Crítica | A Revolução dos Bichos
- Vinicius Oliveira

- há 4 horas
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Elenco estelar não salva animação da sua pobreza narrativa e estética.

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Considerada uma das obras-primas de George Orwell, A Revolução dos Bichos, assim como 1984, é um daqueles livros cujo pano de fundo e ideologia têm sido amplamente debatidos, visto que ele foi escrito para expressar as críticas de Orwell à ascensão de Stalin na União Soviética. Não à toa, a sua primeira adaptação em 1954 foi uma animação financiada pela CIA; agora, mais de 70 anos depois, esta nova adaptação – dirigida por Andy Serkis e com um elenco estelar no trabalho de dublagem – ganha como distribuidora a Angel Studios, a mesma do polêmico Som da Liberdade.
A história, acredito, a maioria conhece: um grupo de animais numa fazenda se rebela contra o dono e passa a se autogovernar, primeiramente sob a liderança de Snowball (Laverne Cox), que estabelece os princípios do novo regime dos animais, e depois pelas mãos do traiçoeiro Napoleon (Seth Rogen), que usurpa o poder para si e começa a desfazer as regras do regime conforme ele e os demais porcos se tornam parecidos demais com os humanos que antes eram os inimigos.
Embora a essência da narrativa seja mantida, o roteiro de Nicholas Stoller faz algumas alterações, a principal delas sendo a inclusão do jovem porco Lucky (Gaten Matarazzo), que se torna nossos olhos e ouvidos para as transformações morais e ideológicas do regime na fazenda. Assim, o filme se converte também numa história de amadurecimento, e, mesmo sendo um recurso batido, é uma alteração que funciona para nos dar uma guia pela trama, visto que Lucky é nossa âncora moral e também um personagem “jovem” com o qual o público-alvo pode se conectar. Infelizmente, esse é um dos poucos saldos positivos identificados no longa.

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Embora a trajetória como diretor de Andy Serkis esteja longe de ser das melhores (só de lembrar daquele Venon: Tempo de Carnificina sinto arrepios), é inegável o papel crucial que ele tem em relação às tecnologias de animação e de captura de movimentos nos últimos 20 anos, desde que interpretou Gollum na trilogia do Senhor dos Anéis. Por isso é tão chocante ver a pobreza da qualidade de animação de A Revolução dos Bichos, que parece mais próxima daqueles filmes semidesconhecidos da nossa infância nos anos 2000, como O Segredo dos Animais ou Deu a Louca na Chapeuzinho. Enfatiza-se mais um aspecto cartunesco no design dos personagens, o que também se reflete no ritmo mais dinâmico e “apropriado” para um público infantil (inclusive com o uso de canções contemporâneas em diversas sequências) e na inserção de referências atuais e num humor bobo e até escatológico, como as recorrentes piadas envolvendo puns.
Não que o trabalho de Serkis na captura de movimentos demandasse que o filme seguisse essa linha, mas a impressão é que tudo – do texto à textura da animação – foi diluído para acomodar as alegorias sociopolíticas de Orwell numa embalagem acessível e contemporânea. Aspectos das críticas do autor estão ali, ainda que repaginados – sobretudo nas figuras humanas do Sr. Whymper (Steve Buscemi) e de Freida Pilkington (Glenn Close), cuja presença confere um ar até mesmo distópico à obra -, mas os discursos emitidos pela obra soam demasiadamente vagos, culminando numa mensagem final simplória de “devemos ajudar uns aos outros”.
A incerteza no tom a ser adotado – ora bobo demais, ora mergulhando nos aspectos mais sombrios do livro original – se reflete no tratamento de Napoleon, um personagem que já nasce cansado devido à performance vocal de Seth Rogen, um ator por quem sinceramente cada vez mais tenho antipatia justamente porque parece interpretar o mesmo personagem sempre, mesmo que aqui se trate de um porco. Há algum esforço de “humanidade” na relação dele com Lucky, mas como a própria narração de Sansão (Woody Harrelson) já nos indica a natureza traiçoeira do personagem desde o começo – e o trabalho de animação do rosto se limita às mesmas expressões malévolas e cínicas durante todo o filme –, não há muito o que extrair daqui.
Não sou adepto da necessidade de fidelidade ao material original, tampouco de que o “conteúdo” é mais importante que a “forma”; acredito fielmente que ambos são um só na arte. Por isso, esta nova versão de A Revolução dos Bichos é tão decepcionante, pois o filme é fraco e pobre em ambos os departamentos. Considerando o time de vozes envolvido e o legado do livro que adapta aqui, o resultado final é muito aquém do que poderia ter sido.
Nota: 2/5



















