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  • Crítica | Na Mira do Júri (1ª temporada)

    Experimento coloca à prova os limites de subgêneros da comédia Foto: divulgação A série mostra um grupo de júri num julgamento dos EUA onde tudo é falso e encenado, apenas uma pessoa não sabe disso, o protagonista Ronald Gladden. Juiz, júri, policiais, acusação, defesa e todo o restante das pessoas que aparecem em frente às câmeras são atores. Ronald se inscreveu num site que buscava pessoas dispostas a participar como júri popular num caso que seria documentado para mostrar o dia-a-dia e o processo de um júri popular, além disso esse seria o último julgamento do juiz Alan Rosen (Alan Barinholtz). O programa desenvolvido pelos produtores de The Office – série que popularizou o gênero mockmentary (documentário falso) – tem muitos eixos ao seu favor, começando pelo protagonista até então anônimo. Ronald é carisma puro e duvido bastante que o resultado positivo da série teria se mantido se outra pessoa tomasse seu lugar. Ele é paciente, bom ouvinte, dialoga, ajuda a dar andamento ao roteiro e desenvolve muito bem em cena. O segundo ponto positivo é a estrutura do texto que pensou em quase todas as possibilidades que pudesse comprometer as decorrências. ] O roteiro, apesar de pré-elaborado e ensaiado, teve que se moldar à Ronald e as vezes fazer com que ele se curvasse ao o que havia sido escrito, o que leva ao outro trunfo, o afiado elenco. Formado por nomes até então desconhecidos para as principais lentes de Hollywood e para o público – e precisava ser assim para que o anônimo protagonista não reconhecesse quem quer que fosse. O único nome que ganhou destaque era o do ator James Marsden, que interpreta uma versão exagerada, exibida e as vezes caricata demais de si mesmo. Foto: divulgação Mas como todo experimento, nem tudo são acertos, e existem também um grupo de fatores que impediram a produção de brilhar ainda mais. O primeiro é a curta duração dos episódios e/ou pouca quantidade deles. No último episódio toda a verdade é revelada a Ronald e ele vê junto com o elenco os bastidores da produção, onde também mostram algumas cenas inéditas que ficaram de fora do corte final. São dias de material gravado e por vezes o foco no júri é necessário (por mais que fique repetitivo algumas vezes), mas a quantidade de personagens e subtramas fica com a continuidade truncada em certos momentos. É uma série de comédia, então algumas situações fogem propositalmente do plano real das ideias, mas quando se tem um elemento alheio à tudo alguns limites precisam ser desenhados, e mesmo com esses limites Ronald chegou a questionar a execução de algumas escolhas. Mas, retomando a sagacidade do roteiro, o contexto justificando o confinamento, as câmeras, os microfones e os depoimentos ajudavam a dispersar, ou pelo menos aplacar, parte das desconfianças. Deixando de lado os trâmites e burocracias jurídicas que realmente não são da minha alçada, mas que claramente recebe algumas alfinetadas dos roteiristas, a maior vitória de Na Mira do Júri é brincar com as linguagens e testar suas estruturas e fronteiras narrativas. A manipulação de um conteúdo em detrimento da existência de outro fazem do produto um dos exemplos de originalidade estruturados a partir de propostas conhecidas que ao mesmo tempo que se impõe como referência torna difícil uma continuação e derivação, pelo menos para minha limitada mente criativa. Entre erros e acertos o saldo consegue surpreender e empolgar. Nota: 4/5

  • Crítica | A Noite das Bruxas

    Branagh encontra tom ideal para nova adaptação de Agatha Christie, apesar do resultado instável Fonte: divulgação Em mais uma adaptação dos famosos livros de Agatha Christie, o detetive Hercule Poirot (Kenneth Branagh) agora vive recluso numa Veneza lúgubre pós-Segunda Guerra quando recebe a visita de Ariadne Oliver (Tina Fey). Oliver é uma escritora de romances de mistério e amiga antiga do investigador, e ela o convida para uma sessão espírita numa mansão onde antes funcionava um hospital infantil. Após uma morte inesperada, Poirot vai mais uma vez analisar os personagens e contextos para saber quem foi o responsável pelo crime que coloca suas crenças à prova. Kenneth Branagh é um diretor destemido, ele pouco parece se importar se vai acertar ou errar, parece mais interessado em testar novos métodos e formas. O irlandês já dirigiu de um tudo: adaptações de romances investigativos, adaptação de Shakespeare, filme de herói, dramédia semibiográfica e live action de princesas para a Disney. E por mais que esteticamente seus filmes pouco se pareçam um com outro, em todas elas há uma elegância dinâmica que - mesmo não se tratando de uma fantasia - dá uma nota de sutileza fantástica ao tratar do real. Entre suas versões cinematográficas dos romances investigativos de Agatha Christie essa é certamente a mais madura e mais sólida – o que não necessariamente garante que seja um filme excepcional. Assassinato no Expresso do Oriente (2017) é um filme contido, que não se arrisca muito, mas que também não alcança muito. Morte no Nilo (2022) é um desastre completo, brega, exagerado e descompassado. Nesse, a mescla de noir com suspense sobrenatural deu o tom preciso para a ambientação e desenvolvimento. A fotografia, cenografia e sinuosa trilha sonora ajudam o roteiro a chegar até o final. Fonte: divulgação Mas quanto ao texto não há muito que possa ser feito. O estilo do material original implica um conhecimento quase que detalhado da sequência de ações até seu desfecho. O roteiro tenta brincar com o místico e com o metafísico, mas é tudo em vão quando a conclusão é construída em cima de um detalhe factual. Então por mais sério e sombrio que a produção aparenta ser, o final morno estilo Scooby-Doo tira toda a intensidade. Branagh brilha mesmo é no papel de Poirot que desempenha com estilo desde a primeira oportunidade. Na verdade, todo o competente elenco se mostra bem dedicado e parece levar o filme mais a sério do que ele realmente precisa. Mesmo sendo o mais confiante e confortável filme da, até então, trilogia – graças a estética e ao carisma dos atores – porque o enredo, mais uma vez, faz parecer enfadonho e limitado toda história de whodunnit (e talvez de fato sejam e os longas estejam abrindo meus olhos). Nota: 3/5

  • Crítica | Turismo Selvagem (1ª temporada)

    Vingança é colocada como segundo plano em história sobre um romance problemático Fonte: divulgação Histórias sobre vingança são um argumento comum para histórias da dramaturgia. Revenge, Avenida Brasil e Garota Exemplar são alguns dos exemplos que me vêm à mente quando a temática é essa. Lançada pelo Prime Video na última quinta-feira, Turismo Selvagem teve como sua principal divulgação a ideia de que veremos uma mulher traída em busca de vingança contra o seu marido. Na realidade, a história não é bem assim. Baseada no livro homônimo da autora B.E. Jones, Turismo Selvagem é protagonizada por Liv (Jenna Coleman), uma jornalista britânica que largou seu trabalho e seu país para morar em Nova York ao lado do marido Will (Oliver Jackson-Cohen). Vivendo uma vida quase como uma esposa troféu, Liv descobre que está sendo traída por Will, mas, mesmo assim resolve viajar com ele em uma viagem pelo país. Nesse percurso, Liv imagina diversas maneiras de vingar a traição, mas, quando ela encontra Cara, amante do marido, no meio de uma trilha, a tensão e a raiva guardada chegam ao seu ápice. Primeiramente, a série já se destaca pela qualidade do elenco com a dupla de protagonistas. Jenna Coleman é maravilhosa e passa muito bem todos os altos e baixos de uma mulher mulher traída, ressentida e manipulada por um homem que não a respeita. Já Oliver Jackson-Cohen parece ter se especializado em fazer (bem) homens abusivos, pois seu personagem lembra de uma forma um pouco mais branda o seu personagem no longa O Homem Invisível (2020). Ao som de Look What You Made Me Do de Taylor Swift na sua abertura, a série foi dirigida por So Yong Kim e desenvolvida por Marnie Dickens, e essa presença feminina forte, tanto na trilha sonora quanto por trás da produção, faz muito sentido com a temática feminista proposta pela série. E Turismo Selvagem começa bastante empolgante e segura esse suspense muito bem até o episódio três. Fonte: divulgação Porém, já os seus três últimos episódios parecem perder a linearidade, aumentando o núcleo de subplots não muito significativos para o enredo e ficando mais arrastada que o necessário, já que tudo poderia ter sido resolvido de uma maneira muito mais simples. Talvez o erro foi esperar de Liv algo como Amy Exemplar, sendo que na verdade, a personagem parece não saber se quer vingança ou se quer voltar com o marido. Liv parece não conseguir entender bem os seus sentimentos, causando um contraste e uma quebra de expectativa daquilo que imaginávamos dela. Turismo Selvagem não é uma série ruim. Ela, talvez, só não soube se vender bem. Não é uma trama totalmente sobre vingança, mas sim, de autodescoberta de uma mulher totalmente apagada por um homem, funcionando bem como suspense dramático e não como um thriller de vingança. E, mesmo que em seu arco final, Liv tenha se tornado a estrela dos pesadelos de Oliver, não é a vingança que importa aqui, é o renascer de uma mulher reprimida. Nota: 3.5/5

  • Crítica | Depois da Cabana (Minissérie)

    Minissérie alemã utiliza todos os clichês do suspense de uma maneira surpreendente Foto: divulgação Sendo uma das séries mais assistidas pelos brasileiros na Netflix nesta última semana, a minissérie Depois da Cabana trouxe para o público geral mais uma boa produção alemã de um gênero que está cada vez mais em alta. É fato que suspenses de investigação sempre fizeram sucesso, mas, com cada vez mais novas abordagens e histórias macabras acontecendo na vida real, o fenômeno atrai mais telespectadores a cada novo lançamento. Por isso não é surpresa a Netflix investir em mais um. Depois da Cabana foi lançada no dia 8 de setembro, e conta a história de uma mulher que conseguiu fugir do seu sequestrador e acabou sendo atropelada em uma rodovia. Com uma criança do seu lado, a polícia agora tenta desvendar o quebra-cabeças desse crime que está interligado com o desaparecimento de uma mulher 13 anos atrás. É nesse emaranhado complexo que a sua trama começa a se desenvolver de uma forma ainda muito confusa para o seu telespectador com momentos que misturam o presente e flashbacks do cativeiro. Depois da Cabana consegue manter bem os suspenses e mistérios da história sem deixar o telespectador totalmente à cegas da história. Por exemplo: conseguimos compreender bem a dinâmica do cativeiro, da relação da Lena com os filhos e da relação dos três com o sequestrador, mas, em nenhum momento vemos o rosto do mesmo e nem descobrimos a sua identidade antes da polícia. Foto: divulgação Isso tudo cria uma transficcionalidade interessante entre a série e seu roteiro e o consumidor na sala de sua casa assistindo a Netflix. O objetivo é com que nós, telespectadores, sejamos o detetive da história (ou que pelo menos divida o sentimento com os mesmos), instigando cada vez mais aquele consumo quase viciante que uma série de suspense pode proporcionar. Infelizmente, o formato de binge-watch da plataforma não ajuda o trabalho desses telespectadores-fãs-detetives, mas, é suficiente para quem deseja altos números nas suas primeiras semanas de exibição. Com seis episódios de 50 minutos e baseada em um livro, Depois da Cabana tem o mérito de uma boa produção alemã. Entrega uma ambientação incrível, além de apresentar ótimos atores no seu trajeto. Porém, por se tratar de uma história de um gênero amplamente corriqueiro nas telinhas, a minissérie explora quase todos os clichês conhecidos pelo público e, mesmo conseguindo surpreender em alguns momentos, ainda não consegue se diferenciar das diversas outras minisséries da mesma temática. Mesmo assim, o saldo de maratonar Depois da Cabana é positivo, principalmente, por explorar muito mais as histórias das vítimas do que a do seu agressor.Vale para quem é fã do gênero e também para aqueles que estão buscando um entretenimento viciante ou uma boa produção fora do eixo das produções de língua inglesa. Nota: 3.5/5

  • Análise | 19 Anos de LOST – por que o fenômeno nunca conseguiu ser replicado?

    Quando um sucesso estrondoso aparece, é natural que queiram copiá-lo, mas isso nunca foi suficiente quando se trata de algo como Lost Foto: divulgação Em 22 de setembro de 2004, Lost estreava na rede americana ABC. O episódio piloto mais caro da TV até então – algo entre 10 e 14 milhões, estima-se – foi uma aposta altíssima de Lloyd Braun, o diretor do canal na época. Segundo o crítico Alan Sepinwall, em seu livro The Revolution Was Televised, Braun teve a ideia da série após uma viagem de férias que fez com a família para o Havaí, que seria uma mistura de Náufrago com o reality show Survivor. Em janeiro de 2004, encomendou um roteiro inicial escrito por Jeffrey Lieber. Não muito feliz com o resultado (Lieber havia até mudado o nome para Nowhere), Braun contratou J.J. Abrams, que havia tido sucesso com Alias na emissora, e poderia trazer elementos de fantasia à série como “a ilha ser um personagem e existir algo de errado com ela”, para reescrever o piloto. Com Abrams muito ocupado com outros projetos, chamou Damon Lindelof para colaborar com e criar uma identidade própria para o seriado, focando nos seus personagens, e assim veio a ideia de cada episódio centrado no passado de um deles. No entanto, Lost acabou custando a Braun seu emprego, já que os executivos da Disney, proprietária da ABC, não acreditavam tanto assim em um projeto absurdamente caro que seria inteiramente filmado no Havaí. Um resumo de um resumo de como surgiu esse colosso da teledramaturgia e de como tinha tudo para dar errado graças a uma pré-produção pra lá de incomum. Felizmente não foi o caso. 18.65 milhões de pessoas sintonizaram seus televisores para testemunhar a queda do voo 815 da Oceanic em uma ilha misteriosa. Sucesso não só de audiência como também de crítica, logo houve a encomenda para uma temporada completa de vinte e cinco – isso mesmo – episódios. Coincidindo com a ascensão da internet, a experiência foi expandida porque os fãs queriam teorizar sobre o que acabavam de assistir. Foi questão de tempo para a série ser importada para mais países e ganhar o mundo, tornando-se um fenômeno global. No Brasil, estreou somente em março de 2005 no canal pago AXN e já ganhou muitos espectadores. No entanto, foi apenas em janeiro de 2006 que a Globo começou a exibir a série e a transformou em um sucesso, mesmo com o horário ingrato da madrugada. Não importava como, mas todos queriam acompanhar Lost, seja por DVDs ou outros meios escusos, todo mundo queria fazer parte daquilo. Era outra época e não era nada fácil ter que esperar, principalmente com uma narrativa serializada, coisa que os espectadores da TV aberta não estavam tão habituados. A série tomava proporções gigantescas. Em setembro de 2005, vencia o Emmy de Melhor Série Dramática por sua primeira temporada, e bateu seu recorde de audiência com o episódio de estreia da segunda. 23.47 milhões de pessoas queriam descobrir o que tinha dentro da escotilha. Isso só ao vivo nos EUA, porque ainda demoraria para chegar oficialmente por aqui. Graças a internet, já dava para saber o que tinha acontecido nos episódios e essa globalização foi crucial para essa experiência conjunta, onde pessoas de várias partes do mundo queriam discutir os acontecimentos e tentar adivinhar o que viria a seguir através dos famosos easter eggs escondidos pelos episódios. Quando um mistério era respondido, outros trinta mais surgiam dali. Foto: divulgação Todavia, Lost ia além de ser somente uma “série de mistérios” e era essencialmente um drama, cheio de personagens moralmente ambíguos e complexos, e era através deles que havia discussões aprofundadas sobre temas como vida, morte, destino, ciência e fé. Era isso que fazia a série estar em outro patamar: essa mistura de drama, fantasia, suspense, comédia e ação que deu muito certo, porque havia um time de roteiristas, encabeçados pelos showrunners Damon Lidelof e Carlton Cuse (Abrams deixou o projeto para focar em outras coisas), extremamente competentes que se preocupava com a qualidade do que era visto. Uma trilha sonora original impecável de Michael Giacchino distinguia a trama de outras produções da época, e uma direção cinematográfica, muito bem alinhada por Jack Bender, que era quase impossível se ver na TV em 2004. Obviamente que Lost não foi irretocável por todas suas seis temporadas, mas nunca deixou de ser um fenômeno e que toda emissora tentou por anos replicar, sem muito sucesso. Já em 2006, a NBC estreava Heroes, uma série sobre pessoas normais que ganhavam superpoderes. Tirando o fato do grande elenco principal, com vários personagens diferentes, não havia muita similaridade na história em si, mas é inegável que o sucesso de Lost mostrou que uma grande parcela de audiência estava disposta a embarcar em uma trama de ficção-científica. E estavam certos, porque a primeira temporada de Heroes foi um estrondo, com “save the cheerleader, save the world” pra lá e pra cá. Mas já no episódio final de seu ótimo ano de estreia, a série mostrava sinais de cansaço e a segunda temporada confirmou isso. Não dá para culpar somente a greve de 2008, porque os insuportáveis episódios de Hiro (Mais Oka) preso no Japão feudal já haviam sido escritos, bem como a introdução de péssimos novos personagens, e desse ponto em diante foi só ladeira abaixo. Ainda em 2006, a CBS estreou Jericho, e essa sim era uma tentativa mais descarada de ser a “nova Lost”. Uma nuvem misteriosa surge em uma pequena cidade e os habitantes acham que podem ser os únicos sobreviventes no país. Um grande evento muda a conjuntura e uma nova forma de sociedade se inicia, ainda com doses de mistério que jamais teriam solução, era muito Lost; só faltou ser boa, e foi cancelada depois de duas temporadas. Em 2009, quando Lost já tinha data para acabar, a própria ABC não queria ficar desamparada sem uma de suas galinhas dos ovos de ouro. Então, aparecia Flashforword, que vinculava comerciais com os dizeres “da emissora que te trouxe LOST”. Era a promessa de uma substitua à altura e no excelente piloto fomos enganados. Um belo episódio que apresentava muito bem a trama e seus personagens principais. No entanto, à medida que a série avançava, mais ela se mostrava enfadonha, boba e com personagens que tinham o carisma de uma batata. Passada a empolgação inicial, a audiência caindo semana a semana, foi cancelada no fim da sua primeira temporada e ironicamente terminou junto com Lost. Essa fórmula de “um grande evento + várias pessoas + inúmeros mistérios” tentou ser replicada em The Event (2010-2011) da NBC, que durou somente uma temporada, Revolution (2012-2014), também da mesma emissora, e que conseguiu o feito de ter duas temporadas, Terra Nova (2011) e Alcatraz (2012) da FOX, que não conseguiram passar do 13º episódio. Sense8 (2015-2018), da Netflix, que se diferenciava um pouco das citadas pela direção e fotografia, esqueceu que também deveria investir no roteiro. Na 1ª temporada já era notado certos exageros descabidos, mas ainda foi assistível. No entanto, a 2ª temporada, além de perder a completa noção do que queria contar, não poderia ser mais chata. Apesar de ter muitos fãs, não foi suficiente para sustentar os altos custos da produção e foi cancelada, com um filme – igualmente ruim – para concluir a história. Foto: divulgação Um novo esforço da NBC chegou em 2018 com Manifest, onde um voo – risos – reaparece cinco anos após ter decolado, mas para os passageiros foram apenas cinco horas. Pela premissa já se nota que segue a fórmula citada acima e, na minha opinião, também falha nela. Não passei do episódio piloto, que não é de todo mal, mas não chegava aos pés do que ela queria imitar. Foi cancelada após três temporadas pelo canal original e resgatada pela Netflix para uma quarta e última. Houve um certo burburinho em torno dela, mas nada que chegasse perto do que Lost foi. Outra mais recente, que tem a direção de Jack Bender e o protagonismo de Harold Perrineau (Michael em Lost), é From. Não só o nome curto já nos remete ao sucesso da ABC, como os nomes por trás e na frente das câmeras. Um grupo de pessoas está preso em um lugar do qual eles não sabem como sair – risos – e monstros vampirescos surgem quando o sol se põe. Investindo mais no terror, a série entretém, mas em uma temporada de 10 episódios já mostrou que não tem muito cacife para se segurar por muito tempo. Ainda não comecei a 2ª temporada e uma 3ª já está encomendada. Se eu vou chegar até lá, ainda não posso afirmar. Eu poderia citar inúmeros nomes de tentativas frustradas por aqui, mas devo dizer que a única série que se assemelha ao fenômeno de Lost foi Game of Thrones. Sim, isso mesmo que você leu. A gigante da HBO expandiu a experiência para além da TV, e era na internet que os fãs teorizavam e ansiavam pelo próximo episódio. Foi mais uma série que uniu milhões de pessoas ao redor do mundo em prol dela, assim com Lost. Eu sei que as tramas das duas pouco têm a ver – apesar dos elementos de fantasia – e que GOT tem seu próprio material fonte, mas quando penso no sucesso de uma, penso na outra, principalmente com fandoms fervorosos que criavam teorias até melhores do que vistas nas séries. E claro, os finais que dividiram opiniões pelo globo inteiro. O mundo estava com os olhos virados para as duas, seja em maio de 2010 ou de 2019, e uma grande parte odiou. Eu, pessoalmente, adoro e defendo o final de Lost, mesmo não gostando da última temporada como um todo. Já GOT não tenho como defender nem a temporada, nem o final, porque a patacoada foi sem tamanho. Foto: divulgação Não há nada errado em se inspirar, até porque na própria Lost há elementos de Twin Peaks (1990-1991; 2017), Arquivo X (1993-2002; 2016-2018), Senhor das Moscas (1954) e outras obras. Porém, é imprescindível que haja uma identidade própria, que não se queira somente copiar o que seria para homenagear. Mas afinal, por que essas tantas outras que queriam beber da fonte de Lost não conseguiram arrebatar o público da mesma maneira? Não há uma resposta exata, mas é inegável que a série foi O fenômeno cultural dos anos 2000 e se beneficiou direta e indiretamente do seu tempo. Ocorrer em conjunto com o advento da internet foi fundamental para o sucesso, mas isso não faria efeito se a série não fosse realmente boa. Não havia por que as pessoas se engajarem tanto em algo se não fosse recompensador. E Lost era. Ela esteve no ar na mesma época que séries como The Sopranos (1999-2007), The West Wing (1999-2006), The Shield (2002-2008), The Wire (2002-2008), que tinham um alto padrão de qualidade e uma gama de personagens extremamente complexos. Então as portas estavam abertas também nesse ponto, de que a audiência não deveria ser subestimada com uma simples história de mocinhos/vilões. Diversas vezes Lost apresenta e depois subverte esses conceitos maniqueístas, e mostra que as imperfeições são inerentes a nós seres humanos. Uma das principais teorias que permeavam a internet no início era que a ilha seria um purgatório, o que nos leva direto à noção do pecador e como era mostrado flashback atrás de flashback, que aquelas pessoas erravam muito mais que acertavam, e olha a breguice: estavam perdidas onde quer que estivessem, na ilha ou fora dela. Uma série não se basta de perguntas, e foi aí, a meu ver, que muitas “novas Lost” erraram. Bolar um mistério principal e não cuidar dos personagens, daquelas pessoas que vamos acompanhar por anos, é pedir para fracassar. É crucial que a audiência se importe com eles, se apegue a eles. Isso vale para toda e qualquer série: os personagens têm que ser bem construídos, têm que ter peso. Lost tinha um elenco enorme e não dá para dizer que eu gostei de todos, mas que pelo menos eu me interessava em saber o que aconteceria com a maioria, me emocionava com as mortes e os reencontros. Não faz sentido investir anos da sua vida só para descobrir algo se você não se importa com quem você assiste, e é por isso que eu gosto do final. Mesmo com algumas respostas insatisfatórias, outras que nem vieram, o fim é sobre eles e era por Jack (Matthew Fox), Kate (Evangeline Lilly), Sawyer (Josh Holloway), Locke (Terry O’Quinn), Sayid (Naveen Andrews), Hurley (Jorge Garcia), Sun (Kim Yoon-jin), Jin (Daniel Dae Kim), Shannon (Maggie Grace), Charlie (Dominic Monaghan), Claire (Emilie de Ravin), Boone (Ian Somerhalder), Michael (Harold Perrineau Jr.), Desmond (Henry Ian Cusick), Ben (Michael Emerson), Juliet (Elizabeth Mitchell) e tantos outros nomes marcantes que a grande maioria estava ali. Eu pelo menos estava, e mesmo que eu quisesse respostas, não dá para responder tudo, como Lindelof aprendeu na também espetacular The Leftovers (2014-2017), onde algumas das melhores qualidades de Lost foram aprofundadas e lapidadas, mostrando que boas histórias podem ser semelhantes e não meras cópias.

  • Análise | O reflexo da filmografia de Greta Gerwig em Barbie

    Diretora compreende as dores e os prazeres de ser mulher em uma sociedade patriarcal Foto: Getty Imagens “Hi Mom and Dad, it's me, Christine. It's the name you gave me. It's a good one. Dad, this is more for Mom. Hey, Mom, did you feel emotional the first time that you drove in Sacramento? I did and I wanted to tell you, but we weren't really talking when it happened. All those bends I've known my whole life, and stores, and the whole thing. But I wanted to tell you I love you. Thank you, I'm... thank you”.* Em 2017, Greta Celeste Gerwig fez sua estreia na direção solo com o longa Lady Bird: É Hora de Voar. Também roteirizado por ela e descrito como uma história semi-biográfica onde conhecemos Christine, uma jovem que vive em Sacramento e que deseja estudar artes em Nova York. Quando assistimos Christine, também somos apresentados a fragmentos dessa artista que se destaca cada vez mais no cenário mundial. Lady Bird não foi a estreia de Greta em Hollywood. Inicialmente com uma carreira voltada à atuação, é em 2008 que ela dá os seus primeiros passos nos bastidores. Com Nights and Weekends, Greta dirige e co-escreve junto a Joe Swanberg uma história sobre um casal que, mesmo apaixonado, decide terminar a relação por morar em cidades diferentes e não poder solucionar os problemas e as tensões. Com traços muito fortes do Mumblecore, movimento artístico-cinematográfico independente, o longa mostra os primeiros passos de Greta como uma roteirista preocupada com a qualidade dos diálogos nas suas histórias. Em 2010, ela conhece Noah Baumbach e juntos os dois firmam uma parceria dentro e fora das telas que dura até hoje. 2012 marca esse início com Frances Ha, filme que ela estrela como protagonista e também trabalha como co-roteirista junto de Baumbach. Sem entrar no mérito da direção feita por Noah, temos um longa que traz uma protagonista forte e que se joga na direção dos seus sonhos, mesmo sua família e o mundo sendo contra os seus desejos. Frances vive em Nova Iorque, mas na realidade não tem um apartamento. Ela é aprendiz de uma companhia de dança, mas não é realmente uma dançarina. Ela tem uma melhor amiga, Sophie, mas já não se falam. Assim, ela parte em busca dos seus objetivos, apesar de ser pouco provável que se realizem. Frances Ha é uma fábula moderna, que usa a cidade mais solitária do mundo como casa de uma jovem que está tentando se encontrar e captura em detalhes a forma como jovens adultos buscam lidar com a vida. É ainda utilizando os cenários nova-iorquinos que Greta Gerwig repete a parceria com Baumbach. Co-roteirizando e protagonizando, em 2015, o filme Mistress America como a personagem Brooke Cardinas. Na história, conhecemos Tracy, uma jovem certinha e solitária, que, ao conhecer sua futura irmã postiça, Brooke, vê sua vida se transformar a partir da vida sem regras em que ela vive. Brooke é sociável, bem-humorada, sorridente, intensa, com forte certeza sobre si mesma e suas atitudes. É uma personagem forte e cheia de nuances, em uma variação da premissa do longa anterior dos dois, onde o foco não é a busca pela autoaceitação, e sim, pelo anseio de deixar a sua marca no mundo, sendo vista e notada pelos outros. Os diálogos espirituosos em Mistress America se repetem dois anos depois no já citado aqui Lady Bird: É Hora de Voar. O longa divisivo na carreira de Greta é marcado, novamente, pela qualidade da sua narrativa e pelas nuances subjetivas que permeiam a história de sua protagonista. As banalidades da vida e dos percalços da adolescência são transpostos na tela com a maior delicadeza possível, onde a nossa personagem principal tem uma relação dolorosamente identificável com sua mãe. Em Lady Bird, Greta tem em mãos duas personagens femininas totalmente opostas, repletas de angústias, e é nesse cenário em que ela realmente brilha, destacando um relacionamento que costuma ser complicado e onde o público feminino se depara com algo completamente identificável. Provando o seu sucesso e sendo indicada ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção, Greta chega aos holofotes de Hollywood em seu ápice e possui a responsabilidade em dar continuidade a sua carreira de sucesso como diretora. O projeto escolhido foi, somente, a sétima adaptação cinematográfica do romance de 1868 de Louisa May Alcott. Adoráveis Mulheres foi lançado em 2019 e o envolvimento de Greta levou em conta uma questão pessoal. Em uma entrevista, a diretora afirmou que o clássico da literatura foi responsável pela sua vontade de se tornar uma escritora e realizadora de cinema. Adoráveis Mulheres é o primeiro filme blockbuster de Greta e é uma crônica de época sobre as irmãs March nos anos seguintes da Guerra de Secessão nos Estados Unidos. Acompanhamos Jo, Amy, Meg e Beth March de meninas à mulheres, cada uma com uma perspectiva e ideal diferente sobre o que é ser mulher e sobre suas próprias vontades. Greta encontrou o modo perfeito de adaptar uma história já bastante conhecida do público, dando uma profundidade bem maior às quatro irmãs protagonistas. A escolha de uma narrativa não-linear, em uma divisão de arcos muito bem organizada, encontramos quatro mulheres que entendem de formas diferentes o papel da mulher dentro daquele século em um roteiro que não menospreza as escolhas delas, independente de quais sejam. Jo deseja se tornar uma escritora de sucesso, Meg quer casar e formar uma família, Amy quer encontrar o amor e Beth está em busca da música. Todas as decisões destas mulheres são validadas em um roteiro que desmonta a visão patriarcal de 1860. Mas, foi na última semana que Greta Gerwig se consolidou como um dos nomes mais fortes da nova geração de diretores hollywoodianos. Ela se tornou, com a estreia de Barbie, a diretora feminina com a maior bilheteria em seu fim de semana de lançamento. Nas mãos de Greta, a responsabilidade de transpor às telas um longa esperado por anos, que se apropria da ideia da boneca mais famosa do mundo para fazer uma crítica aos padrões de beleza impostos pela sociedade. Não era uma tarefa fácil e poderia dar muito errado. Mas, o texto de Greta e Baumbach mescla tudo isso com um deboche satírico e real do patriarcado e das pequenas felicidades e alegrias de ser mulher em uma sociedade que nos oprime diariamente. Trazendo personagens fortes, assim como nos seus longas anteriores, a Barbie de Greta Gerwig é vulnerável, sentimentalista e está aberta a descobrir o que existe além do mundo em que ela vive. Explorando novas possibilidades e enfrentando medos, ela vai em busca do seu propósito e da sua autodescoberta, algo que as personagens anteriores de Greta vivem com uma certa frequência. Outra temática abordada em Barbie que é vista pela filmografia da diretora é a relação entre mães e filhas. Seja uma relação de cumplicidade (como vemos em Adoráveis Mulheres) ou em uma relação conturbada (Lady Bird), Greta sabe bem como demonstrar nas telas as nuances dessas relações e vemos isso em Barbie, mesmo que de uma forma um pouco mais superficial, com as personagens da Gloria e da Sasha. Os grandes monólogos das suas personagens parece que já se tornaram marca registrada em longas de sua autoria. Em Lady Bird, a cena final contempla perfeitamente o relacionamento de Christine com sua mãe, em uma belíssima declaração de amor e de independência. Já em Adoráveis Mulheres, Jo March reflete sobre o fato das mulheres serem vistas como seres existentes apenas para amar e casar com um homem e não como pessoas complexas, que possuem sonhos, ambições e talentos. Em Barbie, a personagem de Gloria quase que completa os pensamentos de Jo March interpretados para a sociedade atual. "É literalmente impossível ser mulher", explica ela no início. O que para alguns pareceu didático e piegas demais, para outros representou algo que não é visto com frequência em grandes blockbusters no cinema. A representação do cansaço feminino e da angústia que são vividas diariamente com o sentimento de nunca ser suficiente. "Eu estou tão cansada de me enxergar e enxergar as outras mulheres presas em nós para que as outras pessoas gostem da gente. E se tudo isso acontece também com uma boneca que representa as mulheres, eu não sei o que fazer". Foi Gloria que falou, mas poderia ter sido eu, você ou qualquer mulher que você conhece. Barbie é Greta Gerwig em sua total potência, deboche e crítica ao patriarcado que segura todas as mulheres (suas personagens inclusas) para trás. Recomendo fortemente se, caso você tenha gostado do filme que assistiu recentemente, visite ou reviste a obra cinematográfica de Greta pensando nessas representações femininas. É difícil não se identificar, mesmo com o sentimento agridoce, com as dores e os prazeres de ser mulher. Que bom que Greta Gerwig pode contar as nossas histórias. * “Oi mamãe e papai, sou eu, Christine. É o nome que vocês me deram. É um bom nome. Pai, isto é mais para a mãe. Ei, mãe, você se emocionou na primeira vez que dirigiu em Sacramento? Eu sabia e queria contar a você, mas não estávamos realmente conversando quando aconteceu. Todas aquelas curvas que conheço a vida toda, e lojas, e tudo mais. Mas eu queria te dizer que te amo. Obrigada, eu sou... obrigada”.

  • Oscar 2024: Submissões a Melhor Filme Internacional

    Longas selecionados para representar os países na 96ª edição do Oscar Fonte: Divulgação Anualmente, as Academias de Cinema de diversos países do mundo escolhem um filme para representar e disputar o troféu de Melhor Filme Internacional. Na história da premiação, mais de 60 nações já foram indicadas, incluindo o Brasil por 4 vezes, e delas 28 venceram, sendo a Itália a maior vencedora da categoria. Os critérios para que um filme possa ser submetido é, além de ter estreado no ano corrente em seu país natal, não ter mais de 50% de suas falas em inglês, ter mais de 40 minutos e ter pessoas daquele país envolvidas ativamente no controle criativo do longa. Alemanha A atual detentora do Oscar na categoria, já que venceu em 2023 com Nada de Novo no Front, escolheu The Teacher’s Lounge para representá-la. O longa de İlker Çatak venceu 5 troféus na maior premiação do cinema alemão, o German Film Awards, e segue uma professora (Leonie Benesch) que decide ir ao fundo da questão quando um de seus alunos é suspeito de roubo. Nos Estados Unidos, o filme é distribuído pela Sony Pictures Classic. Fonte: Divulgação Austrália Indicado uma vez na categoria, o maior país da Oceania entra na disputa pelo Oscar 2023 com ‘Shayda’, filme de Noora Niasari. Produzido pela super-estrela e 2 vezes vencedora do Oscar, Cate Blanchett, e estrelado por Zar Amir Ebrahimi, iraniana premiada em Cannes 2022, o longa segue refugiadas do Irã em um abrigo australiano, onde são confrontadas com a violência da qual tanto tentaram escapar. Bolívia Com um histórico de dois filmes desqualificados e uma submissão retirada, nossos vizinhos latinos irão para o Oscar 2024 com El Visitante, de Martín Boulocq. A história segue Humberto, um ex-presidiário que busca se reencontrar com a filha que mora com os avós, grandes figuras do contexto evangélico de uma pequena cidade boliviana. Bósnia e Herzegovina Indicado pela última vez com o ótimo Quo Vadis, Aida?, a Bósnia será representada por Excursion, de Una Gunjak. Estreante na direção de lonas, Gunjak dirige sobre a vida de uma adolescente que, após uma pequena mentira, vê uma tempestade encobrir suas relações. Bulgária Nunca indicado, o país tentará o Oscar 2024 com Blaga's Lessons, de Stephan Komandarev. Premiada por sua interpretação, Eli Skorcheva interpreta uma professora que, após sofrer um golpe, decide se tornar uma golpista. Canadá Tendo vencido só uma vez a categoria, com The Barbarian Invasions em 2004, o segundo país do mundo entra na disputa pelo Oscar com o documentário Rojek, do diretor Zayne Akyol, sobre ex-membros do grupo terrorista Estado Islâmico e suas motivações, a partir de entrevistas. Chile O país latino, que já venceu o Oscar em 2018 com Uma Mulher Fantástica, surpreendeu e não será representado por El Conde, aguardado filme de Pablo Larraín, tendo escolhido Los Colonos como seu candidato. De Felipe Gálvez Haberle, o filme, exibido em Cannes, apresenta a dolorosa experiência de um jovem enviado para uma missão sangrenta com objetivo de limpar uma extensão de terra de povos indígenas para o rapaz que a possui. A MUBI é responsável pela distribuição do longa nos Estados Unidos. Fonte: Divulgação Colômbia Indicada somente uma vez em 2016 com El abrazo de la serpiente, nossos vizinhos escolheram o drama Un Varón, de Fabián Hernández, para representá-los. Situado no meio de Bogotá, o longa acompanha um jovem que é surpreendido pela violência em seu bairro após sair do abrigo onde vive durante o Natal. Coreia do Sul País que fez história no Oscar com Parasita, a Coreia do Sul será representada em 2024 por Concrete Utopia, filme de Um Tae-Hwa. Na trama, um terremoto torna grande parte de Seul uma ruína e seus sobreviventes descobrem que o caos está apenas começando, quando tentam restaurar a ordem. Croácia Nunca indicado, o país nos Balcãs vai para a disputa do Oscar com Traces, filme de Dubravka Turić sobre uma cientista que começa a refletir sobre, dentre outras coisas, a longevidade e a solidão, após a morte de seu pai. Estônia Nunca indicado, o país do Leste Europeu escolheu o documentário Smoke Sauna Sisterhood, de Anna Hints, como seu representante por sua trama que une um grupo de mulheres em uma sauna para compartilhar seus segredos, frustrações e experiências. Holanda Três vezes vencedora do Oscar de Melhor Filme Internacional, a Holanda escolheu Sweet Dreams, filme de Ena Sendijarević, como seu representante na disputa de 2024. No longa, a veterana atriz Renée Soutendijk, que venceu em Locarno por sua atuação, interpreta uma viúva que obriga o filho e a nora a viajarem da Europa para a Indonésia e assumirem as propriedades da família. Japão Filme que deu a Kôji Yakusho o prêmio de Melhor Ator em Cannes 2024, Perfect Days representará a Terra do Sol Nascente no próximo Oscar. Dirigido por Wim Wenders, conhecemos o passado de um limpador de banheiros após uma série de encontros imprevisíveis. Fonte: Divulgação Lituânia Nunca indicado, o país europeu terá o romance Slow, de Marija Kavtaradze, como seu representante no Oscar 2024. Exibido em Sundance, o longa acompanha o encontro entre uma bailaria e um intérprete de libras. Peru Nossos vizinhos indicados somente uma vez vão tentar chegar ao Oscar com La Ereccíon de Toribio Bardelli, de Adrian Sava, filme sobre uma família disfuncional que, após a morte da matriarca, precisa reavaliar suas escolhas. Fonte: Divulgação Romênia Pela quarta vez, o diretor Radu Jude será o responsável pelo representante da Romênia no Oscar. Dessa vez o escolhido foi Do Not Expect Too Much From The End Of The World, filme co-estrelado por Nina Hoss sobre uma uma assistente sobrecarregada responsável por fazer um vídeo making of, até que, no vídeo, uma das funcionárias revela a negligência da empresa e, a partir daí, vários eventos acontecem. O país da Transilvânia já foi indicado ao Oscar em 2021 pelo documentário Collective. Suíça Duas vezes vencedor do Oscar, os suíços foram os primeiros a revelar sua escolha e decidiram apostar em Thunder, longa de Carmen Jaquier que versa sobre o retorno de uma adolescente a sua casa no interior para trabalhar na fazenda dos pais. Tajiquistão Marcando somente sua terceira submissão, o país asiático colocou Melody na disputa pela estatueta dourada. O filme de Behrouz Sebt Rasoul gira em torno de uma jovem musicista determinada a compor para crianças que lutam contra o câncer, usando os sons gravados de pássaros, apesar da presença de caçadores na área. Taiwan O país do lendário filme O Tigre e o Dragão escolheu a comédia Marry Me Dead Body (Um Romance do Além) para o representar no Oscar 2023. Responsável pela 7ª maior bilheteria do país, a trama, disponível na Netflix, segue um detetive que, após encontrar um envelope, se casa com um fantasma gay, enquanto precisa solucionar um crime. Fonte: Divulgação Tunísia Indicado somente uma vez à categoria, o país africano submeteu o vencedor do Golden Eye de Cannes 2023, Four Daughters, de Kaouther Ben Hania. A trama, que mistura documentário e ficção, é explorado o caso de duas irmãs desaparecidas na Tunísia e a família que as lamenta. Uruguai Nossos vizinhos, que já tiveram sua única indicação revogada devido à alegação de fraude, submeteram a comédia Family Albums, do diretor Guillermo Rocamora, como seu representante. O longa é discorre sobre amadurecimento na medida em que explora os laços entre pais e filhos no vibrante mundo das bandas de rock. *Texto em constante atualização

  • Crítica | Você Não Tá Convidada Pro Meu Bat Mitzvá!

    As dores e delícias da adolescência feminina sob a ótica judaica Foto: divulgação Nos primeiros minutos de Você Não Tá Convidada Pro Meu Bat Mitzvah!, a protagonista e narradora Stacy Friedman (Sunny Sandler) nos descreve ritos de passagens de diversas culturas e povos pelo mundo, incluindo uma, contada por seu pai, de um dos povos amazônicos onde é preciso suportar a dor das mordidas de uma espécie de formigas para se provar um adulto. Porém, segundo Stacy, essa cerimônia e a dor infligida não são nada comparadas a ser uma “garota adolescente”. Esse minuto inicial do filme já apresenta eficazmente a proposta do filme de trazer esse olhar auto-referencial, mas sincero, sobre o que é crescer, especialmente quando se é mulher. O diferencial aqui é em trazer essa perspectiva a partir da cultura judaica e dos seus ritos de passagem próprios, como o bat mitzvah do título, bem como em contextualizar esse processo dentro das dinâmicas da geração Z. Além disso, o filme consegue ir além de ser mais uma comédia estrelada por Adam Sandler para dessa vez fazê-lo dividir os holofotes com sua família da vida real, em especial sua filha Sunny, que é a verdadeira estrela do longa. A trama não poderia ser mais simples: às vésperas do seu bat mitzvah, a relação de Stacy com sua melhor amiga Lydia (Samantha Lorraine) é testada devido à paixão de ambas pelo galã da escola onde estudam, Andy (Dylan Hoffman). A partir daí é posta em primeiro plano a rivalidade feminina das duas, ainda que esta parta muito mais da protagonista do que de sua ex-amiga; além disso, também é abordado como tal rivalidade e a intensidade dos sentimentos da garota afetam seu próprio crescimento individual em meio à preparação para a cerimônia que a consagrará como uma mulher judia. Apesar das ações inconsequentes de Stacy, tudo é trazido com muita leveza e um acertado timing cômico. Sunny Sandler é uma verdadeira revelação, e incorpora o grande mérito do filme — reconhecer e ironizar a superficialidade dos dramas vividos por essas personagens adolescentes, mas sem nunca invalidá-los ou desrespeitar essas personagens. Sua química da vida real com o pai é transposta sem grandes problemas para a tela, bem como com sua irmã Sadie (que faz o mesmo papel no filme). Fonte: divulgação Se o drama inicial com Lydia se desenrola talvez um pouco rápido demais (mesmo com uma ou outra sugestão sobre os sentimentos de Lydia por Andy), e nunca tenhamos o ponto de vista da ex-amiga sobre os eventos acontecidos, a direção de Sammi Cohen é um acerto na forma como explora a subjetividade de Stacy, o que, aliado à naturalidade da atuação de Sandler, permite que abracemos a personagem mesmo nos seus cada vez mais hilários e cruéis erros. Cohen consegue imprimir algumas marcas estilísticas (como os zooms exagerados) que elevam o filme para além do padrão mediano de diversas obras do gênero. Você Não Tá Convidada Pro Meu Bat Mitzvah! não se propõe a reinventar a roda, mas é sincero consigo mesmo e suas personagens, e nisso reside uma de suas forças. É um filme que transplanta situações da comédia adolescente feminina que já vimos tantas outras vezes (em produções melhores, inclusive) para um contexto geracional contemporâneo e também para os aspectos culturais e religiosos do judaísmo. Assim, é um filme leve, descompromissado e, acima de tudo, divertido, se firmando como um dos melhores produtos da safra de Adam Sandler na Netflix. Nota: 3.5/5

  • Crítica | À Primeira Vista

    Comédia água com açúcar da Netflix é carismática, mas não sai do básico Fonte: divulgação A Netflix, sem dúvidas, é um dos streamings que mais investe na produção de filmes e séries para adolescentes. Em sua grande maioria, essas produções são frutos de adaptações literárias já bastante conhecidas entre o seu público-alvo. Às vezes dá certo (como a excelente trilogia do longa Para Todos os Garotos que já Amei) ou às vezes dá muito errado (como o terrível Através da Minha Janela). A aposta deste mês de setembro para a Netflix é o filme À Primeira Vista, baseado no livro A Probabilidade Estatística do Amor à Primeira Vista, da americana Jennifer E. Smith. Este não é o primeiro livro da autora a ser adaptado para filme na Netflix. Em 2022, o morno Olá, Adeus e Tudo Mais não fez jus à qualidade do produto literário, mas entrega um filme satisfatório e assistível. À Primeira Vista, no entanto, é bem melhor que essa primeira adaptação e mesmo entregando uma história bem água com açúcar consegue transmitir a mensagem e um pouco do sentimento do livro graças a uma dupla de protagonistas bem charmosa e encantadora. Na história do filme (e do livro), conhecemos Hadley. Ela acabou de perder o seu voo para Londres por quatro minutos de atraso e agora, presa no aeroporto em Nova York, esperando outra chance de embarcar para o casamento de seu pai com outra mulher, ela conhece Oliver. Um britânico fofo, que se senta a seu lado na viagem. Enquanto conversam sobre tudo, eles provam que o tempo é, sim, muito, muito relativo. Passado em apenas 24 horas, o longa mostra entre encontros e desencontros que, talvez, exista amor à primeira vista. Como disse anteriormente, muito do filme se sustenta graças aos dois protagonistas, interpretados por Haley Lu Richardson (a Portia de The White Lotus) e Ben Hardy (o Roger Taylor em Bohemian Rhapsody). Os dois jovens são muito talentosos e a química entre eles é algo muito palpável, tornando as cenas de diálogos entre dois algo muito encantador. Dá pra entender o romance que surge ali e faz com que os telespectadores se envolvam nessa história e torçam para o casal ficar junto. Fonte: divulgação É interessante também os seus dramas pessoais, mesmo que pouco aproveitados. Hadley precisa lidar com o pai casando com uma mulher que ela não conhece, em uma cidade que ela nunca esteve. Já Oliver está cercado por bastante dor e tristeza, em um retorno para a casa que ele não gostaria de fazer de jeito nenhum. As duas famílias e os dois planos de fundo desses jovens são núcleos agradáveis e tornam a história mais densa. Dirigido por Vanessa Caswill, À Primeira Vista tem boa fotografia e uma excelente trilha sonora. Há uma boa ideia em inserir Jameela Jamil como uma narradora presente em determinados momentos da história, porém, isso se torna extremamente cansativo do meio para o final do filme, tornando-se algo muito irritante e uma das coisas mais chatas do longa. À Primeira Vista não é inovador e nem se propõe a ser nada disso. É uma boa comédia romântica que vai fazer bastante sentido para o seu público-alvo e que deve arrancar alguns suspiros do telespectador, mas, deve passar batido dentre as milhares já existentes na Netflix que se tornam esquecíveis com o passar do tempo. Nota: 3/5

  • Crítica | Retratos Fantasmas (Representante do Brasil no Oscar 2024)

    As sombras do passado e a força da memória num tributo (nada ortodoxo) ao cinema Foto: Divulgação Numa determinada cena de Babilônia, a crítica e colunista Eleanor St. John (Jean Smart), numa conversa com o ator decadente Jack Conrad (Brad Pitt), reflete sobre a efemeridade das estrelas de cinema em favor do legado que elas deixarão por causa dos filmes que estrelaram. “Em 100 anos, quando eu e você estivermos mortos há muito tempo, alguém congelará um quadro de um dos seus filmes e você estará vivo de novo. Um dia, cada pessoa que esteve num filme lançado neste ano estará morta, mas seus filmes serão exibidos e seus fantasmas serão reunidos mais uma vez”, diz ela. A conexão com Babilônia não me veio de imediato conforme eu assistia Retratos Fantasmas, mas é impossível não associar essa fala à proposta do diretor Kleber Mendonça Filho, que se ancora na memória — tanto pessoal quanto pública — para resgatar a sua relação com os cinemas de ruas de sua cidade natal, Recife, a maioria dos quais foi fechado e abandonado ao longo das últimas décadas. Sete anos de pesquisa documental, além de imagens e vídeos de arquivo do diretor ou de diversas outras fontes, são esculpidos e convertidos na abordagem documental de pouco mais de 1h30 que Kleber nos entrega aqui. Como seus outros longas-metragens, Retratos Fantasmas se divide em três partes. Na primeira, O Apartamento de Setúbal, ele volta ao apartamento onde cresceu — e que para minha surpresa, foi cenário de tantas outras obras suas, em especial O Som ao Redor. O diretor, que também narra o filme, nos conduz pela sua íntima relação com o cinema e como este foi encrustado em sua própria vida pessoal, a partir da influência de sua mãe (que é talvez o primeiro dos “fantasmas” que a obra traz) e da sua própria relação com o espaço doméstico e deste com sua filmografia. É fascinante como nessa primeira parte há quase uma retrospectiva da carreira de Kleber através de cada história contada e detalhes observados sobre o apartamento, lançando novas luzes sobre suas obras anteriores. Foto: Divulgação Considerando o peso do cinema de gênero na filmografia do diretor, não é surpresa que Retratos Fantasmas fuja do convencional esperado para um documentário, borrando as linhas entre realidade e ficção — prova disso é a “reencenação” de um episódio vivenciado por Kleber e a atriz Maeve Jinkings no apartamento. A trilha sonora, que vai do brega nacional ao jazz, passando por trechos de trilhas de outros filmes, é articulada para favorecer essa linha tênue, intensificando sentimentos, emoções e percepções. E os próprios vídeos de arquivo do diretor, vários dos quais datados de mais de 30 anos atrás, são incorporados à obra como se tivessem sido gravados lá no passado apenas para esse filme em específico. Em nenhum lugar isso é tão evidente quanto na segunda e maior parte, Os Cinemas do Centro do Recife. Concebida como o eixo central da obra, aqui temos Kleber saindo do micro da primeira parte para o macro, sem nunca deixar de lado seu olhar e experiências pessoais, no entanto. Na verdade, mesmo quando abraça o macro, ele escolhe construí-lo a partir de si, sem, entretanto, soar vaidoso ou prepotente. Sua narração — seca, afiada e cômica — reflete ainda mais a pessoalidade do longa e como essa pessoalidade atravessa sua relação com os cinemas aqui trazidos e com a própria cidade do Recife, explorada a partir das suas contradições (e enriquecida por causa delas). Isso não quer dizer que aspectos mais gerais não se façam presentes, como evidenciado em sequências tais quais a do papel dos nazistas na criação de um dos cinemas retratados, nos comentários sobre a força da produção cinematográfica pernambucana ou na já tão conhecida relação entre arquitetura, espaço e classe que é uma das marcas do cinema de Kleber. Mas praticamente a todo instante vemos um diretor que constrói intersecções e narrativas a partir das suas próprias vivências, entregando um olhar muito íntimo (mas não necessariamente nostálgico). Foto: Divulgação É por isso que para mim o ponto alto do filme está nos resgates das suas interações com seu Alexandre Moura, o falecido projecionista do Art Palace com quem Kleber interagiu nos últimos anos antes do fechamento do cinema no início dos anos 1990. A presença de seu Alexandre é a expressão máxima dos fantasmas indicados pelo título; mesmo já tendo morrido há mais de 20 anos, ele é “ressuscitado” pelo diretor, se transformando numa presença viva diante dos nossos olhos. Suas falas divertidas, sua paixão palpável pelo trabalho e a melancolia diante do iminente fechamento do Art Palace trazem uma humanidade e sensibilidade pungente à obra, que só nos fazem lamentar ainda mais por uma época do cinema que parece cada vez mais distante para a nossa geração. É notável como cada uma das partes do filme parece tão distinta uma da outra e, ao mesmo tempo, Kleber tece entre elas uma sutil costura que aponta para tema(s) maior(es). Mesmo quando parece ir para um lado menos pessoal, como na última parte, Igrejas e Espíritos Santos, Kleber incorpora seu olhar ao mundo à sua volta, seja nas imagens de arquivos que abordam a transição de salas de cinema para igrejas evangélicas, ou nos sagazes minutos finais que borram ainda mais os limites da realidade e da ficção (e entre os gêneros) e ainda uma piada visual envolvendo farmácias que parece ilustrar a sina dos nossos tempos. Se pudesse destacar um dos (muitos) méritos de Retratos Fantasmas, é em como, ir do micro ao macro no decorrer do filme, Kleber reforça uma das marcas do seu cinema: conjugar o pessoal ao universal. É por isso que há uma força simbólica na exibição do filme nessas últimas semanas em diversos cinemas de rua do país, os quais ainda resistem à avassaladora hegemonia dos multiplex de cinemas e à falta de incentivos à cultura. Há uma transcendência na obra que toca não só a quem é de Recife e/ou foi aos cinemas aqui retratados. Para mim, em particular, foi como voltar ao saudoso Cine Madrigal, em Vitória da Conquista, lugar fundamental para a formação do meu amor pelo cinema e infelizmente fechado em decorrência da chegada do primeiro shopping ; ou ao Cine Vitória em Aracaju, que resiste mesmo com a gradativa depredação e abandono do centro da cidade. E é por isso que os fantasmas do filme vão além da mãe de Kleber ou de seu Alexandre: é o centro do Recife (e tantos outros centros abandonados à sua própria sorte e aos efeitos nocivos da gentrificação), os cinemas que fizeram a vida e a mente do diretor, e também as milhões de pessoas que por eles passaram e deixaram suas risadas, sustos, lágrimas e tanto mais. Os Retratos Fantasmas são, antes de tudo, de Kleber, mas também se tornam nossos, e é nessa afinidade e identificação que reside uma das maiores belezas do cinema, aqui expressa em sua potência máxima. Nota: 5/5

  • Crítica | Depois da Festa (Temporada 2)

    Série perde um pouco do seu frescor neste novo ano, mas mantém a consistência Foto: Divulgação No papel, a premissa de Depois da Festa é boa demais para se ignorar: um whodunnit onde cada episódio segue o ponto de vista de um dos suspeitos, mas sob as lentes de um gênero/tropo cinematográfico diferente: comédia romântica, suspense, animação, ação, etc. Felizmente, a inventividade da premissa foi sustentada por um elenco carismático e o uso de um timing cômico certeiro para atravessar toda a história. Em sua segunda temporada, a série adota um formato semi-antológico, resgatando apenas alguns dos personagens da temporada anterior — o casal Aniq (Sam Richardson) e Zoë (Zoë Chao) e a detetive Danner (Tiffany Haddish) —, enquanto todo o restante do elenco é composto de recém-chegados (ainda que haja algumas deliciosas participações especiais do elenco da primeira temporada). Há um novo mistério também: desta vez, o assassinato do bilionário Edgar (Zach Woods) logo após seu casamento com Grace (Poppy Liu), irmã de Zoë. Em seu âmago, entretanto, Depois da Festa segue a mesma estrutura, dessa vez trazendo Aniq e Danner colaborando juntos para extrair os relatos dos suspeitos, que incluem os pais de Grace e Zoë (interpretados por Ken Jeong e Vivian Wu), seu aventureiro e distante tio Ulysses (John Cho), o ex-namorado de Grace, Travis (Paul Walter Hauser), a fria mãe de Edgar, Isabel (Elizbeth Perkins), sua irmã adotiva Hannah (Anna Konkle) e seu melhor amigo e padrinho Sebastian (Jack Whitehall). A leva de novos personagens, significativamente maior que a da primeira temporada, levou também a um aumento de episódios, de 8 para 10 aqui. Sinto, porém, que o maior número de episódios acabou acarretando em um ritmo um tanto mais irregular; é possível sentir uma espécie de barriga lá pelo meio da temporada, a qual felizmente é compensada pela ótima reta final. Além do mais, onde os episódios da primeira temporada se centravam nos eventos diretamente ligados ao assassinato em questão, aqui os roteiros nos levam a lugares muito mais distantes das vidas desses personagens, o que faz alguns episódios parecerem um tanto inchados com a quantidade de informações trazidas. Foto: Divulgação A série aqui também parece afrouxar suas definições de “gênero cinematográfico” para comportar uma definição mais abrangente que incluem estilos e assinaturas de cineastas em específicos. Isso é mais evidente ainda no quarto episódio, focado em Hannah, que traz uma estética e linguagem diretamente tiradas dos filmes de Wes Anderson. Isso não chega a ser um problema em si, mas dá a estranha impressão de que a série já gastou sua premissa cedo demais, sendo que há outros episódios na temporada que demonstram a sagacidade dos seus criadores em reler e subverter os tropos e gêneros cinematográficos adotados. Por exemplo, o terceiro episódio, focado em Travis, abraça as convenções do gênero noir, enquanto o penúltimo episódio, dedicado a Isabel, se fia o melodrama Technicolor dos anos 50. Ambos os episódios incorporam as possibilidades de cada um dos gêneros sem nunca, no entanto, se levar a sério demais ou se perder nos meandros deles, já que Depois da Festa é acima de tudo uma comédia, e uma comédia das boas. Assim como na primeira temporada, muito disso vem do mérito do elenco. Ainda que a gama de novos personagens não deixem uma marca tão impressiva quanto os da primeira temporada, é inegável os talentos cômicos de nomes como Walter Hauser, Perkins, Jeong e Cho. Além disso, a química do trio que retorna do ano anterior é simplesmente indefectível, tanto no aspecto romântico de Richardson e Chao quanto na parceria buddy cop de Richardson com Haddish. Mas a verdadeira arma secreta da temporada é talvez Woods, que tem a oportunidade de apresentar diferentes lados de seu Edgar a cada episódio conforme acompanhamos os diferentes relatos dos personagens. O segundo ano de Depois da Festa pode não ter o frescor e a inventividade do primeiro, mas continua a consolidar a série como uma das melhores joias do catálogo da AppleTV e uma das comédias mais subestimadas da atualidade. Com um gancho final que expande ainda mais a metalinguagem e intertextualidade da série, só posso torcer por uma terceira temporada que abrace ainda mais as possibilidades de novos gêneros cinematográficos. Nota: 3.5/5

  • Crítica | A Freira 2

    Mais um terror com traços de fantasia cheio de regrinhas para tapar seus buracos Foto: Divulgação Dando continuidade à história do primeiro filme, o novo longa se passa na França em 1956, onde mais um padre é assassinado misteriosamente, seguindo o rastro de outras mortes de sacerdotes católicos pela Europa. A irmã Irene (Taissa Farmiga), sobrevivente do massacre cometido pelo demônio Valak no monastério da Romênia anos antes, logo é chamada para pelas autoridades da Igreja para enfrentar o que parece ser o retorno da entidade infernal. Parece uma nova tendência no cinema de terror comercial que usam bastantes elementos aventurescos da fantasia para dar aspectos mais lúdicos para “o mal”. Não basta ser uma possessão, tem que ganhar superpoderes incontroláveis que um simples amarrado na cama ou um exorcismo não resolvem, tem que ter um duelo. Não basta uma forma de demônio, ele tem que vir como bode-lobisomem, como freira, como zumbi, etc. Ano passado, mesmo o cafona O Exorcista do Papa (2022) mostra o protagonista como um tipo de caçador de criaturas do que com um líder espiritual. James Wan nos dois primeiros Invovação do Mal esculpiu produções referência ao conseguir tratar possessões com uma, digamos, seriedade, onde os grandes exageros ficavam para o clímax do último exorcismo. Não coincidentemente A Freira 2 é dirigido por Michael Chaves, diretor de Invocação do Mal 3, o único dos filmes que trata a encarnação do mal mais como um monstro a ser derrubado na marra do que um ser sobrenatural que precisa de forma humana para se materializar. Se você também achou o primeiro uma bomba, esse é consegue aparar várias arestas e se apresenta de forma mais madura. A primeira metade faz até parecer que tudo se encaminhará para uma boa conclusão de um bom filme, mas durante a segunda metade ele joga tudo para cima e se entrega às mais inimagináveis contradições e aos mais conhecidos clichês para gerar grandes momentos. Foto: Divulgação O longa toma algumas liberdades para fazer uma confusão – que em sua mitologia parece fazer todo sentido – e mistura a história de Santa Luzia com relíquias sagradas e o demônio Calak, e o resultado soa mais como uma caça ao tesouro no estilo Dan Brown do que um filme de sustos. Mas sim, existem bons momentos de suspense e o diretor Chaves exibe algumas boas ideias para os momentos de susto, mas tal qual uma pessoa que quer fazer surpresa, mas não consegue se conter e fica soltando dicas e indiretas, ele precisa toda hora antecipar esses momentos com closes, com explosões sonoras e com mudança na iluminação, como se o prenúncio do susto fosse um alerta para quem porventura estivesse distraído. E a produção toda é sutil como um elefante. É tudo muito óbvio, muito na cara, muito explicado e muito simplório mesmo. Inclusive a resolução se dá através de uma sugestão de um personagem que aparece só pra isso, mas que expõem com detalhes o que está acontecendo e o que necessita ser feito para encerrar a celeuma. O espectador é tratado como a mais inocente das crianças que ainda não desenvolveu ao ponto de concluir que um mais um é dois. E não há qualquer uniformidade, qualquer padrão entre os filmes, entre os demônios, entre os santos, entre as relíquias e as vezes até mesmo entre a Igreja Católica. Cada acontecimento é regido por um conjunto de regras que vão tapar com pano fino os maiores buracos do roteiro. Não sou o maior entusiasta de terrores introspectivos e metafóricos que deixam lacunas para quem estiver assistindo completar com suas subjetividades, mas quando se tem completamente o oposto parece uma afronta direta à nossa inteligência e capacidade de compreensão do básico. Nota: 2/5

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