Crítica | Club Kid (TIFF 2026)

há 45 minutos
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Estreia de Jordan Firstman impressiona em uma história sobre paternidade e vida noturna queer em uma das surpresas mais divertidas e emocionantes de Cannes

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Existe uma nostalgia muito específica em Club Kid. Não apenas pela Nova York de 2016, pelas festas, pelas músicas ou pela sensação de que a vida noturna ainda poderia durar para sempre, mas pela lembrança de uma época em que ninguém imaginava exatamente o que aconteceria nos dez anos seguintes. É nesse período que conhecemos Peter, vivido pelo próprio diretor Jordan Firstman, um jovem promoter de festas que parece ter transformado a própria vida em uma celebração interminável.
Dez anos depois, porém, a festa acabou. Ou pelo menos deveria ter acabado.
Peter continua vivendo entre drogas, ressacas e noites que se confundem umas com as outras. Ao lado de sua melhor amiga e parceira de negócios, Sophie (Cara Delevingne), ele tenta expandir seu império de festas enquanto mal consegue funcionar durante o dia. Até que uma mulher de seu passado aparece em sua porta trazendo uma notícia que muda completamente sua vida: Peter tem um filho de oito anos chamado Arlo (Reggie Absalom), e agora precisa cuidar dele após a morte de sua mãe.
A premissa poderia facilmente resultar em mais uma comédia sobre um homem irresponsável que é obrigado a amadurecer depois de descobrir que tem um filho. Mas Club Kid encontra algo muito mais interessante nessa história. Ao invés de transformar Peter em um pai incompetente que precisa aprender tarefas básicas, Jordan Firstman utiliza a relação entre os dois para falar sobre família, comunidade e, principalmente, sobre as diferentes formas que encontramos para pertencer a algum lugar. E talvez seja isso que torna o filme tão especial.
Firstman já era conhecido por seu humor extremamente particular e por seus vídeos nas redes sociais, nos quais observa situações cotidianas e transforma pequenos comportamentos humanos em comédia. Em Club Kid, essa mesma sensibilidade é transportada para o cinema. O roteiro parece entender que uma conversa pode mudar completamente por causa de uma única palavra, um olhar ou uma expressão facial. Nem tudo precisa ser uma piada para ser engraçado.
Há algo deliciosamente espontâneo nos diálogos do filme. Os personagens interrompem uns aos outros, mudam de assunto, dizem coisas absurdas com a maior naturalidade e, principalmente, parecem pessoas de verdade conversando. Firstman encontra humor justamente na maneira como tentamos esconder aquilo que estamos sentindo, mesmo quando todo mundo ao nosso redor já percebeu. Essa honestidade também é o que impede Club Kid de se tornar uma comédia cínica.
Peter vive em um universo completamente caótico, cercado por drogas, festas e pessoas que parecem ter transformado a própria identidade em uma extensão da vida noturna. Ainda assim, existe uma generosidade enorme entre essas pessoas. Quando Arlo entra nesse mundo, ele não é tratado como alguém que precisa necessariamente ser afastado daquela comunidade. Pelo contrário, ele encontra ali pessoas dispostas a acolhê-lo. E isso muda a maneira como enxergamos a própria ideia de família.

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Arlo rapidamente demonstra ter interesses em comum com Peter, principalmente através da música. O garoto cresceu ouvindo Cocteau Twins e acaba descobrindo uma conexão inesperada com os amigos queer de seu pai. Em uma das cenas mais bonitas do filme, ele chega a tocar como DJ ao lado de uma das amigas de Peter, mostrando que talvez aquele ambiente que parecia tão inadequado para uma criança seja justamente o lugar onde ele finalmente encontra pessoas que o compreendem.
A relação entre Peter e Arlo é construída com uma sinceridade que torna ainda mais emocionante a transformação do protagonista. Peter não simplesmente decide virar um bom pai. Ele começa, aos poucos, a perceber que existe alguém dependendo dele e que talvez sua vida não precise continuar sendo uma sequência de noites que terminam em arrependimento. A mudança é rápida em alguns momentos, mas Firstman consegue fazer com que ela pareça emocionalmente verdadeira.
Visualmente, o filme também surpreende. Filmado em 35mm, Club Kid captura uma Nova York que parece estar desaparecendo diante dos nossos olhos. A cidade não funciona apenas como cenário, mas como parte da própria identidade do filme. As ruas, os apartamentos, os clubes e os espaços onde os personagens vivem ajudam a construir a sensação de estar observando o fim de uma determinada era da vida noturna nova-iorquina.
A fotografia de Adam Newport-Berra encontra beleza tanto no caos das festas quanto nos momentos mais íntimos. As cenas de balada são sensuais e quase sufocantes, enquanto os momentos entre Peter e Arlo são muito mais simples. Existe uma diferença física entre esses dois mundos, e o filme utiliza essa mudança para acompanhar a transformação do personagem.
Cara Delevingne também merece destaque como Sophie, uma personagem que parece estar sempre a poucos segundos de perder completamente o controle. Ela poderia facilmente ser apenas uma caricatura da melhor amiga drogada, mas Delevingne encontra humanidade por trás da energia frenética da personagem.
E Reggie Absalom é uma descoberta. Arlo poderia facilmente se tornar apenas o elemento fofo da história, mas o ator consegue dar ao personagem uma personalidade própria. Ele não é apenas o motivo para Peter mudar. Ele também tem seus próprios traumas e maneiras de enxergar o mundo.
Mas, pra mim, o mais impressionante é como Club Kid consegue mudar de tom sem perder sua identidade. Durante boa parte do filme, estamos diante de uma comédia acelerada sobre situações absurdas. Conforme a relação entre Peter e Arlo se aprofunda, a história começa a desacelerar. O que antes parecia uma grande festa vai se transformando em uma ressaca emocional. E quando o filme finalmente mergulha em suas consequências mais sérias, a mudança não parece artificial.
É como se o próprio filme seguisse a estrutura de uma noite de drogas: começa eufórico, fica cada vez mais intenso e, inevitavelmente, chega o momento em que as luzes acendem.
Essa transição poderia facilmente destruir uma comédia desse tipo. Aqui, ela faz exatamente o contrário.
Club Kid entende que humor e drama não são opostos. Muitas vezes, os momentos mais engraçados são justamente aqueles em que os personagens estão tentando esconder algo doloroso. E os momentos mais emocionais funcionam porque já aprendemos a rir com aquelas pessoas.
É essa intimidade que torna o terceiro ato tão eficaz, especialmente quando a história assume uma dimensão mais dramática e Peter precisa lutar para manter Arlo em sua vida. O conflito poderia parecer exagerado em outro filme, mas aqui ele funciona porque passamos tempo suficiente entendendo o quanto aquela relação se tornou importante para os dois.

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No fim, o que começa como uma história sobre um homem tentando escapar de sua própria vida acaba se tornando uma história sobre encontrar uma razão para permanecer nela. Jordan Firstman poderia ter usado Club Kid simplesmente para transformar sua experiência na cultura queer e na internet em uma longa piada. Em vez disso, ele faz algo muito mais difícil: leva seus personagens a sério sem deixar de rir deles.
É uma estreia surpreendentemente madura, caótica (no bom sentido) e, acima de tudo, sincera. Club Kid é sobre drogas, festas, sexo, paternidade e uma Nova York que parece pertencer ao passado, mas também é sobre a necessidade universal de encontrar pessoas que nos aceitem exatamente como somos.
Por trás de toda a irreverência, Jordan Firstman não está tentando provar nada, ele apenas usou seu poder pra falar sobre pessoas. E, por quase duas horas, faz isso com uma honestidade rara.
Nota: 5/5



















