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Entrevista | “Eu queria que esse filme fosse um abraço”: Diretor e atores falam sobre “A Miss”

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 4 horas
  • 10 min de leitura

Ao lado dos atores Pedro David e Maitê Padilha, Daniel Porto fala ao Oxente Pipoca sobre o processo criativo de A Miss e a complexidade das relações familiares retratadas no longa.

Imagem: Divulgação
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Entre risos contidos e silêncios dolorosos, A Miss encontra sua força justamente na delicadeza. Em sua estreia na direção de longas-metragens, Daniel Porto conduz a narrativa como uma dramédia que parte de um universo aparentemente leve, o dos concursos de beleza, para discutir temas profundos como aceitação, liberdade e as marcas deixadas pelo não acolhimento familiar. O humor surge como ferramenta de aproximação, criando empatia antes de expor conflitos emocionais densos, especialmente aqueles que atravessam relações entre mães e filhos.


Em conversa com o Oxente Pipoca, Daniel Porto e os atores Pedro David e Maitê Padilha falam sobre como experiências pessoais atravessam o filme, a complexidade das relações familiares retratadas na trama e o desejo de que A Miss funcione como um abraço para quem assiste. A Miss estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 26 de fevereiro, convidando o público a sair da sala de cinema refletindo sobre afeto, frustração e a coragem necessária para romper expectativas impostas, dentro e fora de casa.


Confira a entrevista na íntegra abaixo:


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sou a Gabriella, faço parte do Oxente Pipoca, e é um prazer estar falando com vocês. Assisti ao filme ontem, gostei demais, me diverti assistindo e também fiquei com várias coisas na cabeça. Queria primeiro perguntar para o Daniel como surgiu a ideia desse filme na sua vida e na sua carreira. Vi que você também fez o roteiro e queria que você falasse um pouquinho sobre isso.


Daniel Porto: O filme nasce de pequenos traumas. Na verdade, ele parte muito da minha vivência, de como é ser e se reconhecer como um indivíduo LGBT e de como você é recebido dentro de casa quando essa informação é confrontada pelos pais. A partir do não acolhimento, isso acabou ficando muito marcado em mim. Um dia, isso virou uma peça de teatro, que também falava sobre esse tema, e depois o filme acabou se tornando aquele abraço que eu não recebi quando tinha 17 anos. Esse abraço veio anos depois, graças a Deus, e se transformou nesse filme, que eu espero que consiga abraçar muito mais gente ao longo do caminho.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma das coisas que mais me pegou foi a relação com a mãe. É algo que vai subindo e descendo o tempo todo. Em alguns momentos você sente empatia por ela, depois sente raiva, depois empatia de novo, depois raiva. É uma verdadeira montanha-russa emocional enquanto você está assistindo ao filme. E aí eu queria saber do Pedro e da Maitê como foi construir isso, tanto entre vocês quanto na relação com a Helga, que interpreta a mãe. Como é que vocês trabalharam essa dinâmica e essa relação tão complexa? Imagino que, para vocês também, tenha sido atravessar sentimentos de raiva, mas ao mesmo tempo de amor e de admiração. Queria saber como foi viver tudo isso e se esse processo foi difícil.


Maitê Padilha: Eu tenho a sensação de que é isso. É um tema muito universal. A relação com a mãe é sempre algo muito forte. Principalmente sendo mulher, essa relação de mãe com filho ou filha acaba tendo um espelhamento muito grande, expectativas que, muitas vezes, são maiores. E eu falo muito sobre isso: é muito comum que pais tenham expectativas sobre os filhos. Eu realmente acho que isso faz parte da vida. A gente tem expectativas sobre tudo. Cabe a nós aprender a elaborar os lutos das expectativas que foram frustradas.


É até injusto pedir para um pai ou uma mãe não terem expectativas sobre os filhos, porque eles vão ter. O que eles precisam é de maturidade para trabalhar essas expectativas, porque elas vão ser frustradas, precisam ser frustradas. Lidar com isso faz parte da vida dos filhos também. Mas o que a gente precisa ao longo da vida é de coragem para ir rompendo com essas expectativas.


Existem espaços que são mais difíceis para isso, pais e mães mais controladores, que resistem mais a essa quebra de expectativa. E o nosso filme mostra o quanto essa resistência faz mal tanto para os filhos quanto para a relação. Quanto mais você resiste em dar espaço para o seu filho, e isso vale para todas as relações, mais você desgasta a pessoa e a relação. Não quer dizer que amar é concordar com tudo, mas é dar espaço para que o outro descubra quem é.


A Ieda sofre muito também. Dá para ver que ela sente dor por não conseguir apoiar e amar os filhos da forma que gostaria, mas isso vem da relação que ela carrega com a própria mãe. Então estamos falando de algo muito relacionável. As pessoas vão se identificar porque a gente lida com isso a vida inteira. A gente resolve uma coisa com os pais e, com o tempo, surgem outras. E a gente também cria expectativas sobre eles. Como filhos, a gente espera que nossos pais sejam coisas que eles não são.


Teve um dia, em terapia, em que eu estava reclamando da minha mãe para uma amiga. E ela virou para mim e disse: “Amiga, acho que você precisa aceitar que sua mãe não é assim”. Aquilo me deu um choque. Eu percebi que eu também tinha expectativas sobre a minha mãe e que precisava aceitar quem ela era. Essa aceitação ajuda a melhorar a relação e vem do amor dos dois lados. É uma via de mão dupla, é se encontrar no meio do caminho.


Eu acho que é isso que acontece no filme, e é isso que tem de bonito. A construção vem de algo que está na carne, de ser humano mesmo. Tem muita alma do Dani ali, é tudo muito humano, muito bem escrito. Para a gente, era estar ali, ouvir a potência do texto e deixar aquilo conduzir a gente momento a momento. Por isso também foi tão divertido de fazer.


Pedro David: Sim, isso acontece em várias situações. A gente tem cenas de reconciliação, cenas de briga, cenas de humilhação. A gente passa por muitos sentimentos ali. Foi um processo muito doloroso também, porque, na preparação, todos nós nos abrimos muito. E eu acho que isso fez toda a diferença para a química do filme.


Eu gostei muito do que o Dani propôs na preparação. Ele fez várias dinâmicas com a gente, mas teve uma que me marcou muito, que foi quando falamos sobre questões pessoais e nos abrimos de verdade. Mesmo que no set a gente não comentasse sobre isso, claro que não, isso fez muita diferença. Conectou a gente com o que estava sendo vivido ali e trouxe uma verdade muito grande para as cenas.


Assistindo ao filme, isso fica muito claro, inclusive na cena do quarto, que é uma cena muito forte, em que a Ieda humilha os filhos. Aquilo me marcou bastante. A Ieda tem essa postura mais agressiva, que muita gente está comentando, perguntando se ela é a vilã. Ela humilha os próprios filhos, sim, mas ao mesmo tempo ela mataria e morreria por eles. Ela ama esses filhos de forma incontestável. Dá para questionar a forma como ela ama, se é tóxica ou não, mas que ela ama, ela ama.


E isso torna a relação muito interessante, porque não é simples, não é dada. É uma relação complexa, cheia de camadas. Viver esses altos e baixos, personagens que em um momento estão bem e em outro não estão, é muito potente. A relação do Alan com a Marta também é assim. A gente começa o filme praticamente sem se falar e vai construindo essa relação ao longo da história.


Então é um processo que não vem pronto desde o início do filme. Ele vai sendo construído. E viver isso foi muito especial, muito interessante mesmo.


Imagem: Divulgação
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Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para o Daniel, eu queria que você falasse um pouquinho sobre como você espera que as pessoas recebam o filme. Não no sentido de criar uma expectativa sobre a reação delas, mas de como você imagina que elas sintam essa experiência. Que tipo de reflexão ou sensação você espera que o público leve consigo ao sair da sala de cinema? Daniel Porto: Olha, a primeira coisa que eu precisei matar em mim foi a expectativa. Se não, eu ia enlouquecer. Isso foi muito importante, principalmente depois de dois anos desde o processo de filmagem até chegar à sala de cinema, que agora acontece no dia 26. Ainda estamos na expectativa de saber em quais salas o filme vai ficar. Então é o tempo todo tentando controlar essa ansiedade.


A gente está falando de um cinema independente, de uma produção independente, com uma distribuidora independente. Tudo é mais complexo. É muita expectativa para ser soterrada, para a gente não enlouquecer. Mas, ao mesmo tempo, tudo o que vem chegando do filme tem sido surpreendente. Ontem mesmo, como eu falei aqui, eu nem consegui assistir ao filme no telão. Eu não tinha condições emocionais de entrar na sala, estava muito ansioso com tudo. E aí começaram a chegar as críticas.


Quando você fala de um filme que, em teoria, seria uma comédia nacional, dentro de um contexto em que, nos últimos 20 anos, a comédia ficou muito associada apenas à gargalhada, à piada, e você se propõe a fazer um movimento diferente, é muito forte perceber que as pessoas entenderam isso. Que elas enxergaram que o seu gesto foi outro. Isso, para mim, já foi uma surpresa absurda, porque eu tinha matado qualquer expectativa. Eu estava preparado até para a humilhação, para receber notas ruins, para as pessoas não se conectarem com o filme.


Esse filme carrega muito da minha alma. E quem disse que a minha alma é perfeita? Minha alma é bagunçada, é contraditória, ri, chora. Mas ela está ali. Então, a minha expectativa hoje é que as pessoas consigam acessar algum lugar, seja qual for, mas que seja um canal de sentimento, um canal de afeto.


Eu queria muito que esse filme pudesse ser um abraço. Sabe aquele filme de conforto, que você assiste quando está triste, quando não quer pensar muito, só quer sentir o coração um pouco mais quentinho? Aquele filme que você já viu dezenas de vezes e volta a ele porque ele te acolhe. Eu queria que esse filme fosse isso. Talvez um abraço para uma nova geração, para pessoas que estejam precisando dele. Que ele possa ser uma ponte de conversa entre famílias, entre pais e filhos, entre o amor.


Ontem, vendo as pessoas saírem da sala de cinema, mesmo com a euforia da estreia, eu vi muita gente tocada. Gente que veio me agradecer, e eu pensava: agradecer pelo quê? Eu não fiz nada. Mas, no fundo, eu entendo. Eu quero que esse filme seja um acolhimento. Um acolhimento que eu não tive. A cena do café da manhã, por exemplo, carrega um texto que eu gostaria de ter escutado e que eu não escutei.


Eu acho que a arte também serve para isso, para tentar refazer algumas questões da vida. E, quem sabe, atingir outras vidas além da minha. Porque, se a gente faz arte só para si mesmo, a gente não está realmente fazendo arte.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Só para encerrar, porque meu tempo está acabando, eu sempre faço uma pergunta para todo mundo que eu entrevisto aqui no Oxente. Queria pedir uma indicação de filme ou série brasileira. Pode ser algo que dialogue com esse projeto, pode ser um favorito seu, ou até algo que você viu recentemente e acha que o pessoal que acompanha a gente deveria assistir.

Daniel Porto: Então, eu vou falar primeiro de um filme que, para mim, formou muito o meu caráter. Ele transita entre a comédia e uma relação de amor e afeto, que é Saneamento Básico, O Filme. Eu acho maravilhoso, porque é um filme que tem humor, mas também tem uma história por trás, tem muita coisa gostosa e profunda ali.

Quando eu pensei em fazer A Miss e busquei referências no cinema brasileiro, esse filme veio muito forte para mim. A gente passou por um período em que parecia que só era importante fazer rir, sem necessariamente ter uma história mais elaborada por trás. E A Miss, para mim, vem muito desse lugar. É bom fazer rir, claro, mas é fundamental também ter uma história, ter camadas, ter algo que fique depois.


Pedro David: Eu vou falar de um filme que eu assisti no ano passado e que me marcou muito. Gostei demais. Ele, inclusive, foi pré-selecionado para representar o Brasil no Oscar, mas acabou não entrando porque foi escolhido Agente Secreto. O filme que eu quero indicar é O Último Azul.

Eu gostei muito porque acho que a questão dos idosos e da velhice ainda é um tema pouco trabalhado no cinema. A gente está começando a ver algumas obras falando sobre isso, e é um assunto cada vez mais urgente, já que vamos ter uma população cada vez mais idosa. Inclusive, eu estava conversando sobre isso com a Maitê esses dias.

Muitas vezes, o idoso é retratado quase como um bebê, alguém que precisa ser controlado, cuidado o tempo todo, que não pode sair, viajar, andar na rua, viver. E isso sempre me incomodou. A minha bisavó, que já faleceu, nunca se rendeu à idade. A família ficava desesperada porque ela saía sozinha, andava a cidade inteira, fazia tudo o que queria. E eu sempre achei isso incrível. Eu espero ser esse tipo de idoso, que continua vivendo, circulando, ocupando o mundo.

Eu gostei muito da mensagem que o filme traz, da forma como ele olha para a velhice, e também da estética, que é lindíssima, com locações na Amazônia. Então fica aí a minha indicação.


Maitê Padilha: Então, vocês indicaram filmes mais maduros, né? Eu vou chegar aqui com a minha versão, com a minha vida de atriz mirim. Eu lembro de ter assistido a um filme que é voltado para crianças, mas que faz parte do imaginário de todo mundo, que é Turma da Mônica: Laços. É um filme que eu gosto muito.

É completamente diferente do nosso, claro, mas eu conheço o Luiz, que foi o preparador das crianças, que hoje em dia já são adolescentes, praticamente adultos. Eu acho o trabalho muito bonito, muito sutil e delicado. A direção do Daniel Rezende também é maravilhosa.

Eu gosto muito da forma como o filme brinca com o lúdico e, ainda assim, mantém um certo amadurecimento, de um jeito totalmente diferente do nosso filme, obviamente. Acho tudo muito bonito ali. A fotografia é linda, as atuações são ótimas, e ver aqueles quatro juntos em cena é uma delícia.

Então, para a galera mais nova, ou para quem também gosta de filmes leves e divertidos, eu acho uma excelente indicação.




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