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Crítica | A Noite e Os Dias de Miguel Burnier (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Um olhar humanista para uma comunidade que resiste à força avassaladora da mineração.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Um dos efeitos mais nítidos ao se fazer a cobertura de um festival é notar a recorrência de certas temáticas que conectam alguns dos filmes assistidos, independentemente se isso foi uma escolha deliberada ou não por parte da curadoria. Nesta atual edição do Olhar de Cinema, já pude assistir três filmes que lidam com a manipulação das imagens de arquivo (Gato na Cabeça, Cartas Para Meus Pais Mortos e O Mez da Grippe), e agora com A Noite e Os Dias de Miguel Burnier, de João Dumans, são três filmes a abordarem o tema da mineração, os outros dois sendo Yellow Cake e Maxita.


Entretanto, embora A Noite... apresente um registro de denúncia sobre a exploração cada vez mais impiedosa da mineradora Gerdau no distrito que dá nome ao filme, pertencente a Ouro Preto-MG, seu enfoque está em um lugar diferente daquele visto em Yellow Cake e Maxita. O interesse da câmera de Dumans está muito mais na vida da comunidade daquele distrito, que de 600 pessoas em 2005 foi reduzido para 80 em 2025. Em especial, centra-se em algumas figuras específicas, como José da Conceição (Zezé), Claudete Carlos (Dadá), Rita Carolina e outros, acompanhando suas vidas e seu cotidiano mesmo com a sombra da Gerdau pairando sobre todos.


Assim, desde os primeiros minutos a câmera já se imiscui em meio às vidas destes personagens, registrando encontros, festas, discussões, trabalhos, momentos de alegria e de dor. E é inegável a potência destes registros, pois tamanha é a naturalidade com a qual essas figuras se portam perante a câmera, como se mal a notassem ali, que vemos suas complexidades e contradições; enfim, os vemos em toda a sua humanidade. É exatamente o tipo de registro documental que me apetece, me fazendo lembrar algo do cinema de Eduardo Coutinho, ou em outra medida os trabalhos de Affonso Uchôa (que não à toa assina a montagem do filme, assim como assinou a de Maxita).


Talvez por isso os instantes que mais destoem no filme são aqueles em que os personagens comentem ou discutam algo sobre a ocupação crescente da Gerdau em seu território. A abordagem mais direta certamente serve como denúncia, mas não apenas revela a mão mais “controladora” da direção em termos de encenação, como também parece destoar do cuidado e afeto com o qual essa câmera filma esses personagens. É muito mais potente e devastador ver as tomadas aéreas que contrastam uma igreja colonial com as escavações da Gerdau ao fundo; a conversa entre dois personagens onde um claramente se emociona pelo outro ter ido embora de Miguel Burnier; ou a compreensão crescente de como boa parte dessas pessoas encontrou refúgio no álcool para lidar com uma realidade tão opressiva e aparentemente tão desesperançosa.


Mas, mesmo com esses pequenos desvios ou com a natureza brutal do tópico que trabalha, A Noite e os Dias de Miguel Burnier encontra força e alento justamente na solidariedade que existe entre estas pessoas, até quando elas divergem entre si (como nos constantes e hilários embates entre Zezé e Dadá). Momentos de camaradagem e de coletividade expressam resistência mesmo frente a esse adversário aparentemente invisível e bastante inclemente, oferecendo assim uma centelha de esperança para eles – e também para nós.


Nota: 4/5


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