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Entrevista | “Vocês acham que isso é realidade ou ficção?”: Lúcia Murat fala sobre “Hora do Recreio”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • 6 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 9 de mar.

Para o Oxente Pipoca, a diretora falou sobre a proposta docuficcional do filme e como ele se conecta aos nossos tempos


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Estreia na próxima quinta-feira (12) nos cinemas brasileiros Hora do Recreio, novo filme de Lúcia Murat e recentemente exibido no 76º Festival de Berlim. O longa trata a questão da educação no Brasil, tanto através de uma abordagem documental quanto ficcional. Os alunos falam de problemas que os atingem como a violência, o racismo e o feminicídio, citando experiências de suas famílias. Além disso, diante da impossibilidade de se filmar em escolas cercadas por operações policiais, eles criam performances representando a situação, enquanto em outra escola, encenam uma peça baseada no livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto. 


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Murat, que falou a respeito da abordagem docuficcional adotada pelo filme e como ela se conecta às próprias adversidades enfrentadas durante o decorrer das gravações. Além disso, ela também pontuou sobre como os posicionamentos dos jovens vistos em tela podem e devem ser potencializados em face do avanço do conservadorismo no Brasil e no mundo.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme se baseia numa proposta docuficcional, unindo momentos encenados com outros, digamos, mais “reais”. De onde surgiu essa proposta e como isso foi trabalhado na prática junto aos jovens que vemos em tela?


Lúcia Murat: Eu já estou com 77 anos, desses 40 são de cinema. Quer dizer, desde o meu primeiro longa-metragem, eu sempre trabalhei com essa mistura de ficção e documentário, só que no decorrer desses 40 anos foi tudo mudando. E é uma tendência do cinema, os gêneros foram se misturando de forma diferente nesse tempo todo. 


Quando eu fui fazer esse filme, originalmente a ideia era um projeto bem acadêmico, de eu ir nas escolas e dar voz aos alunos. E além disso, tinha realmente a ideia de fazer o Lima Barreto, o Clara dos Anjos. Mas era uma ideia um pouco também acadêmica, de discutir o que que é o passado, o que é o presente, o que era o racismo na época e o que era hoje, tal. Bom, nada disso deu certo porque as dificuldades da realidade brasileira são muitas, e o que aconteceu é que essas dificuldades acabaram entrando no filme, fazendo ele ficar diferente mesmo.


O fato da gente ser proibido de filmar no ensino médio, o fato ter uma operação policial na hora que eu ia fazer a filmagem, e finalmente a própria mistura que já estava prevista de ficção documental também mudou muito no decorrer do processo todo. Então foi isso, eu acho que basicamente essas dificuldades todas acabaram entrando no filme, e a gente teve que criar em cima disso. A gente foi descobrindo o filme nesse processo.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Puxando o gancho disso que você falou, em determinado momento do filme vemos que houve esse obstáculo por parte da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro para a gravação numa das escolas. Como esse obstáculo foi contornado? Como vocês chegaram até esses jovens?


Lúcia Murat: O Ensino Médio é ligado à Secretaria de Educação do governo do Estado, o Fundamental 1 e 2 é ligado à prefeitura. Quer dizer, o Fundamental 1 e 2 a gente podia filmar, não tinha problema, até porque a Rio Film apoiou o filme. Mas a gente tinha a proposta original de filmar nessa escola, a Luiz de Camões, mas aí rolou essa não-liberação para o Ensino Médio.


Quer dizer, obviamente que eu podia ter aceitado as dificuldades. A produção chegou para mim e falou: "Olha, então não filme no ensino médio, só no fundamental." Eu falei: "Cara, não vou fazer isso, tem que ter o ensino médio", é quando eles são mais velhos, têm mais capacidade de articulação, de pensar sobre essas questões. Aí o que eu fiz? Falei: "Bom, tudo bem, vamos fazer igual o filme de ficção. A gente pega as vans, coloca os meninos, leva para o local, faz uma locação e pronto”. 


O que a gente fez então foi uma proposta de manter o aspecto documental dentro de uma realidade que não era a deles. Só que eu achei importante mostrar isso pro espectador, por isso que tem a cena daquela aquela pergunta maravilhosa que a professora faz: “Vocês acham que isso é realidade ou ficção?”. Em Berlim ninguém acreditava que ela fosse atriz, até achava que era a professora daquela turma. 


Mas quer dizer, a gente estava preocupado o tempo todo em poder integrar. A Luciana Bezerra, que é a produtora de elenco do filme, é também a diretora do Nós do Morro e diretora de cinema. Ela apresentou a Leandra [Miranda], que também tinha participado do Nós do Morro, então, quando ela se envolve também na discussão, começa a falar dela mesma. Então, ficou uma coisa muito integrada. Se eu tivesse pegado uma atriz que tivesse feito, sei lá, Malhação, ia ter nada a ver [risos]. Então, foram propostas que a gente trabalhou bastante, no sentido de permitir que a discussão se fizesse por eles mesmo.


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Diversos tópicos são abordados no decorrer dessas obras, a partir de experiências e reflexões dos personagens. Estamos vivendo esse momento aterrador de tantas notícias sobre violência de gênero e feminicídio, e embora esse não seja um fenômeno recente (infelizmente), parece algo até epidêmico, com a quantidade de notícias que saem por dia a respeito. Como podemos olhar para essas novas gerações e potencializar a consciência delas sobre questões como raça, gênero, sexualidade, política e tanto mais?


Lúcia Murat: Eu acho que a educação e a escola são o caminho mesmo. Porque esse caso que aconteceu no Rio agora, essa tragédia, que foi o estupro da menina, que foi violada por um grupo, que coisa absurda. Sendo que tinham alunos de colégios que a gente considera bons colégios. Quer dizer, foram expulsos, mas não adianta só expulsar, tem de reformular os colégios. Os professores têm que ganhar melhor, têm que ter recursos para levar esses adolescentes para o teatro, para o cinema, para o museu. Tem que ter diálogo e vinculação com a cultura. Isso é fundamental.


Teve uma coisa que me espantou, é sobre como as mulheres são muito articuladas, é impressionante. Teve um momento que eu falei para o cameraman: "Pô, para de ficar em cima delas, pega os homens". Aí ele falou: "Pô, mas só elas que falam". E realmente você sente que no filme elas estão muito mais presentes, não foi uma questão minha.


Outra coisa, pelo menos naquela primeira escola, você sente isso muito claramente, que são pessoas cujas mães deram a volta por cima. Se elas não tivessem dado a volta por cima, os filhos não estariam ali. E de alguma maneira é um exemplo para elas também: “Alguém deu a volta por cima, eu sou forte também”. Isso foi muito importante.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que acham que o público deve assistir. Quais seriam suas indicações?


Lúcia Murat: Primeiro é Hora do Recreio [risos]. Vocês têm que ir ver no cinema. Um clássico que eu indicaria seria Deus e o Diabo na Terra do Sol. E, por fim, um outro filme que agora recentemente vai ser vai ser de novo projetado porque foi recuperado, que é o filme da Tati Amaral chamado Um Céu de Estrelas, é um filme lindíssimo também.


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