Entrevista | “As lacunas da história me levaram à ficção”: Letícia Simões reflete sobre memória e invenção em A Vida Secreta de Meus Três Homens
- Caio Augusto

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Em entrevista ao Oxente Pipoca, Letícia Simões comenta A Vida Secreta de Meus Três Homens e fala sobre o desafio de unir memória, arquivo e ficção no longa.

A Vida Secreta de Meus Três Homens, novo longa de Letícia Simões, estreia dia 05 de março nos cinemas brasileiros em 2025 propondo uma travessia entre memória, fantasia e investigação histórica. No filme, a diretora constrói um jogo entre documentário e ficção para revisitar personagens do passado e confrontar lacunas da história, especialmente no que diz respeito ao Nordeste, às heranças do cangaço e às marcas deixadas pela ditadura civil-militar. Entre fantasmas, arquivos e invenções, a obra tensiona os limites entre lembrança e imaginação.
O Oxente Pipoca entrevistou Letícia Simões, que falou sobre os cinco anos de pesquisa que fundamentam o projeto, o mergulho em arquivos e relatos orais, incluindo investigações sobre o SNI, e o desafio de transformar ausências documentais em matéria ficcional. Na conversa, a diretora reflete sobre o cinema como ferramenta de construção de memória, a dimensão política das escolhas estéticas e sua decisão de se colocar em cena como parte do próprio dispositivo do filme. Letícia também comenta referências que dialogam com a obra e convida o público a embarcar em uma experiência cinematográfica que transforma fantasmas em gesto crítico e memória em invenção.
Caio (Oxente Pipoca): Letícia, eu sou de Sergipe e me chamou muita atenção como o filme constrói, de certa forma, uma historiografia de vários acontecimentos do Brasil, dando também uma atenção especial a Sergipe. Eu queria entender como foi o seu preparo e essa pesquisa histórica. Você também se coloca como pesquisadora no filme: como foi esse processo?
Letícia Simões: A pesquisa histórica, tanto documental quanto imagética, levou cerca de cinco anos para ser realizada e envolveu muitas frentes. Para o personagem de Sebastião, que vem de Sergipe, era muito importante localizar esse lugar e essas artimanhas de poder que formam um estado e uma configuração de sociedade. A partir de relatos orais, surgiu o nome Mussuca, e comecei a entrar em contato com historiadores e historiadoras, além de pessoas que conheciam o quilombo da Mussuca por diferentes vias. Uma das pessoas com quem conversei foi o DJ Dolores (Helder Aragão), que é sertanejo e tem uma relação muito forte com músicos da Mussuca. No caso dele, a pesquisa passava muito pela historiografia musical e pelas reverberações sonoras, e ele me abriu muitas portas para dialogar com outros pesquisadores.
Como o filme se preocupa com as lacunas da história, particularmente da história do Nordeste, era importante para mim ressaltar Sergipe, um estado muitas vezes ofuscado por vizinhos como a Bahia. Como eu venho da Bahia, senti que era uma postura ética trazer essa atenção, mesmo que isso não precisasse ser sublinhado explicitamente no filme.

Caio Augusto (Oxente Pipoca): O filme transita entre documentário e ficção. Como foi esse desafio? Essa mescla já estava prevista desde o início?
Letícia Simões: Inicialmente era quase o oposto. Eu queria fazer um filme sedimentado em arquivos e em uma pesquisa muito forte. Mas a primeira coisa com que me deparei foram os vazios, as lacunas, os abismos de memória. Isso me levou a pensar tanto nas lacunas da nossa história quanto naquilo que o cinema pode preencher — e, para mim, isso é ficção. Comecei a imaginar quem eram esses personagens, por onde circulavam, quem amavam, se foram amados, quem enganavam.
Por exemplo: como se comportava um homem negro e gay na década de 1950, em Salvador? Como surgiram os bandos após o aniquilamento do bando de Lampião? Como se deu a entrada de mulheres e crianças nesses bandos? O imaginário do cangaço ainda é muito forte na memória coletiva. A ficção surgiu como forma de preencher aquilo que o documento e o arquivo não davam conta. As dimensões documental e ficcional não são contraditórias, elas coexistem. O filme é um documentário que se junta à ficção; é memória, relato, testemunho e invenção ao mesmo tempo.
Caio Augusto (Oxente Pipoca): Me chama muita atenção o uso do dispositivo dos “personagens fantasmas”. E você também se coloca como mediadora dentro do filme. Como foi o desafio de se inserir como personagem?
Letícia Simões: Foi um processo de entender o quanto era preciso brincar. Há uma vontade grande de pensar a ilusão do cinema, como nos truques de Georges Méliès: aparecer, desaparecer, ir à Lua. Minha presença em cena surgiu já durante as filmagens, como provocação do elenco, especialmente da Nash Laila, que também trabalhou como preparadora de elenco e assistente de direção. Fizemos um processo intenso de leitura e debate coletivo do roteiro.
O personagem Arno, por exemplo, não está feliz por ser convocado como fantasma. Ele pergunta: “O que estou fazendo nesse filme?”. A provocação foi: por que ele só pergunta para o personagem e não para mim, diretora? Então pensei em como estar em cena não para dar respostas, mas como mais uma peça nesse jogo. Minha presença faz parte da brincadeira e da construção dessa ilusão.
Caio Augusto (Oxente Pipoca): O filme trata muito da memória, inclusive da ditadura civil-militar, através da figura do pai. Esse processo te ajudou a lidar com essa questão enquanto cidadã e cineasta?
Letícia Simões: Foi um processo bastante árduo de pesquisa histórica, especialmente sobre a ditadura civil-militar e o SNI (Serviço Nacional de Informações). Fui aos documentos de fundação do SNI para entender que órgão era esse. Descobri, por exemplo, ligações com estruturas investigativas que remontam à Guerra de Canudos, algo que eu, como cidadã, desconhecia.
Hoje ainda há quem questione se houve ditadura, tortura ou mortes. Por isso, foi fundamental entender como essa agência foi criada, como funcionava e como a sociedade civil a aceitou. Depois, ela se transforma na ABIN e chega até governos recentes. O processo foi importante para mim enquanto cidadã e cineasta, porque toda decisão estética é política. A maneira como escolhemos contar, ou não contar, algo constrói imaginários. E o cinema participa diretamente dessa construção. Meu interesse era transformar isso em matéria fílmica, através de personagens, e não em uma palestra sobre o tema.
Caio Augusto (Oxente Pipoca): Por fim, temos uma tradição no Oxente Pipoca de pedir que vocês indiquem algum filme do cinema brasileiro que gostem, além de A Vida Secreta de Meus Três Homens, é claro, para que nossa audiência possa assistir e conhecer outras obras.
Letícia Simões: Bom, eu vou indicar Tatuagem, de Hilton Lacerda. Acho que é um filme maravilhoso para pensarmos em saídas e invenções diante do horror que, às vezes, a vida cotidiana no Brasil nos traz e nos impõe, mas que ainda assim afirma a existência de felicidade e alegria.
Quero falar também da série Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, de Marcelo Gomes. É uma produção super contemporânea, que está ganhando muitos prêmios. A série é linda, muito bem dirigida e muito bem escrita, e aborda um momento extremamente crítico da nossa história: os anos 1980, quando a epidemia de HIV chega ao Brasil e mobiliza o esforço de diversas pessoas para criar saídas e respostas diante daquela crise.
Eu acho que tenho que falar em O Agente Secreto. Então, assim, vejam, vejam, continuem vendo e continuem enchendo as salas de cinema. Também vejam Recife Frio, que é um curta metragem maravilhoso. E eu tô olhando aqui para um cartaz de um filme que eu amo, que é No Coração do Mundo. E toda a cinematografia da Filmes de Plástico, eu acho absolutamente sensacional. Então, muita gente conhece o Marte Um, mas também conhecem os outros filmes, O Ela Volta na Quinta, o No Coração do Mundo, o Quintal, o Temporada, enfim, são filmes que eu amo profundamente.
E acho que eu também gostaria de falar, tem um filme que eu adoro muito, que é do Ramon Porto Mota, da Paraíba, A Noite Amarela. Esse filme é muito maravilhoso, esse filme fala sobre um medo do futuro e o que é que a gente faz diante dele. E acho que esse filme é mais contemporâneo que nunca. Quando tudo parece ser um grande apocalipse, o que é que a gente faz diante disso?



















