Entrevista | “Eu vi meu pai presente no set”: Frederico e Helena Machado falam sobre 'Nau de Urano'
- Vinicius Oliveira

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Dupla de diretores é respectivamente filho e sobrinha de Nauro Machado, poeta maranhense vivido por Matheus Nachtergale no filme.

A vida e obra do poeta maranhense Nauro Machado se entrelaçam em Nau de Urano, filme dirigido por seu filho, Frederico Machado, e sua sobrinha, Helena Machado. O longa, cujas gravações recentemente foram encerradas em São Luís, conta com Matheus Nachtergale no papel de Nauro, enquanto seus irmãos Mauro e Dauro são interpretados pelos também irmãos na vida real Buda e Nanego Lira, além de Dani Barros como sua esposa e Bete Mendes como sua mãe (após dez anos afastada das telonas).
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Frederico e Helena. A dupla de primos falou sobre os desafios de conciliar a relação pessoal de ambos com Nauro e os processos de se fazer um filme, a importância e as contribuições de um ator do porte de Matheus Nachtergale como protagonista e sobre o panorama do cinema maranhense, ainda desconhecido para uma boa parcela do público brasileiro.
Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A realização desse filme certamente tem um caráter profundamente pessoal para vocês, dada a relação familiar que possuíam com Nauro. Como conciliar essa abordagem mais pessoal sobre alguém que vocês conheciam tão intimamente com um processo tão complexo como a produção de um filme?
Helena Machado: Esse é um projeto bastante antigo, porque a gente ganhou o edital de desenvolvimento de roteiro da Ancine já tem quase uns 20 anos. E aí na época a gente já queria fazer um filme sobre o meu tio, que é esse imenso poeta maranhense, mundial, só que pouco conhecido em âmbito nacional. E na época o projeto era uma mistura de documentário/ficção, porque meu tio ainda era vivo. Só que ele morreu, o projeto foi se alterando ao longo de todos esses anos, a gente participou de outros editais e agora finalmente, através da Lei Paulo Gustavo do Maranhão, ganhamos um incentivo para a produção e filmamos o filme.
A gente conversou muito sobre isso, eu e Fred [Frederico], e na verdade a vida e a obra de Naura eram muito entrelaçadas, então ele fazia poemas que eram muito existenciais. Eu acho que acima de tudo falavam da própria condição humana, mas eram muito entrelaçados com uma história de vida dele, com o que ele viveu. Acho que o artista surgiu a partir da morte do pai dele, que é nosso avô. Então a gente pegou todos os personagens da nossa família: meu tio, os dois irmãos, Mauro e Dauro, nossa avó, Dona Maria, nosso avô Torquato e Bá, que era uma espécie de dama de companhia do meu tio.
E quando a gente foi escrevendo e gravando o filme, ele foi se descolando muito desses personagens reais. A partir do momento em que entraram os atores, é como se já não fosse a nossa família. Então, é uma coisa meio doida, porque o filme surgiu das nossas inquietações familiares, ele é muito meu e de Fred. Muito mais do que o Nauro em si, do que a nossa família, tão as nossas angústias, os nossos anseios enquanto artistas e enquanto seres humanos. Mas eu acho muito foi muito doido o processo de filmagem, porque a gente foi vendo que ia se descolando dos nossos familiares.
E Matheus [Nachtergale] se aproximou muito do meu tio. Então, a gente via meu tio no set várias vezes. Era uma coisa meio do âmbito do extra-real, os movimentos que ele fazia, umas coisas, ele foi se aproximando demais da conta e ficou uma coisa muito absurda. Mas acho que muito mais em relação a Nauro, que é o protagonista, do que aos outros personagens.
Frederico Machado: O filme é uma coisa muito pessoal, naturalmente. É o meu sétimo longa-metragem já, e Helena tem um trabalho grande também de literatura e de cinema. Se transformou uma coisa muito íntima em todos os âmbitos, não somente por tratar do meu pai, do Mauro e do Dauro, que é o pai da Helena, mas é um filme muito familiar, que tem esse caminho familiar na trajetória história, no roteiro, na narrativa. Mas ele realmente se transforma em algo pessoal, que envolve nossas angústias, nossos anseios, nossos medos, nossas verdades. E é uma coisa muito natural, de fato.
A gente se colocou no filme, num trabalho muito prazeroso mesmo, mas que envolveu angústia, que envolveu medo, que envolveu o mistério. E de fato, a gente ficou muito feliz com o processo, mas porque nesse caso, teve uma participação muito grande do elenco e da equipe, que foram envolvidos de maneira muito forte nessa trajetória do filme. Então, o filme criado coletivamente, revelando muita ansiedade de todo mundo. Por exemplo, os irmãos do Nauro, que são o Dauro e o Mauro, foram interpretados por dois irmãos atores na vida real, que foram o Nanego e o Buda Lira. Então, a própria escolha do elenco envolveu também esses parâmetros, de se colocar no mérito muito pessoal nessa narrativa.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Imagino que ter um ator do porte de Matheus Nachtergale no papel de Nauro foi uma realização e tanto. Considerando que Matheus é uma figura tão recorrente no cinema nordestino, pode se dizer que esse seria um dos motivos principais para tê-lo como protagonista do filme? Como foi o processo de trabalhar com ele?
Frederico Machado: O Matheus está desde o início do projeto com a gente, desde quando a gente pensou em fazer um filme híbrido entre documentário e ficção há 20 anos atrás, quando esse projeto foi desenvolvido na Ancine. Foram quase 15 anos sendo desenvolvido com ele presente, mesmo de longe, mesmo estando em São Paulo com outros projetos, mas a ideia foi sempre ter ele como como um protagonista dessa história. E ele é um doce de pessoa, além de ser um grandíssimo ator, é um grandíssimo ser humano. É de fato um artista nato, na sua trajetória e na sua essência, e ele contribuiu demais.
É interessante como ele se joga de fato, ele está muito presente quando está com a gente. Embora tivesse 20 anos nesse processo, ele tem um método muito pessoal, não sei se é exclusivamente para esse filme ou para outros também, mas ele de fato entrou no projeto de cabeça um mês antes de entrar no filme. E o roteiro foi mudado muitas vezes, mas ele pegou essa última versão apenas três semanas antes do filme, e é impressionante a capacidade, a inteligência e o método que ele tem de se entregar e de atuar.
De fato, eu vi meu pai presente no set, de maneira muito mágica, muito forte, muito potente. Isso me emocionou muito, acho que emocionou muito a Helena. Não só no corpo, nos jeitos, no olhar, na doçura, na instigação poética, mas na essência. também na visceralidade. Meu pai foi revivido pelo Matheus de uma maneira muito única e muito bela, que emocionou muito a gente. Então toda a equipe e elenco viu o Nauro presente no filme na persona do Mateus. É impressionante como ele entendeu o filme.
O filme é de baixo orçamento e tem suas características próprias. Embora seja um filme biográfico que conta a história da vida toda de Nauro desde a infância até a morte, ele é passado apenas num set, numa casa que é a casa do Nauro, que começa como a casa da mãe, depois se transforma na casa da Arlete [esposa de Nauro e mãe de Frederico] e se transforma também em São Luís, nos bares da cidade. Então, Matheus compreendeu bastante a arquitetura do filme, o que o filme representa pra gente, como ele estava sendo forjado e colocado dentro dessa esfera, dessa complexidade narrativa cinematográfica. E ele é um grande autor também, além de ser um grande ator, ele também é diretor.
Helena Machado: Queria só complementar que o Matheus é um artista na sua integralidade, e ao mesmo tempo em que ele mergulha, também tem esse olhar de fora, então ele sabe o que ele está fazendo para dentro. Ele faz aquilo com uma verdade impressionante e, ao mesmo tempo em que sabe onde está a câmera, ele sabe para onde tem que olhar, então cria uma partitura que é um negócio de louco mesmo. É algo genial, ele é impressionante.

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Tenho um enorme carinho por São Luís, foi uma das melhores viagens que já fiz, e fiquei feliz de saber que o filme foi gravado em locação na cidade. O que significa para vocês poderem gravar na cidade onde Nauro consolidou sua vida e trajetória, especialmente considerando a importância dele para a cultura maranhense? De que forma vocês avaliam que “Nau de Urano” pode trazer visibilidade para o audiovisual do estado?
Frederico Machado: Eu faço cinema desde 1997 e toda a minha obra é passada no Maranhão. Os temas do meu cinema, mesmo sendo pessoais demais, sendo questões mais herméticas e existenciais, se passam no estado. Já fui convidado para filmar em outros estados, dirigi uma série na Paraíba, também já fui chamado para dirigir em São Paulo, mas o meu cinema é em São Luís, no Maranhão, porque amo esse estado e o considero extremamente rico culturalmente. Tem seus problemas sociais e econômicos, mas tem muito a revelar para o Brasil ainda. É um estado muito desconhecido, a cultura popular é muito desconhecida e tem muitos temas, muitas locações ainda para serem desbravadas.
E eu acho que o Maranhão tá vivendo um grande momento em termos de cinema agora. Tão sendo produzido 10 longas metragens pela Lei Paulo Gustavo. Então, a gente acredita que vai ter um momento meio de primavera na questão do cinema maranhense nos próximos 2 anos. Acredito que vai haver muita coisa boa, que revela também esse momento do cinema maranhense. Tem duas escolas, uma estadual e uma particular, de cinema, tem bons festivais de cinema acontecendo.
Mas o cinema maranhense sempre foi muito forte, embora não seja tão conhecido a nível nacional. Na década de 1970, em termos de Super 8, o cinema maranhense era o cinema mais forte do Brasil. Das jornadas do Super 8 no Brasil, a mais importante foi no Maranhão, de fato. Tem o Murilo Santos, que é um grande realizador, e têm outros grandes realizadores também. O Guarnicê é o terceiro festival de cinema mais antigo do Brasil. Então, tem uma força no cinema maranhense que talvez outros centros não reconheçam ainda. Mas tem uma cinefilia, uma cinematografia relativamente forte, comparando com outros estados.
Helena Machado: Eu queria falar especificamente em relação a Nau de Urano, porque você perguntou sobre o Maranhão no nosso filme. A obra do meu tio era totalmente relacionada à São Luís. Para ele, São Luís era uma cidade de trevas e de glória também. Então, era onde ele se encontrava, onde ele se sentia ilhado, onde ele produziu toda a obra dele, mas ao mesmo tempo era um lugar que o atormentava. Então dali nasciam todas as sombras e toda a glória também. Então é mais uma relação muito dicotômica que ele tinha com a cidade e isso tá expresso na poesia dele.
E no nosso filme, como a gente tinha essa questão do baixo orçamento e no próprio conceito do filme todo se passar numa única locação, como o Fred falou, a gente não tem especificamente imagens de São Luís no filme, mas a cidade está presente no filme, no diálogo, na poesia de Nauro, nas relações entre os personagens, na coisa ébria dele com os amigos, no som. E talvez a gente ainda tem algumas externas também com São Luís, mas é eu acho bonito essa presença de São Luís apesar da ausência.
Frederico Machado: E Nauro nunca deixou o Maranhão também. Assim como eu, ele viveu inteiramente sua vida dentro do estado. Ele passava férias às vezes no Rio de Janeiro, mas toda a obra poética dele foi realizada no Maranhão, e assim foi revelado através da poesia o amor e o ódio que ele tinha com relação ao estado. Então, o filme também toca muito nisso, nesse aspecto mesmo, dessas dualidades do Nauro como ser humano, como artista e suas dúvidas e suas questões. Realmente o Maranhão é um personagem muito forte no filme, porque era na poesia do Nauro.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Quais seriam as suas indicações?
Helena Machado: Eu gosto muito de tudo do Glauber Rocha, e acho que de algum jeito tem alguma coisa a ver com o nosso filme.
Frederico Machado: Eu gosto muito do Cinema Marginal, e podia indicar o Meteorango Kid: Herói Intergalático, que é um filme que me marcou muito. Também adoro cinema experimental, e poderia indicar O Andarilho, do Cao Guimarães.



















