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Crítica | Adulto/Homem (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura

Pedro Diógenes dilata a potência da imagem e do som enquanto nos convida a refletir sobre o ofício da atuação.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

20 atores esperam numa sala, prontos para serem chamados a fazerem o teste de elenco para o qual estão ali. Num único plano de quase 70 minutos, regido por um travelling lentíssimo que deixaria Andrei Tarkovski orgulhoso, a câmera passeia pelos seus rostos conforme eles esperam, e esperam, e esperam. Enquanto isso, numa outra dimensão – a sonora –, eles refletem sobre seus ofícios como atores, o que os levou a buscarem tal profissão e quais as maiores dificuldades da área, além de compartilharem anedotas, lerem textos ou ensaiarem as falas do filme para o qual estarão fazendo o teste.


Gosto muito de filmes que oferecem metacomentários sobre a arte, especialmente porque, enquanto artista (mais especificamente escritor), me identifico muito na ideia de que nós podemos – e vamos – sofrer por essa arte, mas que outra opção temos se não nos agarrarmos a ela? Claro que os atores aqui divergem em suas percepções: alguns veem que a atuação foi algo nato em suas vidas, outros consideram “apenas” um trabalho, mas isso não elimina as experiências em comum, sejam as dores ou as delícias.


Cada um dos atores merece palmas por imprimirem tamanha naturalidade e organicidade em seus rostos e corpos no ato de esperar, ainda que entendamos que há todo um processo de encenação por trás. Mas Pedro Diógenes não se contenta em “colar” seus rostos às vozes que ouvimos, pelo contrário: gradativamente ele vai descolando imagem do som, conforme o que parecia um roteiro bem estabelecido – um conjunto de respostas de cada ator às perguntas feitas por Diógenes e equipe – vai se convertendo em um produto mais “abstrato” e experimental até. Vozes são transferidas de um ator para o outro ou até mesmo se sobrepõem, outras formas de narração são empregadas (as diferentes vezes em que o texto de Adulto/Homem, o “filme dentro do filme”, é lido são um destaque à parte para ilustrar diferentes formas de entonação e atuação), e as reflexões e experiências que à primeira vista pareciam individuais se acumulam e se tornam coletivas.


Assim, cada vez que parece que essa estrutura irá saturar, Diógenes e sua equipe – com especial destaque ao trabalho de fotografia de Ivo Lopes Araújo e o som de Tiago Campos e Breno Furtado – conseguem maneiras de se reinventar, seja apostando no inesperado, no humor ou na intersecção e oposição entre a imagem e o som. Tudo isso enquanto dá espaço para se pensar as múltiplas formas de se fazer atuação, ajudando a dar uma dimensão do processo por trás do ofício, ao qual o público dificilmente tem acesso. 


Como diz Pedro Guimarães, pesquisador de performances e jogos atorais, o rosto do ator é o lugar nobre dos sentimentos de veiculação dos afetos, sentimentos e emoções. Também é aqui o lugar nobre da espera intermitente: pelo próximo teste de elenco, pelo próximo trabalho, pelo próximo sonho a ser alcançado, e que não precisa ser grandioso. Uma das falas mais pungentes vêm de um dos entrevistados que, ao ser perguntado sobre qual seria o seu maior sonho, responde apenas que seria ter seu pai numa sala de cinema o assistindo atuar. 


Atores são humanos, afinal de contas. E Pedro Diógenes encontra nos caminhos incomuns da potência dilatada das dimensões imagética e sonora de Adulto/Homem o espaço perfeito para apresentar suas humanidades ao público.

Nota: 4.5/5


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