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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Decision to Leave (TIFF 22)

Um filme de detetive ou uma história de amor?

Courtesy of TIFF


Seis anos após seu polêmico e erótico The Handmaiden, o diretor sul-coreano Park Chan-wook está de volta com um filme que não poderia ser mais diferente do seu antecessor: um neo-noir de toques hitchcockianos que é ao mesmo tempo um romance magnético e com toques de melodrama. Desta fusão inesperada emerge um dos melhores longas do ano.


Decision to Leave se passa em Busan, onde o detetive Hae-jun (Park Hae-il) lida com casos pequenos, a energia nervosa do seu jovem parceiro Soo-wan (Go Kyung-pyo), a distância da sua esposa Jung-an (Lee Jung-hyun) e a constante insônia. Porém, tudo muda quando ele passa a investigar a misteriosa morte de um alpinista que caiu de um penhasco, e começa a suspeitar da esposa da vítima, Seo-rae (Tang Wei), uma imigrante chinesa e cuidadora de idosos que não parece muito abalada pela morte do marido. A suspeita de Hae-jun por Seo-rae se transforma em obsessão, e então em algo mais. É evidente que ele está se apaixonando por ela, mas a recíproca é verdadeira ou ela só o está usando?


Courtesy of TIFF


Onde diretores menores poderiam estender esse caso até os últimos limites, Chan-wook torna a trama cada vez mais labiríntica conforme Hae-jun e Seo-rae se aproximam e se afastam, ousando até mesmo inserir um salto temporal na metade do filme e reformular a dinâmica dos dois. Contudo, se em The Handmaiden ele não se fazia de rogado em trazer o sexo para o primeiro plano para construir a narrativa, aqui é capaz de criar uma atmosfera de paixão e sensualidade sem que seus protagonistas mal se toquem. É possível ver até aqui uma referência a In the Mood for Love, de Wong Kar-Wai, na forma em que os sentimentos proibidos entre o detetive e sua suspeita se desenvolvem e transformam através do não-dito e dos pequenos gestos, conforme são testados pelos seus limites éticos e as complicações do caso. O que é mais importante: a verdade sobre a morte do marido de Seo-rae ser revelada ou ela e Hae-jun ficarem juntos?


Nesse sentido, Park Hae-il consegue construir perfeitamente o arquétipo do detetive noir em conflito com seus demônios internos; a montagem do filme parece até refletir a própria evolução do personagem, partindo de cortes frenéticos e confusos nos minutos iniciais para um ritmo mais contemplativo e relaxado conforme se aproxima de Seo-rae. Esta, nas mãos de Tang Wei, é o grande trunfo do filme: é nítido que ela é a femme fatale da história, mas Wei incorpora uma ambiguidade desarmante e desnuda as mais diversas camadas de uma personagem que é muito mais do que aparenta a princípio, tudo isso enquanto exibe um ar cauteloso e sedutor que atrai não só Hae-jun, mas também a nós espectadores.


Courtesy of TIFF


Para construir uma história de amor tão improvável e atraente, Chan-wook exibe um rigor técnico que poucos diretores da atualidade podem igualar. O voyeurismo hitchcockiano de filmes como Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai é constantemente presente, especialmente nas cenas em que Hae-jun vigia Seo-rae ou até mesmo “se coloca” no lugar dela durante a investigação. Porém, ele também atualiza esse voyeurismo na forma como brilhantemente incorpora a tecnologia — que muitas vezes pode ser a maior inimiga dos filmes policiais por tirar a mágica do mistério — à trama, seja no uso das câmeras de vigilância (como nas delicadas e fascinantes cenas de interrogatório) ou no uso de smartphones e smartwatches, enriquecendo a narrativa ao invés de facilitá-la.


A equipe técnica também é vital para elevar a história: a já referida montagem de Kim Sang-Bun nos imerge nas oscilações e diferentes fases da relação dos protagonistas através das duas metades do filme, enquanto a trilha sonora de Jo Yeong-wook reforça tanto os aspectos mais melodramáticos que envolvem este romance quanto a ambiguidade de Seo-Rae. Por fim, a fotografia de Kim Ji-yong é um espetáculo à parte, seja na câmera em primeira pessoa que expande o caráter voyeurístico da obra e nos aproxima ainda mais dos personagens, na construção ambiciosa de determinados planos (como uma perseguição em plano-sequência pelos telhados de Busan que vai se tornando mais e mais desafiadora), ou ao aproveitar os diferentes cenários — a cidade, as montanhas, a neve e o mar — para fundi-los aos sentimentos do casal, como atesta a devastadora e memorável cena final, daquelas que fica na sua cabeça mesmo depois de muito tempo.


O cinema de Park Chan-wook é labiríntico e dele sempre pode se esperar o inesperado, mas, mesmo depois de duas décadas entregando algumas das obras mais memoráveis do cinema mundial, ele ainda consegue de alguma forma se superar ao construir um filme daqueles para guardar na memória, com um dos casais mais bem-construídos e potentes da história recente. Decision to Leave é partes noir, partes romance, igualmente antiquado e moderno, mas inteiramente envolvente.


Nota: 5/5



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