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Crítica | Mambembe

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Entre memórias, afetos e um filme interrompido, Fábio Meira transforma o cinema em um gesto de permanência e reinvenção.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Existe algo profundamente brasileiro no universo do circo mambembe, especialmente quando ele atravessa o interior do Nordeste. Não apenas como espetáculo, mas como presença que ocupa a cidade por instantes e depois desaparece. A lona erguida em terrenos improvisados, os caminhões que se tornam casas, o brilho precário das luzes na noite quente. O circo não chega como evento isolado, ele se mistura à paisagem, se confunde com o cotidiano e cria uma memória coletiva que não é fixa, mas em movimento.


É nesse imaginário que se ancora Mambembe, novo longa de Fábio Meira, que estreia em 14 de maio nos cinemas. Depois de As Duas Irenes e Tia Virgínia, o diretor retorna a um projeto iniciado em 2010, interrompido ainda na origem, para transformá-lo em outra coisa. Não exatamente um filme recuperado, mas um filme reinventado a partir do próprio fracasso.


A premissa original acompanhava um topógrafo errante que cruza o caminho de três mulheres de um circo mambembe. Mas o que poderia ser apenas uma narrativa ficcional se abre em outras direções quando o próprio processo passa a contaminar a obra. O filme deixa de buscar um encerramento possível e assume sua condição de fragmento, de projeto interrompido que retorna como memória, arquivo e gesto de recomeço.


Há aqui uma escolha clara de linguagem. Mambembe assim como o circo, não se fixa em um território. Ele oscila entre documentário e ficção, entre bastidores e cena, entre registro e invenção. Essa instabilidade não é um efeito, mas a própria estrutura do filme. O que se vê é uma obra que se constrói diante do espectador, como se estivéssemos sempre no meio de algo que já começou antes e ainda não terminou.


Dentro dessa lógica, o filme se aproxima de um diário. Não no sentido íntimo apenas, mas no sentido de processo. A direção de Fábio Meira não tenta esconder esse estado de busca. Pelo contrário, expõe. O filme parece constantemente em diálogo com sua própria origem, com suas imagens de pesquisa, com o jovem diretor que inicia esse projeto e com o tempo que atravessa tudo isso.


Nesse percurso, surgem personagens reais que atravessam a fronteira da ficção e reorganizam o próprio filme. Índia Morena, figura do circo pernambucano, não apenas participa da construção da obra, mas tensiona sua lógica ao afirmar que artistas de circo devem interpretar a si mesmos. Essa ideia não fica restrita ao discurso, ela estrutura o filme por dentro.


O personagem do topógrafo, por sua vez, carrega uma dimensão ainda mais íntima. Ele nasce de uma ausência, da relação com o pai do diretor, e aos poucos deixa de ser apenas personagem para se tornar espelho. O filme passa a operar nesse espaço instável entre criação e autobiografia, onde o próprio cineasta também se inscreve como presença.


O que se forma é um conjunto de camadas que nunca se estabilizam. Uma artista como Madonna surge como figura quase impossível de distinguir entre o real e o inventado. As duas Jéssicas expõem esse mesmo atrito, uma impedida de sair do circo e outra recriada pela ficção, interpretada por Dandara Guerra. O filme não resolve essas fronteiras, ele as mantém abertas.


O resultado é uma obra que encontra no inacabado sua força central. Mambembe não tenta reconstruir o que foi perdido, mas olhar diretamente para a interrupção. Nesse sentido, o longa também fala sobre um cinema brasileiro que muitas vezes começa e não termina, não por falta de ideias, mas por falta de estrutura, de financiamento, de condições reais de existência.


É aqui que o filme se amplia. Ele não trata apenas de um projeto interrompido, mas de uma lógica mais ampla do audiovisual brasileiro, especialmente fora dos grandes centros. Quantas histórias existem apenas como possibilidade? Quantos filmes permanecem como arquivo, rascunho ou memória de algo que não chegou a se concretizar?


Ao transformar esse processo em forma, Mambembe encontra uma dimensão política sem precisar anunciá-la. A precariedade deixa de ser contexto e passa a ser linguagem. O que poderia ser ausência se torna matéria.


No fim, o que Fábio Meira constrói não é um filme sobre o circo, nem apenas sobre um projeto perdido. É uma obra sobre o próprio ato de filmar quando ele já não pode ser inteiro. Sobre o que permanece mesmo quando tudo parece interrompido. E sobre como, às vezes, o cinema nasce justamente do que não conseguiu se concluir.


Nota: 4.5/5


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