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- Crítica | Feito Pipa (Festival do Rio 2026)
A aposta brasileira no Oscar encontra melancolia, humor e delicadeza em uma história sobre o que aprendemos uns com os outros Imagem: Divulgação O Brasil inteiro sabe: ninguém é mais mimado que o famoso “menino criado com vó”. Vó foi mulher quando ser mulher era ainda mais difícil. Talvez por isso tenha o coração mais calejado e, ao mesmo tempo, mais permissivo. Aposentada, já não tem o estresse do trabalho para descontar em casa, mas tem tempo para a cozinha, para os amigos, para a reza e, principalmente, para os netos. Gugu (Yuri Gomes) é um menino de vó. Mas não qualquer menino: apesar de muito novo, já se entende — e, mais importante, se aceita — gay e afeminado. Cobre-se de brilho para ir à escola, refletindo a luz que carrega por dentro. Gosta de dançar tanto quanto gosta de jogar bola. Naturalmente, comemora o gol dançando — para alegria dos amigos e desprezo dos colegas que ainda não aprenderam a enxergar a beleza da autenticidade. Também não estamos falando de qualquer vó. Dona Dilma (Teca Pereira) gosta de maquiagem chamativa, brincos enormes e de se agarrar com o paquera no banco do carro depois do forró de sábado. Tem em Gugu seu melhor amigo, mas também a maior fonte de lembranças da filha que perdeu. Juntos, vó e neto são imbatíveis. A pequena cidade do sertão cearense vira palco para os dois. Dilma dá asas a Gugu, e ele sabe disso. É por isso que se encolhe sempre que está na presença do pai, Batista (Lázaro Ramos), que, em vez de admirar o voo do filho, preocupa-se com quem, sem nunca conseguir sair do chão, aponta e ri. Para o bem dos dois, estabelece-se um acordo silencioso: construir a relação baseada em ausência e distância, perto o suficiente para não parecer abandono e longe o bastante para não ferir ninguém. Não é que Batista seja um pai ruim. Sem dúvida, quer o melhor para o filho. O problema é que sua ideia de “melhor” não cabe exatamente na imensidão de Gugu. Também não é justa a concorrência que lhe foi imposta: em comparação com a grandiosa Dilma, qualquer um corre o risco de parecer pequeno. O problema das avós, porém, é que elas desabrocham cedo demais. Quando chega a nossa vez, elas já estão perto de murchar. Pouco a pouco, Dilma é consumida por um esquecimento que compromete o cuidado com o seu menino. Ela faz de tudo para disfarçar. Gugu, por sua vez, faz de tudo para fingir que não percebe. Com medo de ter seu mundo perfeito abalado, o menino inverte as posições. Ao esconder a doença de Dilma, o menino de vó, do alto de seus um metro e meio de altura, vira o homem da casa. Seu brilho se perde, literal e figurativamente, e a criança doce e energética que conhecemos no início do filme também começa a murchar, embora de uma maneira diferente. Batista sabe que precisa fazer alguma coisa. Mas o quê? Sua masculinidade não lhe permite sequer perguntar qual é a comida preferida do filho, quanto mais demonstrar culpa, preocupação ou afeto. São três gerações marcadas por desafios absurdamente geracionais e, ao mesmo tempo, amarradas por um sentimento profundamente universal: o medo do desconhecido. Gugu só sabe ser quem é. Batista só sabe educar como foi educado. E Dilma só lembra como viver com as memórias. Feito Pipa constrói esses três personagens como figuras multidimensionais, capazes de carregar contradições sem jamais se reduzirem a elas. O resultado é um drama melancólico sobre a passagem do tempo vista pelos olhos de uma criança cuja infância vai sendo roubada antes cedo demais. Só que drama e melancolia não combinam muito com Gugu e Dilma. Por isso, o roteiro de André Araújo encontra no humor seu melhor aliado, arrancando risadas sinceras mesmo quando a garganta já está embargada. Outra grata surpresa é descobrir um sertão que não precisa ser apresentado pela velha cartela sépia de sempre. Feito Pipa é um filme colorido, vibrante e cheio de vida, recusando aquela fotografia quase monocromática que tantas vezes transforma o semiárido brasileiro em sinônimo visual de sofrimento. A direção de arte, o figurino e a maquiagem acompanham essa escolha com inteligência: as crianças, especialmente, parecem vestir a própria infância, com cores, brilhos e combinações que têm a espontaneidade de quem ainda não aprendeu que existe uma maneira “certa” de se apresentar ao mundo. Nada disso soa artificial ou distante da realidade daquelas famílias. Ao contrário: a exuberância visual nasce justamente daquilo que existe de mais cotidiano. Imagem: Divulgação O timing e a química dos três protagonistas são irretocáveis. A naturalidade de Yuri Gomes é daquelas que fazem o espectador se perguntar se ele sabia que estava atuando ou se simplesmente estava sendo ele mesmo. Seu prêmio no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI) e a Menção Honrosa no Festival de Gramado são completamente merecidos. Lázaro Ramos, muito distante dos Foguinhos e Roques que ajudaram a consolidá-lo como um dos grandes nomes do cinema e da televisão brasileiros, encontra a força de Batista na contenção: no maxilar travado, na testa franzida, na postura rígida de quem aprendeu a esconder tudo aquilo que sente. Já Teca Pereira atravessa diferentes Dilmas dentro da mesma personagem: há a mulher apaixonada pela vida, a avó cúmplice, a mãe enlutada e, aos poucos, a pessoa que convive com a agonia de uma memória que começa a lhe escapar. Mas, com todo respeito aos veteranos, quem rouba a cena mesmo é o elenco infantil. Há uma sequência, logo depois de um dos momentos mais tensos do filme, em que as crianças assumem brevemente o controle da narrativa, no momento mais divertido do longa. A sequência funciona porque não tenta fabricar uma piada para aliviar a tensão: o humor nasce da lógica própria daquele universo infantil, de sua capacidade quase indecente de transformar qualquer situação séria em brincadeira. É uma pequena e poderosa demonstração de como Feito Pipa entende que criança não é sinônimo de ingenuidade passiva. Eu diria que o ponto alto da direção de Allan Deberton está justamente em como ele soube aproveitar o elenco jovem sem infantilizar a narrativa. A presença das crianças injeta frescor em uma história que poderia facilmente cair em um dramalhão piegas. Em vez disso, encontra um equilíbrio delicado entre a dor e a leveza, especialmente no ritmo da montagem. O filme dá tempo para que cada sentimento apareça, seja contemplado e amadureça, mas nunca se demora tanto a ponto de transformar melancolia em peso. Quando parece que a tristeza vai tomar conta, uma piada, uma dança ou uma pequena desobediência infantil abre uma fresta de luz. É também nesse equilíbrio que o contraste mais bonito do filme se constrói: de um lado, a pobreza material de um sertão semiárido, marcada por limitações concretas; do outro, a abundância quase inesgotável da imaginação infantil. Gugu pode ter pouco, mas seu mundo é enorme. Há música, dança, amigos, brilho, futebol, sonhos e uma avó que lhe ensina que existir não precisa ser uma coisa pequena. No fim, Feito Pipa é um filme sobre o que nos mantém no ar e sobre aquilo que nos puxa de volta para o chão. Sobre as raízes que recebemos sem escolher, os caminhos que tentamos abrir para quem vem depois e as coisas que inevitavelmente deixamos pelo caminho. Gugu aprende cedo demais que até quem nos ensinou a voar pode, um dia, precisar que a gente segure a linha. Não sei usar outro adjetivo para Feito Pipa além de “lindo”. Talvez “agridoce” caiba – um agridoce delicioso. Feito Pipa estreia nos cinemas brasileiros dia 5 de novembro, e merece ser visto por todas as famílias. Nota: 4.5/5
- MUBI e O2 Play anunciam data de estreia de 'Covarde', de Lukas Dhont, nos cinemas
Escrito e dirigido por Lukas Dhont (do indicado ao Oscar® Close), filme rendeu aos dois protagonistas, Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes deste ano Imagem: Divulgação A MUBI, distribuidora global, serviço de streaming e produtora, e a O2 Play, distribuidora da O2 Filmes, têm o prazer de divulgar a data de estreia nos cinemas e o pôster oficial de Covarde, o mais recente longa-metragem de Lukas Dhont (indicado ao Oscar® por Close) e também selecionado como representante oficial da Bélgica na disputa pelo Oscar® de Melhor Filme Internacional no 99º Academy Awards®. O filme terá sessões a partir de 17 de dezembro, com estreia em 31 de dezembro. O longa-metragem teve sua estreia mundial na Competição Oficial do Festival de Cannes 2026, tendo Emmanuel Macchia e Valentin Campagne vencido juntos o prêmio de Melhor Ator. Ambientado no auge da Primeira Guerra Mundial, imerso nas trincheiras do exército belga, Covarde desenrola-se como uma jornada épica e íntima de autodescoberta juvenil por meio do amor, da arte e da sobrevivência. Pierre (Emmanuel Macchia) chega à linha de frente como um jovem soldado ansioso para encontrar seu lugar em um mundo consumido pela violência. Tudo muda quando ele conhece Francis (Valentin Campagne), uma alma gêmea cuja visão de montar um espetáculo teatral no front revela um mundo que Pierre nunca soube que existisse. O que começa como uma fuga passageira da dura realidade das trincheiras logo se transforma em uma história de amor tenra e emocionante, ancorada pela química inegável dos atores revelação Emmanuel Macchia e Valentin Campagne. Enquanto o mundo queima ao redor deles, o palco se torna um santuário de inocência e devoção. Covarde explora com sensibilidade a linha tênue entre o medo e a coragem de soldados em busca de uma glória prometida, questionando: quando o mundo exige brutalidade, abandonar tudo por amor seria o maior ato de bravura? O filme marca a reunião do diretor Lukas Dhont com seus principais colaboradores criativos, incluindo o co-roteirista Angelo Tijssens, o produtor Michiel Dhont, o diretor de fotografia Frank van den Eeden, o compositor Valentin Hadjadj, o montador Alain Dessauvage, a diretora de arte Eve Martin e a designer de som Yanna Soentjens. Juntos, dão continuidade à parceria criativa que moldou os trabalhos anteriores de Dhont, aclamados pela crítica (Close, Girl). Com Covarde, Dhont consolida ainda mais sua reputação como uma das vozes mais marcantes do cinema europeu contemporâneo.
- Entre o Oscar e as raízes mineiras: conheça Thiago Calçado, o animador brasileiro na equipe de 'O Bosque Selvagem'
Natural de Uberaba, o animador fez parte da equipe de ‘Pinóquio por Guillermo del Toro’, vencedor do Oscar, e acompanhou desde os primeiros testes a nova produção de Travis Knight Imagem: Divulgação Dirigido por Travis Knight, O Bosque Selvagem estreia nos cinemas brasileiros em 29 de outubro, com distribuição da Imagem Filmes. A aventura épica é a nova produção da LAIKA, estúdio seis vezes indicado ao Oscar® e conhecido por ‘Coraline e o Mundo Secreto’ (2009) e ‘ParaNorman’ (2012). O filme acompanha Prue McKeel (Giulia Benite), uma adolescente esperta e cheia de autoconfiança, e Curtis Mehlberg (Pedro Burgarelli), um garoto sincero e infinitamente curioso que luta para superar os próprios medos. Quando o irmão caçula de Prue, o pequeno Mac, é levado por um bando de corvos, a dupla não hesita em enfrentar os perigos do Bosque Selvagem para trazê-lo de volta para casa. Entre os artistas, artesãos e técnicos que passaram 231 semanas realizando, com suas próprias mãos, os 2.804 planos que deram vida a O Bosque Selvagem, está o animador de stop-motion brasileiro Thiago Calçado. Natural de Uberaba, em Minas Gerais, e formado em cinema pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), ele volta a trabalhar ao lado de Travis Knight depois de ter participado em ‘Kubo e as Cordas Mágicas’ (2016). Além de concorrer ao Oscar® de Melhor Animação, o longa da LAIKA se tornou apenas a segunda animação da história indicada ao Oscar® de Melhores Efeitos Visuais, algo que não acontecia desde ‘O Estranho Mundo de Jack’, em 1994. A obra também venceu o BAFTA® de Melhor Animação, três Annies® e o prêmio de melhor animação do National Board of Review®. Thiago acompanhou a produção desde o início. "Comecei nos testes de O Bosque Selvagem. Estava lá quando começaram a testar os esqueletos e os bonecos. Ver um filme nascendo do zero é muito emocionante. Na LAIKA, você começa no que a gente chama de test unit, um mini set onde testamos os bonecos, e de repente, quando você vê, são sets imensos de uma cidade completa, com vários personagens", conta. Para ele, o que define o estúdio é o nível de cuidado. "Você pede um parafuso e o cara te dá cinco opções: qual é o melhor, para que você quer. Se eu peço uma cola, ele pergunta: 'Mas você vai colar o quê? Madeira com papel, papel com papel, metal com madeira?'. Eles são muito minuciosos em cada detalhe da construção, dos bonecos aos cenários." Trajetória no Brasil e no Mundo Antes de chegar à LAIKA, ainda no Brasil, Thiago fez parte da equipe de animação de ‘Minhocas’ (2013), de Paolo Conti e Arthur Nunes, primeiro longa-metragem em stop-motion produzido no país. Em 2016, mesmo ano de Kubo, integrou a equipe de ‘Dyrene i Hakkebakkeskogen’, longa norueguês inspirado no livro clássico de Thorbjørn Egner. Dois anos depois, trabalhou no aclamado ‘Ilha dos Cachorros’ (2018), de Wes Anderson, indicado ao Oscar® de Melhor Animação e de Melhor Trilha Sonora Original e vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim. Não demorou muito para Thiago ver um filme em que trabalhou ser anunciado como vencedor do Oscar® de Melhor Animação. Ele foi animador sênior de ‘Pinóquio’ (2022) de Guillermo del Toro, e o responsável por animar a Morte, dublada por Tilda Swinton na versão original e uma das figuras mais marcantes do filme vencedor de outros 71 prêmios ao redor do mundo. Para Thiago, a vitória tem um peso particular para os amantes e artistas da técnica. "No stop-motion, uma técnica muito artesanal, com filmes muito mais raros de serem feitos, competindo com grandes estúdios que já ganharam várias vezes, ganhar tem um gosto ainda mais especial. Ainda mais com o Guillermo del Toro, que é uma referência", afirma. "A gente faz filme para contar uma história que toque o coração das pessoas e que, de alguma maneira, as faça refletir. O Oscar é só a cereja do bolo." Além de ‘A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets’ (2023), da Aardman, o currículo de Thiago inclui trabalhos como diretor. Ele comandou ‘Ana Bolinha’ (2021), série em animação 2D com 13 episódios, e criou e dirigiu ‘Sol em Dó Ré M'i’ (2024), exibida na TV Brasil, cujos 15 episódios misturam animação 2D e stop-motion. Thiago também se dedica a ensinar. Já ministrou workshops e palestras na Espanha, na Polônia, em Portugal e na Noruega, abordando desde os detalhes mais precisos da atuação dos bonecos até a narrativa e impacto emocional das cenas. É também presença frequente em festivais, onde conversa com animadores em início de carreira.
- ‘Vicentina Pede Desculpas’ representará o Brasil no Goya 2027 após ‘Feito Pipa’ ser escolhido para o Oscar
Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil aposta em filmes diferentes para disputar as categorias internacionais do Oscar e do principal prêmio do cinema espanhol Divulgação Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma indicação a Melhor Filme Ibero-Americano no Goya 2027. A seleção acontece apenas um dia depois de Feito Pipa, de Allan Deberton, ser anunciado como o representante brasileiro na corrida por Melhor Filme Internacional do Oscar. Com isso, pelo segundo ano consecutivo, o país divide suas principais apostas internacionais entre produções diferentes. Divulgação Na temporada passada, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, foi selecionado para o Oscar 2026, enquanto Manas, de Marianna Brennand, representou o Brasil no Goya. A estratégia terminou com os dois filmes chegando às respectivas listas de indicados: 'O Agente Secreto' recebeu quatro indicações ao Oscar e 'Manas' concorreu a Melhor Filme Ibero-Americano no prêmio espanhol. Em Vicentina Pede Desculpas, Rejane Faria interpreta a personagem-título, uma professora aposentada cuja vida é revirada devido a uma tragédia: o ônibus dirigido por seu filho, Wesley, sofreu um grave acidente na região urbana de Belo Horizonte, deixando diversas vítimas fatais. Diante das suspeitas de que Wesley teria provocado deliberadamente o desastre, Vicentina assume para si uma responsabilidade que ninguém lhe atribuiu: procurar os familiares das vítimas e pedir desculpas. Leia nossa crítica: Antes da escolha para o Goya, o filme mineiro passou pela competição Platform do Festival de Toronto e também integrou a Seleção Oficial do Festival de San Sebastián, concorrendo à Concha de Ouro. Posteriormente, esteve nas seleções do Festival do Rio e da Mostra de SP. A 41ª edição do Goya está marcada para fevereiro de 2027.
- Crítica | As Ovelhas Detetives
Surpreendentemente engraçado, cativante e comovente. imagem: Divulgação Sim, eu sei que você provavelmente só está ouvindo falar desse filme agora e talvez até custe a acreditar que ele realmente exista. Eu mesmo só soube dele há algumas semanas e brinquei que parecia ter saído de uma piada de 30 Rock – uma das melhores séries de comédia da história e que acabou de chegar na Netflix, então já fica a dica. Bom, a trama acompanha George (Hugh Jackman), um pastor que lê histórias de detetive para suas amadas ovelhas toda noite, presumindo que elas não conseguem entender nada. Mas quando misterioso incidente desordena a vida pacífica no pasto, as ovelhas percebem que precisam investigar o ocorrido, juntando pistas e seguindo os suspeitos humanos, provando que até ovelhas podem ser brilhantes detetives. Esta é a sinopse oficial adaptada e sem qualquer spoiler, justamente porque minha experiência foi quase inteiramente às cegas e eu só sabia do elenco estelar, diretor e roteirista. Além de Jackman, temos Emma Thompson, Nicholas Braun (Succession), Nicholas Galitzine (Uma Ideia de Você), Molly Gordon (The Bear), Hong Chau (A Baleia), Conleth Hill (Game of Thrones), Tosin Cole (Doctor Who), Kobna Holdbrook-Smith (Paddington 2) e dublando as ovelhas nomes como Bryan Cranston, Bella Ramsey, Regina Hall, Patrick Stewart, Chris O’Dowd e Julia Louis-Dreyfus, estes dispensam apresentação, mas eu não posso julgar o trabalho deles porque assisti ao filme dublado em português, por falta de sessões legendadas no único cinema da cidade, mas isto é um debate mais longo que eu vou deixar para outro texto e os dubladores brasileiros fizeram um belo trabalho, devo dizer. Quanto aos suspeitos humanos, todos estão muito bem, principalmente Braun, que tem um conhecido timing cômico impecável desde o Greg de Succession. Emma Thompson, claro, um destaque em tudo que se propõe, rouba a cena quando aparece, o que, infelizmente, não é tanto, mas é o suficiente para marcar. imagem: Divulgação A direção é de Kyle Balda, que tem uma bagagem de animações como os filmes dos Minions e Meu Malvado Favorito 3 e é principalmente aí que está a força do que ele faz com as ovelhas, que são de CGI, e são, basicamente, as protagonistas, já que com os humanos é algo mais engessado, ainda que não seja nada que comprometa. Porém, a mescla do animal e do humano se equilibra muito bem através do roteiro de Craig Mazin que adapta a história do livro Três Sacos Cheios: Uma História de Ovelhas Detetives (2005), da escritora Leonie Swann. Mazin foi uma escolha certeira, porque além de ter a experiência de dramas mais densos na televisão como Chernobyl e The Last of Us, e no cinema tem filmes de comédia mais escrachados no currículo como alguns das franquias Se Beber Não Case e Todo Mundo em Pânico. No entanto, aqui há uma sutileza maior tanto no peso mais dramático quanto no lado do humor mais escrachado, e o fato de ser ambientado em um pequeno vilarejo inglês. Ser capaz de acessar o emocional das ovelhas, juntando isso ao mistério e a comédia é realmente um trunfo. Nem tudo precisa ser inovador e revolucionário e é comum em animações com animais falantes que eles ajam como humanos, mas não deixa de ser bonito e aqui é genuinamente comovente. Os figurinos, cenários e a fotografia adotam um tom cartunesco mesmo, o que deixa tudo muito divertido e colorido, mas sabendo trabalhar as sombras quando necessário. Fazer uma abordagem de um “quem matou?”, com as figuras habituais das histórias de mistério, seguindo a estrutura narrativa do gênero é algo que todos já vimos, porém quando o filme se propõe a mesclar todos estes elementos e ser eficaz em cada um deles, ele merece sua atenção. A resposta para o crime ou motivações não são exatamente imprevisíveis, mas o modo como a resolução acontece sim, fazendo sentido naquele universo e sem perder a piada. E mesmo que não fosse, são quase duas horas deliciosas que passam voando, onde você vai rir, chorar e se questionar e refletir, não só sobre o mistério, mas sobre a vida em si, seja você criança ou adulto, para nunca esquecer quem somos e quem está ao nosso lado. Esta frase final, você só vai entender quando assistir, e não vai se arrepender quando fizer isso. Nota: 4/5
- Entrevista | “O filme é uma mitologia baseada nesses fragmentos de memória”: Akinola Davies, Duval Timothy e CJ Mirra falam sobre “A Sombra do Meu Pai”
Diretor e compositores têm viajado pelo Brasil para promover o filme, que será exibido em 20 cinemas pelo país entre abril e junho. Divulgação Agraciado com a Menção Honrosa do júri da Caméra D’Or no último Festival de Cannes, o filme nigeriano A Sombra do Meu Pai, que estreou na 49ª edição da Mostra de São Paulo, agora chega ao circuito comercial de cinemas do Brasil, onde será exibido em 20 cinemas entre abril e junho. Para promovê-lo, seu diretor Akinola Davies Jr. retornou ao país após estar presente no lançamento do filme durante a Mostra – ocasião em que foi entrevistado pelo Oxente Pipoca, como você pode conferir aqui. Desta vez ele passou por Recife, Salvador e São Paulo para as sessões de pré-estreias, sendo acompanhado dos compositores do longa, Duval Timothy e CJ Mirra. A estreia, que ocorrerá na próxima quinta (30), faz parte do Ano Cultural Brasil/Reino Unido, temporada realizada pelo British Council, em parceria com o Instituto Guimarães Rosa (IGR), e conta com o apoio do Governo do Reino Unido e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ambientado na Nigéria de 1993, A Sombra do Meu Pai conta com elementos autobiográficos conforme acompanha os irmãos Olaremi “Remi” (Chibuike Marvelous Egbo) e Akinola “Aki” (Godwin Egbo) em uma jornada por Lagos com o pai distante Folarin (Ṣọpẹ́ Dìrísù) em meio às tumultuadas eleições daquele ano no país, que precederam um golpe de estado armado pelas forças militares nigerianas. O filme marcou a estreia de Akinola Davies Jr. na direção de longas-metragens e foi corroteirizado por ele e seu irmão Wale Davies. Além da Menção Honrosa do júri da Caméra D’Or, o filme também ganhou o BAFTA de artista revelação em roteiro, direção ou produção, além do Prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional na Mostra de SP. Você pode conferir a crítica dele aqui. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar mais uma vez Akinola Davies Jr., além de entrevistar Duval Timothy e CJ Mirra. O diretor falou sobre as escalações de Ṣọpẹ́ Dìrísù e dos irmãos Chibuike Marvelous Egbo e Godwin Egbo, do trabalho delicado de equilibrar elementos autobiográficos e ficcionais no filme e de como tem sido a recepção por parte do público brasileiro. Já os compositores discutiram o trabalho da trilha sonora e das músicas para a atmosfera metafísica e onírica da obra. Você pode conferir as entrevistas abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Akinola, queria dizer que é um prazer poder te entrevistar novamente após termos nos encontrado na Mostra de SP. Revi o filme para essa nova entrevista e saltou muito aos meus olhos a potência do vínculo entre Folarin e seus filhos. E muito disso vem da escalação certeira de Ṣọpẹ́ Dìrísù e sobretudo de Godwin Chiemerie Egbo e Chibuike Marvellous Egbo. Como foi o processo de encontrá-los – principalmente os meninos, que são irmãos na vida real – e trabalhar com eles para dar vida aos personagens? Akinola Davies Jr: É bom te ver de novo. Sim, agradeço muito o reconhecimento de como a relação e o vínculo entre Ṣọpẹ́ e os meninos são fantásticos. Com Ṣọpẹ́ foi bem fácil. Começamos a fazer uma lista de quem poderia ser o pai, e logo no início, acho que percebemos que precisávamos de alguém com uma estatura imponente e forte fisicamente, mas que também fosse capaz de interpretar esse papel tão delicado. Eu vi Ṣọpẹ́ em um filme chamado His House [O Que Ficou Para Trás], dirigido por outro diretor incrível chamado Remi Weekes, e soube que ele seria capaz de fazer uma interpretação muito emocionante. Então, nos encontramos em um parque e passamos talvez umas duas horas juntos, conversando sobre tudo, e eu percebi rapidamente que ele era alguém com quem eu queria passar algum tempo. Passamos por uma situação bem constrangedora com um rapaz no parque, e o Ṣọpẹ́, de forma muito compreensiva, soube lidar com a situação, e eu percebi que a empatia dele pelas pessoas, naquele momento, era enorme. Então, fizemos uma audição com ele e acho que, desde a audição, já sabíamos que não queríamos ver mais ninguém. E também o Ṣọpẹ́ chegou para o papel com muitas inseguranças, devido à sua ascendência nigeriana, mas ele não passou muito tempo na Nigéria. Então, acho que o fato de ele querer embarcar nessa jornada, testar a si mesmo e enfrentar suas inseguranças e medos foi muito importante para o personagem. A busca pelos meninos foi um pouco mais demorada. Nós fomos para a Nigéria uns quatro ou cinco meses antes de começarmos a filmar, procurando por garotos. Não estávamos necessariamente procurando irmãos, só queríamos garotos que soubessem atuar. Encontramos vários garotos com perfis diferentes. Alguns eram muito bons, outros ainda precisavam se aperfeiçoar, e achei que talvez tivesse encontrado dois garotos. Eles não combinavam muito como irmãos, mas pensei: “talvez a gente consiga contornar isso”. Além disso, eu tinha feito um workshop de atuação talvez um ano antes, apenas para tentar entender melhor os atores, e gostei muito. Então, eu sabia que queria convidar o instrutor para vir ministrar um workshop na Nigéria. Para esse workshop, convidamos os meninos que eu tinha encontrado e também fizemos uma seleção por vídeo para outros meninos, a fim de chegar a um total de 20 participantes; e, nessas gravações, os irmãos [Egbo] estavam presentes. Eu não sabia que eles eram irmãos. No primeiro dia, foram identificados erroneamente, mas eram muito carinhosos, muito gentis um com o outro, e eu não sabia que eram irmãos, mas pensei: “Tem algo muito interessante acontecendo aqui”. No dia seguinte, cortamos 10 dos garotos, e os outros 10 voltaram no segundo dia, e então percebemos que eles eram irmãos de verdade. Acho que toda a equipe de produção ficou muito animada, porque a química que se tem com irmãos é algo muito difícil de fabricar ou recriar com atores. Mas a mãe deles é atriz e roteirista, então eles se lembravam muito bem dos diálogos. Eles não atuaram muito bem, mas se lembravam muito bem dos diálogos. Minha equipe disse que precisávamos escolher esses meninos; eles eram irmãos de verdade e muito parecidos, e isso funcionava em vários níveis. Também preciso dizer que, embora tivéssemos treinadores de atuação para os meninos, o Ṣọpẹ́ foi um fator muito importante para eles. Ele era realmente o pai deles, tanto nas telas quanto fora delas, realmente os orientou. Ele conseguiu extrair ótimas atuações deles ao lado dele, e acho que foi justamente a qualidade do elenco que montamos que fez com que todos realmente soubessem o que estávamos fazendo, acreditassem nisso e se sentissem seguros o suficiente para dar boas atuações. Então, sim, tive muita, muita sorte em encontrar os meninos, mas também muita sorte em ter alguém como ele [Ṣọpẹ́] a bordo. Créditos: Mario Miranda Filho Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Na nossa outra entrevista você comentou que fazer o filme ajudou você e seu irmão Wale a questionar a perda do seu pai, e que vocês fizeram a conexão dessa perda pessoal com o cenário político da época na Nigéria. E eu estava vendo que seu curta-metragem anterior, Lizard, também mescla uma situação real sua com elementos fantásticos, então me parece ser uma marca do seu trabalho. Como foi construir esse equilíbrio delicado entre os elementos autobiográficos com os ficcionais em My Father’s Shadow? O quanto do seu pai há na figura de Folarin e o quanto você diria que é uma criação específica para o filme? Akinola Davies Jr: Essa é uma pergunta difícil, Vini. Eu diria que muito do nosso pai, muitas das características do nosso pai, estão no filme: como ele era, como as pessoas falavam sobre eel. Quando estávamos na rua, foi assim que tentamos criar esse personagem, quando ele encontra pessoas na rua, como as pessoas falam sobre ele, como sentem sua falta, como elas falam sobre as coisas que ele fez por elas, o jeito como a mãe dos meninos o ama e o jeito como ele a ama; isso é exatamente o tipo de história que ouvimos sobre nosso pai. Acho que essas histórias também criam essa imagem dele como um super-herói. Então, para os meninos, queríamos que ele parecesse esse personagem grandioso que, no começo, talvez seja bem durão, mas que, no final, vai ficando cada vez mais gentil. E, além disso, acho que eu e meu irmão – eu tenho outro irmão e uma irmã –, todos nós temos características dos nossos pais. E acho que, muitas vezes, quando fazemos algo, dizemos algo ou nos vestimos de uma certa maneira, todo mundo fica: “ah, isso nos lembra seu pai”. Então, sim, muito do nosso pai foi incorporado ao Folarin; grande parte da imagem do nosso pai está presente no Folarin. Muitas das histórias, como a do irmão do meu pai que se afogou — foi por isso que meu irmão recebeu o nome dele —, e a dos nossos avôs, de ambos os lados, que tinham muitas esposas. Então, essa é a verdadeira história. Algumas das histórias do filme reproduzem as que nos contavam quando éramos crianças. E quanto à política, nossos pais eram muito instruídos, muito conscientes de si mesmos e muito engajados politicamente. Meu avô foi muito proeminente no movimento pela independência da Nigéria. Ele era sindicalista, um advogado de muito sucesso, era uma figura social em Lagos. Então, muitos desses aspectos, especialmente os políticos, estão muito enraizados na nossa família. Nós somos uma família que fala de política o tempo todo. Na verdade, lembro-me de quando tinha 8 anos, disse à minha mãe que um dia seria presidente da Nigéria [risos]. Ela nunca me deixa esquecer isso, basicamente, mas eu já não quero mais isso. Se a gente falar em termos espirituais, eu perdi meu pai há uns 40 anos, mas aqui estamos nós, 40 anos depois, ainda falando sobre ele, ainda fazendo trabalhos que fazem referência ao seu legado. Então acho que, espiritual e ancestralmente, algo mais está acontecendo por baixo; outra coisa aconteceu na escrita com meu irmão, ou na frequência com que desenvolvemos um filme na produção. Com o lançamento no festival, algo mais aconteceu, com os prêmios, o lançamento nos cinemas e agora online. É simplesmente um filme que tem, pelos motivos certos, muita profundidade. Tanta coisa está ligada ao nosso pai, aos homens que conhecemos, aos homens que somos e a muitos dos nossos relacionamentos. Então, o aspecto ficcional disso é a parte fácil, é o filme. Nós não passamos nenhum tempo com nosso pai na vida real. Então, o filme inteiro é uma mitologia baseada nesses fragmentos de memória, nessas histórias que as pessoas nos contaram, e todos nós estamos reunindo todas essas informações e tentando criar algo. Obviamente eu descrevi minha família como sendo bem de classe média, mas o filme retrata a família como sendo bem de classe trabalhadora, é como essa ideia de viajar para longe por causa do trabalho ou da ausência e tentar explicar essa ausência, como é para as pessoas da Nigéria rural. Eu consigo imaginar, vindo do interior, onde todo mundo pode migrar para onde está todo o trabalho. Isso meio que causa uma ruptura nas famílias, causa uma ruptura na forma como nos relacionamos uns com os outros, e ajuda as pessoas a perpetuar um estereótipo de ausência. Então acho que tudo isso é uma referência à família, ao nosso pai, às nossas ideias. É difícil separar essas coisas, mas, ao mesmo tempo, também é fácil separá-las. É muito parecido com o filme, que é muito agridoce. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Brasil e Nigéria são países muito conectados culturalmente e historicamente. Gosto muito daquela cena no filme em que os personagens estão comendo acarajé, porque mostra como, mesmo com um oceano inteiro nos separando, há muitas proximidades entre os dois países. E agora você está tendo a oportunidade de divulgar e falar sobre o filme aqui, em capitais como Salvador e Recife. Como tem sido a experiência da recepção do público brasileiro? O que as pessoas daqui têm transmitido a você ao falarem sobre o que acharam do filme? Akinola Davies Jr: Acho que o público brasileiro tem sido realmente maravilhoso e muito, muito generoso com o filme. Acho que, como você mesmo disse, seja por causa daquele “acarajé”, seja pela política, acho que percebemos que há muitas semelhanças entre o Brasil e a Nigéria. Seja no Ifá e no Candomblé, seja em tantas outras coisas, tantas coisas que a gente não sabe até saber, até ver, vivenciar, ouvir o que nos é revelado. Estou ansioso pelo lançamento do filme no dia 30 de abril, porque acho que, a partir daí, ele estará disponível para que mais brasileiros possam assisti-lo. Agora é só uma pré-estreia e só podemos receber um número limitado de pessoas, mas espero que mais gente se interesse, que mais pessoas negras se interessem e se vejam em uma realidade nigeriana da mesma forma que os nigerianos se veem em uma realidade brasileira. É muito empolgante, porque, para mim, isso mostra que o filme tem a chance de ser maior do que eu imaginava. Acho que o fato de fazer parte de uma família global, uma família da diáspora, em que o Brasil e a Nigéria são como irmãos, permite que eu esteja mais motivado para o próximo filme, para os próximos personagens e para as próximas ideias; e, além disso, vir ao Brasil, a Recife, a São Paulo e a Salvador me faz sentir, de muitas maneiras, como se estivesse voltando para casa. Estou muito animado para o filme ser lançado, acho que a recepção tem sido ótima. Este é o último lançamento nos cinemas do filme e acho que é uma maneira tão linda e marcante estarmos aqui no Brasil promovendo o filme. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Duval e CJ, o filme pra mim evoca muito uma camada metafísica e até mesmo onírica, e acho que a trilha sonora é um dos grandes responsáveis por isso, seja pelos elementos mais atmosféricos como pela intensidade da percussão em sequências como a da praia ou do caos nas ruas. Como vocês buscaram criar uma trilha que se alinhasse ao que Akinola desejava para o filme? Duval Timothy: Acho que o filme e o roteiro deixaram bastante espaço para esse tipo de sequência onírica, que pode ser mais musical do que em muitas outras sequências cinematográficas, simplesmente porque a história se situa entre a realidade, o estado de sonho, a espiritualidade, em todos esses espaços. Então, sim, essas sequências oníricas são provavelmente minhas partes favoritas do filme. Tem uma parte em que os cavalos chegam e estão meio que só de passagem por Lagos, e trata-se basicamente do estado em que eles se encontram ao percorrer esses espaços. Musicalmente é muito legal poder me apoiar, na ternura e em uns aspectos mais suaves e talvez mais inesperados da Nigéria atual, e da masculinidade de uma forma inesperada ou menos típica, e ser um pouco mais indulgente musicalmente. O piano está bem no centro da trilha sonora e tive a sorte de poder entrar com algumas sequências centrais bastante emocionais. CJ Mirra: É isso mesmo: há uma emoção e, nas partes em que você mencionou, ou nos elementos percussivos, você está deliberadamente trabalhando com a tensão. Mas mesmo dentro delas, há a beleza da relação, a atemporalidade da relação, é como relembrar. Então não é como se fosse algo perfeito que está acontecendo no momento, talvez seja uma lembrança distorcida. Nós gravamos, mixamos, brincamos com fitas e formatos que têm uma qualidade granular, que espelhou não só o fato de terem filmado o filme em 16 mm — esse formato lindo e inteligente para apresentar as imagens —, mas também conseguiu ser mais evocativo dos temas menos óbvios do filme. Acho que só com as próprias melodias, as próprias progressões, as estruturas rítmicas, são elementos em que conseguimos realmente nos aprofundar e ter bastante liberdade, bastante espaço para improvisar e, com sorte, tocar o coração de vocês, em tantos lugares quanto possível. Duval Timothy: Sim, eu realmente nos encorajei a seguir nossos instintos ao longo do processo, e a maioria das coisas que criamos não ficou muito literal. Não é necessariamente fácil explicar por que fizemos cada escolha, mas muitas vezes se tratava apenas de um sentimento, e acho que o que acontece com o cinema em geral é que ele pode oferecer uma visão de como algo era. Acho que a vida não parece um documentário, nem os vídeos que gravamos no celular não são como a vida realmente é. Quando a gente pensa em memórias e vivencia coisas que têm um efeito profundo, parece algo grandioso e muito emocionante, de uma forma que a gente pôde explorar neste filme. Nas conversas que tivemos sobre criar – mesmo que fosse algo reconhecível como um piano ou alguns instrumentos nigerianos, como o tambor falante –, seria como se, sonoramente, estivéssemos apresentando aquele elemento mais ou menos como se esperaria dele, mas depois, quase como foi descrito. É como se você imaginasse ver uma maçã, e ela parecesse boa, mas depois você a vira e vê que está toda podre. Por baixo há essa sensação de decomposição ou textura que dá a impressão de degradação. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Não tem como não falar da música que ouvimos na sequência final, A o pade leti odo, é uma canção a capella muito impactante e, naquele contexto, devastadora. Corrijam-me se estiver enganado, mas é um hino cristão tradicional em iorubá, correto? Os acordes dela me fizeram lembrar um hino cristão brasileiro, Alvo Mais do que a Neve, que por sua vez é baseada em um hino tradicional estadunidense chamado Blessed Be the Fountain. O que motivou vocês a trazerem A o pade leti odo para aquele momento específico? Como vocês acham que ela se comunica com aquela sequência? Duval Timothy: Não sei ao certo qual foi o raciocínio por trás dessa decisão. Talvez seja uma pergunta interessante para a equipe de produção do Akinola. A cantora original também é uma das atrizes dessa cena, ela mesma cantou a música. Foi como se a cena já tivesse essa música poderosa, e nós vimos a tradução da letra e, sim, foi realmente interessante. Quero dizer, originalmente, na verdade, não adicionamos nenhuma música à cena porque a voz era tão poderosa e o grupo estava lá. Mas decidimos apenas adicionar um pouco mais de profundidade, palavras e música, e há tipo uma parede cheia de fitas. Quando tocamos isso em Salvador com as bandas locais, a cantora com quem trabalhamos disse: “O que você acabou de dizer é que essa música é como uma canção tradicional cantada por aqui, que tem a ver, eu acho, com a deusa da água, a Mami Wata, que chamamos de ‘Mãe Água’”. É tão interessante que existam esses laços universais e semelhanças entre as culturas e, sim, dentro da mesma cultura em lugares diferentes. É lindo. Queríamos mantê-lo o mais simples possível. A interpretação vocal que tivemos é cantada de forma muito direta, não há nada de mais na interpretação vocal e, então, sim, o piano é igualmente direto e as coisas simplesmente fluem; toda a emoção é tudo o que temos, que foi construída ao longo do filme. CJ Mirra: Essa foi a última coisa a se encaixar; na verdade se encaixou quando estávamos mixando o filme, pegando os elementos do áudio que foram gravados na procissão. Era tão cru, tipo um testemunho da atuação, como quando é uma atuação em grupo, quando você tem um grande grupo de pessoas e elas cantavam como se fosse um funeral de verdade, e dá para ouvir o luto ali. Então, tentamos manter isso o máximo que pudemos, mas não era um trecho muito longo de som para brincar, então combinamos isso com o piano que você [Duval] gravou em Serra Leoa. E depois tínhamos essas outras gravações que foram feitas de forma totalmente independente e depois foram unidas para formar uma sequência fluida que nos leva até o final, e trata-se justamente de manter essa simplicidade. Então, tudo isso se encaixou.
- Coluna | O Mês em Série: Fevereiro
Fevereiro pipocou de estreias e grandes episódios. Tudo foi bom? Infelizmente não Divulgação Comecinho de março, mas vou falar sobre o que estreou de bom e não tão bom em fevereiro. Tivemos alguns sucessos imediatos como Love Story: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bassette , o fenômeno Heated Rivalry finalmente chegou ao Brasil, Industry e O Cavaleiro dos Sete Reinos encerraram suas temporadas em grande estilo. Paradise retornou com sua 2ª temporada e uma surpresa positiva da Marvel com Magnum , que estreou em janeiro, mas eu só consegui ver agora. E claro, também não faltaram minisséries genéricas como 56 Dias e Vanished . Enfim, vamos lá que tem muita coisa para comentar (sem spoilers) além dessas. 📺 Séries comentadas neste mês: O Cavaleiro dos Sete Reinos - 1ª temporada (HBO Max) The Beauty: Lindos de Morrer - 1ª temporada (Disney+) Love Story: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bassette (Disney+) Fallout - 2ª temporada (Prime Video) Falando a Real - 3ª temporada (Apple TV) Industry - 4ª temporada (HBO Max) Devil in Disguise: John Wayne Gacy (Prime Video) De Belfast ao Paraíso - 1ª temporada (Netflix) The Pitt - 2ª temporada (HBO Max) Magnum (Disney+) Memory of a Killer - 1ª temporada (HBO Max) Paradise - 2ª temporada (Disney+) Heated Rivalry - 1ª temporada (HBO Max) O Agente Noturno - 3ª temporada (Netflix) 56 Dias (Prime Video) Vanished (MGM+) Tell Me Lies (Disney+) Sessão Flashback: Scrubs (Disney+) Com isso, vamos lá... Divulgação O Cavaleiro dos Sete Reinos 1ª temporada (HBO Max) Cara, que bela surpresa. O Universo GOT ainda é capaz de ter boas histórias sem partir para a megalomania. A série é pé no chão e a temporada foi escalonando em um ritmo delicioso. Das surpresas do terceiro episódio quando se revela a identidade de Egg até o brilhante quinto, onde acontece a batalha julgamento dos sete, a produção estava brilhante. Ter uma base bem construída é essencial para a fluidez da trama e a conexão com os personagens, sem querer apenas chocar por chocar, mas realmente deixar um impacto. E conseguiu. O último episódio, mais calmo que o anterior, lida com as consequências e prepara o terreno para a vindoura 2ª temporada e digo que me deixou bastante ansioso para as próximas aventuras de Dunk e Egg, sem perder o humor e o deixando bem equilibrado com a violência e a sensação de risco. Divulgação The Beauty: Lindos de Morrer 1ª temporada, episódios 1-6 (Disney+) Galera, Ryan Murphy não se cria comigo. Fiz o teste dos seis com essa série – que basicamente consiste em ver seis episódios antes de desistir. Vi o piloto e até curti esta versão de “A Substância”, mas a medida que avança, vai caindo nos exageros de cafonice que as tramas que Murphy escreve estão habituadas, ao mesmo tempo que parece não haver avanço e só me soam extremamente apelativas para fisgar a audiência de alguma forma e sempre usando de um texto mega expositivo subestimando ainda a nossa inteligência. Só um desespero para chocar que só me leva a crer que ele quer um “falem mal, mas falem de mim”. Eu paro de falar por aqui porque sem tempo, irmão! Divulgação Love Story: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bassette 1ª temporada, episódios 1-5 (Disney+) Então, com esta sempre presente desconfiança de Ryan Murphy, fui conferir Love Story com os dois pés atrás. Para minha surpresa e felicidade, estava sentindo falta dos maneirismos habituais de Murphy e fui pesquisar: ele não escreveu ou dirigiu nenhum episódio, atuou apenas como produtor. Fui ficando cada vez mais envolvido com a história da qual eu não sabia nada. Sarah Pidgeon e Paul Anthony Kelly foram muito bem escalados para os protagonistas e dividem uma química absurda. Ela é extremamente talentosa, ele tem presença em cena, ainda que, sejamos honestos, não consegue acompanhá-la tanto. É o primeiro papel dele e isso é evidente, mas ele não passa vergonha pelo menos. O roteiro às vezes é um tanto didático e não oferece muita nuance, mas está sendo uma ótima experiência acompanhar os bastidores da elite de Nova York nos anos 90 e altos e baixos deste casal, que eu já tenho tanto apreço. A ambientação é fantástica e a trilha sonora é a cereja do bolo. Divulgação Fallout 2ª temporada, Episódio 8 (Prime Video) Usou um pouquinho demais do recurso “meu Deus, não tem mais escapatória! chega alguém para salvar na última hora”, mas foi um bom episódio, com algumas “despedidas” bem bonitas e acho que certas coisas machucam mais que a morte, principalmente em um mundo pós-apocalíptico. Já o reencontro de Maximus e Lucy, que já era esperado, não foi exatamente emocionante. A relação dos dois é muito frágil, não tem uma base sólida e se a série não investe neles, por que a audiência investiria? Mas a promessa de uma guerra me anima e ainda mais a nova jornada do Ghoul, que é, de longe, o melhor personagem. Divulgação Falando a Real 3ª temporada, Episódios 2-5 (Apple TV) O personagem do Brett Goldstein estava me incomodando mais que o normal. Eu já não gostava dele na 2ª temporada, mas havia uma razão para ele existir. Só que agora parece que ele só foi reinserido porque o Brett é um dos criadores e queria que ele estivesse. Felizmente Gabby também o detesta e fez um desabafo emocionante no 2º episódio, ele se tocou e foi embora, rs. No mais, a série continua de vento em poupa, fazendo e rir e dar aquela choradinha a cada fim de episódio. Harrison Ford está em uma das melhores atuações da carreira e o arco dele, especialmente nessa temporada, é emocionante. É como receber um abraço e rever amigos queridos toda terça-feira às 23h. Uma sessão de terapia diferenciada, rs. Divulgação Industry 4ª temporada (HBO Max) Até agora é a melhor série do ano, digo com máxima tranquilidade. Eu sempre adorei, mas é evidente o crescimento neste 4º ano, como está mais madura e sem hesitar de passar dos limites do que é indefensável – oi, Yasmin. A temporada gira em torno do Tender (que na minha visão de mega leigo seria uma espécie de banco digital, mas enfim) e das falcatruas que o CEO interpretado brilhantemente por Max Minghella está orquestrando. Claro que Harper, Eric, Henry e Yasmin estão envolvidos nisso, mas em lados opostos. Ainda que este seja o foco, a série jamais deixa de desenvolver os arcos individuais de cada personagem e faz isso com maestria, até para alguém tão alheio quanto Henry e dá a oportunidade e um material de qualidade para Kit Harrington mostrar do que realmente é capaz. Tudo isso nos leva ao coração da série: Harper e Yasmin. A relação complicada das duas finalmente chega a uma certa paz no belíssimo sétimo episódio, que funciona quase como uma despedida. No último, tudo se esvai quando uma delas toma um caminho sem volta. É triste, mas faz muito sentido onde cada uma termina a temporada e o terreno está mais que preparado para um excelente capítulo final. Eu poderia falar horas, mas a crítica do meu amigo Vinícius já está no ar e aconselho vocês a lerem. Divulgação Devil in Disguise: John Wayne Gacy (Prime Video) Estreou ano passado nos EUA, mas só este mês chegou ao Brasil. Para os fãs de true crime, é imperdível. A minissérie consegue te fazer lembrar True Detective (HBO), Black Bird (Apple TV) e Mindhunter (Netflix), ao abordar em seus oito episódios a mente do tenebroso psicopata, a investigação, o processo de defesa e acusação e ainda a família das vítimas e as próprias vítimas, a cada hora focando em um ou mais dos jovens rapazes assassinados. Não é apelativa, é sombria e impressionantemente não é atropelada ao trabalhar tantos aspectos, com exceção do último episódio em que o flashback da vítima se sobrepõe ao que está acontecendo no presente e o roteiro não trabalha bem nem um nem outro. Mas isso não tira a experiência angustiante, triste e revoltante que foi assistir à produção, que tem uma baita ambientação da época e desperta os mais diversos sentimentos. Divulgação De Belfast ao Paraíso 1ª temporada (Netflix) Se é da criadora de Derry Girls, já se imagina que venha coisa boa. O tipo de humor é muito parecido, escrachado, cheio de acidez e com uma pega no absurdo que eu adoro. Mas desta vez, a trama é centrada em três mulheres e há um mistério de assassinato pelo meio. Inovadora e revolucionária? Não, mas tudo é a forma como se faz. E aqui, para além da veia cômica da coisa, que já é um baita ponto positivo, os riscos são altos e as consequências para as escolhas das protagonistas realmente significam algo. E que protagonistas! Três atrizes fantásticas com personagens bem construídas e que dá gosto de acompanhar, além dos ótimos coadjuvantes que agregam bastante ao enredo. Umas das melhores do ano, vão por mim. Divulgação The Pitt 2ª temporada, episódios 5-8 (HBO Max) Vou confessar pra vocês que não tem um episódio de The Pitt que me decepcione. Mas tem alguns melhores do que outros e estes quatro em especial, focaram em pontos que realmente emocionam. A perda de um paciente querido, o que é, infelizmente, comum para tantos médicos, mas eu gosto como eles tratam aquilo com respeito e mesmo assim, são personagens que falham em outros aspectos, o que os faz ainda mais humanos. O destaque maior desta leva, foi na abordagem delicadíssima de uma moça que foi estuprada. Dana lidera a situação de forma tão cuidadosa, e é um tema tão difícil que quando ela quebra no final, é impossível não quebrar junto. E agora o novo problema do hospital: tudo voltou a ser analógico. Já tivemos um gostinho de toda a confusão e a tendência é aumentar ainda mais. É meu compromisso inadiável de toda quinta-feira e eu simplesmente não queria que acabasse. Divulgação Magnum (Disney+) Estreou no finalzinho de janeiro, eu só consegui ver há pouco e definitivamente não estava no meu bingo gostar de uma série da Marvel em pleno ano de 2026. Mas gente, é MUITO legal. É esperta, engraçada e ainda emociona. O protagonista é um aspirante a ator interpretado por Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen) e talento e carisma não faltam para que a gente goste de e torça por ele. Esse aspecto da metalinguagem é o ponto mais alto da minissérie e ele é inserido de uma forma muito criativa no texto. O lado Marvel da coisa fica para uma conspiração governamental que busca descobrir se um personagem realmente tem poderes. Para isso, os agentes usam do personagem de Ben Kingsley que apareceu em Homem de Ferro 3 como o falso Mandarim. A conexão é uma bela sacada para a trama, mas não é necessário que você assista ao filme para entender. É independente e são oito episódios de meia hora cada que são uma delícia de acompanhar. Divulgação Memory of a Killer 1ª temporada, episódios 1 e 2 (HBO Max) Um assassino por encomenda com início de alzheimer feito por Patrick Dempsey é uma premissa que me chamou atenção e só por ela a gente já sabe que há muito em jogo. No entanto, fica só por aí mesmo. Os episódios que apresentam a narrativa são absurdamente genéricos e automáticos, não têm sal, nem açúcar, nem graça. Gosto de Dempsey, e ainda tem Michael Imperioli (Christopher de The Sopranos) no elenco, mas isso não é suficiente e eles não conseguem fazer milagre com uma coisa que parece ser feita para não despertar qualquer interesse. Eu paro por aqui e não acho que a série terá vida longa. Divulgação Paradise 2ª temporada, episódios 1-4 (Disney+) Eu tenho meus problemas com a temporada anterior e já falei deles na crítica que fiz aqui no site, mas tem coisas que realmente me agradam. O primeiro episódio deste ano foi um dos meus favoritos (junto com o sétimo da 1ª), centrado na nova personagem de Shailene Woodley e apresentando uma perspectiva diferente do que restou do mundo fora do bunker – e tudo parece mais interessante fora do que dentro. O segundo volta a Xavier e é um clichê atrás do outro com o tédio predominando, mas tudo bem. É no terceiro que toda crítica que eu fiz volta à tona. Quando voltamos ao bunker, as reviravoltas estapafúrdias tomam conta do enredo novamente e a ânsia por chocar toma conta no lugar de desenvolver bem a trama. O quarto episódio foi exibido ontem, já março, mas se eu já assisti, não posso fingir que não. Emocionante e com uma certa intensidade focando novamente na personagem de Woodley, a trama se divide com um flashback desnecessário que tem uma clara tentativa de te fazer chorar com um paralelo com o presente, mas falha porque o presente é o que realmente importava nesse contexto e ali é que se conseguiu realmente comover. Divulgação Heated Rivalry 1ª temporada (HBO Max) O fenômeno que deixou o mundo todo em polvorosa chegou ao Brasil e só agora eu assisti. Naturalmente, por todo o hype que há, estava com alguma expectativa. Infelizmente não foram atingidas e a série é só mais uma com um casal “shippavel”. Eles têm química? Inegavelmente, mas isso não é suficiente para disfarçar a pobreza do texto que parece ser escrito por alguém de 15 anos. Os avanços constantes na trama, principalmente nos dois péssimos primeiros episódios, não ajudam a criar uma conexão com os protagonistas. A partir do terceiro, quando outros personagens entram em campo (com o perdão do trocadilho porque o esporte é um mero pano de fundo), há uma leve melhora, mas é tudo tão rápido que não há muita evolução. O famigerado quinto episódio realmente é o melhor, mas tal qual a série como um todo, é uma empolgação exagerada para algo que não oferece profundidade e ter somente seis episódios prejudica ainda mais neste caso. É só mais uma que não justifica todo o alvoroço por ela. Pelo menos não pela maneira como a história é contada, o que para mim é o principal e deixa tudo extremamente maçante de se acompanhar. Divulgação O Agente Noturno 3ª temporada (Netflix) Só de melhorar em relação a 2ª temporada já é bom, mas ainda não tem o carisma da 1ª. Os dez episódios até prendem a atenção, mas a trama em si – que lembra um pouco a espetacular 5ª temporada de 24 Horas – não consegue escapar das próprias armadilhas de tentar se renovar em alguns arcos durante os 10 episódios, enquanto introduz novos personagens e não consegue administrar bem a função de cada um. Temos alguns bons nomes que merecem destaque como Stephen Moyer (de True Blood) e Jennifer Morrison (de House e Once Upon a Time) e contribuem com o avanço da série. Há boas sequências de ação como perseguições, tiroteios e lutas corpo a corpo, o que empolga e disfarça um enredo que alguém já fez melhor em outro lugar. Divulgação 56 Dias (Prime Video) Um jovem casal sensual não é o que parece e há um mistério de assassinato pelo meio. Você com certeza já viu essa sinopse em algum lugar. Não? Mas a maneira que a minissérie se desenrola com certeza você já viu. Eu confesso que achei que seria pior e o primeiro episódio realmente é instigante, com o casal de Dove Cameron e Avan Jorgia se conhecendo e escondendo o jogo e a narrativa não linear – a história é contada de trás para frente – mostra que há um corpo em decomposição no apartamento do rapaz. Bom, se houvesse menos episódios seria melhor porque definitivamente não há trama para oito episódios, o que só deixa a produção inchada e pouco fluida. Cameron e Jorgia têm química, porém enquanto ele é um tanto apático, ela parece estar na escola Sofia Carson de atuação, querendo mostrar que é linda e sensual o tempo todo, sem nada muito além. Divulgação Vanished (MGM+) Falando em minisséries genéricas, Sam Claflin desaparece em um trem na França e sua namorada Kaley Cuoco fica desesperada em busca dele e acaba caindo em uma perigosa rede de intrigas. A premissa parece sair do ChatGTP porque toda a história também. Mesmo só tendo quatro episódios de 40 e poucos minutos cada, é cansativa como tudo vai se repetindo e as reviravoltas são previstas a quilômetros. Puro suco de série feita para algoritmo, mas não consegue nem oferecer um mero entretenimento. Divulgação Tell Me Lies (Disney+) Na coluna do mês passado falei sobre uma série que estava assistindo, mas não disse o nome. Agora vocês já sabem, rs. Nos anos 2000, usávamos muito o termo guilty pleasure (ou prazer culposo, traduzindo). Hoje em dia, pouco se usa, mas é perfeito para definir esta série que não é o suprassumo da qualidade, mas é viciante e não pensar em nada era exatamente o que eu precisava quando dei play. Eu gosto muito de séries adolescentes e se os personagens forem péssimas pessoas, melhor ainda. Todo mundo pega todo mundo, todo mundo se trai e há alguns temas mais pesados que são abordados, como o relacionamento extremamente abusivo entre os protagonistas. Nada é muito profundo, mas não fazem um desserviço, digamos assim, e o entretenimento está sempre em alta com os segredos e mentiras do grupo de amigos. A 3ª e última temporada começa chatinha, mas do meio pro fim entra no rumo de novo e termina de uma maneira agridoce, rindo de si mesma ao som de Toxic. Nada poderia ser mais apropriado. Sessão Flashback: Inaugurando esta sessão aqui na coluna porque sempre estou assistindo a alguma série que já terminou e acho que sempre vale a indicação do que é bom, independente da época que ela é. Divulgação Scrubs (2001-2010) Sim, a série voltou, mas como eu só tinha assistido episódios aleatórios no Canal Sony antigamente, resolvi ver na ordem certa e que delícia. É a típica “série do almoço” (não entendam isso como série para não prestar atenção, por favor), porque é leve, engraçada e sabe tocar em assuntos pertinentes sem perder o tom, ainda conseguindo emocionar. É de Bill Lawrence (criador de Ted Lasso e Falando a Real), então você já sabe o que vai encontrar se quiser dar uma chance. Ainda estou terminando a 1ª temporada – são nove – e a verdade é que até economizo episódios. Ver sem pressa de acabar é uma escolha sábia nesse caso, vai por mim. Nos próximos capítulos... Divulgação A coisa deve começar a pegar fogo em The Pitt e teremos os últimos episódios de Paradise . Jovem Sherlock estreia no Prime Video neste começo do mês e eu estou bem curioso para conferir Juntas e Separadas , nova série do Globoplay. Ainda teremos Scarpetta , nova série com Nicole Kidman, a mulher que mais trabalha no mundo, e Vladimir , estrelada por Rachel Weisz, minissérie da Netflix. Enfim, e tantas coisas mais… até mês que vem!
- Coluna | No Radar #02: É carnaval no Brasil, mas a temporada de prêmios segue forte
Segundo apanhado mensal sobre cinema, TV e os bastidores da indústria Divulgação Chegamos à segunda edição da nossa coluna mensal: um espaço para reunir, a cada mês, tudo o que realmente movimentou o cinema e as séries para mim. Sem muita enrolação (porque a lista está grande), vamos ao que entrou no radar desta vez. Cinema Brasileiro e suas misturas Carnaval recheado de pernas cabeludas e agentes secretos Crédito: Iris Costa/g1 Uma das maiores expectativas deste ano era saber se os bonecos gigantes de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho ficariam prontos para o Carnaval... E ELES FICARAM! Ambos estrearam antes mesmo da semana oficial do feriado. No domingo (8), marcaram presença no primeiro desfile do Bloco do Cinema São Luiz , a primeira agremiação carnavalesca ligada a um cinema de rua no Brasil. Além dos artistas nordestinos, o cortejo contou também com o boneco gigante de Fernanda Torres, que fez sua estreia no ano passado, após sua histórica indicação ao Oscar 2025. Sabe o melhor? Também tivemos a presença da ILUSTRE Perna Cabeluda. Ser brasileiro (e nordestino) é bom demais! Crédito: Iris Costa/g1 Lançamentos comerciais: Neste mês, quis olhar com mais atenção para a quantidade, ou quer dizer, a escassez, de estreias nacionais nas telonas. Foram apenas cinco filmes brasileiros lançados comercialmente, sendo um deles uma coprodução e outro um relançamento (que fiquei felizão em ver São Paulo S.A. na telona). 05/02: • (Des)controle (Rosane Svartman, Carol Minêm) • Zafari (Mariana Rondón) - Coprodução 26/02: • São Paulo Sociedade Anônima (Luiz Sergio Person) - Relançamento • A Miss (Daniel Porto) • É Tempo de Amoras (Anahí Borges) O número representa uma queda considerável em relação a 2025, quando 13 filmes nacionais estrearam no mesmo período. Algumas coisas ajudam a explicar esse cenário, mas os dois fatores principais parecem claros: Carnaval, nem tem o que discutir; Os filmes desta temporada de premiações estão tendo um bom fôlego nas bilheterias, comprimindo a janela para o cinema brasileiro. Mas será que isso é realmente algo que devemos deixar passar? Certeza de que vamos voltar para esse debate muito em breve! Crédito: Divulgação/Cinemascópio Na primeira semana de fevereiro, também tivemos a Semana do Cinema , com ingressos entre R$ 10 e R$ 12... Mesmo com as estreias do dia 05/02 e após 14 semanas em cartaz, O Agente Secreto foi o único filme brasileiro a se manter entre os 10 títulos mais consumidos do período. O longa voltou ao Top 5 dos filmes mais assistidos no Brasil, segundo dados da Comscore, e foi visto por 202 mil espectadores nas salas de cinema apenas neste último fim de semana, chegando à marca de 2 milhões de espectadores do país. No fim de fevereiro, já havia passado de 2,4 milhões em público no país, se tornando o 3º maior filme nacional da década, atrás apenas dos fenômenos Ainda Estou Aqui (5.83M) e O Auto da Compadecida 2 (4.28M). A campanha de O Agente Secreto pré-Oscar: Falando em OAS, o início do mês foi muito bom para ele. Diversas sessões de Perguntas e Respostas, com presença de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura, aconteceram em Los Angeles como parte da campanha do filme. Porém, o destaque mesmo, para mim, foi a força do representante brasileiro nas premiações de críticos que aconteceram. Divulgação O Agente Secreto foi o filme mais premiado do 23º International Cinephile Society (ICS) Awards , vencendo seis categorias. - Melhor Filme - Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho) - Melhor Ator (Wagner Moura) - Melhor Roteiro - Melhor Elenco - Melhor Atriz Coadjuvante (Tania Maria) Antes que digam que é porque deve ter muitos brasileiros no corpo de votantes... não, apenas 7 de mais de 160 membros. Cansei dessa história de que o filme possa estar sendo beneficiado por conta disso. Vejo muita gente dizendo que O Agente Secreto só venceu o Globo de Ouro por causa dos votantes brasileiros, e isso me parece muito mais uma tentativa de descredibilizar o momento. Mesmo que os brasileiros representem 9% do corpo de votantes, isso está longe de explicar uma vitória desse tamanho. O que custa aceitar que o filme foi abraçado? Uma matéria sobre a jornada de O Agente Secreto já está sendo escrita. Sai em breve. Na mesma semana, Wagner Moura saiu premiado como Melhor Ator no Paris Film Critics Association Awards 2026 . No Latino Entertainment Journalists Association (LEJA) , O Agente Secreto saiu com dois prêmios: Melhor Ator (Wagner Moura) e Filme Internacional. Divulgação No mês, Wagner Moura seguiu sendo capa de algumas revistas ao redor do mundo: nos EUA, apareceu na The Envelope, revista do Los Angeles Times dedicada à temporada de premiações; no México, na M Revista do Milenio, precedendo a estreia do longa nos cinemas do país. Mas, em termos de Oscar, algumas informações são primordiais: O filme de Kleber Mendonça Filho finalmente fez sua estreia nos cinemas britânicos, alguns dias depois do BAFTA (que vou abordar mais para frente), indicando que o filme foi bem aceito por lá. Com US$ 560 mil arrecadados (somando com pré-estreias), torna-se a 2ª maior estreia da história para um filme brasileiro nos cinemas britânicos, superando Cidade de Deus. Além disso, o filme também teve a maior estreia de um título em língua não inglesa da história da distribuidora MUBI no país, superando até os US$ 339 mil do vencedor do BAFTA ‘Sentimental Value’. O resultado reacende o fôlego do longa no país, que poderia ter se perdido após a demora na estreia e a clara preferência da distribuidora MUBI pelo filme norueguês. Com o início da votação final para o Oscar 2026, em 26 de fevereiro, O Agente Secreto é um dos destaques representando o Brasil em quatro categorias, e a NEON aparenta estar dando uma atenção especial . Nos últimos dias, vários teasers e pôsteres For Your Consideration divulgados pela distribuidora borbulharam na internet, dando a entender que ela pode ter mudado de ideia. Será que o brasileiro passou a ser o favorito da empresa? Tudo ainda é especulação, mas não vou mentir: estou curtindo demais tudo o que está sendo divulgado. Ah, sem esquecer que a NEON disponibilizou gratuitamente em seu site oficial quatro curtas de Kleber Mendonça Filho. Campanha linda! Berlinale 2026: O Festival de Berlim aconteceu bem no Carnaval, durante os dias 12 a 22 de fevereiro, e tivemos uma enxurrada de nomes brasileiros por lá. Confira todos os filmes brasileiros selecionados para a edição aqui . Na análise abaixo, fiz um panorama bem completo sobre a situação do evento e as polêmicas que aconteceram: Além dos filmes, a série original Globoplay Emergência 53 foi a grande vencedora da primeira edição do Production Excellence Award , o primeiro prêmio para séries da Berlinale Series Market. Era o único representante brasileiro e concorria contra outras 17 séries do mundo todo. A trama acompanha o cotidiano e os desafios de profissionais que trabalham em uma unidade especial do serviço móvel de urgência. Yara de Novaes, Fernanda Montenegro, Valentina Herszage, Heloísa Jorge, Ana Hikari, Raquel Villar, William Nascimento, Jaffar Bambirra e Emilio de Mello compõem o elenco. Divulgação Vencedores do Prêmio Abraccine – Melhores do Ano Na noite do dia 5 de fevereiro, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema ( Abraccine ) revelou suas listas de melhores filmes lançados em 2025. Confira os vencedores do ano: Melhor Longa-Metragem Brasileiro: O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho) Divulgação Completam o top 10: • Baby (Marcelo Caetano) • Os Enforcados (Fernando Coimbra) • O Filho de Mil Homens (Daniel Rezende) • Homem com H (Esmir Filho) • Kasa Branca (Luciano Vidigal) • Manas (Mariana Brennand) • A Natureza das Coisas Invisíveis (Rafaela Camelo) • Oeste Outra Vez (Erico Rassi) • O Último Azul (Gabriel Mascaro) Deu a lógica, apesar de achar que talvez eles reconhecessem Oeste Outra Vez , já que foi um consenso crítico da qualidade do longa. Mas também não discordo do resultado. A trajetória de O Agente Secreto merece ser celebrada também dentro de casa. Fiquei refletindo quais filmes poderiam aparecer aqui e acabaram ficando de fora, e dois vieram em minha mente. Então deixo como dica: Ainda Não É Amanhã, da pernambucana Milena Times: Janaína, jovem de 18 anos que mora com a mãe e a avó na periferia de Recife e, ao conquistar a oportunidade de estudar Direito, vê sua vida transformada, mas precisa lidar com uma gravidez inesperada que desafia seus planos e o futuro da família. A Praia do Fim do Mundo, do cearense Petrus Cariry: Em Ciarema, o avanço do mar destrói casas e desabriga famílias. Alice, uma jovem ambientalista, mora com Helena, sua mãe doente, em uma casa constantemente castigada pelas ressacas. Alice quer ir embora, Helena quer permanecer em frente ao mar. No fim, as duas vão enfrentar seus destinos. Melhor Curta-Metragem Brasileiro: A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero (Rodolpho de Barros) Divulgação Completam o top 10: • Boiuna (Adriana de Faria) • Casulo (Aline Flores) • Como Nasce um Rio (Luma Flôres) • E Seu Corpo é Belo (Yuri Costa) • O Faz-Tudo (Fábio Leal) • Laudelina e a Felicidade Guerreira (Milena Manfredini) • O Mapa em Que Estão meus Pés (Luciano Pedro Jr.) • O Rio de Janeiro Continua Lindo (Felipe Casanova) • Samba Infinito (Leonardo Martinelli) Não sei como funciona a elegibilidade para a categoria de curta no Prêmio Abraccine, mas, dos que não apareceram, recomendo esses dois filmes baianos, que merecem atenção e que, inclusive, foram os vencedores da categoria de Melhor Curta-Metragem no nosso Prêmio Arara do Audiovisual Brasileiro 2025: O Céu Não Sabe Meu Nome, de Carol Aó: Uma neta ressignifica a morte de sua mais velha através das memórias antes não ditas. Ataques Psicotrônicos, de Calebe Lopes: O filme acompanha a noite de um ex-pastor e de uma cientista em busca de solucionar um zumbido que atormenta a mente de Erick. Melhor Longa-Metragem Internacional: Uma Batalha Após a Outra (Paul Thomas Anderson) Completam o top 10: • Dreams (Dag Johan Haugerud) • Foi Apenas um Acidente (Jafar Panahi) • Levados pelas Marés (Jia Zhang-Ke) • The Mastermind (Kelly Reichardt) • Misericórdia (Alain Guiraudie) • Pecadores (Ryan Coogler) • A Semente do Fruto Sagrado (Mohammad Rasoulof) • Sorry, Baby (Eva Victor) • Valor Sentimental (Joachim Trier) Mas nosso cinema não para por aí... SXSW 2026: Divulgação Na nova leva de filmes confirmados na edição deste ano do South By Southwest (SXSW) 2026, dois filmes brasileiros apareceram na lista : Corrida dos Bichos e Apolo . O documentário brasileiro Apolo , dirigido por Tainá Müller e pela sergipana Isis Broken, acompanha a jornada de uma família onde o pai está dando à luz e a sociedade não está preparada para isso. Enquanto acompanhamos a gestação de Apolo, refletimos sobre os diferentes dramas de um casal transgênero. Já Corrida dos Bichos , com direção de Ernesto Solis, Rodrigo Pesavento e Fernando Meirelles, é ambientada em um Rio de Janeiro distópico, onde o mar secou e a paisagem da cidade ganhou outra configuração. Dentro da nova realidade, um dos maiores entretenimentos da cidade é a Corrida dos Bichos, em que apostadores magnatas controlam pessoas de classes baixas, os Bichos, durante uma corrida em busca de um prêmio milionário. O filme acompanha um jovem corajoso na luta para salvar a vida de sua irmã. Matheus Abreu, Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Anitta, Bruno Gagliasso, Grazi Massafera, Seu Jorge, Thainá Duarte, João Guilherme e Silvero Pereira estrelam. Goya 2026: Manas , de Marianna Brennand, concorreu ao prêmio de Melhor Filme Ibero-americano na premiação espanhola. O filme concorre com Belén 🇦🇷, La Misteriosa Mirada Del Flamenco 🇨🇱, La Piel Del Agua 🇨🇷 e Un Poeta 🇨🇴. Divulgação Natália Maia e sua A Estranha Familiar: O filme que marca a estreia na direção de longas de Natália Maia, premiada corroteirista de 'Pacarrete', A Estranha Familiar , foi filmado no Ceará. Na trama, uma mulher retorna à sua cidade natal, no interior, para assumir o cargo de primeira juíza do lugar. Lá, ela se vê no centro de um conflito entre sua irmã, uma radialista que desafia poderosos, e a família da prefeita, com quem tem uma dívida de gratidão. E pense num elenco sensacional?Georgina Castro, Geane Albuquerque, Fátima Macêdo, Nataly Rocha, Dipas, Ana Luiza Rios, David Santos, Demick Lopes, Robério Diógenes e Buda Lira participam. Novo filme estrelado por Selton Mello: Selton Mello estrelará o drama 'I Don’t Even Know Who I Was', de João Paulo Miranda Maria (Casa de Antiguidades). Atualmente filmada em Paris em película 35mm, o filme foi descrito como "uma meditação sobre o luto" e exige que o ator brasileiro atue em quatro idiomas diferentes. Estreia de O Quarto do Pânico direto no streaming Divulgação A adaptação brasileira do longa original Panic Room, dirigido por David Fincher, estreou no Telecine Premium no sábado, dia 14 de fevereiro. Com direção de Gabriela Amaral Almeida, cineasta responsável por filmes como O Animal Cordial e A Sombra do Pai, que gosto bastante, O Quarto do Pânico é estrelado por Isis Valverde e Marco Pigossi e segue uma mulher e sua filha pré-adolescente sendo obrigadas a se refugiarem em um quarto secreto quando ladrões invadem sua residência. Não vou entrar aqui no mérito da qualidade do filme, mas sim no modelo de produção. Produzido pela Floresta, o longa foi lançado diretamente no catálogo do streaming, um formato que já existia com o VOD, mas que vem se tornando cada vez mais comum no Brasil em produções que você imaginava que seriam lançadas diretamente no cinema. Nosso cinema está sendo absorvido pelo streaming e perdendo nosso espaço nas salas de projeção? Gosto muito de uma fala do diretor Kleber Mendonça Filho sobre isso: "O streaming é uma nova e espetacular forma de ver filmes, mas o streaming não pode ter o poder de acabar com a cultura da sala de cinema. São os cinemas que constroem o caráter e a história de um filme". Elizabeth Teixeira eternizada O assentamento Elizabeth Teixeira foi inaugurado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) no dia 5 de fevereiro, na Paraíba, em homenagem à militante das Ligas Camponesas na luta pela reforma agrária. Teixeira foi tema do excelente documentário Cabra Marcado para Morrer , uma das obras-primas de Eduardo Coutinho. Nele, o diretor busca por Elizabeth Teixeira, que vivia escondida e separada dos filhos após o assassinato de seu marido, João Pedro Teixeira, líder do movimento. Cabra Marcado para Morrer está disponível no Globoplay. Premiações e Bastidores: O termômetro para o Oscar Divulgação Em fevereiro, aconteceu o tradicional almoço da Academia para os indicados ao Oscar. Como neste ano estivemos uma chuva de brasileiros, Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura, Gabriel Domingues, Emilie Lesclaux e Adolpho Veloso estiveram presentes. E nos encheram de fotos do evento, como a gente gosta. BAFTA 2026: Na tarde de domingo, dia 22 de fevereiro, a Academia Britânica de Cinema e Televisão (BAFTA) entregou os prêmios da edição de 2026 do BAFTA, que, em muitas categorias, funciona como a principal premiação pré-Oscar, servindo como importante termômetro de tendências e previsões. Ambas as premiações são votadas por profissionais da indústria, e muitos membros do BAFTA também integram a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), responsável pelo Oscar, criando uma amostragem relevante de como os votantes britânicos presentes na Academia norte-americana podem se posicionar por lá. Com seis vitórias ao todo, Uma Batalha Após a Outra foi o grande vencedor do dia e consolida seu favoritismo como o “filme a ser batido”, embora a noite também tenha trazido algumas baixas e surpresas em outras categorias. Vamos a alguns pontos: Paul Thomas Anderson é inevitável Divulgação Não há como não falar da dominância impressionante de Paul Thomas Anderson e seu Uma Batalha Após a Outra. O cineasta segue mostrando que este é, definitivamente, o seu grande ano, e merecido. Após várias temporadas de premiações batendo na porta, desta vez ele a escancarou e caminha para conquistar seu primeiro Oscar, após se tornar um dos poucos diretores com mais de dez indicações sem nunca ter vencido nenhum. Ele já havia sido indicado a Melhor Direção por Sangue Negro (2007), Trama Fantasma (2017) e Licorice Pizza (2021). Agora, com seu novo longa, finalmente consegue sua merecida vitrine: conquistou seu primeiro BAFTA, venceu também o prêmio do Directors Guild of America e, ao que tudo indica, está prestes a completar a trinca com a estatueta da Academia. A esta altura, parece inevitável, tanto em Direção, quanto em Roteiro Adaptado. Do lado das surpresas... Pecadores é tido como o grande e provável vencedor da categoria no Oscar, com Autumn Durald Arkapaw, a primeira mulher negra indicada na categoria, vencendo mais de 30 prêmios pelo seu trabalho. Caso confirme o favoritismo, ela também se tornará a primeira mulher a vencer a categoria em 96 anos de história. Ainda assim, o resultado já não parece tão garantido quanto antes. Divulgação Se já havia uma disputa consistente com o brasileiro Adolpho Veloso e seu queridinho da crítica Sonhos de Trem, agora o BAFTA recoloca Michael Bauman na corrida ao entregar o prêmio de Melhor Fotografia para o longa vencedor da noite, embaralhando novamente o cenário e tornando a disputa mais aberta do que parecia semanas atrás. Do jeito que gosto, rs. Mas, claro, adoraria ter visto o Adolpho subindo no palco e arranhando um pouco de português. O Agente Secreto x Valor Sentimental Não era surpresa alguma que Valor Sentimental era o grande favorito de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, afinal, foi indicado em seis categorias e foi o único título distribuído pela MUBI com campanha massiva. Ainda assim, a noite não foi tão boa quanto eles esperavam, já que o longa saiu com apenas um prêmio. O filme de Joachim Trier tinha boas chances em algumas categorias, especialmente nas de atuações coadjuvantes, com Stellan Skarsgård e Inga Ibsdotter Lilleaas. No saldo geral, vejo como um resultado abaixo do esperado, considerando toda a força da campanha, parecia quase uma obrigação levar ao menos o prêmio internacional. A briga se mantém e vai para o tudo ou nada, onde realmente interessa: o Oscar. Pelo menos dá uma emoção extra. Confira alguns dos vencedores da edição deste ano: Melhor Filme: One Battle After Another Melhor Direção: Paul Thomas Anderson (One Battle After Another) Melhor Ator: Robert Aramayo (I Swear) Melhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet) Melhor Ator Coadjuvante: Sean Penn (One Battle After Another) Melhor Atriz Coadjuvante: Wunmi Mosaku (Sinners) Melhor Filme Britânico: Hamnet Melhor Filme em Língua Não-Inglesa: Sentimental Value Melhor Roteiro Original: Sinners Melhor Roteiro Adaptado: One Battle After Another (Paul Thomas Anderson) The Actor Awards (ex-SAG): O prêmio do Sindicato dos Atores, agora intitulado The Actor Awards, aconteceu no domingo (01) e trouxe até que uma boa dose de “surpresas”. Surpresas entre aspas, porque eu já vinha cantando essa bola há um tempo. Inclusive, para quem se interessa, acertei 6/6 este ano nas categorias de cinema, hein? Era aqui que Pecadores poderia conquistar seus principais prêmios da indústria e balançar ainda mais a corrida para o Oscar. O filme de Ryan Coogler venceu como Melhor Elenco em Filme e Melhor Ator em Filme (Michael B. Jordan), duas vitórias muito discutidas nas últimas semanas. Afinal, na categoria principal, tínhamos Uma Batalha Após a Outra vencendo praticamente todas as grandes premiações (e que também tem um elenco grandioso) e, na de atuação masculina, uma disputa aberta em quatro frentes. De forma geral, o grande “perdedor” da noite não foi o filme de Paul Thomas Anderson, e sim Timothée Chalamet . Também era amplamente discutido o fato de que ele venceu o prêmio no ano passado e havia dúvidas se conseguiria repetir o feito, o que seria algo inédito na premiação. Agora, o protagonista de Marty Supreme não tem um BAFTA nem um Actor Awards para sustentar sua campanha ao Oscar. Temos uma corrida pessoal! E digo mais: Wagner Moura e nosso O Agente Secreto seguem vivos na disputa! Confira todos os vencedores aqui: • Melhor Elenco em Filme : Sinners • Melhor Atriz (Cinema) : Jessie Buckley ( Hamnet ) • Melhor Ator (Cinema) : Michael B. Jordan ( Sinners ) • Melhor Atriz Coadjuvante (Cinema) : Amy Madigan ( Weapons ) • Melhor Ator Coadjuvante (Cinema) : Sean Penn ( One Battle After Another ) • Melhor Equipe de Dublês em Filme : Mission: Impossible - The Final Reckoning • Melhor Elenco em Série de Drama : The Pitt • Melhor Atriz em Série de Drama : Keri Russell ( The Diplomat ) • Melhor Ator em Série de Drama : Noah Wyle ( The Pitt ) • Melhor Elenco em Série de Comédia : The Studio • Melhor Atriz em Série de Comédia : Catherine O’Hara ( The Studio ) • Melhor Ator em Série de Comédia : Seth Rogen ( The Studio ) • Melhor Atriz em Telefilme ou Minissérie : Michelle Williams ( Dying for Sex ) • Melhor Ator em Telefilme ou Minissérie : Owen Cooper ( Adolescence ) • Melhor Equipe de Dublês em Série de TV : The Last of Us Sindicato dos Diretores (DGA): Divulgação E quem venceu como Melhor Direção em Filme no DGA (Directors Guild of America) Awards 2026 , principal prévia da categoria no Oscar, foi… Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) . Completamente previsível e esperado. Até que enfim chegou o ano de PTA rapar todos esses prêmios. Merecido! Na categoria de Melhor Direção de Estreia, Charlie Polinger (The Plague) foi o grande vencedor, desbancando a favorita dos críticos Eva Victor (Sorry, Baby). Nas categorias de televisão, os vencedores foram… • Direção em Série de Drama: Amanda Marsalis (The Pitt - “6:00 PM”) • Direção em Série de Comédia: Seth Rogen e Evan Goldberg (O Estúdio - “The Oner”) • Direção em Série Limitada: Shannon Murphy (Dying for Sex - “It’s Not That Serious”) Protagonismo feminino atinge menor nível em 7 anos em Hollywood Um estudo da USC Annenberg Inclusion Initiative revelou que 2025 registrou o menor número de protagonistas femininas entre os grandes lançamentos em sete anos: apenas 39 dos 100 filmes de maior bilheteria tiveram mulheres em papéis principais. Outro ponto que achei curioso do relatório é o fato de que uma possível fusão entre a Paramount e Warner Bros. (que, no momento, parece pender mais para uma aquisição pela Netflix) seria “altamente prejudicial”, já que as duas estão entre os estúdios com pior desempenho em representatividade feminina e racial. “Esses dados indicam claramente o que uma fusão com a Warner Bros. significaria. Uma fusão entre a Paramount e a Warner Bros. oferece pouca esperança de uma programação de filmes que apresente mulheres e pessoas de cor em papéis principais significativos, condizentes com a população. Uma fusão entre a Netflix e a Warner Bros. resultaria em mais filmes com mulheres e pessoas de cor como protagonistas”, descreve o estudo . Algumas notícias no mundo do cinema que quero que você saiba: Divulgação • A Neon adquiriu os direitos de distribuição de All Of A Sudden , o novo filme de Ryusuke Hamaguch (Drive My Car), nos Estados Unidos. O projeto ainda conta com Virginie Efira e Tao Okamoto no elenco. Cannes? Sem dúvidas! Vem mais uma Palma de Ouro para a distribuidora aí. Divulgaçã • O cineasta sul-coreano Park Chan-Wook foi anunciado como o presidente do júri do Festival de Cannes 2026 . Vem edição histórica aí! • Aclamado no Festival de Sundance, Josephine , dirigido pela brasileira-estadunidense Beth de Araújo, foi adquirido pela Sumerian Pictures nos EUA. Do ponto de vista da temporada de premiações de 2026/27, que aparentava ser o grande concorrente saído de Sundance, foi um passo arriscado, já que é uma nova distribuidora e não tem histórico quanto ao Oscar, mas não quero queimar a língua. Aparentemente foi um acordo caro, então eles têm dinheiro para gastar. Vamos descobrir em breve se o momentum se mantém. Sériemania Divulgação Podemos, de uma vez, voltar a ter séries lançadas anualmente? Ninguém aguenta mais essa “nova” tendência de esperar 2 ou até 3 anos para o retorno de uma série de apenas 10 episódios. Quem reacendeu esse debate foi Vince Gilligan, criador de Pluribus, ao comentar em entrevista sobre o ritmo de produção da série: "Estamos trabalhando duro. Leva muito tempo para criar esses episódios. Estamos mais avançados no processo do que eu gostaria, considerando o número reduzido de episódios que definimos. Mas leva tempo, assim como aconteceu na primeira temporada... Mas não vai ser como 'The Pitt', voltando todo ano. Eu gostaria que fosse, mas não será. Voltaremos no mesmo mês. A questão é descobrir em que ano." Eu amei a primeira temporada de 'Pluribus', e amo o trabalho do Gilligan. Mas sigo sem comprar essas justificativas. Não entendo essas desculpas. Sei que indústrias mudam, e tudo mais. Mas... Enfim. Também tivemos a notícia de que a A24 conseguiu os direitos da franquia O Massacre da Serra Elétrica e está desenvolvendo uma série de TV, com produção executiva de JT Mollner, Glen Powell e Roy Lee. Um filme também está em estágios iniciais de desenvolvimento. Outro assunto que acho que merece a nossa atenção é que Danielle Deadwyler foi anunciada como a protagonista do reboot de Arquivo X , realizado pelo futuro vencedor do Oscar Ryan Coogler. Achava necessário? Não, mas se for pra ter, que seja com esses nomes envolvidos. Estou na expectativa! E Industry , hein? A queridinha do OP foi renovada para sua quinta e última temporada. Quem ainda não assiste tá perdendo uma das melhores séries da atualidade. Falando em HBO, o canal começou as filmagens da série First Day On Earth , criada por Michaela Coel, que também estrela ao lado de Ncuti Gatwa e Thandiwe Newton. Série mais esperada de 2027 por aqui! Divulgação Para ficar de olho (versão nacional): Foi divulgado o teaser oficial de Brasil 70 – A Saga do Tri, minissérie da Netflix sobre o tricampeonato da seleção brasileira. Estreia em 29 de maio. Detalhes de Hilda Furacão : Foram revelados novos detalhes sobre a nova adaptação de "Hilda Furacão" pela Boutique Filmes, que terá entre 12 e 15 episódios e roteiro de Manuela Cantuária. A escritora Socorro Acioli acaba de confirmar que o ator Antônio Pitanga entrou para o elenco da adaptação do livro 'A Cabeça do Santo'. A trama conta a história de um jovem que descobre possuir o fantástico dom de ouvir as preces das mulheres para santo Antônio. Divulgação Notícias extras: Divulgação • As gravações da 2ª temporada de Xógum: A Gloriosa Saga do Japão começaram oficialmente, enquanto a da última temporada de Hacks terminou. • A produtora Fifth Studios vendeu os direitos da série Ruptura para o Apple Studios por uma bolada de US$ 70M. Segundo a matéria, a expectativa é que, com isso, a série dure ao menos quatro temporadas e possua spin-offs. Em Memória Divulgação Infelizmente, o mês também foi de despedidas. Perdemos algumas figuras conhecidas da televisão estadunidense. Aos 48 anos, James Van Der Beek , o eterno Dawson de ‘Dawson’s Creek’, e, aos 53 anos, Eric Dane , o eterno Mark Sloan. Que descansem em paz. Tudo isso, claro, foi noticiado e acompanhado em tempo real no Oxente Pipoca , desde os anúncios até as estreias. Se você quer ficar por dentro de tudo, já sabe onde acompanhar. Notícias, Críticas e Dicas: se inscreva no canal do Oxente Pipoca no WhatsApp
- CARNIÇA: Renata Pinheiro vai adaptar HQ sobre grupo de mulheres cangaceiras que busca vingança — Mercado de Cannes
Projeto da diretora de 'Carro Rei' e 'Lispectorante' está em busca de financiamento, coprodução, distribuição e agente de vendas Divulgação Atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros com o longa Lispectorante , a cineasta Renata Pinheiro embarca no projeto que adaptará a HQ ‘Carniça e a Blindagem Mística’, do paraibano Chico Shiko. Carniça é destaque no Marché du Film 2025 — o mercado de cinema do Festival de Cannes, que neste ano homenageia o Brasil como país de honra. O longa-metragem de Carniça é descrito como um faroeste com cangaceiros que também é um filme de terror e um conto de vingança. A trama acompanha a história de uma mulher atacada por uma gangue de criminosos que roubam seu filho. Ela então faz um pacto para se vingar, seja nesse mundo ou, se preciso for, no próximo. Com filmagens previstas em Pernambuco e com Camila Pitanga citada no escopo do projeto como parte do elenco, Carniça é uma produção da Lupa Filmes e busca financiamento, coprodução, distribuição e agente de vendas. O projeto já passou por mercados como NAF/BIFAN (onde venceu o Prêmio Bucheon de incentivo), Sitges FanPitch e Blood Window (Ventana Sur). “ CARNIÇA representa tudo de bom que a fantasia brasileira pode dar ao mundo: um faroeste com cangaceiros que também é um filme de terror e um conto de vingança. Baseado em quadrinhos excelentes, o projeto de Renata Pinheiro é um dos mais promissores do ecossistema internacional de fantasia no cinema ”, afirma o júri do NAFF ao entregar o prêmio para o projeto. Divulgação: Renata Pinheiro e equipe no set de 'Carro Rei' Durante o Imagineland 2024 em João Pessoa (PB), Renata declarou que o projeto representa uma oportunidade para explorar e reinterpretar uma parte essencial da cultura brasileira e que o filme busca não apenas entreter, mas também provocar reflexões sobre o papel das mulheres na história e na luta contra a opressão. “ Mergulhar na obra de Shiko, para fazer um live-action dessa proporção, foi fantástico, porque também é mergulhar na nossa história. O cangaço, mas na visão das mulheres que se vingam da violência masculina ”, pontuou Renata. Entrevistamos Renata Pinheiro sobre Lispectorante , as influências de Clarice Lispector no longa, a gentrificação de Recife e o trabalho com Marcélia Cartaxo e Grace Passô. Você pode ler a conversa completa aqui . *Esta matéria faz parte de uma série especial que o Oxente Pipoca preparou sobre os filmes brasileiros em destaque no Marché du Film 2025, o mercado de cinema do Festival de Cannes. Com o Brasil como país de honra este ano, acompanharemos de perto os projetos que estão sendo apresentados, explorando as tramas, as equipes envolvidas e as oportunidades que surgem para o cinema nacional no cenário internacional.
- Crítica | Griselda (Minissérie)
Produção da Netflix não foge à regra do streaming: entretém, mas falta profundidade Foto: Divulgação Em seis episódios, a produção narra a ascensão de Griselda Blanco (Sofia Vergara), que dominou o narcotráfico em Miami entre as décadas de 1970 e 1980. No primeiro episódio, já começamos com o pé na porta, o que nos dá uma noção do ritmo da minissérie. Griselda está com pressa, ferida e em fuga de Medellín para Miami com seus três filhos, ainda não sabemos o porquê, mas é fácil prever, mesmo que a narrativa não linear desta primeira hora faça parecer que não. Com muita luta – e algumas conveniências do roteiro – ela vai conseguindo seu lugar ao sol, o que não é nada fácil para ninguém e muito menos para uma mulher, como sempre faz questão de frisar o texto, mesmo que de forma rasa. Desde 1999 com a estreia de Tony Soprano (James Gandolfini) na televisão, a figura do anti-herói foi se popularizando cada vez mais, entre erros e acertos. Demorou um pouco mais para que a mulher tivesse esse espaço, uma personagem feminina que desafiasse os limites do certo e errado, oferecendo um grau maior de complexidade. Tivemos belíssimas personagens femininas na TV, como Nora Durst (Carrie Coon) de The Lerftovers, Alicia Florrick (Julianna Margulies) de The Good Wife, por exemplo, que passavam longe do estereótipo da mocinha, oferecendo um grau maior de ambiguidade, mas não exatamente cometiam crimes. Já a Elizabeth (Keri Russell) de The Americans faria o que fosse preciso pela sua causa, mas sempre amparada por um roteiro muito bem escrito que ressaltava as diversas nuances da personagem. É o que falta em Griselda. Ela é uma mulher ambiciosa, violenta e o contraponto é o amor pelos filhos, mas somente. É uma pena porque a minissérie podia ser bem melhor do que é e é essa falta que torna difícil ter empatia pela personagem em certos momentos. Foto: Divulgação No entanto, acho que vai sim agradar boa parte do público porque o entretenimento está garantido. Mesmo que a direção peque em algumas sequências de ação e que pareçam um pouco engessadas, o ritmo ainda é ótimo, as cenas violentas são bem verossímeis, as reviravoltas não param e o design de produção não faz feio na ambientação, que, assim como os figurinos, combinam com os exageros da personagem-título. Sabe o que combina também? Sofia Vergara. Dona de um carisma inegável, ela se doa ao papel e segura bem as pontas no drama, mesmo que sua caracterização envolva um pedaço da dentadura que Rami Malek usou em Bohemian Rhapsody. O elenco, no geral, é competente, com destaque para Vanessa Ferlito, no papel de Carmen, amiga de Griselda, Alberto Guerra como Dario, seu capanga e futuro marido, Martín Rodriguez como Rivi, seu braço direito e Juliana Aidén Martinez, como a investigadora June. Os personagens, no entanto, são de uma nota só, mesmo com o talento dos atores. Não sei dos fatos reais e não é o ponto compará-los, mas imagino que haja mudanças para fins dramáticos, o que explica algumas facilidades no roteiro e como a minissérie quase desliza ainda mais para o exagero. Não há problema nisso quando o resultado é satisfatório, o que nem sempre é o caso. Algumas sequências funcionariam para a Gloria de Modern Family, personagem que fez Vergara famosa, mas aqui a pegada é outra. Os diálogos expositivos sempre explicam qual o próximo passo e o ponto positivo é que boa parte deles são falados em espanhol, língua nativa dos personagens e o inglês só é usado quando necessário. O que me incomoda principalmente no todo é como o enredo é norteado pelos acontecimentos e somente por eles, sem que haja um desenvolvimento de personagens apropriado. Havia espaço para mais discussões como a misoginia, no tráfico ou na força policial, ou os limites de Griselda, mas a produção escolhe ficar pelo raso mesmo, o que prejudica até na hora que poderia emocionar. Vale a pena ver? Pelo entretenimento sim, mas não espere mais do que isso. Nota: 3/5
- Crítica | As Marvels
Apático e sem propósito, filme não se segura somente no carisma das protagonistas Foto: Divulgação Em mais um filme da Marvel para cumprir tabela, temos a união de Capitã Marvel (Brie Larson), Monica Rambeau (Teyonah Parris) e Ms. Marvel (Iman Vellani). Após uma desestabilização no universo causada por Dar-Benn (Zawe Ashton), uma revolucionária Kree, os poderes das três heroínas se entrelaçam e agora elas precisam trabalhar em equipe para salvar a galáxia. E é com essa premissa genérica, que surge mais um longa que só enfatiza a saturação do gênero e como ele precisa de um descanso e uma reinvenção. Há coisas boas em As Marvels, mas são exceções, quando a regra aqui parece ser a mediocridade. A começar pela vilã, que é fraquíssima. Se bem desenvolvidas, as motivações dela poderiam oferecer um grau de complexidade maior, mas isso não acontece e o roteiro parece não saber muito bem o quer fazer com a moça. Ashton, que é boa atriz, até tenta dar alguma dignidade à personagem, mas parece ser boicotada o tempo inteiro pelo texto carregado de frases de efeitos batidas e um figurino sem qualquer personalidade. Outra coisa que não a fez nenhum favor foram os efeitos especiais, que oscilam bastante entre as cenas. Isso prejudica o filme inteiro e não só a personagem. Ora temos cenas realmente bonitas e críveis, e ora momentos que pareciam não ter sido finalizados. Nia DaCosta é uma ótima diretora e para ter noção real do seu alcance, indico A Lenda de Candyman, de 2021, porque as amarras do Universo Marvel a impedem de mostrar seu verdadeiro talento. As sequências de ação são bem dirigidas e as lutas são bem coreografadas, empolgando de início, mas com o passar do tempo, vão se tornando repetitivas e enfadonhas. Então, quando o filme chega no suposto clímax, não há qualquer impacto, mesmo que haja sacrifícios e cenas que deveriam emocionar, o efeito é o mesmo que olhar para uma parede branca, apática e sem vida. Não atribuo a culpa de maneira alguma a DaCosta, e sim ao eterno mais do mesmo que se tornou a Marvel, que segue um manual de roteiro em seus filmes e séries e tenta guardar surpresas apenas para as famigeradas cenas pós-créditos. É isso que faz parecer que o filme é só mais um degrau em uma escadaria que não sabe direito para onde vai, e está descendo muito mais do que subindo. Foto: Divulgação O roteiro é bastante expositivo e tende a se explicar mais do que o necessário, e ainda assim não supre as lacunas do filme, onde parece que existiram várias ideias com potencial e jogaram em tela, porém sem conseguir desenvolvê-las, o que acaba minando uma de seus maiores trunfos: a relação das protagonistas. Larson está ainda mais confortável na pele de Carol e ela dá o equilíbrio que a personagem pede, mesmo sendo um dos seres mais poderosos do universo, é notável que ainda há humanidade ali. A performance de Parris tem seus altos e baixos. Na sutileza, ela me agradava bastante, mas em determinados momentos mais heroicos, digamos assim, pendeu para o exagero. A menina Vellani é um poço de carisma e exala jovialidade, portanto seus momentos de fangirl da Capitã Marvel soaram genuínos e me arrancaram risadas, pelo menos de início, porque do meio para o fim foram se tornando cansativos. As três funcionam muito bem juntas e mereciam um filme que as valorizassem e soubesse trabalhar melhor seus conflitos internos. Além da ótima química delas, temos algum sopro de criatividade em determinadas sequências. Uma em particular que envolve gatos, mas não vou falar mais para não dar spoilers. Por outro lado, há outras que estão ali somente para uma tentativa de humor, mas que não levam a lugar algum e ainda desperdiça atores talentosos. Isso mostra o desequilíbrio de As Marvels, infelizmente, que tem 1h40 de duração mal utilizadas, porque desde a cena inicial seu ritmo tropeça constantemente. Ainda que este tenha bem mais erros que acertos, Quantumania e The Flash conseguem ser piores, o que só prova que o gênero dos super-heróis precisa respirar. Não adianta encher os cinemas de filmes que não têm nada a dizer, que são transformados em meros produtos, somente porque o Super Fulano ou a Mega Beltrana vão fazer uma participação de cinco segundos, que sabe-se lá quando vai ter importância. Devido as últimas bilheterias, já sabemos que o público está cansado da mesmice e As Marvels é um reflexo disso. Uma pena. Nota: 2,5/5
- Crítica | Com Carinho, Kitty (1ª temporada)
Voltada para o público jovem, série tem personagens cativantes e é uma bela história sobre a descoberta de si mesmo. Foto: Divulgação Lançada como uma das grandes apostas da Netflix neste mês de maio, Com Carinho, Kitty é um spin-off da trilogia de sucesso Para Todos os Garotos que já Amei, também adaptada pelo streaming e baseada nos livros da autora Jenny Han. Neste universo, a personagem Kitty Covey, irmã da protagonista, já se destacava na história e se comportava como uma criança à frente do seu tempo. Por isso, ela era a escolha óbvia para protagonizar essa nova direção da trama, alguns anos à frente dos acontecimentos vistos no último longa. Com dez episódios de cerca de 30 minutos cada, acompanhamos a jornada de Kitty (Anna Cathcart) já adolescente e embarcando para a Coreia do Sul após ser contemplada com uma bolsa de estudos. A jovem vai estudar em uma academia conceituada onde o seu webnamorado também estuda e onde sua mãe também já foi aluna. Porém, ao chegar lá, ela descobre que Dae (Choi Min-young) está em um relacionamento com Yuri (Gia Kim) e mesmo decepcionada, Kitty resolve permanecer na escola para descobrir mais a fundo sobre o passado da mãe e também sobre si própria. Misturando a vibe das séries adolescentes da Netflix como Eu Nunca.. com o sucesso de doramas, Com Carinho, Kitty traz tudo que está na moda entre os mais jovens para uma história que retrata muito bem as descobertas e os percalços da vida adolescente. Kitty, nossa protagonista, é uma menina muito bem resolvida que vai atrás do que quer e que lida muito bem com essas angústias. É uma personagem agradável de acompanhar em uma jornada repleta de clichês do gênero, mas que funcionam bem para o seu público-alvo com uma ótima adição de leveza e bom-humor. Foto: Divulgação Essa fusão entre a cultura americana e coreana também consegue ser bem expressa na série, desde a escolha da tonalidade em alguns momentos específicos até a trilha sonora vibrante que passeia por sucessos do k-pop. O exagero em alguns momentos, que fazem parte em maior e menor medida em séries do tipo, também está presente e pode saturar aqueles que não conseguem mais ter paciência com os dramas da juventude. Mas, Com Carinho, Kitty traz um frescor interessante pela sua pluralidade de personagens com temáticas importantes na vida de quem ainda está tentando descobrir quem é de verdade. Esse é, sem dúvidas, o maior trunfo da série. Essa identificação consegue atingir tanto os que já passaram por isso, quanto os mais jovens que ainda irão passar. Isso tudo com um texto leve, engraçado e bem suave, que mesmo abusando de alguns arcos narrativos já exaustivamente inseridos em séries do tipo, consegue ser diferente por demonstrar essa leveza ao falar de assuntos importantes. Com Carinho, Kitty não é uma série inovadora e nem pretende ser, mas cumpre com seu objetivo de entreter e de ser uma boa dica para quem quer embarcar no mundo adolescente por algumas horas. Nota: 3.5/5












