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Crítica | Fogo nos Macacos

  • Foto do escritor: Ávila Oliveira
    Ávila Oliveira
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Filme incômodo apresenta tensão familiar revestida de traumas sociais.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Baseado no conto homônimo do livro Rio dos Contos, de Daiana de Souza, o filme apresenta um casal macaense que se desloca com o filho até a periferia do Rio de Janeiro para que bebê conheça o avô. O encontro é marcado por choques geracionais e angústias guardadas causadas por mazelas sociais.


Existe algo inquieto já nos primeiros minutos de Fogo nos Macacos, como se o filme respirasse curto antes mesmo da visita, ação central da trama, acontecer. Clementino Jr. e Daiana de Souza constroem uma tensão inicial que nasce do cotidiano, mas nunca é banal. O trajeto dessa família até o encontro com o avô carrega um peso difícil de disfarçar, como se cada gesto fosse meticulosamente medido para evitar um conflito que já parece inevitável. O silêncio funciona como prenúncio em vez de ausência.


A câmera acompanha tudo com uma proximidade que por vezes assume o ponto de vista dos próprios personagens, quase nos empurrando para dentro da cena. Isso faz com que a tensão deixe de ser apenas observada e passe a ser sentida no corpo, como um incômodo que cresce aos poucos. O espectador não fica de fora, ele é colocado ali, no meio de olhares desconfortáveis e palavras não ditas, partilhando daquela atmosfera carregada antes, durante e depois dos embates.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Quando as gerações finalmente se encaram, o curta revela um atrito que não se resolve em confronto direto, mas em pequenas fissuras emocionais. Os mais velhos parecem moldados por silêncios antigos, enquanto os mais novos demonstram uma urgência em compreender e expor o que foi reprimido. As atuações de Izabel Rezende, Ricardo Romão, Carol Haber, Ray Senna sustentam essas divergências com uma humanidade rara, onde o afeto, a mágoa e a tentativa de aproximação coexistem sem nunca se acomodar e sem interferir na presença um do outro.


É no simbolismo dos macacos que o curta encontra sua camada mais incômoda, evocando traumas, feridas raciais e tudo aquilo que foi herdado sem ser pedido. Existe ali um “santuário” que carrega um peso imagético potente, e talvez um tempo maior de exploração visual desse espaço pudesse intensificar ainda mais a experiência sensorial do filme. Ainda assim, isso não diminui a força do que é dito e, principalmente, do que permanece não dito. Fogo nos Macacos é um filme que cutuca e que entende que algumas dores não precisam ser explicadas no detalhe para serem profundamente sentidas.


Nota: 3,5/5


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