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- Crítica | Homem-Aranha: Um Novo Dia
Depois de anos preso ao universo compartilhado da Marvel, o herói finalmente volta a ser protagonista da própria história. Imagem: Divulgação Durante boa parte da última década, a Marvel pareceu perder justamente aquilo que a transformou no maior fenômeno do cinema de entretenimento. Depois do sucesso estrondoso da Saga do Infinito, o estúdio passou a apostar em um volume quase industrial de filmes e séries, transformando o que antes era um universo compartilhado em um verdadeiro esquema de pirâmide de consumo: para entender um lançamento, era preciso assistir a dezenas de produções anteriores, acompanhar séries do Disney+ e, de preferência, ainda conhecer os quadrinhos. O resultado foi um desgaste evidente. Enquanto Marvel e DC acumulavam fracassos de bilheteria e séries cada vez menos comentadas, o público demonstrava um cansaço natural com o gênero. Ainda assim, alguns acertos recentes mostraram que ainda existe espaço para boas histórias de super-heróis. Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, por exemplo, já indicava uma tentativa de voltar ao básico: personagens fortes, conflitos claros e menos dependência de um universo gigantesco. Agora, essa missão chega às mãos do personagem mais popular da Marvel. Após o mundo esquecer sua identidade, Peter Parker inicia uma nova fase da vida, dividindo seu tempo entre a faculdade, um emprego de meio período e a responsabilidade de continuar protegendo Nova York como Homem-Aranha. Mas quando uma força misteriosa começa a destruir a cidade de dentro para fora, Peter se vê cercado por novos inimigos, antigos legados e aliados inesperados. Depois de três filmes que funcionavam muito mais pelo carisma do elenco e pela presença constante de figuras como Homem de Ferro, Doutor Estranho ou até dos outros Homens-Aranha do multiverso, Homem-Aranha: Um Novo Dia finalmente entrega aquilo que parecia tão óbvio, mas que a Marvel insistia em evitar: um filme que realmente é sobre o Homem-Aranha. Grande parte desse mérito passa pela direção de Destin Daniel Cretton, muito mais segura e inspirada do que o trabalho realizado por Jon Watts na trilogia anterior. O diretor entende que o maior superpoder de Peter Parker nunca foi lançar teias, mas continuar sendo um garoto comum tentando sobreviver a uma vida impossível. O filme recupera elementos que fizeram o personagem conquistar gerações: a solidão, a culpa, a nerdice, e, principalmente, a relação quase simbiótica com Nova York. A cidade volta a ter personalidade própria, deixando de ser apenas um cenário para explosões e batalhas gigantescas. Se em A Odisseia eu havia comentado que Tom Holland parecia deslocado, aqui acontece exatamente o contrário. Em Homem-Aranha: Um Novo Dia, o ator parece ocupar o lugar para o qual sempre foi escalado. Sua interpretação entrega um Peter Parker cheio de nuances, carregando o peso do luto pela Tia May, convivendo com o vazio provocado pelo esquecimento de seus amigos e tentando equilibrar o desejo de ter uma vida normal com a responsabilidade de proteger toda uma cidade. É um desempenho mais maduro e emocionalmente convincente, permitindo que Holland finalmente encontre sua própria identidade dentro do personagem. Obviamente, estamos falando de um filme da Marvel, então as conexões com o restante do universo compartilhado continuam existindo. A diferença é que, desta vez, elas funcionam a favor da narrativa. Imagem: Divulgação A presença do Justiceiro cria um interessante contraponto moral ao Homem-Aranha, enquanto as participações da Viúva Negra, Hulk e da misteriosa personagem vivida por Sadie Sink surgem de maneira orgânica dentro da história. Sink, aliás, rouba diversas cenas e desperta curiosidade desde sua primeira aparição. O roteiro finalmente entende algo que parecia esquecido pelo estúdio: os personagens convidados devem servir à história do protagonista, e não transformar o protagonista em coadjuvante do próprio filme. Outro acerto importante está na melancolia que atravessa toda a narrativa. O fato de Peter ser um completo desconhecido para aqueles que ama devolve ao personagem um sentimento constante de perda, algo muito presente tanto nos quadrinhos quanto nas melhores adaptações do herói. Nesse contexto, as cenas entre Tom Holland e Zendaya funcionam especialmente bem. Mesmo limitadas pelas circunstâncias da trama, elas preservam a química entre os atores e mostram um amadurecimento necessário para ambos os personagens. Homem-Aranha: Um Novo Dia está longe de ser perfeito. O terceiro ato ainda cai em alguns excessos típicos da Marvel, certas resoluções são rápidas demais e o estúdio continua incapaz de abandonar completamente a necessidade de preparar o terreno para futuras produções. Mas, pela primeira vez em muito tempo, essas amarras não sufocam a história principal. Mais do que um bom filme da Marvel, Homem-Aranha: Um Novo Dia é um ótimo filme do Homem-Aranha. Depois de anos servindo como peça de um quebra-cabeça maior, Peter Parker finalmente volta a ser o centro da própria narrativa. E talvez esse seja justamente o maior acerto do longa: lembrar que, antes de salvar o multiverso, o Homem-Aranha sempre foi mais interessante quando estava apenas tentando salvar sua cidade. Nota: 4/5
- I CINEDEIA, mostra dedicada exclusivamente à Diversidade, Inclusão e Acessibilidade, está com inscrições abertas
fevereiro, no Ceará Até o próximo dia 05 de fevereiro estão abertas as inscrições para a I CINEDEIA - Mostra O evento é a primeira mostra cinematográfica do Brasil voltada exclusivamente para incentivar projetos A 1ª edição da Mostra Cearense Internacional de Cinema de Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade A mostra terá uma programação totalmente gratuita, com a exibição de longas, curtas-metragens com libras Inscrições para o I CINEDEIA - Mostra Cearense Internacional de Cinema de Diversidade, Equidade, Inclusão
- Crítica | Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania
filmes quanto as séries do Disney+, a perda de identidade – com exceção de algumas poucas produções – se mostra A finalização da computação gráfica se mostra melhorada em muitos aspectos, ainda que o longa tenha sido
- Crítica | O Verão Que Mudou a Minha Vida (Temporada 2)
Segundo ano da série foca em triângulo amoroso com muita Taylor Swift de trilha sonora Foto: Divulgação É difícil ver uma série voltada para o público adolescente fazer sucesso como clássicos da TV aberta americana faziam antigamente. Aquelas histórias meio irreais mas ao mesmo tempo identificáveis viveram a sua era de ouro nos anos 2000 retornaram, dessa vez nos streamings, seguindo a tendência de adaptar livros de sucesso para o público juvenil. E após uma primeira temporada bastante comentada nas redes sociais, a série O Verão que Mudou a Minha Vida chega para o seu segundo ano no Prime Video com o roteiro baseado na trilogia da autora Jenny Han. Depois dos acontecimentos da primeira temporada, acompanhamos uma história bem mais triste e densa dessa vez. Intercalando cenas do presente (no verão) com os momentos e situações que ocorreram durante o resto do ano. Vemos Isabel Conklin (ou Belly) passando por uma fase extremamente difícil após a morte de Susannah, da sua separação repentina com Conrad e da falta de contato com Jeremiah. A jovem se encontra perdida, com raiva e tendo uma péssima relação com sua mãe ao mesmo tempo. O combo do sofrimento adolescente né? Já os irmãos Conrad e Jeremiah Fisher vivem o luto de formas diferentes após a perda da mãe. Porém, a notícia de que a casa de praia em Cousins Beach será colocada à venda reúne Belly, Conrad, Jeremiah e os amigos novamente na tentativa de salvar o local onde todos guardam as melhores lembranças da família. Lançada de forma semanal pelo Prime Video, a série soube aproveitar muito bem a serialidade e foi bastante comentada durante os meses de julho e agosto, atraindo cada vez mais público para sua trama. Em especial nesta temporada, o triângulo amoroso introduzido no seu primeiro ano é explorado ao extremo, dividindo não só a protagonista mas também os telespectadores que acompanham a história. De fato, Belly é uma personagem egoísta em diversos momentos da trama, algo natural para uma adolescente, cujo os problemas parecem bem maiores do que são de fato. Dentre todos os personagens, a protagonista foi a que menos amadureceu e teve seu arco um pouco reduzido aos irmãos Fisher e seus problemas amorosos. Foto: Divulgação Não entrando no mérito sobre qual casal é melhor, também percebemos um desenvolvimento maior do Conrad e do Jeremiah após enfrentarem uma perda tão difícil. O primeiro, em especial, teve momentos cruciais para entendermos suas particularidades, suas decisões e o sofrimento latente em perder a mãe para uma doença tão cruel. Jeremiah também aparece, com menos destaque nesses pontos, mas temos alguns vislumbres da sua relação com o irmão e a mãe fora de Cousins Beach. O destaque da segunda temporada de O Verão que Mudou a Minha Vida é sem dúvidas de Steven e Taylor, irmão e melhor amiga da protagonista respectivamente, a relação dos dois que dava alguns indícios ali no seu primeiro ano, se desenvolve de uma forma muito bonita e divertida (com direito até a trend no Tik Tok ao som de Party in the USA). O retorno de Cam e a adição de Skye também foram fundamentais para os momentos mais divertidos da temporada. Tecnicamente, a série tem uma fotografia belíssima e constrói bem suas narrativas com um roteiro bem amarrado. A trilha sonora, repleta de Taylor Swift e outros sucessos pop, casam bem com a história e também atraem o público que é fã para a tela do streaming. Os atores jovens seguram bem a onda nessa temporada que requer um drama maior. Destaco Lola Tung e Christopher Briney como Belly e Conrad e também Jackie Chung e Kyra Sedgwick no elenco adulto. O Verão que Mudou a Minha Vida não é uma série inovadora e nem se propõe a ser. Ela, na verdade, faz com maestria os clichês do gênero em uma roupagem voltada para a geração atual com temas mais profundos e progressistas do que as clássicas séries que a minha geração assistia e se inspirava. Como seu material original só possui três livros, é bem possível que a próxima temporada seja a última e, tenho quase certeza, que valerá a pena esperar e acompanhar essa jornada. Nota: 4/5
- Crítica | Gato na Cabeça (15º Olhar de Cinema)
A memória e a imagem maculadas pelo tempo e pela linguagem cinematográfica. Imagem: Divulgação Um dia, a diretora letã Laika Pakalnina encontrou numa lixeira uma sacola repleta de rolos de filmes fotográficos abandonados. Este incidente se revela o ponto de partida de Gato na Cabeça (inclusive sendo dramatizado nos primeiros e últimos minutos do longa-metragem), visto que Pakalnina, ao explorar estas fotografias feitas por um indivíduo desconhecido, decide reconstituí-las, oferecendo-lhes contexto e até mesmo doses extras de materialidade à medida que as encena. Assim, Gato na Cabeça se revela um filme-arquivo nada ortodoxo, já que Pakalnina alia o registro fotográfico ao dispositivo ficcional para criar um híbrido curioso e único. Quem são essas pessoas que vemos nas fotografias e nas encenações? Não sabemos, tampouco a diretora. Ela se aproveita dessa falta de informações para lhes conferir os próprios nomes (o menino que tira as fotos se chama Anton, sua avó se chama Emma e por aí vai), e brinca com as possibilidades, às vezes criando certas situações meio absurdas para “explicar” os contextos em que aquelas fotos foram tiradas. Ao vermos o crescimento de “Anton” através do cotidiano em que as imagens são feitas, o filme acaba se tornando até uma espécie de coming-of-age, ao mesmo tempo em que são refletidas as memórias da Letônia sob o domínio soviético na segunda metade do século passado. Mas sem sombra de dúvidas o que ajuda a tornar Gato na Cabeça mais distinto, para além da sua proposta narrativa, é a maneira como experimenta em sua forma. As fotografias aqui exibidas são repletas de imprecisões: nitidez indistinta, elementos aleatórios nas tomadas, transições em wipe, exposições duplas ou acidentais, e por aí vai. O que Pakalnina faz com aquilo que seria visto como defeito técnico ou da falta de profissionalismo de “Anton”? Faz disso a própria forma do filme. Para além da sua bela fotografia em P&B para se acomodar às próprias fotografias, bem como do trabalho de som para “preencher” algumas fotografias, vemos constantemente a imagem cinematográfica sendo inundada pelas exposições duplas, elementos aleatórios, enquadramentos incomuns e tanto mais que, se em alguma medida causam estranhamento, ao mesmo tempo nos imergem nessas fotografias. É como se o filme respeitasse a mácula do tempo e as condições precárias em que elas foram feitas, e por extensão respeitasse o trabalho sensível de “Anton”. Com isso, Gato na Cabeça oferecesse uma nova dimensão a um trabalho que poderia ter sido relegado ao esquecimento. Ainda que o filme perca uma certa força na sua reta final, após se concentrar na versão adolescente/jovem de “Anton”, ele permanece uma experiência narrativa, estética e formal de comovente riqueza, se distinguindo na maneira como trabalha a memória e honrando o trabalho deste ilustre desconhecido cujas fotografias, feitas em um tempo e espaço tão distante do nosso, ainda assim são capazes de contar histórias tão curiosas – sejam elas verdadeiras ou inventadas para o filme. Nota: 4/5
- Crítica | O Segredo de Widow’s Bay (1ª temporada)
Série se apropria com segurança da linguagem do horror num equilíbrio impecável do gênero com a comédia. Imagem: Divulgação Mesmo à primeira vista diametralmente opostos, horror e comédia são gêneros que de alguma forma se encontram na quebra de expectativa e na manipulação que exercem sobre o público, bem como no fato de apostarem em reações extremas (seja o riso ou o susto). Não à toa a última década tem visto a emergência de diversos realizadores egressos da comédia que se lançaram no horror – mas sem deixar de lado suas raízes –, como Jordan Peele e Zach Cregger. Agora, com O Segredo de Widow’s Bay, a fusão entre os dois gêneros alcança um novo patamar. Criada por Katie Dippold, ela própria egressa da comédia (tendo sido roteirista da saudosa Parks and Recreation), a série é ambientada na cidadezinha insular homônima, que há séculos lida com seu isolamento do continente e fenômenos mais do que estranhos, mas que, contudo, são relevados ou só ignorados pelos seus habitantes, a começar pelo seu cético prefeito Tom Loftis (Matthew Rhys), que quer fazer do lugar um ponto turístico na Nova Inglaterra. Mas, como se não bastasse a excentricidade de habitantes locais como o pescador Wyck (Stephen Root), a dificuldade de lidar com seus colegas de trabalho como Patricia (Kate O’Flynn) ou até os conflitos com o filho adolescente Evan (Kingston Rumi Southwick), aos poucos Tom começa a perceber que talvez os mitos de Widow’s Bay tenham sim um embasamento na realidade, e que forças ocultas atuam sobre a ilha. O Segredo de Widow’s Bay não se furta a indicar as referências de que bebe, seja dos clássicos da literatura de horror de Stephen King, do cinema de John Carpenter ou até de outras séries como Lost, Twin Peaks e a já referida Parks and Recreation (no humor extraído da burocracia do serviço público e das excentricidades locais). Pelo menos cada episódio aponta para um tropo ou referência específica – seja a casa assombrada do segundo episódio, o folk horror do sexto ou o slasher do oitavo. O que Dippold faz com maestria é pegar esse conjunto de referências e embalar em uma obra com muita identidade própria, que chega muito consciente do que quer entregar, especialmente à medida que vai revelando suas cartas acerca da mitologia local e dos elementos sobrenaturais. Imagem: Divulgação A direção do veterano Hiro Murai – cujo trabalho em Atlanta, Legion, Barry, Station Eleven e outras séries o reputou como um dos diretores mais conceituados da televisão contemporânea – já nos três primeiros episódios ajuda desde o início a estabelecer o tom da série, que se equilibra nessa linha tênue entre horror e comédia sem pesar a mão sobre um gênero em detrimento do outro, mas sabendo exatamente qual é o mais apropriado para aquele momento. Assim, é uma constante ao longo da temporada que o susto venha acompanhado do riso e vice-versa, e esse controle seguro sobre o tom adotado pela série só é possível pelo respeito que ela tem por ambos os gêneros, exibindo sua autoconsciência a respeito dos tropos e clichês com que trabalha, mas evitando cinismo ou desprezo como tantas produções atuais. Esse tom também é refletido nas atuações da série, a começar pela de Matthew Rhys no papel principal. Para quem, como eu, tem na memória seu soturno e angustiado Philip Jennings de The Americans (talvez meu personagem masculino favorito da história da televisão), ver Rhys exercendo suas habilidades cômicas é uma grande surpresa, mas o ator acerta em toda a composição de Tom, como uma figura cética, cansada e desesperada por trazer vida à cidade. À medida que a temporada avança e o personagem é forçado a confrontar os horrores de Widow’s Bay, Rhys ainda consegue aprimorar ainda mais esse timing cômico, sobretudo no quinto episódio; mas também há espaço para ele oferecer momentos pungentes de drama e ternura, como no último episódio. Ainda assim, ouso dizer que Rhys não é o grande destaque da temporada, porque esse posto talvez pertença a Kate O’Flynn. Sua Patricia começa discreta, mas já chamando a atenção pela figura socialmente desajustada e que serve tanto de apoio quanto contraponto a Tom. Mas quando ela recebe os holofotes no quarto episódio – e mais tarde no oitavo –, fica claro que tanto a personagem quanto a atriz são a verdadeira arma secreta da série, roubando a cena até em episódios na qual aparece menos. Outros nomes também se sobressaem, como Stephen Root, Dale Dickey (que tem toda uma sequência no nono episódio que disputa fácil pelo posto de mais hilária da série), a veterana K Callan e aparições especiais como Betty Gilpin e Hamish Linklater. Talvez Kingston Rumi Southwick tenha o trabalho mais ingrato aqui, já que todo o núcleo adolescente da série atende bem demais aos tropos de horror em termos de serem figuras insuportáveis e imbecis pelas quais torcemos que morram rapidamente, figurando como o único elo fraco da temporada. Ainda assim, fica evidente pelo episódio final que há grandes promessas no futuro para ele, então é torcer para que sua figura seja amadurecida e melhor trabalhada nas temporadas futuras. Com uma primeira temporada praticamente irrepreensível, O Segredo de Widow’s Bay pode figurar como talvez a melhor estreia do ano até o momento. Felizmente, o boca-a-boca ajudou a dar gás e trazer público para a série (que, como tantas outras da AppleTV, sofre com o marketing porco do streaming), e com a confirmação da sua segunda temporada, mal vejo a hora de voltar a esse lugar esquecido por Deus e rir e me assustar em igual medida. Nota: 4.5/5
- Crítica | The White Lotus (2ª temporada)
A crítica social escondida por trás de sacadas satíricas se tornou um sucesso de público e crítica – de se estranhar: apesar do inegável talento de Mike White merecer o voto de confiança, o histórico mostra tão natural que, para um espectador desatento, é fácil desconsiderar as muitas camadas de ironia e crítica Com apenas os cinco primeiros episódios disponibilizados à crítica, ainda é cedo para dizer que essa
- Crítica | Marty Supreme
A busca pelo sonho americano entre delírio, ambição e ilusão Foto: Divulgação Ao entrar na sessão já sabendo que iria encarar um filme dos irmãos Safdie (nesse caso, apenas um deles), eu já esperava um alto nível de frenesi e histeria impresso na tela. De modo que a montagem se torna mais acelerada nos momentos em que é necessário manter o espectador em estado de atenção, acompanhando a progressão da narrativa em um movimento de intensificação contínua. E do mesmo modo que vimos que em Joias Brutas não era apenas um filme sobre apostas, mas sim um filme interessado em refletir a instabilidade de um ideal capitalista. E apesar do filme contar a história de Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem determinado a seguir o sonho de se tornar campeão mundial de tênis de mesa, em uma época em que a modalidade ainda batalhava não só por visibilidade, mas também por legitimidade enquanto “esporte de verdade”, no início da década de 1950, Marty Supreme, definitivamente não é um filme sobre tênis de mesa. Temos o ponto de partida a partir da cena de abertura do filme onde observamos espermatozoides batalhando até alcançar o óvulo, o que acaba se tornando uma rima visual com a cena final, nos dando um pouco da noção de tempo no meio dessa viagem frenética pela vida de Marty Mauser. Ele é o típico americano que se agarra em um propósito e é capaz de passar por cima de tudo e de todos pra obter sucesso em sua jornada de puro individualismo. Ele é um anti-herói com uma narrativa que funciona muito bem com o que Josh Safdie pretende propor de toda a urgência por trás do tal sonho americano. A determinação de Marty funciona como afirmação sexual de sua integridade étnica: sua aposta, tal como a de Howard em Joias Brutas, busca redimir uma condição coletiva, ainda que sustentada por uma confiança que paira no ar. O ritmo frenético e caótico brinca com o próprio fato do ping-pong onde o personagem do Chalamet precisa lidar com imprevisibilidades a todo momento, o que faz ele tomar decisões questionáveis em vários momentos. Mas para ele tudo vale para realizar seu sonho. Safdie possui um grande talento em montar um ótimo elenco, nele temos figuras como Tyler, the Creator, o amigo proletário de Marty que o ajuda a conseguir dinheiro através de golpes, o ilustríssimo cineasta Abel Ferrara que surge como uma subtrama incrível, além de Gwyneth Paltrow que surge com uma atriz que faz Mauser sentir a sensação de prazer diante do sucesso que tanto almeja, e Odessa A'zion que carrega um filho do Marty em seu ventre. É interessante ver como Marty age quase como um sociopata diante de todas as pessoas que passam pela vida dele, lidando com eles quase como obstáculos. Foto: Divulgação Acredito que do mesmo modo que Sean Baker criou um gênero próprio diante de sua filmografia na forma como ele lida com personagens marginalizados, Josh Safdie com Bom Comportamento e Joias Brutas se consolida como um autor que visa personagens da classe trabalhadora que dão o seu jeitinho para prosperar na vida, diante de um capitalismo tardio que cobra urgência onde o fracasso é iminente, mas é preciso avançar mesmo diante de todo o caos. Chalamet conduz muito bem sem o seu personagem perder a leveza e mesmo demonstrando uma persona carismática, mas sem romantizar suas ações execráveis. É inclusive uma atuação do Chalamet que dialoga bastante com Um Completo Desconhecido, e mais uma vez aqui o Chalamet acredita na obra e no personagem que ele representa. Timothée Chalamet foi capaz de entregar um personagem humano, e que ele entende que Marty é alguém movido pelo desejo de afeto, antes de tudo uma figura que precisa ser percebida, ainda que à custa da rejeição. E isso fica muito claro na sequência final em que ele improvisa uma conquista, mesmo que mínima diante de uma multidão. Marty Mauser é narcisista e espelha o país que lhe foi berço. O sentimento frustração que é recorrente no filme funciona muito bem quando acontece quebras do ritmo frenético, remetendo diretamente a máxima do sonho americano, onde a mentira inofensiva que persuade o indivíduo de que talento e esforço são suficientes para abrir um horizonte ilimitado de oportunidades. Evidentemente, há um ponto em que o espectador se exaure diante dos discursos intermináveis de Marty sobre o destino grandioso que o aguardava, o que faz emergir a pergunta sobre quando a ambição deixa de ser projeto e passa a se confundir com delírio. E peço perdão pelo trocadilho, até nos momentos que o Safdie resolve esticar a trama ele não deixa a bola cair em momento algum, pois a trama está de algum modo amarrada para o propósito de Marty. Estamos, afinal, desejando sua vitória ou apenas aguardando que essa sucessão vertiginosa de glórias e vexames o liberte da crença de que só ele importa? Talvez a resposta esteja no frame final, que reformula muito do que veio antes e que suaviza o filme e põe espaço para reflexão. Nota: 4.5/5
- Crítica | Bizarros Peixes das Fossas Abissais
Uma aventura bizarra, envolvente e instigante Foto: Divulgação Tenho a mania de tentar evitar o máximo de informações possíveis quando vou assistir algo, aprendi a ignorar trailers, a não ler sinopses e deixar toda a experiência para a hora que paro para dar play. É arriscado? Talvez, já caí em muitas armadilhas, mas é, para mim, a melhor forma de apreciar um filme, seja ele bom ou ruim, vai ser sempre uma surpresa. No caso de Bizarros Peixes das Fossas Abissais, um filme animado com um título nada convencional, já fiquei com a curiosidade atiçada logo de cara. A melhor parte é que ele não decepcionou. Escrito e dirigido por Marão, e com as vozes de Natália Lage, Rodrigo Santoro e Guilherme Briggs, a animação nos apresenta a uma heroína um tanto peculiar. Ela consegue metamorfosear partes do corpo em animais e assim enfrentar seus inimigos. Acompanhada de uma nuvem que sofre de incontinência urinária e uma tartaruga com transtorno obsessivo-compulsivo, ela se aventura em busca de uma cura para o seu avô, que tem problema de memória. Nos minutos iniciais o filme já causa a sensação de que você está assistindo a um gibi ganhando vida diante dos olhos. Os traços familiares de uma revista em quadrinhos trazem um certo aconchego enquanto a história vai se passando. Algo bastante maleável e flexível que tem um infinito de possibilidades, e Marão explora isso com bastante cadência de uma mente e criatividade ilimitadas. Foto: Divulgação O roteiro rápido faz com que o longa flua com suavidade ao ir apresentando os personagens e a trama ao público, ele permite que haja uma imersão através do visual e torna a história fácil de se apegar. Há uma liberdade muito perceptível em relação a como tudo se desenvolve, os caminhos que toma, as possibilidades que são trazidas para as telas. Uma vibe espacial, inimigos atravessando a atmosfera, a profundeza de um oceano, e, ao mesmo tempo, a normalidade de uma rua comum, uma venda de esquina, trânsito, semáforo. Há um paralelo constante entre o infinito universo fantasioso e o cotidiano pacato, o que torna ele ainda mais gostoso de assistir. A direção de Marão possibilita que seus próprios pensamentos ganhem o tom correto para aquilo que foi imaginado, poder dar vida ao que se criou da maneira como quis, faz a experiência se tornar mais cativante. Ainda há também o trabalho de Lage, Santoro e Briggs, que conseguem dar a vida necessária a animação. Além de uma trilha que consegue acompanhar todas as bizarrices postas em tela. O conceito de utilizar as cores para transmitir a essência dos personagens ao ir contando a história é um dos pontos positivos que trazer mais personalidade ao filme. A ausência de cor quando é o avô da heroína em perspectiva é o que dá um tom tocante ao filme por dar uma proximidade com algo bastante comum do nosso cotidiano. Para encerrar, a bizarrice de Marão nos faz perceber o quanto temos uma infinidade de possibilidades em animação para o cinema nacional. Além do desejo de ver mais produções, ter mais opções, e poder apreciar mais trabalhos onde o artista possa ter a liberdade de transmitir e contar tudo que lhe cabe na mente. Fica o desejo para um futuro mais repleto desse gênero em nossas telas. Nota: 4/5
- Crítica | A Nova Vida De Toby (Minissérie)
Fleishman está com problemas... mas quem não está? Foto: Divulgação Quando o assunto é divórcio, seja na TV ou no cinema, alguém sempre acaba tendo uma certa culpa. Felizmente, Fleishman Is In trouble, ou A Nova Vida de Toby – que acaba de chegar ao Star Plus, não cai na armadilha maniqueísta de criar heróis ou vilões. A minissérie tem início com Toby Fleishman (Jesse Eisenberg), que se divorciou recentemente de Rachel (Claire Danes). Toby é um médico em Nova York e está se aventurando pelos aplicativos de relacionamento que descobriu recentemente. Após o divórcio, ele aproveitou para se reconectar com seus antigos amigos da faculdade, Libby (Lizzy Caplan) e Seth (Adam Brody), com quem tem se encontrado para desabafar regularmente. Quando Rachel deixa os dois filhos do casal no apartamento de Toby um dia antes do planejado, ele, obviamente, não gosta da mudança de planos, mas consegue lidar com a situação. O que ele não consegue lidar, é o fato de Rachel não voltar no dia combinado e simplesmente desaparecer. O primeiro episódio pode até dar a impressão de que é uma comédia romântica com um mistério envolvido, mas não se enganem, ela vai muito além disso. Focando nesses quatro personagens principais, a narrativa não linear vai costurando os problemas que levaram Toby e Rachel a se separaram através de flashbacks. E se de início parece que ele é uma vítima na história, aos poucos os episódios vão nos mostrando que não há só uma versão dos fatos. A medida que o roteiro vai se aprofundando e se tornando cada vez mais complexo, o espaço é aberto para que se possa discutir diversos assuntos inerentes à vida adulta, como relacionamentos, sexo, amizade, dinheiro, privilégios e, no geral, seu espaço no mundo, como é inevitável se sentir perdido em algum ponto da vida e sentir saudade de quem já fomos um dia. Por isso é impossível não se identificar com os personagens, que são extremamente bem escritos, cheios de imperfeições, como qualquer um de nós, e brilhantemente interpretados por um elenco irretocável. Foto: Divulgação Pelo nome, já associamos que Toby seja o protagonista absoluto, mas ele é apenas a porta de entrada para que outras histórias possam ser contadas e ele não é o único Fleishman aqui, já que sua esposa Rachel ainda usa o nome, é válido ressaltar. Eisenberg está ótimo no papel desse homem que, conhecemos com uma certa inocência, mas com o tempo vamos percebendo sua arrogância e egoísmo. Claire Danes, a provável vencedora do Emmy de Melhor Atriz em Minissérie, faz coisas que poucas atrizes são capazes de fazer. Cheia de expressões marcantes, ela grita, chora, sem jamais cair no exagero. O fantástico sétimo episódio, focado em sua Rachel, não me deixa mentir. Rachel passou por traumas absurdos, conhecer mais dela, saber que ela vai muito além de ser a “esposa ambiciosa e insensível” que aparenta no início, um estereótipo comum em tramas do gênero, é essencial para a minissérie. Ela tem erros e tem acertos, como qualquer pessoa. Lizzy Caplan é a narradora dos episódios e faz isso com maestria, sempre no tom certo da cena, e além disso ela tem uma ótima personagem com sua Libby, uma mulher que está passando por uma crise no casamento e sente falta da sua jovialidade. Gosto como ela e Toby são amigos e nada além. É através da visão dela que vamos entendendo também vários pontos do que deu errado entre Rachel e Toby, no modo como ele trata a amiga e o quão egóico ele pode ser. Seth – que pouco tem a ver com o Seth de ´The O.C.’ – é o solteirão do grupo. Ainda que não tenha tanto destaque, seu personagem é o melhor de Adam Brody em um bom tempo, e representa mais um lado de um dos temas que a série trata: quando é a hora certa para fazer alguma coisa? Há uma hora certa? Baseada no romance de Taffy Brodesser-Akner, a minissérie também é adaptada por ela e nos questiona de várias maneiras possíveis com respostas que não virão facilmente. Fico feliz que assim seja, já que o modo como ela trata seus personagens era imprescindível para nossa percepção deles. Ter empatia e entender certas atitudes que pareciam imperdoáveis à primeira vista. Com oito episódios que eu assisti rapidamente, o ritmo me agradou bastante. Tratando de vários assuntos delicados sem se perder, escancarando verdades difíceis de serem ditas, é impossível não enxergar um certo pessimismo, até porque a vida não é sempre fácil seja você quem for. Mas, particularmente, eu adoro como a minissérie termina com um tom de esperança, que as coisas podem ser resolvidas. Algumas, pelo menos. Nota: 5/5
- Crítica | Sr. e Sra. Smith (1ª temporada)
A cena inicial da série já nos mostra que existem vários Johns e Janes, e nesta sequência eles são interpretados Já é a minha série estreante favorita de 2024 e aposto que se você der uma chance, se tornará uma das
- Mostra Cine Raio Verde 2026 reúne pré-estreias de curtas sergipanos em museu na capital
próxima quinta-feira, 14 de maio, às 18h, o auditório do Museu da Gente Sergipana, em Aracaju, recebe a mostra Cine Raio Verde 2026. Não por acaso, as três ficções da mostra se passam em um único dia, explorando os espaços da cidade, A mostra marca ainda a conclusão de um ciclo importante para a produtora, antes do início da circulação “A mostra Cine Raio Verde 2026 marca a culminância de quatro trabalhos muito importantes para nós: três












