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Entrevista | “Ele sempre colocou o Brasil nas faixas em que tocou”: Oscar Rodrigues Alves fala sobre “The Groove Under The Groove: Os Sons de Paulinho da Costa”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 2 horas
  • 8 min de leitura

Documentário trata das contribuições do percussionista brasileiro para a música pop nos últimos 50 anos.


Divulgação


Por décadas o Brasil tem sido um terreno fértil de artistas que construíram sua carreira primeiro aqui e depois ganharam espaço no exterior. Um dos casos mais emblemáticos é o de Paulinho da Costa, percussionista carioca que, após se mudar para os EUA em 1972 a convite de Sérgio Mendes, trabalhou e gravou com centenas de artistas, incluindo nomes como Michael Jackson, Earth, Wind & Fire, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Herb Albert, Lionel Ritchie, Madonna, Seal, Red Hot Chilli Peppers e tantos mais.


A vida e o trabalho prolífico de Paulinho são o foco do documentário The Groove Under The Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, de Oscar Rodrigues Alves. Atualmente disponível na Netflix, o filme se inicia na infância de Paulinho no bairro do Irajá, no Rio de Janeiro, detalhando seus primeiros contatos com a percussão, e segue pela sua trajetória profissional no Brasil e sobretudo nos EUA. Além do próprio Paulinho, outros entrevistados incluem figuras de renome como Quincy Jones, Bill Withers, Verdine White, Herb Albert, will.i.am e Lalo Schifrin, além de artistas brasileiros como Roberto Carlos, Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho e Carlinhos Brown.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Oscar, que falou da sua admiração por Paulinho e o árduo processo de fazer The Groove Under The Groove ganhar vida. Ele também discutiu sobre as escolhas dos entrevistados e sobre como espera que o filme ajude a fazer o nome de Paulinho ser mais reconhecido pelo público. Confira a entrevista abaixo:

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Fico imaginando que um documentário como esse exige uma pesquisa muito profunda, especialmente quando e trata de uma figura com uma carreira tão vasta e prolífica como Paulinho da Costa. O que te motivou a fazer um filme sobre ele e quais foram os principais desafios que você encontrou ao longo de todos esses anos de gravação?


Oscar Rodrigues Alves: Eu conheço o Paulinho desde que eu tenho 9 para 10 anos. Toco percussão também, mas como percussionista talvez eu seja um bom diretor de filmes [risos]. Mas eu admiro Paulinho desde muito criança, desde muito moleque. Conheci ele nos créditos dos álbuns de vinil, quando a gente botava o vinil para tocar ficava ali ouvindo a música, e quem gostava de saber quem estava tocando os instrumentos naquela faixa específica, podia consultar os créditos que vinham nos encartes dos vinis e depois dos CDs. E a maioria das músicas que eu mais curtia, eu via lá “Paulinho da Costa – Percussão”. Até que chegou o momento em que eu comecei a ouvir músicas novas e falava: "Aqui é o Paulinho tocando”, antes mesmo de olhar nos créditos dos álbuns. E assim nasceu um fã.


Então, eu sempre tive o Paulinho nos meus ouvidos e no meu coração, e tentava imitar um pouco as levadas dele nas bandas em que eu tocava. E aí em 2009, depois que lancei meu filme Titãs: A Vida Até Parece uma Festa, tinha que me colocar um novo desafio, e aí decidi contar a história desse cara espetacular. Mas muita gente tentou me tirar desse caminho, me demover dessa ideia, por conta da dificuldade que seria liberar todas essas faixas.


Tem 55 músicas no filme, mas para quem não sabe, só porque o Paulinho tocou nessas faixas todas isso não significa que você pode apenas usá-las. Tem que pagar direitos para todo mundo que tocou nessa faixa, para quem produziu, para quem arranjou, para as gravadoras e editoras. E são hits mundiais, ou seja, são músicas com direitos caros de se pagar.


E o documentário normalmente é um primo pobre do cinema [risos]. Ele normalmente tem muito menos dinheiro do que uma ficção, que eventualmente pode trazer uma pessoa famosa, e com isso angariar espectadores. Mas eu realmente não ouvi essas pessoas, ainda bem. Fui teimoso e arrumei alguns produtores teimosos que toparam entrar nessa comigo, e o resto é a história.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): É difícil não ficar impressionado com o desfile de entrevistados que o filme possui, seja de músicos brasileiros ou estadunidenses, para falar e enaltecer Paulinho. Temos até alguns que já faleceram, como Quincy Jones e Lalo Schifrin. Como foi o processo de selecionar esses nomes? Quais foram seus critérios para que fossem esses os entrevistados, ainda mais dentro do total de quase 1000 artistas com quem Paulinho já trabalhou?


Oscar Rodrigues Alves: Existem alguns parceiros mais óbvios e importantes do Paulinho, no sentido de quantidade de faixas que trabalharam juntos. Por exemplo, Michael Jackson, que não está mais aqui entre nós, mas o Quincy estava na época. Então começamos por ele, mas antes disso, entre 2009 e 2015 eu fiquei convencendo o Paulinho a topar o documentário, porque ele é um cara muito reservado, mais na dele. Mas aí o Quincy acabou tendo de ser internado no hospital por causa de um coma diabético e quase foi embora. E ali o Paulinho percebeu o quão importante seria deixar registrada a vida e a obra dele, então o Quincy também tem essa função importante de destravar o projeto e fazer com que o Paulinho topasse fazer o filme.


A maioria dos entrevistados o próprio Paulinho foi quem chamou. O Quincy, os caras do Earth, Wind & Fire... o Lalo Schifrin, que se definia como um “soul brother”, um irmão de alma do Paulinho, não só um parceiro musical. O Bill Withers, outro que foi embora, que era sensacional, espetacular.


No caso do Bill Withers, tem uma história bacana de contar. Quando o Paulinho disse que queria filmar com ele, me disse que o Bill não cantava há anos; ninguém sabe se por uma questão física ou emocional. Tanto que quando ele foi conduzido ao Hall da Fama do Rock and Roll pelo Stevie Wonder, o Stevie tocou tocando Ain't No Sunshine e o Bill ficava só do lado dele, não cantava. E se há uma situação em que se espera que um artista cante sua música, é quando o Stevie Wonder está tocando ela e cantando ao seu lado, mas o Bill ficou quietinho ali.


O Paulinho não tinha gravado nenhum grande sucesso do Bill Withers. Então na nossa gravação eu destaquei ali Use Me, que é uma faixa que eu gosto muito e que eu achei que tinha um groovezinho brasileiro que Paulinho podia colocar ali na naquela faixa. A gente filmou mais ou menos por uma hora e meia, e o Ray Parker Jr., que estava tocando violão, de vez em quando puxava a música, mas o Bill não ia, até uma hora em que o Bill chegou e falou: "Diretor, está legal aqui? Podemos terminar?”. Aí cheguei bem pertinho dele e falei: "Bill, será que você pode dizer a sua letra de Use Me?”. Eu não perguntei para ele se podia cantar, porque talvez travasse o cara ali. E daí ele fez aquela performance maravilhosa, e eu tenho certeza que essa performance foi pro Paulinho. Tenho certeza que ali o amor do Bill pelo Paulinho é o que fez aquele momento tão especial.


 Divulgação


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Eu sinto que ainda há muito desconhecimento em torno do trabalho e do legado de Paulinho, sobretudo aqui no Brasil. Eu o conhecia e mesmo assim fui pego de surpresa pela quantidade de músicas dos anos 70 e 80 que amo e que tiveram participação dele. Nesse sentido, como você espera que o filme possa trazer mais reconhecimento a ele?


Oscar Rodrigues Alves: Eu mesmo, que sou fã do cara há 46 anos, me surpreendi muito. A gente estava na Bahia, por exemplo, em Cachoeira, filmando lá. Aí entramos na van para voltar para Salvador, estava tocando Nightshift, do Commodores, aí Paulinho falou: "Olha, eu tô tocando aqui também" [risos]. O cara não para, você vai aprofundando e vai brotando faixa que o Paulinho tocou. Provavelmente Nightshift nem estaria no filme se não tivesse rolado esse momento em Cachoeira.


A obra dele é muito grande, muito ampla, é uma carreira muito prolífica. Nem ele lembra de tudo que gravou. Ele deu muita sorte, porque estava ali em Los Angeles nos anos 70, onde todo mundo estava gravando – The Jacksons, depois Michael Jackson na carreira solo, Earth, Wind & Fire, os caras do jazz como Miles Davis e Dizzy Gillespie –, então ele estava no epicentro do furacão. E os estúdios ficavam muito perto uns dos outros, naquela época Los Angeles era a capital da indústria fonográfica, então ele tinha chance de em um espaço de alguns poucos dias gravar em dois, três álbuns. Saía de um estúdio, andava uns 10 minutos e já estava em outro, e assim conseguiu gravar milhares de músicas. Então foi uma coincidência maravilhosa de fatores ali.


E outra coisa que eu quero muito com esse filme – e que já está acontecendo, muita gente tem me falado isso – é de que as pessoas, depois que assistam o filme, ouçam essas músicas de uma outra maneira. São músicas que estão tão presentes na vida da gente, seja no rádio, numa festa de casamento, na nossa festa de aniversário, mas as pessoas prestam muita atenção no cantor ou outros instrumentos. Agora, depois de assistir ao filme e de ver o que o Paulinho tocou e contribuiu artisticamente para aquela faixa, as pessoas me contam que estão ouvindo a música de um outro jeito.


Às vezes são músicas que você nem aguenta mais ouvir [risos]. Sei lá, você está no casamento, toca I Will Survive, da Gloria Gaynor, aí começa a ouvir o Paulinho ali no meio e pensa em como ele dá uma sobrevida às faixas. Você começa a ouvir aquelas faixas de uma outra maneira e isso é muito bacana. Eu estou muito contente de ver que a gente conseguiu fazer com que as pessoas sintam o groove do Paulinho.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Eu mesmo passei por isso depois do filme. Naquela hora em que se fala sobre Wanna Be Startin’ Something, pô, é uma das minhas músicas favoritas do Michael Jackson e eu não fazia ideia de que tinha uma cuíca tocando ali. Até mandei para um amigo meu destacando que o Paulinho toca nela, e ele me disse que o fone direito dele estava privilegiando bastante o som da cuíca.


Oscar Rodrigues Alves: É isso aí. Quando Paulinho chegou em Los Angeles em 1972, ele encontrou um ambiente de percussionistas latinos, essencialmente porto-riquenhos e cubanos. Então ele decidiu que para sobreviver ali tinha de trazer um molho novo, um groove novo, e o que seria isso? Um groove brasileiro. Então conseguiu ao máximo colocar o Brasil ali, seja com instrumentos como a cuíca, ou mesmo com grooves de ritmos menos caribenhos e mais brasileiros. Ele sempre tentou colocar o Brasil...  sempre tentou não, sempre colocou o Brasil nas faixas em que tocou.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o nosso público deva assistir. Quais seriam as suas indicações?


Oscar Rodrigues Alves: Eu vou indicar O Barato de Iacanga [dir.: Thiago Mattar], que é um filme muito bacana sobre o Festival de Águas Claras. É um festival que eu não fui, eu era muito moleque, mas vi na televisão e recentemente saber todo o perrengue que foi é, o que aconteceu ali por trás do que a gente via nas câmeras, foi maravilhoso. Acho que uma das coisas mais bacanas dos documentários é isso, mostrar o que a gente não vê, revelar o que o evento não mostrou. Então essa é minha indicação.

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