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Guia prático da temporada de premiações para iniciantes

  • Foto do escritor: Aianne Amado
    Aianne Amado
  • há 6 dias
  • 8 min de leitura

Quem decide para quem vai o prêmio? Qual a diferença entre Oscar e Globo de Ouro? Entenda tudo que você precisa saber para acompanhar a award season


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Todo começo de ano é assim: domingo após domingo, celebridades desfilam por tapetes vermelhos espalhados pelos Estados Unidos, especialmente em Los Angeles. São, em geral, os mesmos filmes, os mesmos nomes e as mesmas categorias se repetindo ao longo de semanas. Ainda assim, a cada domingo, todo cinéfilo de carteirinha segue acompanhando, torcendo, vibrando e – com bastante frequência – reclamando dos resultados.


Nos últimos anos, o Brasil passou a acompanhar esse período com atenção redobrada. A chamada temporada de premiações (award season, em inglês) ganhou maior visibilidade no país graças ao destaque internacional de filmes brasileiros recentes e à presença constante de artistas nacionais em grandes premiações estrangeiras. Esse movimento reacendeu o interesse do público não apenas pelos indicados, mas também pelo funcionamento e pelo valor simbólico de cada prêmio. 


Mas afinal, o que diferencia um prêmio do outro? O Oscar não é a mesma coisa que o Globo de Ouro? Quais os vários outros prêmios que acontecem entre um e outro? E onde entra Cannes nesse jogo?


Dúvidas como essas são comuns para quem começa a se interessar pelas premiações audiovisuais — e fazem sentido, afinal, nem todas são votadas pelas mesmas pessoas, nem obedecem aos mesmos critérios ou cumprem a mesma função dentro da indústria. Pensando nisso, o Oxente Pipoca preparou este guia prático para ajudar o público a entender como funciona a temporada de premiações, quem vota em cada um desses eventos e por que, muitas vezes, o filme mais celebrado pela crítica não é o mesmo que sai consagrado nas grandes cerimônias.


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  1. Qual a diferença entre Globo de Ouro e Oscar?


As duas premiações mais conhecidas da temporada costumam, respectivamente, abrir e encerrar o calendário de premiações em Hollywood. Por isso, é comum que o Globo de Ouro seja visto como um dos primeiros termômetros para o Oscar, ajudando a indicar tendências.


A principal diferença entre os dois prêmios está na natureza das instituições responsáveis por sua organização. O Globo de Ouro surgiu vinculado à Hollywood Foreign Press Association (HFPA), uma associação sem fins lucrativos formada majoritariamente por jornalistas internacionais que cobriam a indústria do entretenimento nos Estados Unidos. Após uma série de polêmicas envolvendo governança e conflitos de interesse (mais sobre isso abaixo), a HFPA foi dissolvida e reestruturada em 2023. Hoje a premiação é administrada pela Golden Globe Foundation (GGF), também sem fins lucrativos.


Já o Oscar é concedido pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences (AMPAS), instituição fundada em 1927 e composta por profissionais da própria indústria cinematográfica, como atores, diretores, roteiristas, produtores e técnicos de diversas áreas.

Essa diferença institucional se reflete diretamente no corpo de votantes. No Globo de Ouro, votam exclusivamente jornalistas internacionais membros da GGF, hoje em um grupo que gira em torno de 400 de votantes. No Oscar, por sua vez, o colégio eleitoral é formado por mais de 10 mil profissionais do audiovisual, distribuídos em ramos específicos da Academia. Em outras palavras: enquanto o Globo de Ouro é um prêmio da imprensa, o Oscar é um prêmio da própria indústria.


Também há distinções importantes no sistema de votação. No Globo de Ouro, todos os membros votam em todas as categorias. No Oscar, o processo é mais complexo: na fase de indicações, cada membro vota apenas dentro de sua área de atuação profissional (atores indicam atores, diretores indicam diretores, e assim por diante), além de todos votarem em Melhor Filme. Já na votação final, todos os membros votam em todas as categorias.


Falando nelas, as categorias premiadas também trazem distinções. O Oscar é dedicado exclusivamente ao cinema, com divisões relativamente estáveis (como longa e curta-metragem, ficção e documentário, animação, além da separação entre roteiro original e adaptado). O Globo de Ouro, por outro lado, é mais abrangente: além do cinema, premia produções de televisão e, em 2026, inaugurou uma categoria dedicada a podcasts. No campo cinematográfico, o prêmio de Melhor Filme é tradicionalmente dividido entre Drama e Musical ou Comédia, e, desde 2024, existe também a categoria Cinematic and Box Office Achievement, voltada ao desempenho comercial.


Por fim, há uma diferença central no prestígio simbólico associado a cada prêmio. É certo que qualquer indicação ou vitória em grandes premiações já representa um marco importante na carreira de um artista – ainda assim, ao longo de muitos anos, a credibilidade do Globo de Ouro foi amplamente questionada, sobretudo por denúncias de lobby e conflitos de interesse, o que comprometeu a confiança pública em seu processo de votação. Embora o Oscar também não esteja livre de críticas e controvérsias, o fato de contar com um corpo votante numeroso e formado por pares da indústria contribui para consolidar sua imagem, sendo hoje o prêmio de maior prestígio do audiovisual mundial.


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  1. Quais outros prêmios acontecem na temporada?


Entre novembro e março, acontecem diversas outras premiações pelos EUA. Algumas das principais são:


  • Premiação dos sindicatos de atores (Actors Award, antigo SAG Awards), de diretores (DGA Awards), de produtores (PGA Awards), de roteiristas (WGA Awards) etc. 

  • Premiação da Academia Britânica (BAFTA Film Awards)

  • Premiação da associação norte americana de críticos (Critics Choice Awards)

  • Premiação da Academia de Imprensa Internacional (Satellite Awards)

  • Premiação para filmes independentes da Film Independent (Independent Spirit Award) e do Instituto Gotham Film (Gotham Awards)

  • E o Trifecta, que é formado pelo conjunto de três importantes prêmios de críticos: o New York Film Critics Circle (NYFCC), o Los Angeles Film Critics Association (LAFCA) e a National Society of Film Critics (NSFC)


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  1. Existe um Oscar da Televisão?


Sim. Durante a temporada de premiações ocorre o Emmy Awards, principal prêmio da televisão norte-americana. A cerimônia é organizada pela Academy of Television Arts & Sciences (ATAS) e reconhece realizações em séries, minisséries, programas de variedades, talk shows, reality shows, animações televisivas, entre outros formatos.


Assim como o Oscar no cinema, o Emmy é votado por profissionais da própria indústria televisiva, organizados em ramos técnicos e criativos, o que lhe confere grande prestígio dentro do setor. Vale destacar que existem diferentes edições do Emmy ao longo do ano — como o Primetime Emmy, o International Emmy e o Daytime Emmy — sendo o Primetime Emmy o mais conhecido e associado à award season de Hollywood.


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  1. O que é a premiação de Cannes?


A chamada premiação de Cannes está vinculada ao Festival de Cinema de Cannes, realizado anualmente na França, geralmente no mês de maio. Diferentemente do Oscar ou do Emmy, Cannes não integra diretamente a temporada de premiações de Hollywood, funcionando antes como um festival internacional de estreia, consagração artística e legitimação autoral.


Considerado o festival de cinema mais prestigiado do mundo, Cannes serve como plataforma de lançamento para inúmeros filmes que chegam ao circuito internacional naquele ano. Muitos desses títulos acabam, posteriormente, participando da award season norte-americana, embora isso não seja uma regra.


Uma diferença central está no modelo de julgamento: em Cannes, os filmes são avaliados por um júri restrito – formado por cineastas, artistas e profissionais do cinema convidados – que muda a cada edição. Já no Oscar, a escolha é feita por um corpo amplo e permanente de votantes da indústria. Além disso, por ter uma abrangência global, com obras de diferentes países competindo em igualdade de condições, é comum que as escolhas de Cannes contrastem significativamente das indicações e vencedores do Oscar.


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  1. Quão legítimas são essas premiações? É verdade que existe lobby?


A legitimidade das premiações audiovisuais é uma questão complexa, sobretudo porque se baseia em hierarquias de valor ancoradas no gosto. Diferentemente das competições esportivas, em que o desempenho pode ser mensurado de forma objetiva, o cinema — enquanto expressão artística — opera no campo da subjetividade. Não há debate sobre a rapidez de Usain Bolt; já decidir se Anora é “melhor” do que Ainda Estou Aqui é, por definição, uma discussão aberta e interminável.


Essa subjetividade não se restringe apenas à avaliação estética das obras. Como as premiações envolvem pessoas da própria indústria ou jornalistas especializados, muitos votantes mantêm relações profissionais e, por vezes, pessoais com os artistas e produtores indicados. Esse contexto torna inevitável que fatores sociais, como reputação, trajetória e afinidade, influenciem o julgamento. Não à toa, é comum ouvir  de especialistas que uma campanha bem-sucedida depende 50% do que está na tela e 50% dos apertos de mão ao longo da pré-temporada de prêmios.


Além disso, os estúdios e plataformas investem altas quantias em campanhas de divulgação, conhecidas como For Your Consideration. Essas ações incluem anúncios direcionados aos votantes, sessões especiais, eventos exclusivos, festas, entrevistas e Q&As. O objetivo é simples: garantir visibilidade e manter o título em evidência durante o período de votação (vale lembrar que, por mais absurdo que soe, na maioria das premiações, o votante não é obrigado a assistir a todos os filmes ou séries indicados antes de votar).


Um dos casos mais emblemáticos envolvendo lobby ocorreu na edição de 2021 do Globo de Ouro. À época, a HFPA contava com um corpo reduzido de cerca de 90 jornalistas. Reportagens investigativas revelaram que membros da associação haviam participado de viagens internacionais, hospedagens de luxo, jantares e outros benefícios oferecidos pela Netflix como parte da divulgação da série Emily in Paris. A produção acabou recebendo indicações relevantes, enquanto I May Destroy You, série criada e protagonizada por Michaela Coel, com fortes debates sociais e amplamente aclamada pela crítica e pela audiência, ficou fora de todas as categorias — fato que intensificou o debate público sobre conflitos de interesse, representatividade e critérios de votação. A repercussão do caso contribuiu para uma crise de credibilidade sem precedentes: a cerimônia de 2022 não foi televisionada, e, pouco depois, a HFPA foi dissolvida, dando lugar a uma nova estrutura administrativa e a um corpo de votantes ampliado, sob a gestão da Golden Globe Foundation.


Desde então, o Globo de Ouro passou por reformas institucionais e adotou diretrizes éticas mais rígidas, com o objetivo de reduzir a percepção de “troca de favores”. O Oscar e os prêmios dos sindicatos, por sua vez, contam historicamente com regras mais claras e restritivas — como a proibição formal do envio de presentes aos votantes. Ainda assim, é amplamente reconhecido que, em algum grau, o lobby continua a fazer parte da engrenagem da temporada de premiações, ainda que de forma mais regulada e institucionalizada.


  1. É verdade que essas premiações são racistas?


Não é possível afirmar que uma premiação, enquanto instituição, seja inerentemente racista. No entanto, por se basearem em julgamentos subjetivos, essas escolhas estão sujeitas à influência de preconceitos individuais, que, por sua vez, refletem estruturas sociais desiguais mais amplas. Nesse sentido, os prêmios não estão isolados da sociedade que os produz — eles tendem a reproduzir, ainda que de forma indireta, seus vieses históricos.


Até muito recentemente, a esmagadora maioria dos votantes das principais premiações audiovisuais era composta por homens brancos, majoritariamente estadunidenses. Essa homogeneidade do corpo votante contribuiu para níveis extremamente baixos de representatividade racial, étnica e de gênero entre os indicados — e, de forma ainda mais evidente, entre os vencedores. 


Infelizmente, ao longo de décadas, essa assimetria foi naturalizada como parte do funcionamento “normal” da indústria. Foi somente a partir da pressão pública que esse cenário passou a ser amplamente questionado. Campanhas de denúncia e boicote como #OscarsSoWhite, que ganhou projeção internacional a partir de 2015, denunciaram a recorrente exclusão de artistas e profissionais não brancos, bem como de mulheres e pessoas de nacionalidades diversas, das principais categorias. 


Em resposta, nos últimos anos, diversas premiações passaram a implementar políticas de diversidade e inclusão, sobretudo no processo de renovação e ampliação do colégio eleitoral. Isso incluiu a incorporação de membros de diferentes nacionalidades, etnias e trajetórias profissionais, além de esforços para reduzir desigualdades de gênero entre os votantes.


Embora tais medidas estejam longe de resolver um problema histórico e estrutural, anterior às próprias premiações, é sim possível observar mudanças concretas no perfil dos indicados e vencedores em edições mais recentes.


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