Crítica | Clarissa (TIFF 2026)

há 1 hora
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Adaptação de Virginia Woolf atualiza “Mrs. Dalloway” para Lagos, mas se perde em sua própria contemplação.

Existe algo naturalmente interessante em adaptar Mrs. Dalloway para os dias atuais. Mais de cem anos depois da publicação do romance de Virginia Woolf, suas reflexões sobre classe, isolamento, envelhecimento e as limitações impostas pela sociedade continuam extremamente atuais. Em Clarissa, os irmãos Chuko e Arie Esiri transportam essa história para Lagos, na Nigéria, mas acabam criando uma obra que, apesar de suas boas intenções, raramente consegue transformar suas ideias em uma experiência realmente envolvente.
A história acompanha Clarissa, uma mulher da alta sociedade nigeriana que passa o dia preparando uma festa em sua casa. Enquanto organiza os últimos detalhes para receber amigos e conhecidos, ela começa a revisitar momentos de sua juventude e a refletir sobre as escolhas que a levaram até sua vida atual.
Entre essas lembranças estão Peter, seu antigo namorado e escritor aspirante, Sally, sua amiga por quem Clarissa também demonstra sentimentos, e Ugo. O filme alterna constantemente entre o passado e o presente, mostrando como aquelas amizades foram transformadas pelo tempo e pelas circunstâncias.
A ideia de transportar a história de Londres para a Lagos contemporânea é, sem dúvida, uma das decisões mais interessantes do filme. A obra de Woolf discutia uma sociedade britânica marcada pelo colonialismo, pelas diferenças de classe e pelas consequências da Primeira Guerra Mundial. Aqui, os Esiri utilizam a Nigéria para observar as marcas deixadas pelo colonialismo britânico e as contradições de uma sociedade que tenta conciliar tradição, modernidade e diferentes estruturas de poder.
O problema é que Clarissa frequentemente parece mais interessado em demonstrar essas ideias do que em transformá-las em uma narrativa capaz de prender nossa atenção.

A estrutura alternando passado e presente funciona melhor nos momentos em que conseguimos entender como as versões mais jovens dos personagens se relacionam com aquilo que se tornaram. As cenas da juventude possuem uma energia diferente, quase como uma memória idealizada de uma época em que tudo parecia possível. No presente, porém, existe uma sensação constante de estagnação.
Essa diferença ajuda a construir a personagem de Clarissa, mas também torna o filme excessivamente contemplativo. Muitas cenas parecem existir apenas para reforçar o estado emocional dos personagens, enquanto a narrativa demora para avançar.
Sophie Okonedo é, sem dúvida, um dos maiores destaques. Sua interpretação é construída principalmente através de pequenos gestos, silêncios e olhares. Existe uma melancolia evidente em sua Clarissa, uma mulher que parece ter passado boa parte da vida tentando se convencer de que fez as escolhas certas.
David Oyelowo também funciona muito bem como Peter, especialmente na maneira como transmite o arrependimento e o desejo de recuperar uma conexão que parece perdida há décadas. Os dois atores conseguem criar uma relação marcada por uma intimidade que nunca é completamente verbalizada, e são justamente esses momentos mais silenciosos que fazem o filme funcionar melhor.
O restante do elenco também é competente, embora alguns personagens acabem parecendo mais importantes para as ideias do roteiro do que para a própria história. Isso fica particularmente evidente com Septimus, um veterano traumatizado que vive uma realidade completamente diferente da de Clarissa.
Seu arco é provavelmente o mais pesado do filme. Enquanto Clarissa está cercada de conforto e pode escolher até onde deseja enxergar os problemas de seu país, Septimus carrega diretamente as consequências da violência e do abandono estatal. É uma contraposição interessante, mas a ligação entre os dois é tão distante que sua presença acaba parecendo quase como uma segunda história inserida dentro da primeira.
Visualmente, os Esiri encontram algumas soluções interessantes para conectar passado e presente. Reflexos em espelhos e na água aparecem constantemente, criando uma espécie de ponte entre as diferentes versões dos personagens. A ideia funciona especialmente bem porque reforça o conflito central de Clarissa: a diferença entre aquilo que somos, aquilo que os outros enxergam e aquilo que imaginamos ter sido.
O filme também utiliza sons e imagens para aproximar os diferentes personagens e momentos da história. Ora ouvimos sirenes, ora orações ecoando pela cidade, substituindo elementos presentes no romance original e ajudando a construir uma identidade própria para Lagos. Ainda assim, muitas dessas escolhas parecem mais interessantes isoladamente do que dentro do conjunto.
Clarissa é um filme que claramente quer discutir questões importantes. Fala sobre colonialismo, classe social, privilégios, repressão, envelhecimento, liberdade e as consequências de viver em uma sociedade que constantemente exige que seus indivíduos se conformem. Existe muito conteúdo para ser explorado aqui.
Mas, ao longo de seus 125 minutos, senti que o filme nunca encontrou uma maneira suficientemente dinâmica de conectar todas essas ideias. A adaptação de Mrs. Dalloway também cria uma expectativa difícil de cumprir. O romance de Woolf é conhecido justamente por sua capacidade de transformar pensamentos, memórias e pequenas observações do cotidiano em algo profundamente cinematográfico na imaginação do leitor. Clarissa tenta reproduzir essa sensação através de imagens, sons e mudanças temporais, mas nem sempre consegue alcançar a mesma força.
No fim, a pergunta sobre liberdade permanece no centro da obra. Clarissa vive em uma posição privilegiada, mas ainda está presa às expectativas de sua classe, de seu casamento e de sua sociedade. Peter, Sally e os demais personagens também carregam diferentes versões dessa mesma prisão. E Septimus representa aqueles que sequer possuem o privilégio de escolher como querem viver dentro desse sistema.
É uma ideia poderosa, mas Clarissa acaba sendo um filme que admiro mais do que realmente gosto.
As atuações de Sophie Okonedo e David Oyelowo são excelentes, a atualização para Lagos é inteligente e existem momentos visualmente belos. Porém, a narrativa excessivamente lenta e contemplativa faz com que boa parte de seu potencial se perca. Ao invés de transformar suas grandes ideias em uma experiência emocionalmente marcante, o filme muitas vezes apenas nos explica, através de imagens bastante bonitas, por que elas são importantes.
Clarissa entende perfeitamente o que Virginia Woolf queria discutir. O problema é que, ao tentar encontrar sua própria voz, os irmãos Esiri acabam criando uma adaptação mais interessante no papel do que na tela.
Nota: 2.5/5



















