Entrevista | “As mulheres desse filme têm essa complexidade e se contradizem o tempo todo”: Carla Ribas, Naruna Costa e Ariane Aparecida falam sobre “Dolores”
- Vinicius Oliveira

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Longa codirigido por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar a partir de roteiro de Chico Teixeira chega aos cinemas no dia 04 de junho.

Divulgação
Estreia na quinta que vem (04) o longa-metragem Dolores, de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. O filme, que foi exibido em festivais como a Mostra de SP, a Mostra de Cinema de Tiradentes e o Festival do Rio, acompanha sua personagem-título (Carla Ribas), a qual lida com o vício em jogos de azar; a filha Deborah (Naruna Costa), que aguarda a saída do companheiro da prisão; e a neta Duda (Ariane Aparecida), que alimenta o sonho de ir para os EUA. A obra parte de um roteiro deixado pelo cineasta Chico Teixeira, falecido em 2019, e conclui a sua “Trilogia dos Afetos”, também composta pelos longas A Casa de Alice (2007) e Ausência (2014).
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar as três atrizes principais, que falaram a respeito dos arcos individuais de suas personagens dentro do filme, as contradições e ambiguidades que emergem em tela e evidenciam a humanidade dessas mulheres, e as dinâmicas raciais presentes em suas relações e que ilustram questões sensíveis ainda presentes no Brasil contemporâneo. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Carla, sua personagem sofre com o vício em jogos, mas me parece que o filme busca não julgá-la, mas sim humanizá-la. Como foi esse processo de encontrar e conferir humanidade à personagem, seja nos gestos, na voz ou em outras ferramentas que você enquanto atriz tem à disposição?
Carla Ribas: Eu sempre tenho uma certa dificuldade de falar de construção, porque me sinto muito vivendo situações de verdade enquanto personagem, com as outras personagens. Então, acho que no caso de Dolores, o sofrimento com o vício do jogo esteve um pouco no passado, no meu entendimento. E eu acho que no presente, ela já achando que está livre desse vício ou não, aposta no sonho. O sonho é mais importante que qualquer coisa.
E aí a relação dela com a filha, a personagem da Naruna, é uma relação mais de dor, porque tem um distanciamento ali, aonde Dolores tenta manter uma certa segurança e uma certa pose, mas é uma relação quebrada e que desconcerta ela. Eu acho que isso também traz a humanidade. Como lidar com isso? E com a neta que ela gosta, que é o lado afetivo dela enquanto família, também há a mesma coisa, entendeu. Ela admira essa neta por estar indo atrás do sonho dela, por mais louco que pareça. Então, eu acho que um bom roteiro, e se você se coloca naquela situação e vive de verdade essas relações, o conjunto dá isso que se chama de humanidade.
Mas eu te confesso que não é uma coisa que eu busco que ou que eu construa. Acho que acontece naturalmente pela qualidade do roteiro e pela presença. Isso vaza em algum lugar num olhar ou num gestual, como você falou, e aí essa ambiguidade na relação com a filha e com a neta, essas ambiguidades na presença do ator em cena em cada momento, eu acho que trazem essa humanidade que você nomeia, mas te juro que não é uma coisa que eu tente construir. Eu simplesmente tento viver as situações com a complexidade interna, porque a câmera tem uma coisa muito legal, ela pega se você está dizendo uma frase feliz, mas seu olhar está triste. Isso traz é uma verdade que eu acho que imprime humanidade aí.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Naruna, a sua personagem e a Marlene (Gilda Nomacce) refletem uma população ainda muito invisibilizada, que são as companheiras de detentos. Logo no início do filme a personagem sofre com a ausência do companheiro a quem ela estava se dedicando tanto. Houve algum processo específico para encontrar o tom de Deborah? Por exemplo, conhecer mais do cotidiano dessas mulheres e das relações delas com estes companheiros presos?
Naruna Costa: Eu acho que você trouxe uma coisa muito interessante de cara, falando inclusive da personagem da Carla, que é o não julgamento. Eu acho que o contexto que elas vivem tem um lugar não de não moralizar as decisões. E eu cresci na periferia de São Paulo, acho que esse é um ambiente onde a gente de alguma maneira se relaciona com pessoas que trazem esse cotidiano do universo carcerário de alguma forma. Conheço pessoas que já foram presas, pessoas que já foram mulheres de pessoas que estão presas, acho que é um universo que faz parte da comunidade periférica paulistana e acredito que brasileira. E como eu cresci na periferia e convivo, tem uma relação muito aprofundada com a minha quebrada, então acho que essas referências já existem.
O que eu tentei trazer como uma perspectiva esse outro lugar, o lugar do romântico mesmo. Acho que naturalmente as mulheres vão se endurecendo, vão criando uma carcaça muito dura. E é interessante que a Deborah não perde a maciez, a sutileza, o olhar generoso para a vida, mesmo depois do abandono, que é muito comum e que é infelizmente naturalizado. Não só o abandono paterno, como a violência também destinada a essas mulheres. Então, é algo que infelizmente na nossa sociedade é muito naturalizado. Acho que a Deborah ela tem algo brilhante, ela não perde esse brilho, essa vontade de buscar um outro sonho, mesmo sofrendo profundamente.
E aí a construção foi muito conectada com o caminho que a direção me propôs. A Maria Clara [Escobar] é uma diretora que tem na cabeça as personagens, ela contribuiu com o roteiro, então ela tinha uma Deborah na cabeça dela. Eu acho que de alguma maneira a história da Maria Clara também se espelha um pouco na história da Deborah na relação com a mãe. Então, acho que ela já tinha uma ideia muito mastigada de uma personagem.
Aí eu fiz o exercício de ouvir pela primeira vez, um caminho de construção que era de entregar menos e receber mais. De me esvaziar e tentar ouvir o que era o desenho daquela mulher que aquela diretora estava tentando me mostrar, e aí abraçar ele. O processo todo, tanto no preparatório quanto durante as filmagens, foi de me encaixar nesse espectro de Deborah que era do imaginário da Maria Clara e tentar conectar as minhas próprias experiências enquanto uma mulher negra, enquanto uma mulher que nasceu na periferia e que conhece muitas mulheres que viveram experiências parecidas, e trazer as minhas informações. Mas elas em nenhum momento foram estiveram à frente da personagem; andaram caminhando ou ali de alguma maneira preenchendo os vazios.

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Ariane, sua personagem tem um arco muito interessante no sentido em que vemos esta menina muito confortável com sua sexualidade, mas com sonhos que aludem àquela visão conservadora de que os EUA são a “terra da prosperidade”, além de toda a questão ligada ao fascínio com armas. Como foi balancear esses aspectos aparentemente tão contraditórios da personagem? Como você sente que ela reflete uma certa mentalidade presente em nossa sociedade?
Ariane Aparecida: Eu acho que, não só a Duda, mas todas as mulheres desse filme têm essa complexidade e se contradizem o tempo todo. A Deborah é uma mulher extremamente apaixonada, mas que ao mesmo tempo é correria, vai para rua, faz as coisas dela. Ou até mesmo a Dolores, que tem 65 anos e é extremamente livre. Então eu acho que a Duda também está dentro desse universo de complexidades que o roteiro explora muito bem, no sentido de não tentar um estereótipo que a gente está esperando ver dentro da tela, de construir uma coisa e quebrar essa coisa ao mesmo tempo, porque as pessoas são complexas.
A Duda nunca estudou sociologia para descobrir que ela não pode ser bissexual e ao mesmo tempo gostar de arma [risos]. São coisas que acho que quando a gente tem um pouco mais de consciência, já atrela uma coisa como oposta à outra. E eu, por exemplo, conheço muitas pessoas, assim, da minha vivência que se contradizem o tempo todo em questões sociais. Tanto que quando eu fui fazer uma playlist de músicas para Duda, eu coloquei tanto os raps mais bolados quanto sertanejo tipo Victor e Leo [risos], porque eu acho que a Duda é essa pessoa que transita, que existe por ela ser quem ela é e não porque está tentando performar alguma uma coisa. Ela está existindo: “Gosto de armas, gosto de homens, gosto de mulheres, gosto de ser filha da minha mãe, gosto de andar de moto com minha avó e é isso”. Ela não pensa muito, ela é uma personagem que age e eu acho isso incrível.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, minha última pergunta é para vocês três. Um elemento que aparece ao longo do filme na relação entre estas três gerações de mulheres é justamente a questão racial, perceptível no fato de termos uma avó branca, uma filha negra e uma neta parda. Em tempos onde vemos tantas discussões em torno de negritude e parditude, de racismo, de olhar para a história do país e das suas relações raciais, como vocês acham que as relações entre as personagens podem mostrar algo dessas dinâmicas no Brasil?
Naruna Costa: Eu acho muito interessante essa diversidade racial que o filme traz, porque se tem uma coisa que estrutura o filme é a diversidade: de idades, de gerações. Então a gente tem um aprofundamento das histórias, das memórias de três gerações diferentes e que são muito ativas no cotidiano brasileiro, socialmente falando. E essa diversidade racial inclusive determina os modos e as atitudes, mesmo elas estando no mesmo ambiente que é essa periferia e vivendo de uma certa vulnerabilidade, de uma precariedade que é comum.
Eu acho que essa autonomia que a personagem da Carla tem seria muito diferente se fosse, por exemplo, uma mulher 60+ negra. Porque o histórico de uma mulher negra dessa idade é diferente, então a maneira como se pronuncia no mundo é diferente, a maneira como ela se relaciona com os espaços que ela frequenta é diferente. Mas ao mesmo tempo a gente tem o espelhamento da personagem da Zezé Motta, que é aonde a personagem da Dolores quer chegar. Ali é uma mulher negra, sendo dona de tudo aquilo, então é muito interessante olhar para aquela mulher negra e se perguntar: "Como ela chegou até ali?".
Acho que tem esse lugar de um posicionamento no mundo, que eu acho que o posicionamento, por exemplo, da Deborah, que é mais retraído, que leva em consideração muitas coisas antes de ela poder dizer o que gostaria. Tem a ver também com o fato de ela ser uma mulher negra, os números apresentam aí essa questão do abandono com relação à violência destinada às mulheres negras, que é muito mais alto do que as mulheres brancas das mesmas idades, nos mesmos lugares.
Assim como a Duda, que é da geração Z, ela é meio andrógena, tem também uma questão de gênero que ela carrega ali. Ela tem uma postura diferenciada e que está de acordo com essas gerações que, ainda que sejam negras, elas têm uma postura de revide. Então, acho que tem um lugar muito conectado com o que nós somos, de fato, e acho que a gente trouxe isso para as nossas interpretações. E eu acho que o jeito como ficou, como elas estão impressas, tem muita coerência com o que é o Brasil. E dentro do mesmo território, que é o território da periferia paulistana, de uma das maiores favelas de São Paulo. Acho que isso é muito saboroso, são temperos diferentes num mesmo de uma mesma sopa.
Ariane Aparecida: São várias honras que eu vivo dentro desse filme, entender também esse filme como uma celebração da trajetória de atrizes negras ao longo dos anos, porque a gente tem a Teca Pereira, a gente tem a Zezé Motta, a gente tem a Naruna, e eu não poderia estar mais honrada de ser a última geração dessas mulheres negras dentro desse filme. E acho que quando você escolhe o elenco e toma a decisão de colocar a Dolores como uma mulher branca, a Deborah como uma mulher negra e a Duda como uma menina parda, você cria narrativas invisíveis dentro do filme que a gente não precisa adentrar dentro delas. Você já cria um uma narrativa a partir da raça que o filme não adentra, porque você entende a partir do seu corpo como essas histórias se moldam também a partir da racialidade delas.
E eu acho muito interessante também como o filme consegue trazer personagens que não são necessariamente escritas para pessoas negras e quando você olha são mulheres negras fazendo. Acho isso muito interessante, as coisas não ditas dentro desse filme e que estão relacionadas a ao olhar racial.
Carla Ribas: Além de tudo isso que elas falaram muito bem, muito melhor do que eu falaria, eu acho que é legal a gente pontuar também que o cinema brasileiro, ao falar para nós, do nosso povo, da nossa realidade, eu tenho impressão que ele talvez se encontra mais. E isso é tão importante para que a gente entenda que esse é um país de muitas raças, e vem acontecendo da gente colocar isso impresso numa tela. E nas novelas e em todos os lugares, porque é um país majoritariamente negro. E, no entanto, até há uns anos atrás, não se tinha negros no audiovisual, ou quando tinha, era sempre em posições subalternas. Então, está na hora de acabar essa hipocrisia e está acabando.
O filme tem isso que elas falaram né, tem uma diversidade enorme e casamentos inter-raciais. A gente tem isso no país, por que não colocar no audiovisual, por que não colocar no teatro? Por que não espelhar a nossa natureza exatamente como ela é? O que deixa não só a mim, mas aos artistas de modo geral, muito orgulhosos desse poder de conseguir não só retratar a realidade, como de transformá-la, porque não tem mais como ignorar que nós somos o que somos com essa diversidade toda. Então, fico muito feliz desse filme trazer um leque tão grande de brasilidades que a gente tem.



















