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Crítica | Me Ame com Ternura

  • Foto do escritor: David Shelter
    David Shelter
  • há 24 horas
  • 3 min de leitura

Uma melancólica poesia sobre a estoicidade ante a perda

Foto: Reprodução/ Imovision


Um dos componentes mais atraentes do cinema é a magia que ele tem de contar uma mesma história várias vezes e de poder abordá-la de diversas maneiras, como, por exemplo, a história de uma mãe que briga pela guarda de seu filho. É essa magia que permite não apenas abordar a história de um novo ponto de vista, mas também transformá-la em algo para além do drama que deveria ser, como faz Anna Cazenave Cambet em Me Ame com Ternura. Protagonizado de maneira singular por Vicky Krieps, o filme aborda a temática dessa mãe por meio de uma pesada cortina de homofobia e machismo, enquanto a personagem busca encontrar a si mesma. 


Após Clémence (Krieps) revelar ao seu ex-marido, Laurent (Antoine Reinartz), que é lésbica, e relatar, em livros, suas vivências amorosas com mulheres, ela passa a enfrentar a fúria silenciosa do pai de seu filho, que, usando calúnias e as mais diversas desculpas, torna a guarda unilateral para si e a impede de ter contato com a criança. Ciente, desde o início, de que aquela era uma guerra que poderia durar anos, ela, mesmo assim, se ampara no falho sistema para ter alguma justiça, e busca, por todos os meios legais, uma resolução para esse problema, para que ela possa novamente ter a guarda, mesmo que compartilhada, de seu filho. 


Apesar de um começo lento, o filme rapidamente toma forma. Conhecemos a personagem e sua luta inicial, mas logo se torna perceptível que a história vai orbitar em torno dessa luta pela guarda do filho sem deixar que Clémence fique à sombra desse drama. Mergulhada em sua própria melancolia, ela nos arrasta para o seu vendaval de sentimentos particulares. Enquanto o filho permeia seus pensamentos, ela não deixa que sua vida pare, continua buscando seu espaço e tornar-se a escritora que almeja, ao mesmo tempo em que também cultiva a vida amorosa sem deixar que entre em conflito com sua guerra pessoal. Todas essas camadas acontecem simultaneamente e fazem com que se crie um elo com a protagonista. O fator principal para isso é a atuação de Vicky Krieps, que transmite todas as dores e conflitos dentro de uma espiral de emoções. 

Foto: Reprodução/ Imovision


O longa também se constrói através de uma trilha sonora que acompanha a vida da personagem. Entre altos e baixos, o som vai guiando e se modelando entre a introspecção e os momentos de respiro e fuga. Todos os quesitos mais técnicos parecem ter sido pensados para acompanhar os dilemas da protagonista, e é um dos pontos que fazem o filme ganhar a sua força. Ele se torna visualmente bonito enquanto expressa todas as nuances de sua história, não deixando tudo por conta apenas de diálogos para que se capte o que está em cena. Por mais que exista uma notável escolha de direção e roteiro em relação a como contar a sua trama, o filme ganha aspectos mais ferozes quando há um embate mais direto da protagonista com o seu algoz, e mesmo sendo poucos instantes, esses momentos parecem trazer mais vida à trama, pois geram um contraste com a forma mais discreta de Clémence.


Ao passar pelas duas horas, se torna notório que tudo foi montado desde o início com bastante coesão para que o final se tornasse mais amplificado, sem perder sua linha de raciocínio nem divergir do que foi proposto. Não é uma história sobre uma mãe em busca de seu filho, mas sobre uma mulher regendo a própria vida enquanto orbita em torno desse drama. E, apesar de alguns momentos de duração excessiva, todos os componentes do filme se tornam necessários para contar essa trajetória de Clémence. Ao fim, por meio de suas palavras e pensamentos, podemos sentir junto com a personagem o alívio de sua decisão.


Nota: 4/5

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