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Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

  • Foto do escritor: Ávila Oliveira
    Ávila Oliveira
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Chloé Zhao joga com o peso e a leveza da dor em drama extenuante

Foto: Reprodução


Após a morte de seu filho Hamnet, aos onze anos, Agnes Shakespeare (Jessie Buckley), curandeira e esposa do dramaturgo William Shakespeare (Paul Mescal), é tomada por uma profunda tristeza. Enquanto compartilha o luto com seu marido, o casal luta para lidar com a fragilidade da vida e a crueldade da peste. Ambientada na Inglaterra do século XVI, a história acompanha Agnes na sua busca de uma maneira para seguir em frente e sustentar seus outros filhos.


Hamnet (2025) é um filme devastador. Baseado no romance homônimo da autora irlandesa Maggie O'Farrell, o roteiro busca dar rosto, vida e bastante sentimento para uma personagem que pouco se tem registros sobre. O longa é rendido à atriz Jessie Buckley que entrega tudo de si numa personagem complexa e densa, ao mesmo tempo transparente e acessível. A Agnes do filme é uma mulher atenta, vivaz, compreensiva e resiliente. Ela é apresentada como um tipo de herbolária curandeira que tem um contato direto com a natureza, vínculo holístico este que se perde ao longo da trama e que talvez merecesse um pouco mais de atenção no ato final do enredo, quando sua personagem está mais vulnerável emocionalmente. Paul Mescal também interpreta com riqueza de nuances um William Shakespeare inquieto e com ânsia de alcançar um êxito maior do que ele consegue enxergar à sua disposição, no pessoal e no profissional.


Na direção, Chloé Zhao opta desta vez por uma câmera mais estável, mas nunca distante. Os enquadramentos se aproximam constantemente dos atores, quase como se buscassem conter fisicamente a dor que transborda dos corpos. O luto é tratado menos como evento e mais como estado permanente, um peso que se instala nos gestos mínimos, nos olhares interrompidos e nas pausas prolongadas. O silêncio assume papel central e se impõe de maneira dura, incômoda e profundamente humana. É nele que o sofrimento se organiza quando as palavras falham, e é também nele que o processo de cura começa a se insinuar, ainda que de forma frágil e irregular.

Foto: Reprodução/ Focus Features


A arte surge então como tentativa de dar voz a esse silêncio dolorido que não encontra forma no discurso. A criação não aparece como redenção imediata, mas como necessidade vital, quase instintiva, para reorganizar o caos interno provocado pela perda. Zhao compreende que nem toda dor precisa ser explicada, mas sentida e atravessada, e constrói imagens que funcionam como tradução sensorial desse estado emocional. O filme entende a arte como espaço de escuta e elaboração, onde o sofrimento pode existir sem ser resolvido, apenas acolhido em sua complexidade.


No que compete ao rigor técnico da produção, Hamnet é irretocável. A direção de arte se destaca especialmente nas grandiosas cenas ambientadas nos teatros ingleses clássicos, recriados com uma crueza precisa que evita qualquer idealização excessiva. Há ainda um flerte delicado com a fantasia em um estado quase delirante, no qual o escape da realidade funciona tanto como fuga de um lugar de dor extrema quanto como um truque mental para catalisar um processo de cura interior. Esse movimento exige tudo de seus personagens, drenando forças físicas e psíquicas, mas também reafirma o cinema de Zhao como um espaço onde a sensibilidade encontra forma sem jamais suavizar o sofrimento que lhe dá origem.


Nota: 4,5/5


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