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Entrevista | Fellipe Paixão fala sobre a carreira e seleção para programa de mentoria da Warner Bros. Discovery

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 2 dias
  • 12 min de leitura

Realizador sergipano foi um dos 10 selecionados dentre quase 600 inscritos para o programa “Narrativas Negras Não Contadas”.


Divulgação


Em sua terceira edição, o programa Narrativas Negras Não Contadas — Black Brazil Unspoken, iniciativa da Warner Bros. Discovery, contou com uma presença sergipana: Fellipe Paixão. Ele foi um dos 10 selecionados dentre 596 inscritos para o programa, que escolheu profissionais com base no potencial criativo, relevância das propostas e conexão com o público contemporâneo. Ao longo de dois meses, Fellipe e os demais selecionados passaram por uma jornada intensiva de formação, com mentorias, workshops e acompanhamento de especialistas da indústria audiovisual e executivos da companhia.


Natural de Tabocas, povoado de Nossa Senhora do Socorro, Fellipe atua como diretor, roteirista e diretor de arte, com formação em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e especialização em Direção de Arte pelo Ateliê Bucareste de Cinema. É membro fundador do coletivo Agora Seremos, que desenvolve projetos audiovisuais colaborativos em contextos periféricos, articulando cinema, território, memória e formação.


Sua trajetória recente inclui a codireção do curta-metragem ALIVE (2024), selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes e o Festival de Gramado, além da participação no Laboratório Universitário do Nordeste Lab, onde foi premiado pelo YouTube Brasil para a realização do curta Pretinha (2025), centrado em masculinidades negras e juventude periférica sergipana. Para o Narrativas Negras Não Contadas, ele submeteu o projeto Rainhas da Palavra, documentário que fala sobre o protagonismo negro feminino na construção do slam (competições de poesia falada) em Sergipe, articulando performance, poesia e a construção de uma cena cultural no estado.


Em entrevista para o Oxente Pipoca, Fellipe pôde falar mais da sua experiência com o programa e os frutos que colheu a partir dos dois meses do projeto. Além disso, ele discutiu sobre sua carreira e perspectivas para o audiovisual sergipano, que vem numa trajetória crescente. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Fellipe, você foi um dos 10 escolhidos dentre quase 600 inscritos para este programa da Warner Bros. Discovery, com o Rainhas da Palavra, um projeto que aborda a construção da cena cultural do slam em Sergipe. Como você chegou até este programa e quais fatores te impulsionaram a pensar no Rainhas como o trabalho que você submeteria?


Fellipe Paixão: O programa da Warner é um programa que que acontece anualmente, e a edição que eu participei foi a terceira. É um programa do departamento de diversidade e inclusão da Warner Global, então existem várias edições do Narrativas Negras Não Contadas, e aí tem essa ramificação que veio pro Brasil. 


Eu acho que repercutiu muito pouco isso, mas a gente teve na primeira edição a Luciana Oliveira, que é a idealizadora da EGBÉ [Mostra de Cinema Negro realizada em Sergipe], diretora de Espelho, enfim, alguém que eu acho que é uma figura muito central para Sergipe como um todo, mas principalmente para o cinema negro. E aí eu conheci o programa por conta da Luciana na edição anterior; ela comentou comigo que tinha participado, que achava que tinha tudo a ver com o que eu estava construindo uma trajetória, que eu devia tentar. 


E aí eu tentei nessa segunda edição, que aconteceu no ano anterior, com um projeto também autoral, mas muito mais vinculado ao meu território, a uma questão de debate político. Basicamente um projeto sobre investigação da comunidade em que eu vivo, relacionado a umas questões históricas ligadas à ditadura. Honestamente, era um projeto zero comercial, e ele não foi aprovado.


E eu não estava nem muito no intuito de tentar essa nova edição, entendendo que talvez o que eu buscava enquanto cineasta, o que eu buscava comunicar não fizesse tanto sentido naquele momento para entrar no programa, que eu entendia que tinha um apelo comercial. As outras duas edições já estão disponíveis na plataforma da HBO, então eu já tinha assistido aos filmes que foram aprovados, e tinha entendido que eles optavam por um tipo de produção específica, por um tipo de linguagem específica, um tipo de narrativa específica, inclusive com um posicionamento geográfico específico. Nas últimas duas edições, dos seis projetos que foram aprovados, só dois eram nordestinos, de Recife e Fortaleza, e os outros quatro do Rio e de São Paulo.


Então, eu estava meio desencantado nesse sentido, mas a Luciana tinha mandado para mim o edital de novo, outras pessoas próximas tinham comentado. Eu estava em Recife, na época que estava para fechar as inscrições, e aí eu lembrei que tinha esse projeto que estava meio que guardado, que era uma coisa que eu estava pensando por alto, mas não necessariamente desenvolvendo, que era o Rainhas da Palavra. 


Eu tenho um envolvimento com a cena de slam de Sergipe, principalmente nos últimos dois anos, porque um amigo muito próximo é irmão de duas das slam masters que são mais ativas atualmente, e aí eu já participei muito dos eventos de slam do estado, tanto como público quanto como júri técnico. E estava começando a ficar encantado não só com a questão da performance, da representação e da entrega do evento como um todo, para além da participação ética, mas pensando muito essa questão – que é o foco do meu documentário –, que é o fato da gente ter o protagonismo negro e feminino no slam, principalmente na produção do slam.


E aí eu conversei sobre isso com as meninas, inclusive com outras figuras que promovem o slam no estado há mais tempo. Fiquei muito curioso porque nenhuma delas tinha parado para pensar sobre isso e a gente percebeu que, no caso, a própria vinda do slam para o estado está impulsionada dessa realidade. E aí eu pensei que fazia sentido, um projeto que apesar de ter um lugar em debate político, tinha um viés muito mais comercial. Eu lembro que submeti o projeto numa extensão de prazo, eles estenderam por mais um dia. Eu submeti e aí estava nessa de achar que não ia entrar, que de novo eles não iriam dar atenção para o projeto, que ele tinha um apelo muito mais político. 


E estava cheio com tanta coisa, e tão desacreditado que ia rolar, que recebi uma mensagem no meu WhatsApp avisando que precisava confirmar uma entrevista, senão ia perder a vaga. Tipo, não tinha nem checado meu e-mail, era esse o nível [risos]. Basicamente, existiu um filtro inicial dos projetos submetidos, e eles fizeram uma entrevista de 20 a 25 minutos com todo mundo que eles filtraram, junto do departamento de inclusão e uma executiva da Warner. Aí eu participei dessa entrevista e depois de uma semana eles deram o resultado, e eu estava dentro.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Foram dois meses de jornada dentro do programa. Quais seriam as maiores lições e frutos que você acredita que herdou desse período? Como você avalia que ele impactará sua carreira daqui em diante enquanto realizador e sobretudo enquanto realizador negro?


Fellipe Paixão: Foi uma loucura, porque basicamente o programa funciona durante esses dois meses em um formato de mentoria acompanhada dos projetos, então a gente tem semanalmente essa mentoria, é um intensivão. São dois meses para desenvolver o projeto muitas vezes do zero ou numa fase minimamente avançada, até uma fase em que ele está pronto para ser apresentado e comercializado.


Então a gente tinha semanalmente três, às vezes quatro encontros ao longo dos dias, cada um com geralmente duas horas. E aí eram mentorias variadas: a gente tinha umas mentorias individualizadas por projeto, que acontecia uma vez por semana com a mentora principal do programa, e a gente tinha as mentorias em grupo, que eram de temáticas variadas. Tivemos mentoria com o departamento jurídico da Warner, por exemplo, explicando o que a gente precisava pensar com o projeto, entendendo a realidade do streaming; com o departamento de comercialização de obras, com pessoal de pós e tal.


A gente realmente passou por todas as etapas de entender como é que funciona a produção de um material audiovisual pensado enquanto produto para entrega para o streaming. Porque o pensamento é completamente diferente de você produzir um filme que foi aprovado em edital e sobre o qual você tem uma liberdade artística total para produzir o que quiser. Neste caso você está produzindo um filme quase que por encomenda, que precisa entrar dentro de uma prateleira.


Eu falo que foi uma loucura porque na semana em que as mentorias iniciaram, eu estava gravando meu último curta. Então eu tive quatro diárias de gravação desse meu filme e tive mentorias da Warner em três dessas quatro diárias. Tem um momento que eu brinco sobre, até tirei uma foto e mandei pros amigos, onde eu estava com um fone de ouvido de retorno do set e um fone dentro do fone de retorno para ouvir a mentoria [risos]. E foi um pouco isso, esse início meio turbulento, mas depois ficou mais tranquilo, e foi muito proveitoso. 


Eu confesso que no momento inicial em que eu pisei lá, tinha alguns receios por conta dessa questão. Eles tratam muito a produção do material enquanto produto mesmo, tratam o público enquanto audiência, pensam o quanto aquele material que você está produzindo vai funcionar para plataforma, porque não é uma produção que não visa lucro, muito pelo contrário, ele precisa dar retorno. Então, era meio complicado entender que eu precisava começar a pensar a minha produção a partir de um outro lugar. Porque querendo ou não, eu sou formado em Cinema, então eu venho de um lugar acadêmico de pensar o cinema principalmente enquanto arte, nesse lugar de pensamento político, de discurso e tudo mais. E aí, ir para um lugar que vai completamente na contramão disso é um choque muito grande. 


Mas eu acho que, na verdade, isso foi a melhor coisa, porque eu percebi durante esse processo de consultoria inteiro que existe um todo um mundo à parte de produção audiovisual, de produção de cinema, que eu ainda não tinha entrado em contato, na realidade. Apesar de ser muito novo, de estar no começo de carreira de diretor, proponente, produtor, enfim, eu já tenho alguma experiência com a realidade de editais, com o meio acadêmico, com o estudo do debate crítico, e eu penso no cinema mais enquanto arte. Só que eu tinha zero experiência nesse lugar comercial, de pensar o filme a partir de um pensamento de audiência, do que ele precisa comunicar enquanto produto a ser vendido, de conseguir encaixar um lugar autoral meu dentro toda a necessidade de uma empresa de influência mundial como a Warner.


Acho que tudo isso foi interessantíssimo para mim, porque me fez principalmente quebrar muito o preconceito com essa ideia de uma produção tecnológica demais no mercado, mas principalmente de entender como esse lugar, que querendo não é um lugar que detém a maior possibilidade de financiamento e que detém o maior do consumidor, opera, e como conseguir estar lá sem abrir mão necessariamente de um olhar autoral, de uma ideia autoral do cinema.


E no pós disso, eu acho que valeu demais a pena ter participado, ter me aberto muitas portas dentro de um lugar de comunicação. E o próprio projeto está indo para outros lugares, eu estou submetendo ele em outros laboratórios de desenvolvimento, continuo trabalhando nele e submetendo ele em editais. A minha ideia é produzir o filme, agora com um pouco mais de liberdade, porque eu não estou necessariamente fazendo para entrar na plataforma, mas aproveitando tudo que rolou de troca dentro do programa.


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Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Falando um pouco mais do panorama do audiovisual sergipano, temos visto um movimento de curtas e longas-metragens sendo produzidos no estado e que abordam diversos temas e formatos. Diante da carreira que você tem construído e do que tem observado neste cenário, como você avalia esse momento atual da produção do cinema em Sergipe e quais são as suas perspectivas para os próximos anos?


Fellipe Paixão: Essa é uma pergunta muito boa. Se a gente aqui em Sergipe vai se comparar a outros estados, vemos que é tudo ainda muito novo em termos de construção de indústria. Eu acho que ainda nem dá para falar que existe uma indústria de cinema em Sergipe, como existem em outras capitais do Nordeste. Mas a gente tem um ponto de informação muito grande, que é a existência de uma universidade com um curso de Cinema, uma das poucas do país quando a gente para pensar. E eu acho que a gente está começando a colher os frutos desse investimento no estudo e no pensamento do cinema, principalmente a partir da UFS há algum tempo, a partir de empresas e a partir de pessoas que passaram por esse lugar.


A Luciana [Oliveira], por exemplo, faz parte de uma geração mais especificamente que está dentro da UFS desde esse início, que está realmente lutando por tudo que a gente tem hoje, que é o mínimo enquanto estrutura exista. Eu acho que até agora sou da geração mais sortuda de fazer cinema no estado, porque sou da geração que chega e começa a fazer cinema junto dos editais. Basicamente o meu fim de ciclo da universidade foi quando a gente teve o primeiro edital da Paulo Gustavo. Já tinha existido o ciclo da PNAB dentro da pandemia, mas eu estava no início do curso, então foi zero aproveitado por mim. Mas aí quando eu estava fazendo meu TCC, tivemos esse edital emergencial e eu consegui, por exemplo, produzir o meu trabalho de conclusão de curso com financiamento público. Era uma realidade muito irreal para o estado até aquele momento, então tem um quê de sorte que eu não posso negar, a sorte de estar no momento certo e ter a possibilidade de usufruir disso.


Este ano eu estou trabalhando paralelamente num projeto em Recife junto com outras pessoas, que eventualmente deve ser o meu primeiro longa. E é muito doido você perceber o pensamento e a noção da própria produção artística das pessoas lá, porque existe uma autoestima gigantesca no indivíduo pernambucano quanto ao que ele produz, principalmente pensando arte, pensando cinema, e agora mais do que nunca. E aí eu sempre falo que aqui em Sergipe a gente tem um completo oposto disso. Parece que existe uma falta de autoestima inacreditável em tudo que a gente produz, e parece que tudo que acontece aqui não dá fruto por pura e exclusivamente culpa nossa. 


Só que não é o caso, eu acho que a gente está vendo agora, seja comigo, seja com outros projetos, outras produtoras, gente que vem conseguindo colher frutos, ir para outros lugares e ter acesso, inclusive em caráter nacional, que dá certo, porque a gente está tendo minimamente um investimento público para isso. Projetos feitos a partir do PNAB, da Aldir Blanc, da Paulo Gustavo, que estão conseguindo ter mais destaque, porque eles são os primeiros projetos que estão sendo feitos de alguma forma minimamente ideal. Onde você tem tempo para pensar a produção, tem tempo para poder pensar o produto.


É muito difícil que você faça um filme sem recurso nenhum, na cara e na coragem, no improviso, e consiga realmente implementar nele tudo o que quer sem ter uma condição minimamente ideal, porque você vai estar geralmente trabalhando num lugar de desgaste físico e mental muito grande, por estar precisando fazer outras coisas para além do projeto. Você vai precisar o tempo todo negociar suas vontades quando não tem recurso para bancar o que queira fazer. Tem filmes incríveis que são feitos com zero de recurso, claro, mas você tem que ter minimamente um acesso à possibilidade de pensar o cinema.


E eu acho que essa é a grande questão muito sequestrada da gente, a plena possibilidade do querer fazer assim. Você está o tempo todo num lugar de negociação consigo mesmo, do tipo: “eu estou aqui, estou fazendo um curso, uma graduação na universidade de cinema, mas eu não sei se eu vou conseguir trabalhar com cinema quando terminar essa graduação”. E era um questionamento meu, eu achava que talvez conseguiria trabalhar com audiovisual, mas também não tinha a certeza. Se eu conseguisse, seria muito difícil que trabalhasse com cinema, porque não existe uma indústria de cinema aqui tão potente. A gente não tem projetos acontecendo ao longo do ano, projetos múltiplos que deem conta de todo mundo que trabalha na cadeia produtiva do cinema do estado. Então, você está eventualmente passando por momentos e processos de dúvida e de necessidade de escolha. E aí quando você pensa numa pessoa que está num lugar de urgência, principalmente financeira, é muito difícil que aquela pessoa pare e decida: "Eu vou apostar nisso aqui, eu vou aceitar, passar por um momento muito mais delicado e de recusa". 


E eu estou falando tudo isso para dizer que é muito bom ver que a gente está conseguindo driblar esse cenário finalmente e está conseguindo entrar numa nova realidade. A gente tem mostras desse cinema acontecendo ao longo do ano, temos a EGBÉ, por exemplo, com o mercado de cinema que acontece dentro do nosso estado. A gente tem finalmente uma produção numa escala maior de longas metragens, que é outra coisa que a gente não tinha acessado até então e que vai fazer muita diferença para fortificar o nome de Sergipe enquanto uma potência criadora do cinema do país.


E eu espero que com as coisas acontecendo como estão acontecendo e com os resultados chegando, a gente consiga ter pelo menos uma manutenção do que já existe enquanto recurso público para a partir disso começar a pensar no que realmente precisa acontecer. Por exemplo, começar a pensar na cinemateca, pensar cursos de cinema para além da UFS; enfim, começar a construir realmente uma cadeia de produção e de formação de pessoas.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que nosso público deva assistir. Pode ser um favorito da sua vida, um que assistiu recentemente e gostou, ou que conversa com as suas obras. Quais seriam as suas indicações?


Fellipe Paixão: Eu acho que eu vou primeiro chover um pouco no molhado e falar de um cinema sergipano que é referência máxima para mim: Caixa D’Água: Qui-Lombo é Esse?, da Everlane Moraes. Na verdade, toda a cinematografia da Everlane é obrigatória.


Vou indicar também o Fantasmas do André Novais, A Vizinhança do Tigre, do Affonso Uchôa. Marte Um, do Gabriel Martins, é um filme de valor sentimental muito grande para mim. E para falar de filmes mais antigos, indico Rio Zona Norte, sou apaixonado por esse filme.


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