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Crítica | Medley (Festival do Rio 2026)

Foto do escritor: Gabriella Ferreira
Gabriella Ferreira
há 5 horas
3 min de leitura
Adaptação do livro de Keka Reis, longa de Ana Luíza Azevedo equilibra temas dolorosos e descobertas juvenis em uma narrativa sensível sobre amadurecimento.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Ambientado em 1990, Medley acompanha Lola (Mel Maia), uma adolescente de 15 anos que encontra na natação e na leitura algumas de suas principais formas de expressão, enquanto convive com uma pergunta que permanece sem resposta: como seu pai morreu? Durante as férias, uma viagem para uma cidade do interior, inicialmente pensada como uma breve pausa da convivência com a mãe e o irmão, acaba se tornando uma experiência de transformação. Entre memórias esquecidas e novas descobertas, Lola passa a compreender melhor não apenas sua história familiar, mas também a si mesma.


Dirigido por Ana Luíza Azevedo e adaptado do livro homônimo de Keka Reis, que também assina o roteiro, o longa é um retrato sincero e sensível da juventude e das marcas deixadas pelo abandono parental. Visto no Festival do Rio 2026, Medley encontra na trajetória de sua protagonista uma maneira delicada de abordar questões dolorosas sem deixar que o peso dos temas se sobreponha às descobertas e às inquietações próprias da adolescência.


Um dos principais méritos do filme está na direção, que demonstra segurança ao conduzir a narrativa sem exagerar nos conflitos ou recorrer a soluções dramáticas fáceis. Há uma compreensão clara do que a história pretende contar, e o longa não parece interessado em ser maior do que aquilo a que se propõe. Essa escolha, longe de limitar suas possibilidades, permite que os sentimentos e as transformações de Lola se desenvolvam com naturalidade. A leveza não significa ignorar a complexidade das relações familiares, mas encontrar uma maneira acessível de tratar dessas experiências sem esvaziar suas consequências.


Os aspectos visuais também contribuem para a construção desse universo. A ambientação nos anos 1990 ajuda a estabelecer o contexto da história sem depender apenas da nostalgia, enquanto a relação da protagonista com os espaços, especialmente aqueles ligados à natação e à sua estadia no interior, acompanha o movimento de descoberta que orienta a narrativa. A direção encontra um equilíbrio entre a dimensão íntima dos conflitos e a abertura para novas experiências, fazendo com que o ambiente participe da jornada de Lola. É um trabalho de condução que favorece a identificação com a personagem e mantém a narrativa coesa, sem excessos que desviem a atenção do que realmente importa.


O roteiro também acerta ao não transformar a autodescoberta adolescente em uma trajetória de respostas fáceis. As questões que atravessam a vida de Lola envolvem ausências, ressentimentos e lembranças que nem sempre podem ser organizadas de maneira simples. Ao tratar esses elementos com sensibilidade, Medley reconhece que crescer também significa rever as próprias certezas e descobrir que as relações familiares são mais complexas do que parecem à primeira vista.


As atuações reforçam essa percepção. Mel Maia demonstra cada vez mais seu amadurecimento como atriz, distanciando-se do estigma de atriz mirim e escolhendo projetos que evidenciam seu talento. Como Lola, ela sustenta as contradições de uma adolescente que tenta compreender o passado enquanto começa a descobrir outras possibilidades para o próprio futuro. Alana Cabral também se destaca, contribuindo para a força do elenco jovem. Mariana Lima, por sua vez, entrega uma atuação especialmente interessante como a mãe da protagonista. A personagem desperta antipatia nos primeiros momentos, mas a narrativa modifica gradualmente a percepção do público sobre ela. Sem apagar seus defeitos, a interpretação encontra nuances que tornam essa relação mais complexa e revelam como a compreensão de uma pessoa pode mudar à medida que conhecemos outras partes de sua história.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

No conjunto, Medley é um filme honesto, bem dirigido e consciente de suas escolhas. Talvez não se aprofunde em todas as questões que apresenta, mas encontra na simplicidade uma qualidade própria e entrega uma história consistente sobre amadurecimento, memória e abandono. Seu maior acerto está em compreender que falar sobre temas difíceis não exige necessariamente uma abordagem pesada: a delicadeza também pode ser uma forma de olhar para a dor.


Com estreia nos cinemas brasileiros marcada para 29 de outubro de 2026, o longa tem potencial para dialogar especialmente com o público jovem, não por oferecer respostas definitivas, mas por abrir espaço para o reconhecimento de sentimentos e experiências que nem sempre encontram lugar nas conversas familiares. É uma obra que cumpre bem o que promete e encontra na trajetória de Lola uma história sensível sobre crescer, revisitar o passado e aprender a olhar para as pessoas para além das primeiras impressões.


Nota: 3,5/5


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