Crítica | Anistia 79 (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 4 dias
- 2 min de leitura
Retorno de Anita Leandro à direção mostra as fissuras e lacunas no processo de anistia que reverberam no Brasil de hoje.

Apesar do corpo pequeno da sua filmografia – são 12 anos desde seu primeiro longa, Retratos de Identificação –, é perceptível o interesse e esforço de Anita Leandro em lançar luz sobre histórias relacionadas às vítimas da ditadura, em particular militantes de organizações de esquerda que foram perseguidos, torturados e até mortos. Em Anistia 79, a diretora resgata imagens de arquivo da Conferência Internacional de Anistia realizada em Roma em 1979 e as exibe para alguns dos seus participantes após quase meio século, convidando-os a refletir sobre os eventos daquela conferência e como reverberaram em suas vidas e no Brasil pelas décadas seguintes.
Subdivido em partes de acordo com tópicos distintos, o filme de Leandro então contrapõe passado e presente, interessado nas imagens de arquivo que permaneceram guardadas por tanto tempo, mas sobretudo nas reações dos(as) entrevistados(as) a elas. São constantes as reações de surpresa ao verem velhos amigos e parentes, os sorrisos e lágrimas carregados de saudades, relatos emocionados e constatações muitas vezes melancólicas e agridoces sobre como certas coisas praticamente não mudaram.
A abordagem de Leandro acaba seguindo uma estrutura um pouco protocolar, apesar de decisões criativas (como as telas divididas que contrastam entrevistados e imagens de arquivos). É um filme que confia nas imagens já registradas em 1979 sem precisar manipulá-las – como foi visto em outros filmes do festival – mas alguns recursos, como a desaceleração e aceleração constante delas, cansam depois de um tempo. O que fica, certamente, é o impacto do texto e da voz dos personagens, sejam os discursos na Conferência que sintetizam o que se buscava com a frente de Anistia, ou os relatos no presente que escancaram as múltiplas violências institucionalizadas pelo Estado militar e as vidas de tantos companheiros e companheiras perdidas nesse período.
Assim, Anistia 79 serve como um documento que conecta passado e presente, mostrando um panorama complexo e heterogêneo da esquerda da época, bem como os efeitos do processo de condução da Anistia pela própria ditadura. Se tivemos de ver uma figura como Ustra enaltecida no próprio Congresso (e tudo que veio depois disso), foi justamente pela autoproteção que os militares conferiram a si mesmos neste processo. Isso não significa, porém, que houve luta; e os mais diversos rostos que aparecem aqui dão a face dessa luta, mesmo diante de tudo que perderam ou abriram mão.
Nota: 3.5/5



















