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Crítica | Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

  • Foto do escritor: Rafael Carvalho
    Rafael Carvalho
  • 18 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Rian Johnson traz Benoit Blanc para mais um caso que, acima de tudo, é simpático

Divulgação


Após dois filmes desse projeto, o público já tem uma noção bastante clara do que esperar. Uma morte, provavelmente de forma acidental, com pistas espalhadas por toda parte e a sensação constante de que estamos sendo distraídos até que a revelação final se torne inevitável. O molde deste tipo de narrativa já é familiar, mas Rian Johnson ainda encontra maneiras de dar um tempero próprio à fórmula.


O cineasta retorna em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out com mais uma história do detetive, novamente interpretado por Daniel Craig. Desta vez, ele é atraído para um caso que foge levemente do padrão habitual: um jovem padre de passado nebuloso se torna o principal suspeito pela morte de seu superior, figura que exerce forte influência sobre um pequeno grupo de fiéis em uma cidadezinha dos Estados Unidos.


O mais curioso nesse projeto é que, embora Craig seja considerado o protagonista evidente da história, muitas vezes tenho a sensação de que os chamados coadjuvantes ocupam um espaço dramático ainda mais central do que ele. Aconteceu isso nos dois primeiros filmes da franquia, e se repete nesse. 


Josh O'Connor segue construindo uma filmografia invejável e rouba a cena com uma performance extremamente equilibrada como Jud Duplenticy, um ex-boxeador problemático que se torna padre e que, após um desentendimento, é transferido para a paróquia comandada pelo Monsenhor Jefferson Wick, interpretado por Josh Brolin.


É justamente na relação entre esses personagens que o filme começa a revelar melhor o seu potencial dramático. Wick é uma figura sombria, quase diabólica, se assim posso dizer. Por meio de sabotagens, mentiras e ameaças veladas, ele constrói uma relação de domínio sobre seus fiéis que beira a obsessão, algo muito próximo de uma codependência emocional. A atuação de Brolin funciona bem durante boa parte do filme, sustentando essa aura inquietante do personagem. Em determinado momento, porém, a composição perde a medida e passa a soar exagerada, quase como uma paródia da figura ameaçadora que havia sido construída até então. 


O mesmo não acontece com a performance de Glenn Close. A oito vezes indicada ao Oscar entrega exatamente o que se espera de uma das grandes damas do cinema estadunidense. Sua Martha Delacroix vai além do que se poderia imaginar de uma fiel profundamente traumatizada que encontra na igreja uma forma de redenção, tornando-se o braço direito do Monsenhor. É ela quem faz o final dessa história, ainda que previsível, funcionar de maneira genuinamente satisfatória.


Divulgação


Craig, por sua vez, conduz Benoit Blanc com uma naturalidade impressionante. Existe uma leveza no modo como ele ocupa o papel, como se estivesse plenamente à vontade naquele universo. É um personagem que permite explorar bem suas habilidades cômicas e dramáticas, sempre atravessadas por uma tensão discreta que já se tornou sua marca registrada.


E talvez seja justamente aí que o filme começa a perder força. Há uma sensação de conforto generalizado no projeto, como se todos estivessem plenamente acomodados dentro da fórmula que já dominam. Falta o impulso de arriscar mais, de tensionar os próprios limites da franquia, algo que se torna cada vez mais necessário à medida que ela cresce e se consolida.


Curiosamente, esse excesso de conforto não se reflete no trabalho técnico, que arrisco dizer ser o melhor de todos os lançados até o momento. Steve Yedlin e Nathan Johnson retornam, respectivamente, como diretor de fotografia e compositor, ainda mais afiados. A tensão se constrói exatamente como o esperado, graças a esse trabalho, que nos envolve na atmosfera do filme mesmo quando a narrativa parece perder o foco.


Mesmo com esses reveses, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é um filme confortável, mas sincero, e com a vontade no lugar certo. Com um elenco que cumpre bem seu papel dentro desse universo, Rian Johnson sustenta mais uma história de detetive e lembra que o gênero ainda pode respirar, mesmo quando aposta no básico.


Nota: 3,5/5


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