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Entrevista | “O filme explode para cima dos personagens”: Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa falam sobre “Timidez”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 5 horas
  • 8 min de leitura

Casal de diretores discutiu as mudanças feitas no filme em relação à peça original, e as possibilidades de discussão sobre a saúde mental do homem negro.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Exibido no último Festival do Rio, o longa-metragem baiano Timidez agora terá sua estreia no estado. Codirigido por Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa, o filme será exibido no XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema, realizado em Salvador, e será lançado em 16/04 nos cinemas. 

Adaptado da peça O Cego e o Louco, de Cláudia Barral (que assina o roteiro do filme ao lado de Kalik e Marcos Barbosa), Timidez acompanha Jonas (Dan Ferreira) um jovem artista negro que vive à sombra do irmão cego Nestor (Antônio Marcelo), uma presença sufocante com quem divide a casa. Mas quando Lúcia (Evana Jeyssan), a vizinha do andar de cima, aceita um convite para jantar, Jonas precisará enfrentar seus próprios fantasmas, e começa a duvidar de si mesmo. A crítica do filme se encontra disponível aqui:

Em entrevista ao Oxente Pipoca, Kalik e Gomes Rosa discutiram as mudanças feitas em relação à peça – sobretudo na mudança de etnia dos personagens principais – e como isso lhes permitiu trabalhar com questões ligadas à saúde mental do homem negro, além de pontuar quais foram as principais referências adotadas para o trabalho. Você pode ler a entrevista na íntegra abaixo:


Vinícius Oliveira Rocha (Oxente Pipoca): O filme é baseado em uma peça e os aspectos da linguagem teatral são bem evidentes no decorrer dele, como a ambientação quase toda em um único espaço e a entrega de alguns dos diálogos entre os personagens. Quais foram os principais desafios na hora de adaptar a peça dentro dos aspectos da linguagem cinematográfica?

Thiago Gomes Rosa: Vou falar rapidamente do nosso caminho, da nossa biografia. Eu venho do cinema, vou para o teatro, faço escola de direção teatral, a Susan também faz escola de direção teatral, a gente se casa dentro da escola de teatro e saindo dela o nosso primeiro curta-metragem é uma adaptação teatral do texto do Marcos Barbosa, que é um dos roteiristas do filme Braseiro e que é marido da Cláudia Barral, autora da peça O Cego e o Louco, lá no início dos anos 2000. 

Desde então adaptar as peças teatrais se tornou quase que um estudo no nosso desenvolvimento de curtas-metragens. Esse texto me chegou em 2014 pelas mãos do Marcos e da Cláudia e, lendo o texto, eu propus que a gente o transformasse num longa-metragem, e aí surge o projeto. Pouco tempo depois, Susan já entra no projeto, inicialmente como roteirista e depois como diretora.

Susan Kalik: O Marcos [Barbosa] é um autor que se propõe às vezes a cumprir os três graus aristotélicos: o mesmo lugar; se passa durante 24 horas; com uma única situação. E acho que esse foi o maior desafio – aí posso falar como roteirista também –, adaptar essa história para que ela explodisse um pouco mais e trouxesse mais respiros. E uma outra adaptação foi a partir do discurso, o texto original trazia uma situação com dois homens brancos, no final o personagem do Jonas se suicidava, e a Lúcia nunca existiu. Então, o primeiro lugar foi trabalhar o discurso dele para que a gente trabalhasse essa questão emocional, do adoecimento do homem negro, com uma saída, com um amor possível, com ele sobrevivendo. Por mais difícil que seja a luta de um dia após o outro, ele não desiste, ele segue.

Em segundo lugar, em termos de mise-en-scène, tentar expandir essa encenação para que ela saísse do palco, do frontal e do único. A gente fez um filme com R$ 1 milhão, então a gente tinha uma limitação grande de possibilidade de locação, de fazer externas. Então foi uma mise-en-scène que foi resolvida muito dentro daquela casa e da relação entre os dois. E isso já trazia muito para a gente do jogo teatral, que é uma coisa que a gente gosta.

A gente foi tentando resolver ali dentro com silêncios, com os espaçamentos para que o filme trouxesse mais frescor do que só ficar nos dois atores naquele jogo de texto. Mas é um texto difícil, a Cláudia [Barral] tem um texto maravilhoso, com uma modulação de emoções muito difíceis. O Dan [Ferreira] começa como um personagem mais infantil, mais brincante, mais leve, e que vai tensionando ao ir ao percebendo a situação. É uma curva que vai se desenhando ao longo do filme com eles e que às vezes é muito difícil de manter porque você não tem uma escalada. O filme não explode para fora, é sempre dentro da casa, na verdade o filme, a casa, explode para cima deles.

Imagem: Divulgação
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Vinícius Oliveira Rocha (Oxente Pipoca):  Ao longo do filme vemos vários elementos que vão apontando para a desestabilização psicológica e mental dos personagens, em especial Jonas, como a própria atuação de Dan Ferreira ou os elementos técnicos e cênicos, tais quais a direção de arte do apartamento ou os planos-detalhes das mãos dele e da batida repetitiva da bengala de Nestor. Como foi o processo de trazer esse retrato da saúde mental do personagem, ainda mais considerando que se trata de um homem negro? Vocês se inspiraram em outras obras?

Susan Kalik: O mais importante para mim dentro dessa construção do Jonas é que s ele não tem um CID, não tem uma doença específica. O Jonas é fruto de todo esse racismo, de toda essa opressão, de todo esse adoecimento, em que você ser uma pessoa negra num país como o nosso pode causar. Então, o Jonas tem momentos em que ele tem questões ligadas à própria afirmação, ligadas à própria autoestima. Ele é um painel de possibilidades que te limitam e que te puxam, como se afundasse, como em Corra!, do Jordan Peele. O Peele é uma referência, sem dúvida, com Corra!, mas principalmente com Não! Não Olhe!, porque você tem aqueles dois irmãos naquele lugar único, lidando com assombramentos que vêm de um lugar não realista, ali ele trabalha de forma metafórica essas sombras entre as histórias dos dois, uma coisa que a gente meio que não entende.

Então, é principalmente falar desse lugar que a gente constrói, do que tá dentro da gente, do que a gente precisa enfrentar, do que essas pessoas enfrentam sozinhas. É pequenininho, é sutil. Não é mais um filme para falar do lugar do racismo histórico ou da violência policial institucionalizada, mas para falar daquilo que ficou e que a gente vai ter que limpar agora. 

E também fala um pouco de como o amor pode salvar. Tinha uma coisa que era muito importante para a gente, que o amor vem como uma possibilidade de cura e de continuidade, de pegar no outro. Para além do amor fraterno, o amor real de Lúcia e Jonas. Mas era muito importante para a gente que a Lúcia não salvasse o Jonas, porque ele precisava dar o passo, precisava se salvar sozinho.

Thiago Gomes Rosa: Falando um pouco de referências, a Susan fez parte de um grupo de teatro chamado NATA – Núcleo Afro-Brasileiro de Teatro de Alagoinhas. Foi um grupo que trabalhou muito com essas questões de negritude, um grupo afrocentrado, também trabalhou muito com temáticas ligadas às questões de religiosidade e matriz africana. A gente também tem uma convivência muito próxima com o bando de teatro do Olodum, convivemos muito com Lázaro Ramos, então esse conjunto de referências tá ali envolvendo as temáticas com as quais a gente trabalhou ao longo dos anos.

Além dessas referências teatrais, a gente tem as referências cinematográficas como o Jordan Peele, que a gente já falou, o Darren Aronofsky em A Baleia, Mãe, Cisne Negro. Por incrível que pareça, A Baleia, que eu acho que talvez seja o que mais dialoga com a gente, foi um filme que assistimos depois de filmar.

Susan Klanik: Você, no caso. Eu ainda não tive coragem de assistir [risos].

Thiago Gomes Rosa: É, ela ainda não teve coragem de assistir.

E Meu Pai também foi uma referência, principalmente por conta da mise-en-scène dentro do apartamento, da forma como eles se relacionavam. Fora outras referências de um cinema às vezes mais expressionista; enfim, são muitas referências que a gente carrega quando tá fazendo o filme e aí o filme vira um conjunto disso tudo.


Vinícius Oliveira Rocha (Oxente Pipoca): O cerne do filme é na relação entre os dois irmãos, nas tensões e nos afetos entre eles. Acho que a cena que melhor resume isso é a deles dançando "A Gente Precisa Ver o Luar", de Gil. De onde saiu a ideia para essa cena e como foi o processo de trazê-la para o filme?

Thiago Gomes Rosa:  havia no texto teatral um momento em que se tocava uma música, uma coisa tipo uma valsa. A gente pensou que era importante ter música nesse momento, mas que tinha que se trazer para aqui, para o Brasil, para nossa temática, para nossa história. A gente tinha que fazer com que ela dialogasse com esse universo que se construiu desses dois personagens.

Dito isso, na durante a pesquisa, a gente se deparou com a capa do disco Luar, e foi um grande achado para a construção tanto da figura do Jonas. A Carol [Tanajura, diretora de arte] trouxe esse disco para gente, e entendemos que o Luar era esse lugar onde o personagem se libertava desse algoz. 

Susan Klanik: Tem para mim um ponto de, de ruptura muito claro ali desenhado no roteiro, que é a última vez em que eles dois se conectam, tanto que a gente tem imagens da infância que entram. É a queda do véu, dali em diante nada mais será como antes. Então é a última vez que eles brincam. E foi uma das coisas que conversei com meu tio, Zebrinha [José Carlos Arandiba, coreógrafo da cena]: “tio, eu preciso que eles brinquem, mais do que dançar”. 

Tem uma referência para mim naquela cena, que é Rain Man, quando o Tom Cruise e o Dustin Hoffman brincam. É uma cena linda, em que ele [Tom] ensina o Dustin a dançar, e era o que a gente queria trazer para essa cena. E tem uma referência pessoal, que é quando Jonas fica piscando a luz antes de começar a dançar, e aí você tem a mudança, o não-realismo se impõe ali. Era uma coisa que eu e minha irmã fazíamos muito, a gente dançava na sala daquela forma e eu piscava a luz e em algum momento, depois de piscar, a gente ia dançar. 

E aí na hora eu trouxe aquilo, falei, foi uma cena até que na hora a gente chegou para o fotógrafo e falei: "Eu preciso que fique mais roxo, tem que ficar mais roxo". E aí a gente pegou um bastão de luz e gelatina na hora e conseguiu imprimir a cor, e eu: "Dan, você vai brincar e vai lá para dentro”. Aí o Zebra veio e limpou aquela coreografia e trouxe a brincadeira, trouxe principalmente o empoderamento. Então é um ponto de virada, adeus à infância, é o fim da inocência, a queda do véu, dali para frente o pau vai quebrar. A gente gosta muito dessas quebras com o realismo, acho que sublima.


Vinícius Oliveira Rocha (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que nosso público deva assistir. Quais seriam suas indicações?

Susan Klanik: Eu sou apaixonada pelas obras do pessoal da Filmes de Plástico, os filmes do Gabriel [Martins], os filmes do André [Novais de Oliveira]. O Narciso do Jefferson De, que tá no cinema agora, que a gente precisa assistir, vai entrar na segunda semana, a gente precisa manter os filmes nacionais no cinema. Boi Neon, que eu também gosto muito. 

Thiago Gomes Rosa: Tem um filme que eu gosto muito, que sempre me vem à memória, é um filme pouquíssimo visto e que vale ser revisitado depois de muitos anos, A Marvada Carne. Esses dias a gente também reassistiu Deus é Brasileiro, é maravilhoso. Enfim, tem muita coisa. Assista cinema brasileiro, acho que esse é o ponto, o resumo da ópera.


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