Crítica | Julián (TIFF 2026)

há 46 minutos
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Animação colorida do Cartoon Saloon encontra beleza em sua mensagem de aceitação, mas transforma uma história cheia de possibilidades em uma experiência previsível e superficial.

Quando criança, alguns filmes parecem muito maiores do que realmente são. A imaginação consegue preencher os espaços que o roteiro deixa vazios, transformar personagens simples em grandes aventuras e fazer uma história permanecer na memória por anos. É justamente por isso que Julián, novo filme do Cartoon Saloon, acaba sendo uma experiência frustrante. A animação tem tudo para ser uma daquelas obras que crianças podem assistir e guardar com carinho, mas falta ao filme a profundidade necessária para que ele também funcione para quem está do outro lado da infância.
Baseado no livro infantil Julián Is a Mermaid, de Jessica Love, o filme acompanha Julián, um garoto enviado para passar o verão em Nova York com sua avó, Abuela, que ele mal conhece. Curioso, criativo e completamente fascinado pelo oceano, Julián encontra na cidade um grupo de meninas que está preparando fantasias para a parada das sereias de Coney Island. Ao descobrir o evento, ele decide que também quer participar, e que precisa se transformar em uma sereia.
A partir dessa premissa, Julián constrói uma história sobre identidade, criatividade e aceitação. O relacionamento entre Julián e sua avó é o verdadeiro coração do filme. Enquanto o garoto tenta descobrir quem é, Abuela também começa a reencontrar partes de si mesma que havia deixado para trás. A princípio, ela não entende completamente o comportamento do neto, mas aos poucos passa de uma posição de resistência para alguém disposto a ajudá-lo a realizar seu sonho.
E é justamente nessa relação que o filme encontra seus melhores momentos. A mensagem de aceitação é genuinamente bonita, principalmente porque não precisa ser transformada em um grande discurso. Abuela simplesmente aprende a enxergar o neto como ele é. Existe algo muito sincero na maneira como o filme mostra que o amor de uma família pode significar permitir que uma criança seja livre para descobrir sua própria identidade.
Visualmente, a animação também é um dos grandes destaques. O filme abandona o estilo das ilustrações originais de Jessica Love e constrói uma identidade própria, cheia de cores vibrantes, brilhos, glitter e texturas que parecem ter saído diretamente dos desenhos de Julián. A decisão funciona especialmente bem porque estamos vendo o mundo através dos olhos do protagonista: tudo parece maior, mais colorido e mais mágico.
O design da casa de Abuela também é impressionante. Cada objeto parece ter sido colocado ali para revelar um pouco mais sobre sua personalidade e sua história, enquanto o bairro de Brooklyn é apresentado como uma comunidade viva, cheia de pequenos detalhes. Existe um carinho evidente na construção desse universo, desde a loja de esquina até as crianças brincando pelas ruas.
O problema é que toda essa beleza visual parece esconder um roteiro que nunca consegue acompanhar sua própria imaginação.

Julián é um personagem que poderia enfrentar diversos conflitos interessantes. Ele é uma criança que chega a uma cidade nova, mora com uma avó que mal conhece, está tentando encontrar seu espaço em uma comunidade desconhecida e expressa sua identidade de uma maneira que poderia gerar diferentes reações. Mas o filme parece ter tanto medo de criar conflitos que resolve quase todos eles antes mesmo que possam começar.
Sempre que surge a possibilidade de alguma dificuldade, ela desaparece rapidamente. A comunidade o aceita. As meninas o recebem no grupo. Abuela muda de ideia. E quando finalmente aparece um conflito mais significativo, já estamos perto do terceiro ato e as consequências são pequenas demais para causar impacto.
Isso faz com que Julián seja previsível justamente quando deveria ser mais emocionante. Sabemos para onde cada situação está indo, sabemos que os personagens vão encontrar uma maneira de se entender e sabemos que a mensagem de aceitação será reafirmada antes dos créditos. O problema não é o fato de o filme ser otimista, mas a maneira como ele confunde otimismo com ausência de conflito.
Essa escolha também é especialmente frustrante quando lembramos do histórico do Cartoon Saloon. Filmes como Wolfwalkers e Song of the Sea conseguiam abordar temas infantis com uma enorme sofisticação visual e narrativa, criando histórias que funcionavam tanto para crianças quanto para adultos. Julián possui a mesma preocupação estética, mas não encontra a mesma complexidade.
Em alguns momentos, parece que estamos assistindo a uma coleção de pequenas cenas fofas conectadas apenas pela necessidade de chegar à próxima mensagem positiva. Há elementos fantásticos que parecem importantes, mas nunca são desenvolvidos o suficiente para que entendamos exatamente como fazem parte daquele universo. Outros conflitos aparecem e desaparecem sem deixar consequências.
Isso não significa que crianças não possam encontrar muito para gostar aqui. As cores são lindas, os personagens são carismáticos e a história transmite uma mensagem importante de maneira acessível. Para o público infantil, Julián provavelmente funciona muito melhor do que para adultos.
Mas uma boa animação infantil não deveria precisar escolher entre entreter crianças e oferecer algo para os adultos. As melhores obras do gênero conseguem fazer os dois. Julián parece ter sido construído pensando principalmente no primeiro grupo, e isso acaba limitando bastante sua experiência.
No fim, Julián é uma animação bonita sobre uma mensagem importante, mas que nunca consegue transformar essa mensagem em uma história realmente marcante. A direção de Louise Bagnall cria um mundo colorido e cheio de personalidade, enquanto a relação entre Julián e Abuela oferece alguns momentos genuinamente emocionantes. Ainda assim, o roteiro excessivamente previsível e a falta de conflitos relevantes fazem com que tudo pareça mais superficial do que deveria.
Para uma criança, talvez seja uma porta de entrada encantadora para uma história sobre identidade e aceitação. Para um adulto, porém, fica a sensação de que havia um filme muito mais interessante escondido dentro dessas cores.
Nota: 2/5



















