco ali.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Como você buscou equilibrar essa fantasia, esse realismo, sem que um anulasse o outro?
Eduardo Nunes: Eu adoro isso. Eu gosto muito quando um filme começa de uma forma realista e ele vai para algo que é improvável. Algo que você não consegue entender o que é. Eu li um comentário, acho que era uma crítica de um espectador, ele falou que não entendia se a avó estava viva ou não. Eu acho ótimo.
Eu acho isso muito bom, porque não é para entender. A gente tem essa questão no cinema. Às vezes as pessoas veem um filme e falam que não entenderem. Eu como expectador, não tenho que entender nada. Acho que o filme precisa ser sentido, ele precisa ser apreciado.
Então eu gosto muito desse meio do caminho entre vida e morte, entre existência e não existência. Acho que o filme fica nessa fronteira, esse meio nebuloso.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Bárbara, a sua personagem carrega dores e lembranças que às vezes são mais expressas pelo olhar do que pelas palavras dela. De início ela vai rodeando a Meiko até se abrir completamente. Como foi construir essa dimensão emocional de uma personagem que carrega tanto?
Bárbara Luz: Eu acho que a gente foi entendendo aos pouquinhos. Foi um processo longo. Ele (Eduardo) me enviou o roteiro muitos anos antes de começar a gravar. O roteiro mudou muito, mas a gente foi aos pouquinhos tentando compreender esses movimentos emocionais. Eu acho que foi essencial quando a gente encontrou com a Sharon e começou a entender essas duas personagens juntas. Porque eu acho que elas funcionam só através da relação que elas têm uma com a outra. Acho que seria muito difícil se a Sharon não estivesse ali, se a gente não tivesse ensaiado e trocado sobre.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): A presença da avó ali é sentida ao longo de toda a narrativa, mesmo quando ela não está em cena. Como isso influenciou a sua interpretação?
Bárbara Luz: Eu acho que essa coisa do luto é assim. Eu já vivi perdas na minha família, perdas de pessoas queridas. Acho que existe sempre uma questão de presença, ausência muito estranha. Eu acho que todo mundo consegue se relacionar a isso em algum ponto. Não precisa ser a morte, mas pode ser o distanciamento de alguém, não sei. Eu acho que é um estado muito humano de sentir a presença de alguém mesmo a pessoa não estando lá.

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Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Como vocês analisam as personagens do início do filme até o encontro final naquele momento? Não necessariamente um momento romântico, mas um momento de troca e de amor muito forte.
Eduardo Nunes: Olha só. Eu acho que tem isso. Eu acho que a Anabelle, ela começa o filme de uma forma muito instável. Uma morte muito recente da avó e ela está tentando aprender como lidar com isso. Então, ela está tentando.... Ela tem um misto de emoções ali, né? Ela tem uma raiva, né? O momento que ela entra depois que encontra a avó a primeira vez, ela entra e joga o chá para Meiko, joga os sapatos para o canto, sabe? Ela não tem a menor cerimônia em demonstrar os sentimentos dela. E a Meiko, ela só vai aparando.
A Meiko, em momento algum, restringe, faz algum tipo de censura para a Anabelle. Eu acho que a Meiko é muito paciente. Ela está ali numa missão de compreender a Anabelle em qualquer circunstância. Eu acho que como a Meiko viveu um luto anteriormente, ela sabe, talvez, o que a Anabelle está passando.
Eu tenho visto o filme... A gente demorou para lançar o filme, né? Foram quatro, três anos. E a gente fez várias pré-estreias. Foi São Paulo, Niterói, agora estou aqui em BH. E eu tenho visto o filme com o público e tenho redescoberto o próprio filme, sabe? Gosto muito dele. E tem uma cena que me chama atenção, que é uma primeira conversa, depois dessa cena que eu falei, que toca o sino. Mas antes disso, a Anabelle olha para a Meiko e fala: “Por que você foi tão gentil comigo? “ Então, assim, a própria Anabelle não compreende, sendo aquele ser tão estável, né? Por que a outra recebe ela, por que a outra acolhe.
Bárbara Luz: Eu acho que o filme começa, a Anabelle já está num estado que não é o estado normal dela. E o filme tem essa coisa desse tempo meio estranho, do luto e da perda, que é realmente muito esquisito e ela está muito nesses altos e baixos, assim. Quase como se as duas fossem o equilíbrio umas das outras. Acho que existe um acolhimento mútuo entre as duas, que é muito bonito.
Que vai acontecendo aos pouquinhos, mas é super singelo. Não tem nada melhor do que ser acolhido em momentos difíceis. E aí elas encontram essa relação bonita, mas nada óbvia, né? É uma relação estranha também, mas... O que é interessante também é que existe um estranhamento de quando você aprende a conhecer alguém. E a Meiko é essa menina mais sozinha também, mais fechada, que vai se abrindo. Eu acho que existem esses movimentos de ambos os lados, assim, e elas vão se acolhendo.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Para finalizar, sempre pedimos para os nossos entrevistados do Oxente Pipoca recomendarem três filmes ou séries brasileiras para o nosso público.
Eduardo Nunes: Na verdade, tem uma questão que é bem delicada para a gente que faz cinema no Brasil e no mundo inteiro, é que as pessoas têm ido muito menos ao cinema, né? Então, assim, as pessoas se acostumaram a ir no streaming mais e tal. Tem pouco mais isso. Enfim, a minha dica vai muito para os filmes que estão em cartaz, sabe? Independente de números. Assim, mais cedo eu falei com o Pedro Freire, que é um amigo, o diretor de Malu, que é um filme que eu gosto muito, pode ser uma dica, né?
Mas eu não queria, na verdade, falar de nomes que são filmes que já saíram de cartaz e eu acho que é muito importante que as pessoas possam ver os filmes que estão nos cinemas hoje. A gente está com a questão do O Agente Secreto, que é um filme que eu gosto muito, fez um grande sucesso. A Babi estava no Ainda Estou Aqui, que também fez um grande sucesso.
Só que, assim, isso às vezes dá uma impressão de que o cinema todo está indo muito bem. E é muito importante que esses filmes façam uma repercussão, tenham esse acesso ao Oscar. Mas, ao mesmo tempo, é importante lembrar que existem outras centenas de filmes que não conseguem chegar ao público. Eu tenho uma teoria de que todo filme tem seu próprio público, só que ele precisa se encontrar.
Então, minhas três dicas são de três filmes quaisquer brasileiros que estejam em cartaz, sejam quais forem. Porque eu acho que é importante isso, que as pessoas vão ao cinema. Mais da metade dos filmes brasileiros não entram em cartaz e desses que entram, mais da metade não chega a mil espectadores. E são filmes que são lindos e que merecem ser vistos na sala de cinema.
Bárbara Luz: Bom, eu não sei. Estava tentando pensar aqui, mas é uma pergunta muito difícil. Mas eu pensei... e acho que o que o Edu falou realmente faz muito sentido. Eu também pensei no Malu, foi o primeiro que eu pensei, porque foi um filme que assisti ano passado e me tocou muito. Mas existem muitos, vários filmes brasileiros muito incríveis. Eu lembrei do Manas agora, que é um filme que eu assisti. Mas são filmes que já não estão em cartaz, né?
Eduardo Nunes: Eu acabei de falar com o Pedro (Freire) de manhã, e tenho certeza que ele trocaria o Malu por algum filme que está em cartaz. É importante que as pessoas vão ao cinema. Ainda mais nessa primeira semana.



















