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Crítica | Vento Norte (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura

Longa emblemático do cinema gaúcho e sulista impressiona pela força dos seus planos e da sua paisagem.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Um dos aspectos mais prazerosos de festivais de cinema é a possibilidade de assistir, para além dos vários lançamentos, filmes clássicos em versões restauradas que possibilitam ampliar e até mesmo tensionar os cânones. Nesse sentido, Vento Norte (1951) é um excelente exemplo dessas possibilidades: único filme de ficção dirigido pelo fotógrafo gaúcho Salomão Scliar, foi também o primeiro longa de ficção sonoro do Rio Grande do Sul (bem como do sul do país) e, após ser exibido com sua cópia restaurada no festival de Rotterdam no início do ano, agora enfim chega ao Brasil por intermédio da parceria entre o Olhar de Cinema e a Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre.


Scliar constrói uma história cujo texto aposta na simplicidade, amparado sobretudo nos conflitos amorosos e dramáticos entre seus quatro protagonistas: João (Roberto Bataglin), o misterioso forasteiro que chega à vila de pescadores; Luiza (Patricia Diniz), a jovem ajudante dos pescadores que se apaixona perdidamente por João; Antônio (Manoel Macedo), líder dos pescadores e ex-amante de Luiza; e Maria (Berta Scliar), esposa de Antônio e objeto da atração de João. A narrativa segue contornos esquemáticos conforme o triângulo (ou quarteto) amoroso se desenrola com contornos cada vez mais trágicos, sendo fortemente alimentada pelo melodrama da época. 


No entanto, Scliar já demonstra uma vontade imagética que eleva o filme para além dos prováveis clichês, a começar pelo uso de não-atores para comporem os demais pescadores e moradores da vila, em consonância com o neorrealismo italiano que mais tarde influenciará o Cinema Novo. Além disso, se o texto do filme se sustenta em determinados arquétipos e convenções, o diretor o eleva através da imagem, como evidente no plano em que os quatro personagens são vistos ou se encaram por intermédio de um espelho, evidenciando as conexões que os unem (e mais tarde os destruirão).


Mais do que isso, porém, Scliar pensa a paisagem e os cenários naturais daquela porção do litoral gaúcho como um personagem à parte. Desde o início está posta a relação quase mística e reverente dos personagens com a natureza, sobretudo com o mar e o vento norte do título, cuja força inclemente toma suas próprias vidas e dá o sustento a essa comunidade apenas quando quer, quase como se a amaldiçoando (e o fato dessa “maldição” coincidir com a chegada de João e seus desenrolares só ampliam a ambiguidade mística da obra). O olhar de Scliar – que não sem surpresas assume também a direção de fotografia do filme – faz com que os rugidos do mar e do vento, e as imagens das praias, as dunas e falésias se assomem sobre essas vidas humanas diminutas, como se seus dramas e paixões não fossem nada frente à verdadeira força que rege suas vidas.


Assistir Vento Norte é pensar em quantos grandes filmes brasileiros ainda estão fora do cânone, esperando para serem merecidamente descobertos. É também a prova de como o cinema é, antes de tudo, a união entre imagem e som e que sua grafia é quem dita uma obra ao invés do texto escrito e falado – algo óbvio, mas que precisa ser reiterado em tempos de “discursos” e “mensagens” embaladas em filmes plasticamente estéreis e vazios. Numa sucessão de planos hipnotizantes, Salomão Scliar fez um dos filmes mais bonitos e imponentes da história do cinema brasileiro.


Nota: 4/5


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